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2.06.06
yes, nós temos banana

saiu a cobertura do bananada 2006 na rockpress. abaixo, o texto na íntegra. pra ver com fotos, aqui.
ooOoOoo
- Ah, bicho, nem te conto...
- Quê foi, rapá? Que voz é essa?
- Ntt... é... a Ivonete desistiu do casamento.
Pois é. Desistiu. Na véspera. Uma semana depois da minha ter me deixado também. Ainda que não tenha me deixado havia uma semana, separados que estávamos por pelo menos um ano e três meses. Acontece que o simples fato de a ter respeitado por esse tempo todo não impediu que ela sentisse a maldita da carência que acabou sucumbindo nesse meu sentimento de perda abrupto. Quase um palavrão. Não foi surpresa, portanto, o povo ter me acudido quando da notícia do outro. Depois da primeira lágrima, eu fui que me abostei no chão, soluçando as conquistas de outras bocas em nome dela. Pros diabos, porra. Eu estava muito, muito sensível nessa época. Viadinho Ralf, de verdade. Que, reza a lenda, estudou com minha mãe no primário, lá mesmo em Goiânia. Já era inclinado, o garoto. Ou foi o Christian? Acho que dá no mesmo (até porque, pelo que sei, inverteram-se os figurinos na esperança da macharada se esbofetear novamente com êxtase). E, então, lá estava eu, após quase três horas de vôo, plantado em frente ao hotel onde aconteceria a recepção do casório do Romualdo Afonso, esse amigo meu.
- Razuk?
- Eu...?
- Fala, cara. É o Caco.
- E aí? Chegou?
- Tô aqui. Hoje à noite, tô lá. Só precisava de uma ajuda tua.
- Manda.
- Tô precisando de mais uma credencial, cara, pro nosso fotógrafo.
- Ah, de boa, véi. Na porta, me liga que eu libero.
- Beleza.
Era isso ou a pecuária, festa que bombava do outro lado da cidade. Seria apenas mais um corno circulando na exposição. Logo se adaptaria.
- Mas eu nem sei tirar foto...
- Relaxa, rapá. Na hora, a gente inventa. Fala que um cachorro engoliu tua câmera e perdemos as fotos. Daí, eles se arranjam.
- Mas como é que um cachorro vai engolir uma câmera, bicho? Avestruz é que come câmera, cachorro se esfrega nas pernas das pessoas...
- Um avestruz, então, que seja.
Sexta-feira, dezenove de maio, às seis e meia em ponto da tarde, estávamos eu e Romualdo Afonso em frente aos portões. O garoto precisava se divertir um pouco. E era minha obrigação fornecê-la, afinal o padrinho era eu. Seria. Diversão. Era o que importava. Fred 04, do Mundo Livre, tomava uma gelada numa barraquinha logo ao lado. Cabeça fria, não ia tocar mesmo. Tinha mais é que ficar light. Ali era o canal.
- Vai beber, vai.
- Mas eu não posso beber... não estou trabalhando?
- Tia, arruma uma cerveja aqui pro nosso amigo! Duas! Isso tá com cara que vai começar tarde...
Devidamente lubrificado, liguei pro Razuk, Leo Razuk, da Monstro Discos, organizadora do Bananada, conforme combinado. Era a segunda vez que eu cobria o festival, novamente no Martim Cererê, conhecia o figura. Apesar de, a bem da verdade, nunca mais termos nos falado depois disso. Inventei uma história de documentário baseado no livro do Pablo Kossa sobre o Goiânia Noise, outro festival deles, e acabou não dando certo por causa da minha diligência um tanto dispersa sem Ritalina. Daí a não aparecer mais nos meios virtuais de comunicação, foi um passo. Cansado da vida, de tanta dispersão, que eu estava.
- Já tô chegando aí! Tô só resolvendo um problema e já apareço!
Não seria mais um pra ti, amigão. Sem problemas. As apresentações não tinham começado, mesmo. E Romualdo Afonso parecia ter encontrado um outro alguém pra alugar os ouvidos. Uma outra. Coitada da tia da cerveja. E do Fred 04. Tudo bem, outros. Tinha também a groupie que cercava o músico – uma vaca leiteira das malhadas com rosto de angorá. Mas o Mundo Livre não valia o choro do Romualdo e logo só sobrou a tia. Coitada. 04 saiu mui puto. Os portões do Yguá se abriram. Ou foi do Pyguá? Lá longe, avistei a cabeleira grisalha do Leo, que acabava de chegar. Show time.
- E aí, parceiro? Massa?
- Jóia. Arrumou as credenciais?
- Aqui. Só não deu pra arrumar mais uma, véi. Mas não tem nada, não. Nos outros dias, é só me ligar que eu coloco o cara pra dentro.
- Beleza.
- E cadê ele?
- É aquele ali nos braços da tia da cerveja.
- Tá mals, hein?
- Mulher, rapá... deixa a gente que é um bagaço.
- Sei... e ele vai conseguir trabalhar assim? Bem, de todo modo, eu vou deixar avisado na portaria, então. Tenho que entrar agora.
- Combinado. Vai lá.
Parcialmente recuperado, Romualdo Afonso e eu entramos no Martim Cererê. A expectativa era grande, haja vista as mudanças realizadas neste ano com relação à programação do evento. Pra quem, na edição anterior, havia fechado as noites com Autoramas, Astronautas e Júpiter Maçã, respectivamente, apostar em atrações locais como headlines no intuito de valorizar as bandas da região e diferenciar o Bananada de seu irmão Noise era arriscado. Senão pela própria bagagem que as forasteiras trazem consigo, o fato da grande maioria das goianas ser figurinhas carimbadas nos palcos da cidade preocupava adolescentes fugindo do tédio.
- Espera aí, que eu vou mijar.
Mal esguichei o primeiro jato, a distorção da Bang Bang Babies (GO) atravessou as frestas do banheiro químico, ainda impecavelmente limpo. O cheiro forte dos produtos mais a pulsação crua da banda me deixaram um tanto confuso, confesso. Saí zonzo da cabine mictória e me mandei pra platéia de onde poderia pirar de modo satisfatório com os riffs dos moleques. Não deveram nada a um Hives da vida. Do caralho. Romualdo havia desaparecido. Reapareceu dos bastidores, cabeça enfiada num amplificador, com o povo da Pétala Mecânica (GO). Depressão demais pro meu gosto pequeno-burguês, mas teve quem gostasse dos ecos de Manson propagados pelas caixas de som. Fui tomar um ar. Mais um. Só o tempo do Satanique Samba Trio (DF) – eram seis ou sete integrantes? Cinco, talvez – baixar no recinto com sua bossa-noise instrumental. A coisa estava começando a melhorar. E muito. Mordeorabo (MG), também apostando no esquema sem vocais, quase um post-rock, fez bonito. Corri pro banheiro e agilizei pra voltar logo e fechar os olhos pro som dos caras. Simpaticíssimos, por sinal. Forte candidato a melhor show da noite. Mas, cu, cada um tem o seu. Ainda assim, não vi um que não estivesse rebolando na hora dos Shakemakers (GO) e seu rock´n´roll classicão. Sim, também o de Romualdo. Botaram tudo abaixo. Primeiro mosh do festival, registre-se. Escalação perfeita. A cada novo show, sempre o mesmo pensamento: "pobre de quem tocar depois desses fudidos". No caso, a mui esperada Suzana Flag (PA).
- Aê, Chimbinha, toca Calyyyyyyppssssooooooo!! – de um bêbado.
- Calypso é o caralho. – do baixista Elder.
Recado dado, desceram a lenha no Cererê, confiando num set montado praticamente pelas novas músicas, por enquanto desconhecidas do público, que farão parte do sucessor de Fanzine, primeira demo do grupo. Deu certo. Tanto, que, no final, de tão empolgado, o guitarrista Joel arremessou sua palheta pra mim. Não sei andar de bicicleta. No basquete, meu apelido era borboleta. Danço pior que o professor de matemática do Big Brother. Agarrar uma palheta assim, de supetão, no ar, então... não é das missões a mais fácil pra mim e minha coordenação motora. Pelo menos, na cama é vantagem das boas. Mas não estava na cama e lá veio o pedaço pontudo de plástico direto no olho esquerdo. Minha vez de ser acudido por Romualdo Afonso. E tasca latinha de cerveja gelada na lupa, pra desinchar. Resultado: Uncle Butcher (SP) – muitíssimo aguardado por mim, fã que sou do Thee Butcher's Orchestra –, WC Masculino (GO) e Eta Carinae (PE), não deu pra ver. Fica pra próxima.
Ainda do lado de fora – passe livre é uma das maravilhas do universo –, toca o celular.
- Cadê o Romualdo, seu cretino?
- Afonso! Tua ex...
Meia hora de lamúrias depois, showzaço do Automata (BA) também perdido (segundo relatos, a banda deixou todo mundo ensurdecido com sua podreira – no bom sentido), estava entornando os últimos goles de mais uma lata de cerveja quando vi meu celular passando por mim. Vejam bem. Saiu das mãos de Romualdo Afonso, de onde foi atirado com brusca violência, pra se espatifar no chão. Putinho, ele. Tudo bem, eu mesmo já havia lançado essa joça umas quatrocentas vezes. Mais uma, menos uma... era dos vagabundos, os melhores. Não quebram nunca, foram feitos pra serem jogados pelos cantos. Até aí, no problemo. Não fosse um cavalo fantasiado de cachorro militar ter cruzado seu caminho e engolido o bicho. Pra ver como é a vida...
- Putaqueospariste! Meu amigo, teu cachorro comeu meu telefone!
- É, eu vi. Acho que isso deve fazer mal, né?
- Porra, seu guarda, tô cagando pra esse cachorro! Quero saber é do meu celular! Como é que eu fico, agora?
- Não, cidadão. Quem tem que cagar é ele. Agora, espera. E é melhor ficar calminho.
Do lado de fora do Cererê, dando uma de babá de cão policial, percebi pela movimentação que o caldeirão fervia lá dentro. Mustang (RJ) iniciava sua apresentação com o melhor do hard rock carioca, botando todo mundo pra bater cabeça. Como o responsável pela confusão havia sido o incauto Romualdo, ordenei-lhe que segurasse as pontas até que eu voltasse. Adentrei o recinto pela sétima ou oitava vez, ainda a tempo de conferir as acrobacias do vocalista Carlos Lopes. Ânimos recuperados, que viesse o Barfly (GO). Não sei se titio Bukowski teria aprovado o som dos caras, meloso demais pro naipe do velho safado. No entanto, não foi o meu caso, nem o de ninguém ali. Variando entre brit-pops do primeiro e do segundo álbum, mostrou por que vem despontando como um dos mais importantes grupos do cerrado.
- E aí, cagou?
- Nada.
- Caralho… me dá uma cerveja, rápido!
- E eu, não vou entrar?
- Tu vai ficar é aí até esse cachorro cagar meu celular de volta!
Nervos à flor da pele, virei mais uma de gut-gut e me mandei pros Señores (GO). Já dizia minha falecida bisavó que nada melhor pra expurgar os demônios do que um bom punk rock. E nessa arte, esses goianos são os caras. Um, dois, três, quatro! E toma-lhe porrada nos tímpanos, adocicado com belas melodias. Favor não confundir com uma emo qualquer. Os garotos respiram tradição. A essa altura, Romualdo e cachorro e celular e ex-mulher e o escambau eram apenas algumas das várias palavras que vagavam sem rumo pelo cérebro no piloto automático. Que fossem todos pras cucuias. Eu estava a fim de onda. Adrenalina, porra! Dito e feito. O primeiro galalau que me encarou logo no início do show do MQN (GO), que fechava a primeira noite, recebeu de cara uma canelada que, tenho certeza, doeu mais em mim do que no sujeitinho de um e noventa que a recebeu. Já preparava a retaguarda, quando o mala, educadamente, veio me perguntar se eu estava bem.
- Você não me parece nada bem, amigo. Por que você fez aquilo? Alguma coisa lhe aborrece?
Fiquei sem reação. Gritar era a saída. E gritei. Eu e o Fabrício Nobre. E todo mundo em coro. Menos o grandalhão, ainda preocupado com meu bem-estar. Não se fazem roqueiros como antigamente. Não duvido nada que fosse evangélico, o puto. Mas não desisti assim tão fácil e me mandei pro mosh-pit. Esse foi o terceiro show do MQN a que assisti na vida. E no qual levei mais socos e ponta-pés, com certeza. Todo quebrado, o jeito foi sair numa maca direto pro hospital.
- Que isso, bicho? O que aconteceu c´ocê?
- Depois te explico. Segue essa maca.
- Mas e o cachorro?
- Amanhã ele leva o dele.
O amanhã, porém, não chegou pra mim. De repouso, curando os inchaços e hematomas, mandei Romualdo Afonso em meu lugar no segundo dia. Eis o relato do moço:
"Bicho, se eu te contar, cê não acredita. Cheguei lá na paz, fiquei esperando o Razuk na porta. Não tinha como telefonar, eu não sabia o número dele. Esperei, esperei e nada. Ninguém sabia me dizer onde ele tava. A essa altura, eu já tinha tomado pelo menos metade de todas. Então, nem pensei muito. Dei a volta no quarteirão e resolvi pular o muro de uma escola que fica ao lado do Cererê. Nunca te contei, mas eu sou um exímio escalador de qualquer coisa. Aquele muro foi moleza. Só não contava com o segurança do colégio, que tava armado. Na mesma toada em que eu pulei pra dentro, tentei pular pra fora, mas a calça enganchou na grade e eu fiquei pendurado de cabeça pra baixo. O segurança gritando. Daí, quem me aparece? O feladasputa do guardinha com o viado do cachorro dele que engoliu teu celular, babando um rio. Tava fudido, era cana na certa. A Ivonete nunca mais que ia olhar pra mim de novo. Ou isso ou eu dava uma de doido. E foi o que eu fiz. Da feita que eu me desprendi da grade de encontro ao chão, vi um pedaço de pau por ali e não pestanejei um segundo. O que é um pum pra quem tá todo cagado, afinal de contas? Dei tanto cacete nesse cachorro, mas tanto... que não sei até agora por que diabos o seu guarda não soltou o maldito pra cima de mim. Isso não acontece em lugar nenhum do mundo! Chegou superior, inferior, bombomzeiro, malaco, tudo pra me segurar. E o guarda ali, na calma, puxando o cachorro que tava doido pra avançar em mim. Tava quase me dando mal, acho que chamaram viatura e tudo. Daí resolvi acabar com a palhaçada, disse que estava tudo bem, pedi desculpas, afirmei que tudo tinha sido uma prova de amor equivocada e dei meia-volta. Esperei só o povo largar do meu pé pra agarrar o pau de novo e tacar com os caralho na cabeça do cachorro, que, de tão puto, conseguiu se livrar do guarda e veio pra cima. Foda-se. Me joguei dentro dum bueiro que tinha por lá e lá fiquei até a poeira baixar. Depois, fui pra uma esquina que ficava a uns dois quarteirões do lugar e não deixei o posto até o pessoal esvaziar o Cererê. À medida que iam passando, eu perguntava como tinham sido os shows. Em pouco mais de uma palavra, eis o que me responderam: Iscariot (GO) – já tinha começado o festival?; RPDC (GO) – esses malditos punks filhos-de-uma-puta vão me pagar por esse dente, caralho; Cine Capri (GO) – desculpa, mas não sei do que você está falando; Downers (GO/DF) – juro por deus que esse bagulho não é meu, mas... dá pra devolver?; Lucy and The Popsonics (DF) – so c´mon, baby, baby, shake your hips, baby, baby, c´mon!; Os Bonnies (RN) – polícia! socorro!; Lake (GO) – só faltou minha flanela xadrez; Los Poronga (AC) – de onde mesmo que eles são? que foda, hein? existe de verdade; Lunettes (SP) – aquilo não foi uma ejaculação enquanto as moças tocavam; Trissônicos (GO) – qual foi mesmo a pergunta?; Sangria (BA) – isso de rock é coisa do capeta, meu rei; Netunos (RJ) – não era a banda do jp? volta, cuenca!; The Dead Rocks (SP) – isso sim é música de surfista macho; The Rockefellers (GO) – momma, I want my willy back!; NEM (GO) – chapação é apelido; Violins (GO) – muito foda, eis o show do festival, voltaram pra ficar, pelo menos até a próxima temporada".
- E então...?
- Então o quê?
- É isso?!
- Queria mais o quê? Eu sou o fotógrafo, não o jornalista.
Não dava pra ser pior. O que exatamente aquilo tudo dizia sobre as bandas e a segunda noite do Bananada, ainda tentei entender por um bom tempo. De uma coisa, entretanto, tinha certeza: não dava pra ser pior. Pois é. Eu e minhas certezas.
- Só pra te dizer que ontem eu fui numa festa com minhas amigas e foi tudo de bom.
- Ah... foi?
- Tu não atendeste o celular, ia te mostrar o festão em que eu estava.
- Ah, tá...
Estava na cara que aquilo não ia prestar. Ou eu dava um jeito naquela apatia ou a cobertura do festival iria pro beleléu de uma vez por todas.
- Negócio é o seguinte... tem uma farmacinha bem vagabunda descendo a rua. Usa isso aqui, vai lá e me traz Ritalina.
- Cê tá querendo que eu roube a farmácia?
- Não é exatamente isso. Tu vai pagar pelo remédio, só não vai mostrar receita nenhuma, entende? Ao invés disso, tu mostra isso aqui.
- Mas e se me pegarem?
- Daí, tu corre. Mas traz a Ritalina.
Três de uma golada. Em quinze minutos, estaria mais que pronto pra missão. Ivonete tinha acabado de deixar uma caixa com alguns objetos pessoais de Romualdo Afonso. Os dois se cruzaram na portaria do prédio, o que acabou não sendo nada bom pro sujeito. Entrou no apartamento de mãos levantadas, urrando palavras desconexas de ordem. Palavras de ordem. Desconexas. Já entornava a primeira do dia. Ele – eu estava abstêmio por conta da tarja preta. Foi pro quarto e retornou cinco minutos depois. Cabeleira embaraçada, cavanhaque enorme de bode e óculos escuros zangão. Era Raul.
- Simbora.
A terceira noite começou mais cedo e não fomos avisados disso. Logo, não assistimos à apresentação da Pelúcias (GO). Romualdo, mamado. Eu, estalando os dedos. Prometia. Esperamos pelo Razuk que apareceu nos portões um pouco antes da Sangue Seco (GO) acabar de tocar. Mais um show perdido. Não havia de ser nada. De um ponto de vista estritamente do expectador não profissional, digo.
- Cadê o fotógrafo?
- Pegou um resfriado, trouxe esse no lugar.
A tempo de presenciar Johnny Suxxx n' The Fucking Boys (GO). Não sei se por conta da anfetamina, mas estou quase certo de ter visto o cara do AC/DC no palco, agitando nos vocais. Grande revelação. O caminho estava aberto pro Bando do Velho Jack (MS) fazer a arruaça que bem entendesse. E não deu outra. O velho e bom rock´n´roll estava salvo novamente. Pelo menos, no Brasil. Pra todos os gostos e estilos, ressalta-se. A exemplo do show anterior, do Porcas Borboletas (MG), que reuniu a nata da intelectualidade tropicalista roqueira, e do seguinte, dos Innocent Kids (DF), onde sobrou porrada pra quem quisesse estar pelo meio da platéia. Tinha todos os motivos pra comemorar. O rock estava salvo, porra! Raul era meu amigo e eu estava solteiro. O que me faltava, então, pra começar a beber? Tarja preta? Sei. Daí não me recordar ao certo do show de The Feitos (RJ) – a primeira latinha da noite a gente nunca esquece –, apesar de ter a impressão de ter sido do caralho. O efeito foi rápido. Mal se instalou em meu corpo, o líquido quis sair. E lá fui eu ao banheiro químico. A mesma história do pum de Romualdo. E eis que o Seven (GO) surge, numa apresentação magistral que, pelo que entendi, pode ter sido a última, ao menos por um bom tempo. Experimentalismo instrumental despejado direto na medula. Vez da badaladíssima Supercordas (RJ). De cujo show também não me lembro. Meu mundo girava. Ritalina, cerveja, bodum, banheiro químico, dor-de-cotovelo e inchaço. Não deu pra agüentar e dormi. Parece ser o que acontece comigo na última noite dos Bananadas. Ano passado, foi na metade do Júpiter Maçã (pra acordar no meio da madrugada, uma semana depois, com o Thunderbird, que tocou baixo como convidado, de carão no meu pesadelo). Neste, quem sobrou foi o Motherfish (GO). Junto com a Valentina (GO). Sorte a minha que são figurinhas fáceis no álbum do povo, dispensando os comentários tão esclarecedores que faço sobre os grupos. As duas que tocaram antes dessas, por exemplo, Pelebroi Não Sei (PR) e Bois de Gerião (DF). O que dizer? Duas bandas com anos de estradas que simplesmente sabem muito bem o que estão fazendo lá em cima. Duas bandas pra quem gosta de mulher. Duas bandas que deixam o cara morrendo de vontade de ter uma banda que possa chamar de sua. E, de preferência, uma mulher também. O festival poderia ter acabado ali mesmo, já teria valido a credencial. Mas tinha de ser com alguém da terrinha, não tinha? Final apoteótico? Todo mundo pirando geral? Era roque que eles queriam pra botar fogo em tudo, menino?
- Toca Rauuuullllllll!!!
Esse morreu pisoteado. Mas quase ninguém percebeu. A atenção estava toda voltada pros Rollin' Chamas (GO) ou Cuecas em Chamas – como preferir –, que acabavam de subir no palco trajando apenas as roupas de baixo. O resto é história. E, ô, história bonita de se ver. O sorriso estampado na cara do Fabrício Nobre dizia tudo. Tudo havia saído conforme o esperado e a tática de valorizar as bandas goianas tinha vingado. Não restava dúvida que o rock nacional passa por um excelente momento em sua trajetória e Goiânia era a prova disso. Seja cantando em português, inglês ou aramaico, o som produzido na cidade está maduro como nunca antes e tem peito pra brigar de igual pra igual com qualquer cena do planeta. Festival pra ficar na história. Raul Seixas só de cuecas ao lado de um monte de macho também só de cuecas em cima de um palco. Só no Bananada. Imaginem o alvoroço que a mulherada em polvorosa não provocou. E seqüestraram Romualdo Afonso. Nunca mais vi o garoto. Deixava o Cererê, auscultando os transeuntes (tente falar quatro vezes rápido depois da ultima noite de um festival de rock sem soar que nem o Clodovil gemendo), quando, bem na minha frente, vi a imagem do diabo. De cócoras, cagando. Meu celular.
- Doeu muito, pai? – do guarda.
Com a ajuda de uma varetinha, liguei o bicho. Você tem uma nova mensagem.
"Me liga, urgente. To morrendo de saudades. Vc me pareceu tão frio ontem no telefone, desligou o celular hoje. Quem é a putinha que tá contigo? Depois a gente conversa. Pensei muito sobre tudo. Me liga".
Pobre de quem tem nojo do amor. Tirei o excesso com uma folha sabe deus de que espécie de árvore e liguei pra ela. Sem stress. Pianinho. Porque é assim. Com mulher, não dá pra ser rock. O cara tem de ser bossa.
Posted by cacoishak at 9:37