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9.02.06

nas melhores livrarias do ramo

a timidez do monstro, novíssimo em folha de paulo henrique rocha scott. poesia rara de se encontrar por aí, minha gente. e escrita por um causídico. não confia em mim? até entendo. mas seguem os textos que acompanham o livro:


Prefácio?

Por Valério Oliveira

Me impressiona, nos amigos do Paulo, a falta de visão
Não exatamente de visão. De olho. A falta do olho direito
Cautela com o assassino. Cuidado com essa criatura de tapa-olho
Tímida? Rá! Não diga que você acreditou nos boatos?
Monstro que é monstro não menstrua na lua cheia
Lembra do mausoléu escondido na neblina?
No banheiro do segundo quarto à esquerda da escada
É, no banheiro do quarto em frente à armadura de Henrique V
Lá os azulejos sorriem: “Aos sábados servimos feijoada”
Quem? O monstro? Ah, claro, o bicho-papão de perna de pau
Quando falar com ele não fique olhando a cicatriz, o gancho
Não! Não mencione a aula de feng shui. Nada de ikebana
De firulas assim só escapam ratos, flatos e fratura exposta
E principalmente: jamais, nunca, em hipótese alguma diga poesia
De jeito nenhum. Poesia? Nem que a vaca tussa
O monstro detesta doido dado a arrotos de lirismo
Diga tosse, alicate, kombi, Rita, cabelo, sereia. Poesia não
Os monstros do Paulo têm essa capacidade maluca de cegar
De furtar o olho alheio. Mas só o dos amigos
A poesia do Paulo (quieto! o monstro…) também tem essa força
É risco de lâmina no olho bom. Lâmina-Buñuel: direto no direito
Caralho, nunca estive tão cego


Senhor Escuridão

Por Fabrício Carpinejar

Paulo Scott está em guerra. Em suas poesias, destila códigos ocultos, profecias escondidas no texto, visões a serem decifradas entre os versos, palavras minadas que se forem cruzadas viram crucifixos. Scott não veio para brincar, satisfazer egos, brindar com espumantes. É um profeta, paranoicamente criativo como um profeta, com estratégias militares de um profeta. Não peça para que leia sua mão, ele vai cortá-la. Não pergunta a ele se o emprego vai funcionar, se terá riqueza, se encontrará a alma gêmea, que ele está se lixando pelos resultados, concentrado na vastidão das pequenas feridas. “Trate logo/ porque/ num lugar sempre sangra.”

Em uma poética moderna e fraturada, Scott reúne o que antes alimentava poetas católicos como Jorge de Lima e Murilo Mendes ou ateus como Jim Morrison e Rimbaud: vidência e violência. Ver é prever: ver é antecipar o que vai ser pensado. Adota o sacerdócio da intuição. Há um escopo alucinógeno em seu ritmo, uma mística dentro da banalidade (que como diz Drummond, é a originalidade coletiva). Insiste em gerar o estranhamento do trivial, falando unicamente por imagens, em doação selvagem aos sentidos. Seus poemas dilaceram, não organizam absolutamente nada. É um ato agressivo que só o amor pode gerar, ainda que não seja compreendido na hora. São poemas insones, longe da lógica do sono, e sim imersos na falta de lógica da ausência de sono. Mantêm o estado alerta da descontinuidade e da ruptura com um pensamento hierárquico (tudo tem valor), de satisfação ao consumidor. Scott mostra que o excesso de consciência deforma, ao contrário do que se acredita e se credita à perda de consciência e ao inconsciente. Ele desorbita a natureza, sexualiza cada elemento. Muda o gênero da escuridão (fica masculina), fala da gravidez do limo ou narra o ato de felação com a luz: “lambe/ lambe/ é aqui”.

O sacrifício da intencionalidade significa em ganho de experimentação. O autor produz o desconhecido da linguagem a partir de junção de vocabulários amplamente conhecidos. O poema tem vida própria, que cabe ao autor admirar ou assistirr, não interferir. Nesse sentido, o escritor colabora para o efeito, a instantaneidade (mais do que espontaneidade) da nomeação. Preconiza a visualização pela cor, ao invés de sinalizar a forma pelo contorno da figura. A infância é cinza, a adoração é amarela, a noite é verde.

“ foi movimento de asas,
agora, é apenas
uma cor difícil”

São planos de um filme, que expressam a consciência autoral ao colidir suas imagens, e nunca agrupando as tomadas em uma seqüência linear. São objetos vivos, que não se fixam. São retratos verbais distorcidos e desmontados. Pela atuação freqüente de fanopéias, Scott abre espaço para desvios, sem nexos explícitos, expondo por fragmentos um caos psicológico, característico do instante único e irrepetível da percepção. O que importa é a paixão da percepção, desprezando esclarecimento e juízos morais. A plasticidade termina por gerar um laconismo, dando autonomia para as margens. Poesia do absoluto, de humor reprimido, que se faz de descobertas descarnadas e imprevistas.

“espirro contra a vidraça
borboleta de asas
opacas.”

O que são asas opacas? Não adianta questionar. Pois não se trata mais de asas, porém da soma do espirro e do vidro, que, juntos com a borboleta, atingem a opacidade das asas. Não existe a generalização conclusiva das cenas, um final propriamente. Os elementos aparecem pelo valor de suas partes. A justaposição remete a algo novo. Nem uma coisa nem outra. O poema utiliza fração dos signos para formar um corpo distinto.

É curioso perceber que Scott, mesmo embevecido da virtualidade surrealista, aposta na sublimação romântica. “Entre as coxas, a erva se guarda.” Canta a lealdade da mulher, a fidelidade feminina, apesar do podre ao derredor, da dor, da doença da posse e da descrença insana dos dias. “Você não adivinha a saudade que me veio quando o efeito do veneno passou.”

O mundo externo é um provocador da dissolução interna. “Luz de boate/ dentro das/ veias azuis”. O mundo que se promete protegido na timidez infantil transforma-se em medo adulto da invasão da realidade pela casa, onde “mendigos aguardam a surra no fim da tarde de quarta feira”. A ameaça encorpa o pânico e aumenta a fobia social.

Não se trata, portanto, de um diálogo do eu com os outros, mas da incompreensão do outro nos outros, em uma despersonalização gradual, dolorosa e necessária. “Sobreviver demora”, ensina o monstro tímido.

Posted by cacoishak at 9.02.06 16:17

Comments

Nooooooooossa!!
Mto bem mesmo...só li pq eu relamente duvidei de ti!! hahahahah
O cara escreve mto bem, meu!!

Posted by: Luciana Cunha at 10.02.06 23:24

eu disse... não disse? dito está. guilherme pilla. valeu. abração!

Posted by: ishak at 10.02.06 16:44

Só faltou dizer que quem ilustrou foi o Pilla, o mesmo das Livros do Mal do Galera e Pelizzari. Grande Abraço!

Posted by: Fraia at 10.02.06 14:36