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12.12.05

psica

Fique bem claro, pra todos os efeitos espaço-temporais, ser este um texto teoricamente fictício. Não há nada ou ninguém que possa em sã consciência bater no peito e confirmar que os causos aqui relatados de fato aconteceram, seja numa ou quantas tiverem sido as noites – se é que foram algo além de alucinações galopando nas bolhas que subiam do fundo do copo num canto qualquer do bar. E se os narro é pela única e simples razão de comprovarem o quanto a existência pode ser chata e desprovida de um propósito maior quando não se vive em função de um tal blefe crackeado, vagabundo e pagão nas madrugadas afora, percebe? Não percebe? Então, meu filho, senta que lá vem história. E presta bem atenção, criança.

Salvo engano, tudo teve inicio com uma garrafa furtada de uísque fajuto. Furto por furto, antes fosse o de um bacana, é claro. Mas quando se tem um gordo maricas no encalço dando uma bandeira desgraçada pro segurança do local, o lance é agarrar o que pintar pela frente e dar o pirula rapidinho, rezando pra não ser pego. Se for, o jeito é vazar sem nem olhar pros lados, deixando pra trás o gordo que, invariavelmente, levará a pior, pra deixar de ser otário. Não foi o caso e o vasilhame pôde ser entornado pelos dois entre um telefonema e outro de paixões baratas e demais madalenas e cuecas carentes à espera de cúmplices no pipocar da escuridão. Vem que tá rolando uma festa do caralho com muito psy onde era aquele lounge fudido, rapaz, vem logo. Antes disso: vamos tocar no café, baby, quero te ver. Passo primeiro na UDV pra levar uma amiga e depois a gente pira com o Pink Floyd Cover. Eu, cá comigo, que dúvida danada, dio santo. Celular toca de novo. Psy lounge corp. Faz o seguinte, pago tua entrada com direito à consumação. Noite dos desesperados. Uma birita àquela altura já valia mais que qualquer vagina. Tanto mais fácil a decisão se new age. E rumamos à dita festa.

Maldita praga, essa herança sessentista. Escapo de uma para cair em outra, pior ainda. E a caráter, que se diga. Ao menos me valeu o mulambo street wear de monge budista, alaranjado dos pés à cabeça, pra ser barrado logo na porta. Foi a desculpa que me veio à mente pra tirar o cara lá de dentro assim que percebi a risada marota do porteiro do recinto quando um dos convivas saiu reclamando que aquilo ali estava mais pra festa de fim de novela da globo. Sem chance, cumpadi. Aceitaria de bom grado o drinque pago em um pé sujo que fosse, mas honesto e limpinho. Seguindo a melodia de uma canção que se propagava em ecos debruçados uns nos outros pelas esquinas da Cidade Velha, como uma punheta sem fim num pau engelhado clamando trégua, acabamos num botequim qualquer, eu já torrado com a idéia de ter perdido um grelo mal passado pela promessa de algumas doses não cumpridas. Foi aí que veio a confissão, entre uma rabugice e outra. Tu não te importaria em saber que eu já comi tua mulher, te importaria? Não tô dizendo que comi, mas tu ia ficar puto comigo caso eu a comesse? Ela não é minha mulher, gordo, pode comer a rodízio. Filho-da-puta desgramado. Comeu ou não comeu? Pois fica sabendo que amanhã eu tô na cama com a indiazinha, seu viado. Tá, ô pica doce, melhor a gente ir embora, saca um real aí. Saca um real, uma pinóia! Não era por conta, a consumação e o caralho a quatro? Não pago nada, vão ter que aprender a me respeitar, que tá nascendo um escrotinho agora. Pagou contrariado e sumiu. Novamente sozinhos, eu e o gordo. Filho-da-puta. Não era viado? Será que comeu mesmo?

Sa-sa-sa-ri-can-do, todo mundo leva a vida no ara-me! A coisa já tava preta, bar none. Complicar mais pra quê? Desprega os olhos, condenado, e viva la vida loca. Cultivando um bago que fosse de esperança de encontrar raspadinhas à solta, persistimos na campanha, apesar dos males sub-entendidos da véspera, passada em muito a meia-noite. Confesso que não me era das tarefas a mais fácil encarar o maldito, mas bebida também tampouco já me importava. Queria era sair dali vivo. Fosse de onde fossas. Mentiras e subversões. Fazer o quê? Tilintavam por algum canto os espermatozóides envaidecidos. E bingo. Talvez o lugar certeiro, em nome del padre, del filho, del espírito santo. Arregalaram-se os olhos e amém, puta-que-os-pariste. Resumindo a novela, por falta de espaço: esbaldou-se num recanto de travecos, o gordo, admirando as pinturas, refrescos renascentistas, do teto enquanto se esfregava num sacode estabanado, admirado à distância por um exemplar dos mais raros de um Fred Mercury anão, bracinhos ao ar, todo empolgado e pressão alta. Pausa prum expresso, que ninguém é de ferro. Acabou dando. Deusulivre os excessos. Nem tomei conhecimento. Paguei a conta e caí fora.

Faltava el grand finale. Saí desiludido pra casa. Sem atropelamentos em paradas de ônibus, nem outras contravenções que eblefariam (neobleologismo é o caralho) o cotidiano de um nego simpático, assim, qualquer. O foda é que sei que ainda baterei na mesma tecla futuramente, mas como fugir do assunto? Se comeu ou não, problema de quem gozou ou deixou de no final. Fato é que, ao dirigir-me e o carro de volta pra cama, encontrei numa esquina mãe e filha catando táxi. Claro que, a princípio, não fazia idéia de que passariam algo além de ménage brejeiro. Com direito a assalto, estupro e uma bela tirada de couro, pra contento geral. Ainda assim, parei. E, repito, nem desconfiava. Mas acabou rolando. Sem necessariamente uma arma – certames, nada pessoal – contra o pinguelo de ninguém. Haviam acabado de sair do show do Pink Floyd Cover, vejam só. Loucura no caldeirão. Enquanto a ninfeta de quatorze, treze anos, tentava me estuprar, dando conta da poesia e tudo o mais e os quadriláteros da forty-five, a mãe apalpava as arestas em busca de uns trocados. Ou era o contrário? Mãe mais nova que filha, nem dava pra saber direito. Mas que a vagabunda foi insensível a ponto de sangrar a glande também não passou batido e, nem tanto pelo cartão de crédito que bloquearia quanto pelo boquete creditado, dali a vinte minutos mandei passearem. O bastante por uma noite. E o galo já pigarreava.

O telefone toca. Tinha deixado um recado pra fulaninha. A ressaca matava, mas tava mais era certo. Ou tarde demais. Gordo viado. Puro blefe.

(texto escrito pro zine psica, do povo da dançum se rasgum).

Posted by cacoishak at 12.12.05 13:29