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14.12.05

minhas

Eu não acredito em você. Vi o Bob Dylan gritando isso pra uma platéia de ingleses malas que o chamavam de “traidor”. Eu acredito em ressonância. Tenho acreditado muito nisso. E não acredito em gente que acha que sabe o que eu tô sentindo. E que se aproximam de mim com seus diagnósticos rasteiros, mas cheios de verdade. Me movo com certa agressividade, mas sem querer esbarrar em ninguém, sacou? Não quero dar minha opinião sobre nada. Ando cansado disso. Então porque é tão importante pra alguém saber se eu gostei ou não do seu espetáculo? Eu não acho a minha opinião realmente importante, então porque me sinto compelido a falar, se só consigo me admirar quando fico realmente quieto no meu canto, alheio ao engalfinhamento. Prefiro amparar meu amigo Mirisola completamente bêbado no meu ombro e ficar curtindo ele mandando todo mundo tomar no cu. Prefiro mostrar pro Nelson Brito que “Chato” não é só força de expressão, e assim evitar que o meu amigo Paulão encha ele de porrada. Prefiro noites sinceras de quase esperança num boteco de esquina, e manhãs amenas com quem me acolhe sem fazer muitas perguntas, tanto faz se um bêbado de esquina ou uma garota linda. A solidão se expressa das maneiras mais doces. Prefiro quando não tratam meus amigos como “junkies” e “bêbados”, da maneira pejorativa e cheia de condescendência que sempre tratam. Eles sempre foram muito mais do que isso, e não precisam de nenhuma condescendência. Então deixa eu dizer que também não acredito em você. Eu acredito em poucas coisas. Talvez em Gregory Corso (que era um grande mentiroso) ou no Gato Garfield. Um pouco em bárbaros nas portas de Roma. Eu acredito mesmo é em ressonância. Eu falo o tempo todo sobre isso. Então porque alguém ainda quer minha opinião sobre a situação política mundial? Enfiem uma bomba no rabo e me deixem em paz com meus livrinhos de poesia e meus blues rabiscados em cadernetas. Eu não acredito em nada dessa merda, e também não acredito em você. E não adianta me chamar de traidor. Sua indulgência cretina não me comove. Eu vi Bob Dylan vociferando com a turba de imbecis e vi o bêbado de manhã dançando uma rumba clown no meio da Dr. Arnaldo. E não me senti sozinho e nem triste, exatamente. Nunca senti inveja de ninguém e sei que pelo menos essa porta tá fechada pra mim no purgatório, então porque as pessoas acham que sabem o que eu tô sentindo? Me fale de ressonância que eu te pago um conhaque. Me fale de abismos e a madrugada vai ficar pequena. Mas não venha me diagnosticar. Nunca acreditei em psicólogos e acho que Freud tinha mais era que tomar no cu, junto com todas as cartomantes e pais de santo. Não quero ouvir previsões de “começo de ano” nem lendas nórdicas. Minha cabeça é um aríete nas portas de Roma. Não vou colocar fogo nessa festa. Vou sim achar um lugar sossegado pra fugir do espetáculo. Vocês não queriam um epitáfio? Então vou dizer: Nunca acreditei em você. Em vocês. Tenho poucos planos. Tomar umas com o Reinaldão logo mais na Daspu da Consolação. Aparecer no lançamento da Del Fuego. Tentar me manter mais próximo da calçada e longe do engalfinhamento. Não tenho plano nenhum. Acho que “quarta-feira” tá longe pra caralho e bons amigos ainda me ligam às 4h30 da madrugada. Não acredito em igrejas e cofres. Mas acredito que gentilezas podem matar. Acredito em Marcos Prado dizendo que “no fim quem vence sempre é o agente funerário”. Tenham um bom dia, se conseguem acreditar em meteorologia. Eles tinham mais é que ficar estudando os meteoros, não era não? Nunca tinha pensado nisso.

mário bortolloto

Posted by cacoishak at 14.12.05 3:18