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4.11.05
desenferrujando
– não adianta, cara. se tu tá pensando que eu vou sair por aí tirando onda, ostentando no peito essa marca do capeta, todo prosa, pode esquecer. nem pelo caralho. n´sou do tipo que faz arruaça em venda de esquina, não.
– ah, baby, e tu lá é do tipo que faz alguma coisa? fica aí soprando bolinha pro alto o dia inteiro pra depois começar o show de horrores, depilando a merda das tuas vibrissas com essas tuas unhas de porco. é só uma camiseta, porra! só hoje! o que de tão demoníaco pode haver em se usar uma bosta duma camiseta só por causa dum jacarezinho que nem dá pra ver direito?
– pra começo de conversa, eu preciso de concentração pra fazer minhas coisas. tu sabe que meu trabalho não é algo que eu possa simplesmente estalar os dedos e decidir que, pronto, é agora. depende de vários fatores, uma sincronia de sentimentos divergentes, um estouro maior, bem mais que andorinhas. enquanto isso tudo não acontece, não dá pra dar uma de escroto e forçar a barra. não gosto de forçar a barra. nunca. apesar das melhores idéias saírem quando estão forçando a barra pra cima de mim. mas isso não tem nada a ver, não vem ao caso. eu mesmo tô me enrolando pra ti. resumindo, são as bolinhas que não me deixam usar essa camiseta. as vibrissas são só uma maneira de expor isso de um modo discreto e prático, já que também me deixa mais bonito. e fora que, presta bem atenção, olha lá, vai. de longe – realmente – quase não dá pra se notar, mas aproxima mais a vista que tu vai enxergar muito bem: a porra desse jacaré tá excitado. tá muito claro, só não percebe quem não quer. e eu não me sinto nada bem usando a porra duma camisa que tem um jacaré arfando de pau duro estampada nela e, pior ainda, com quem todo mundo também meio que fica excitado.
– tu não é macho, porra? não vive batendo no peito pra se gabar disso? tá com medo do quê, agora?
– até parece... como se tu não tivesse certeza de que não se trata de nada disso.
– não vai ser a bosta duma camiseta que vai fazer com que eu abra meu coração pra ti assim de repente, baby. e fora que isso é só uma falha besta de fabricação, à toa.
– tá bom... tá bom, caralho. vamos parar por aqui. tô duro e sem paciência de continuar com isso. melhor, então, ficar em casa e eu te provo do que se trata.
– do que não se trata, honey. não de mim. não vou ficar em casa, sinto muito. fiquei em casa durante toda a construção da merda desse relacionamento, aceitando cada cimentada que tu queria dar pra suspender mais uma parede.
– mas, cara...
– cala a boca, que tu já falou demais naquele teu parágrafo. minha vez agora e eu nem tenho tanta coisa pra dizer...
–... é por causa daquela minha tia, satisfeita? posso encomendar o bolo?
– lá vem... de novo, isso?
– e essas coisas lá têm estipulação limitada de uso?
– baby, o problema é que é sempre ela. é essa tua tia sempre, desde o nosso primeiro encontro, caramba! antes tu fosse viado, mesmo.
– não, não sou. essa conversa já tá me consumindo. espera aí. (...) toma aqui teu presente. feliz aniversário. vou me deitar. bom filme.
– tu não disse que tava duro, bonitinho?
– bem se vê que não existe mais amor nem nada.
– que porra nenhuma! corta essa draminha, que é! putaqueopariu... eu que ia pagar tua entrada, não era? não tava decidido isso? então, não vem com bosta de ambigüidade pro meu lado, não! sei muito bem o que o senhor quis dizer, ó, mestre da irrigação perpétua! e como é que me aparece com um livro, agora?
– te fuder, porra! não te dou mais nada, isso sim.
– eu que não quero mais te comer, seu merda.
– ah, o nelson rodrigues aqui...
– vixe, mãe...
– abre! tu não disse que gostava dele?
– abrir o quê, meu deus do céu? me poupa, tá? vai dormir. vou ver meu filme.
– me dá isso. tá vendo? é velho, foi baratinho, comprado em sebo. acredita em mim, agora?
– tchau, baby.
– olha aqui, porra!
– já não olhei? o que mais tu quer? que eu engula essa história? e eu não ouvi tu amassando esse jornal lá dentro? e eu não me lembro muito bem tu dizendo num desses teus surtos repentinos que não comprava mais nesse sebo nem pelo caralho? fala logo que esse livro tava mofando na tua estante e, pra tirar a bronca, tu foi pegando logo o primeiro que apareceu na tua frente...
– tu tá viajando na batatinha, cara. não é nada disso. não compro mais daquele puto, mesmo. que se foda, ele. mas não, esse livro era novo. novo comigo. não era meu. não embrulhei antes porque achei que não devia embrulhar. daí achei melhor embrulhar agora antes de te dar. não tinha papel do mickey, foram os classificados mesmo.
– tu não entende nada de mulher, que merda!
– tá bom, caralho! tá bom! quer saber mesmo? quer saber? eu roubei essa porra de livro!
– tu roubou meu presente de aniversário?
– eu roubei um livro do sebo de um filho-da-puta que se acha mais que todo mundo e vive cagando na cabeça dos outros pra te dar de aniversário porque sabia que tu ia gostar pra caralho dele e eu não tinha grana pra comprar e mesmo se tivesse não ia comprar da loja daquele sacana de merda.
– tu roubou meu presente de aniversário, tu não tá entendendo.
– eu roubei um livro do sebo de um filho-da-puta que se acha mais que todo...
– eu não sou retardada, porra!
–... e que é casado com uma perua de quinta categoria, assassina de bebezinhos recém-nascidos em hospital-fachada onde baratas supostamente têm mais moral pra subir nas paredes do que os pais dos rebentos que ela faz o favor de arrebentar, e que entende da literatura que ele vende pelo dobro do preço das livrarias de novos tanto quanto o nariz dele...
– tu roubou meu presente de aniversário, baby, acorda!
– o cara nem sabe o que tá fazendo ali, porra! come do bom e do melhor pra escrever duas linhas piegas pra caralho que ainda por cima ele tira de papel de bombom e site de cartão virtual toda semana. um sujeito desses merece ter seu estabelecimento assaltado. de um sujeito desses, a gente nem pode dizer que tá roubando...
– veste a bosta da camisa.
– mas nem fudendo.
Posted by cacoishak at 4.11.05 5:47