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17.09.05

sem assunto

vasculhando os arquivos, encontrei esse texto publicado na finada fraude. pra animar o fim-de-semana.


"Tá bom, mas não se irrite..."
Os 10 costumes mais chatos da atualidade – por Dr. Schadenfraude

[29/01/2003]

Depois do bom senso, a chatice é a coisa melhor distribuída neste mundo. Somos a prova viva de que o ser humano suporta DIUMTUDO – diriam as apresentadoras de programas femininos na TV. Mas o conteúdo das chatices varia a cada época. A lista a seguir mostra algumas das que estão BOMBANDO na atualidade.

1. Revivals

Há algum tempo, artistas e criadores lidavam com referências e influências do passado. Geralmente para criticá-las e recusá-las. Hoje há surtos de revivals, que somente cultuam e parodiam, num tom de deslumbramento que chega a causar abalos sísmicos nos pelos pubianos das islandesas. O pior é que os períodos que inspiram revivals estão ficando cada vez mais próximos. Não há nada mais humilhante do que imitar algo que você já viveu e que, confesse, foi ridículo. Daqui a pouco haverá revivals anuais: e as pessoas viverão eternamente na releitura do passado, numa espécie de loop. Essa nem o K. Dick imaginaria.

2. Autoestima

99,9% da humanidade não têm autoestima. Ou gravitam em torno dos umbigos, tentando provar que têm alguma importância neste mundo da impermanência, ou choram ao seu ouvido, mendingando algum carinho. E se você lhes der atenção, ou viram seus parasitas ou não acreditam na sua sinceridade. O POBREMA é que você age da mesma maneira e nem tchuns. Por isso, todo mundo que tem autoestima lhe causa algum tipo de inveja, que pode inspirar desde desejos sexuais até canibais. Recomendo um vodu básico pra essas ocasiões.

3. Engajamento

Neguinho quer se engajar em algo, não importa no quê. É indispensável se apoiar em alguma muleta ideológica, pra depois classificar cada ato e pensamento. Seu e dos outros. Tudo o que as pessoas fizerem será rotulado: "você é machista, homofóbico, anti-semita, neoliberal, reacionário, comuna, indie, sedentário, etc. etc. etc.". Mesmo que seja o mais obsessivo dos seres, você nunca conseguirá adaptar seu comportamento perfeitamente a um padrão de idéias. Por isso, fará um esforço descomunal pra se autojustificar e condenar tudo o que não se encaixe no modelozinho. E uns anos depois você morrerá.

4. "Comentadorismo"

Um escritor se esforça pra terminar um texto. Depois aparece um mocorongo e busca "sentidos ocultos" nele. Demonstra o que "você quis dizer" ou o que "deveria ter dito". Chamam estes indivíduos de "comentadores". Pensa que isto se aplica só à literatura? Nada. A todo momento você tem de perder tempo desdizendo o que nunca disse e nem diria. Aos poucos nos acostumamos, desencanamos e aceitamos certas coisas. Mas tem gente que consegue tosquiar seu saco: parece que nasceu pra vigiá-lo. Se topar com um desses, mande-o se alistar num seminário.

5. A era dos extremos

De um lado gente que sempre concorda com você, fala com voz modulada e é "simpática", de outro os geneticamente ranzinzas. De um lado os ansiosos e de outro os preguiçosos. Os que falam demais e os que nunca abrem a boca. Os sem-noção e os politicamente corretos. Os que acham que você só existe se falar latim arcaico e os que odeiam qualquer coisa que exija concentração. Enfim, você entendeu.

6. Marginais

Notou que agora todo mundo quer ser "marginal"? Até os mais classemedianos. E então destilam clichês do que acham ser o tal "submundo", a "night", as putas, os bêbados, os drogados, a "liberdade sexual", essas coisas que não deveriam ser incluídas no mundo dos estereótipos. Quer uma prova de que "marginal" não cabe em modelos? Leia a obra de Plínio Marcos, que era dramaturgo, brasileiro, low profile e mais relevante que Bukowski [por exemplo]. Ou melhor, vá ali na Rua Aurora, em São Paulo, e experimente por si.

7. Salvadores televisivos

Netinho, Márcia, Ratinho, Cabrini, Datena, só a TV salva. Está desempregado? Seu chuveiro não funciona? Seu vereador não o atende? Tem uma confissão a fazer? Corra pra sua emissora favorita. Tudo se resolverá, ao preço de uma humilhação. Note que o conceito de "mico" está cada vez mais abrangente e leve, desde que haja uma câmera na frente pra exibir o resultado.

8. Explicações em economês

É o seguinte: você vai se foder. Mas desde que por um motivo que pareça emergencial: "o fluxo do capital volátil, considerando as reações do mercado internacional às guerras e as taxas incidindo em cascata sobre as dívidas públicas...". Com uma explicação destas, eu doaria até os dois rins, aceitaria pedido de casamento etc.

9. Calotes

Todas as empresas estão em dificuldades. Só você não pode entrar pro clube dos maus pagadores. Você se transformaria em "inadimplente" e cairia na rede do SPC. Já o seu patrão "rola" a dívida, "renegocia prazos". Em resumo: trabalhe rápido e dobrado, sem reclamações. Mas receba quando for possível. Afinal, veja a situação do país. E volte pro item 8.

10. Pensamento positivo

Quanto você está mal e tem que fingir que tudo vai bem. O problema é que você não acredita na própria encenação, sente que está agindo como um ator de novela mexicana. E aí entra numa espiral de autojulgamento, autocrítica e autojustificação. O ideal seria não pensar, mas você ainda não assistiu TV o suficiente pra isso.

Posted by cacoishak at 17.09.05 16:46