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26.08.05
"um lugar do caralho"
cobertura do bananada 2005 feita pelo não-jornalista que vos escreve para a lendária revista musical rock press, capitaneada pela rosa psicoativa claudia reitberger. em breve, publico a capa por aqui. sabe como é, tem gente que entende melhor quando desenhado. quem não conseguir esperar, que compre logo. nas melhores bancas. é o que sugiro. mas corre. na íntegra:
BANANADA 2005
Goiânia, capital nacional do sertanejo. Maio é mês de festa na cidade, quando empresários do agrobusiness se reúnem em torno de seus produtos expostos na feira anual agropecuária, visitada por milhares de curiosos e entusiastas do ramo. Cruzando o mapa, entretanto, há quem conteste este lado da história ao apresentar uma nova versão dos fatos, que vem se consolidando principalmente na última década, com testemunhos vindos de todo o país, que, a exemplo dos antigos bandeirantes, desbravam intrépidos o cerrado. Realizado pela Monstro Discos, o festival de música independente Bananada, em sua sétima edição, escancara as portas do espaço cultural Martim Cererê, tornando-o o QG daquela que é cada vez mais (re)conhecida e exaltada de ponta a ponta como Goiânia Rock City.
Em três noites de distorção, batucadas e cerveja barata, quarenta e duas bandas se revezam nos palcos dos teatros Pyguá e Iguá, levando os mil expectadores diários ao delírio numa grande confraternização intimista do submundo indie. No curto espaço entre um show e outro, músicos trocam figurinhas com quem visita os estandes das gravadoras e conhece um pouco mais do que está sendo orquestrado entre quatro paredes. Ninguém pára. Nem por isso reclama. Pelo contrário. Apresentações feitas, um até logo e meia volta. É hora do bom e velho rock´n´roll.
Abrindo a noite de sexta-feira, 20, as locais SpinApple, Actemia e Demosonic prepararam o terreno para as forasteiras Os Legais (SC), Fuzzly (MT) e Cadabra (DF). A essa altura, todos já estavam pra lá de marrakech e, com gás sobrando, os pés teimavam em pular mesmo sem som algum. “Liminha, me dá um autógrafo, lindo”, exalta-se uma punk de boutique, agarrando-se no cangote do produtor Miranda, que passava. Tragicomédia no melhor estilo Réu e Condenado (GO), que fez copos voarem ao som de Bob Paraguaçu – faltou apenas Wander Wildner completando o coro tosco-brega, mero detalhe para boi dormir. Bem acordado, por sinal, o público se espremeu para prestigiar a sonzeira da conterrânea Barfly, preparando-se para encher o bucho com a dobradinha carioca de Moptop e Canastra, este fazendo jus à fama de grande revelação de 2004, sem direito a sal de frutas. Correndo contra o relógio, Zeferina Bomba (PB), Violins (GO) e Hang The Superstars (GO) ferveram o caldeirão na mistura exata entre porradeira e melodia pra indie nenhum botar defeito. Gabriel Thomaz e os Autoramas (RJ) deram boa noite à molecada ensandecida. Ainda era a primeira etapa e nego já saía mancando do recinto.
Dando continuidade ao esquema anfitrião do festejo, as bandas da casa Technicolor, The Ugly e MotherFish recepcionaram os expectadores no segundo dia, que mal chegaram e logo esquentaram os ânimos com o hard-rock industrial dos abecês paulistas do Ästerdon e seu vocalista cuspidor de fogo, ipsi literis. Daí em diante, o torneio de moshes que ornamentaram os concertos de Vanguart (MT), Olho de Peixe (GO), Iguanas (RJ) – salto mortal duplo – e Deceivers (DF) só foi interrompido com o maior fiasco do festival: Continental Combo (SP). Não para menos, ninguém deu muita bola pros lamentos do grupo, guardando as energias para aquele que, antagonicamente, foi o melhor show do Bananada 2005: Daniel Belleza e os Corações em Fúria (SP) puseram, conforme prometido, o teatro abaixo com seu glam rock de raiz, aproveitando a ocasião para lançarem o DBCF Journal, fanzine idealizado para a divulgação do cenário independente. Não permitindo que o fôlego fosse retomado, os Abimonistas (SP) abriram alas para o MQN (GO), cujo vocalista Fabrício Nobre ainda subiria no palco novamente no show incendiário dos Astronautas (PE), que mandaram o bom-senso passear em órbitas inóspitas. Antes, porém, os Rollin´ Chamas (GO) puderam dar copiosas amostras de interatividade, contagiando os presentes com sua atuação debochada e descaradamente anticarola.
Ciceroneando a domingueira de adeus, Peregrinos, Seven e WC Masculino. Dead Rocks (SP) e Madame Saatan (PA), embora pouco conhecidas, empolgaram quem apostou para vê-las, logo nos primeiros acordes. Ressonância Mórfica (GO) ficou entre a psicodelia sessentista da Mordida (PR) e o punk básico dos Resistentes (GO), ambos exibindo novas vocalistas. Infelizmente, o que na primeira sobrou no quesito desenvoltura, faltou à seguinte, quase antecipando a ressaca de fim de festa. Custou, mas Volver (PE), Fr!la (SP), Sapatos Bicolores (DF) e Mechanics (GO) fizeram bonito em suas demonstrações, enxertando a animação que faltava a roqueiros desprevenidos e dando o mote para a pauleira afrescalhada do Valentina (GO), que subiu ao palco acompanhado de portas-bandeira – vermelhas e azuis. Questionada sobre o porquê da presepada, uma das participantes do espetáculo rebateu: “É um golpe. Todo mundo dá golpe, nós também queremos dar o nosso”. Apoteose é isso aí mesmo, não requer maiores explicações. O que conta é o lúdico e entendedor do assunto melhor do que o trilisérgico Júpiter Maça não há ainda na cena nacional. Com Luiz Thunderbird no baixo, o gaúcho fez rodopiar o salão e, unidos num só transe, primatas urravam os gritos primais do símio-mor, despedindo-se de um lugar pra lá do caralho.
Madrugada gélida de segunda-feira. Pecuaristas e agricultores teriam, ainda, uma semana de exposição pela frente. Em tempos em que muitos alardeiam, temerosos, o ressurgimento das duplas sertanejas, impulsionado por uma nova onda de modismo novelístico, os “caipiras” nativos e agregados da terrinha não parecem se incomodar tanto assim. Sabem que não é de hoje que a semente fora plantada. E a bananeira, mais vistosa a cada ano, continuará rendendo bons frutos para o empanzinamento da nação roqueira goianiense – e, não há mais como negar, da brasileira também. Que se curva e agradece.
Posted by cacoishak at 26.08.05 13:01