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11.07.05
paraty é uma festa - leme, narguiladas & madalenas
suava frio, subindo a ladeira feito burro-de-carga-quinze-quilos-nas-costas. meta número um pós-flip: nas próximas incursões, dispensar os frutos supérfluos de minha precavida megalomania, levando na bagagem tão-somente o essencial para a boa higiene diária e as borrachudas que esquecerei de usar conforme o so nice pra chuchu fantasiado em considerações mentais que terei feito qual fazia enquanto, suando frio, subia a tal ladeira rumo à estação do metrô. restava-me pouco mais de quarenta minutos para chegar à rodoviária, comprar o bilhete para o rio de janeiro certificando-me do lugar marcado ao lado, dar aquela mijada automática que encerra o cago, matar a larica que o caminho havia me catado e embarcar tranquilo. mais seis deles, puta la vida de mi bagos libertos, e eu teria conseguido. embarcar, ao menos: sentaria-me ainda por três vezes sob a barba caída antes de realizá-lo e alforriar de vez as vértebras em nome da gravidade. já acomodado, senti a falta que fazia um cobertor sobre uma mão amiga a recrear-nos todos, preparar-nos todos ao longo das horas seguintes em que tudo ali, dentro e fora, jazia na esperança de assentos nem tão gélidos e vazios como o que me acompanhava. mas, a bem da verdade, até que não era uma má idéia aquela e, na falta de um ou outro detalhe, apelar para a cara de pau - certo que rosto propriamente dito não tem, embora há os que piram com seu olho único, boquinha matreira para outras tantas ou nariz avantajado saltando da vasta juba encarapinhada; rosto portanto, ainda que isoladamente composto - não me parecia de todo absurdo. envolto pelas sombras quase apagadas do fim de tarde, um livro aberto disposto num ângulo semi-cerrado sobre as coxas haveria de resolver meu problema. complicou, posto que, best-seller, chamou a atenção de uma velhinha que se levantava ao longe e ameaçava ir em nossa direção. e não foi. porque velhinha alguma não havia. por enquanto. não naquele trecho, nem naquele ônibus. mas havia um cão. e gelei quando paramos logo após a fronteira entre os estados. polícia rodoviária revistando os pertences dos passageiros e mirou certeiro, o pastor alemão, atravessando o corredor pendendo a mesma língua frouxa com que, eu já de olhos contraídos e ensaiando um lacrimejo, passou a lamber entre gemidos minha calça na altura da braguilha toda suja de porra que acabara de ejacular. era um best-seller, caralho. não dava para simplesmente maquinar um engilho assim, que nem em revista de avião. um tanto pra me livrar do pervertido e esperando pela inevitável abordagem, levantei-me de supetão e lá fui ser revistado pelo tutor do animal. que porra é essa?, perguntaram-me as mãos sujas. a resposta, óbvia, não titubeou. a minha, é proibido? tua mochila, rapá, quero ver o que tem dentro dela, vai passando. à vontade, mas vou logo avisando que tava sozinho de casa em casa e isso significa basicamente duas coisas: amantes não lavam as cuecas de seus hóspedes. e a segunda? pois é, como eu disse. disse o quê, rapá? tu tá de sacanagem comigo? de forma alguma, a mochila tá aí. querendo, é só abrir. ou eu posso abrir pro senhor e mostrar que não há nada de mais dentro dela. terminando de limpar os dedos: isso, faz isso pra mim. melhor não prolongar os aborrecimentos, não é mesmo? é o que eu sempre digo lá em casa. é porque é tu quem tá escrevendo isso, ô mané. e o ônibus partiu. não demoraria a chegar à maravilha que a capital me reservava. os três cigarros fumados um no rabo do outro (antes de adentrar o prédio onde me esperavam) na tentativa de esfumaçar um pouco o que então para mim era claro o bastante para bambear as pernas e tudo mais que elas sustentavam: paixão à primeira vista, perda dos sentidos - forçadamente, diga-se - ao primeiro abraço e completo torpor à primeira audição dos acordes tirados à cítara pela musa eterna joana coccarelli. menino tímido que sou, de tempo em tempo pausava em vão o fluxo nervoso de palavras soltas que se sobrepunham erráticas umas às seguintes entre uma narguilada púrpura e a baforada de minha consciência na esperança de que, de uma hora para outra, sem mais nem menos, a tevê ligasse sozinha e nos levasse, eu e calvin, o gato castrado que perseguia um cio impossível, para uma dimensão segura porquanto torpe, na qual estaríamos salvos das prendas que o amor nos obriga a todos pagar. no entanto, como é plausível no mundo eletrodoméstico das tevês, ela não ligou. tarde demais. ou ficaria ali para o resto dos meus dias ou tratasse de dar o fora sem pestanejar. e jojo dormiu. e fui me afogar um pouco no mar do leme, no intuito de exterminar os pensamentos impuros. malditos putos à prova d´água. persistiram pincelados qual pintura oitentista durante a noite inteira e até a próxima - de nada adiantaram as intervenções de ivan gosminha, fred leal, bruna beber e o besteirol sui generis que antecedeu a despedida. parcialmente recuperado do baque (resignado me soa um termo mais sincero), retornaram os tremeliques e fantasias que comigo levei para paraty na manhã em que, tão logo entrara no banheiro, dei de cara com suas palavras de adeus, escritas no espelho a batom escarlate.
(continua)
Posted by cacoishak at 11.07.05 17:12