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2.06.05

gyn, banana, capim & vela

desembarque direto rumo ao primeiro grande palco de ilusões. helicópteros exibicionistas dando de seus rasantes matreiros sobre o público boquiaberto, em meio a champagne, churrasquinho e bosta de vaca. comecei a entornar os rostos obtusos e o que mais viesse desde cedo, a partir das dez da matina e ao longo de todo um dia, até ser chegado o momento de desembainhar o móvel e fazer jus à noite que rosnava no cangote seus últimos suspiros de sofreguidão e enxofre – tão dramático, esse menino. bananada 2005, martim cererê, pyguá, iguá, lá pelas tantas: “liminha, rapaz, queria mesmo falar contigo”, ao que respondeu “bah, velhinho, diga lá”, grisalho desembaraçado e roliço que só ele. “liminha, liminha, liminha”, nem tão azedo não fosse miranda. nem percebeu, decerto. parte pra outra. a segunda noite já havia apresentado gratas experiências pirotécnicas pelas mãos dos abecês paulistas do ästerdon, daniel belleza e os corações em fúria sendo desprezados por heteros enrustidos – os mesmos que subiriam de três em três minutos no tablado para moshes cada vez mais glamourosos, naquele que foi o melhor e mais barulhento de todos. goianas à vista, ao tato e ao vento, chupando frenéticas a mistura de vodka, mel e corante de três sabores naturalmente artificiais. olho de esguelha, os rapazes do madame saatan se coçando em sua barraca, num revezamento martírio. “e aê, limi-nhaa!”. só na bojuda do zé. gauchada toda reunida, pernas pra que te quero em direção a mqn e rollin´ chamas num arrombo antisemita amoral e calórico, fechada a noite com os astronautas pernambucanos em gana de qualquer coisa que não cortasse a coceira. fim de festa. quatro da madruga. hoje não vai dar pra continuar, baby. dezoito horas bebendo. anda, anda, anda, que é pra curar o porre.

dorme, acorda às nove. de volta à rotina. abre a torneira às dez e carrega a mangueira pra tudo quanto é lado e hora. mulheres, mulheres, por favor, não paguem a conta. “é aí que tu tá trabalhando?”. dizque. mas ela nem deu bola pra mim, a nova vocalista da mordida. ou deu e eu nem aí. prossegue. e não foi antes o show dos meninos? pois é, foi. impossibilitei-me antecipadamente. mas fica o bom gosto de sempre. ao contrário de continentais combos do dia anterior e bravos resistentes do seguinte presente, que nem embalado agüentou. pois bem. volver, sapatos bicolores, mechanics, tudo numa boa, tudo numa nice. pra lá de bagdá, podendo a mente. de supetão, bandeiras vermelhas e azuis tomam o palco. “é o golpe”, me diz uma das portas. “que golpe?”, insisto. “todo mundo dá golpe, nós também queremos dar o nosso”. valentina – mulher-macho sim senhor – baixa o cacete. pontas catadas, faz a coleta e corre. zap, zein, bow! jup-jup, jup-jup, jup-jup, i love you, babe. amiguinho thunderbird no baixo, el recém-desospicializado júpiter maça leva ao transe de amebas a macacos, todos que ali estavam e mais uns outros que por ali passavam e mais um resto que sobrou em algum canto da órbita. frio. muito frio. eu, sozinho, no meio da rua, morrendo de frio. o show acabou? o festival acabou? acabaram-se. onde será que eu estava, que nem reparei, desgraça?

abre porteira, fecha porteira, faz uma força danada e, entre dores e delírios que interrompem o sono campal, reencontro-me, quatro dias depois. a mesma música, a mesma cara de cachorro matinal com pinta na fuça balbuciando palavras freadas aos que me rodeavam. a vida no campo pode ser bastante lúdica e engraçada. donas-de-casa morbidamente obesas, cozinhando o comê de seus peões que, após se alfinetarem a deus-dará, recolhem o matuto e se desculpam mutuamente. incestos subentendidos e a certeza do mal instaurado em olheiras fundas e negras e largas e fundas. os vinte e quatro anos logo chegariam, num amanhecer em malhas de veludo recoberto de tangerina. cacemos picolés de coco queimado, então, em ruínas de coralina. prontos para a verdade? todos, talvez. menos eu, aparentemente. não para eles. aportando na cidade, nem se encosta em casa. diagnósticos por imagem, conclave a dois. “se eu te pegar com cigarro na boca novamente, te encho de porrada e te enfio o maço goela abaixo”. psicologia antoinica. afinal, que porra é essa que me estufa o peito? linfoma, pelo que parece. feliz aniversário. ah, valeu, e isso seria...? um tumor. é, desconfiava. e qual o tamanho? de um limão grande ou de uma laranja pequena, ao gosto do freguês. maligno ou benigno? não é assim que funciona. linfoma é linfoma, sempre maligno. hum. tranqüilo. parabéns pra você, nesta data querida. e agora, o que tenho de fazer? não sei. não sei de nada ainda. não te preocupa, que nada será escondido de ti. na segunda, tu faz mais outros exames. muitas felicidades. depois, tu vai embora pra são paulo. é tão sério assim? não se sabe. enfim, sossega. muitos anos de vida.

Posted by cacoishak at 2.06.05 12:49