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23.06.05
corujices ato iii
dia desses, a luty levou o calvin pra brincar lá na casa da malu – só dá alcunha escolhida a dedo nesses núcleos familiares muderrrnos, inclusive as dos pais, bina e caco, vê se pode. praticamente um melrose place equatoriano. porém, como não é nome que vai sustentar ninguém em pé na hora do rango, atitude é o que conta na delicatésse do momento. e bota atitude nisso. tão logo chegaram e, pelo meio das minhas pernas, o moleque já foi se engraçando, dom juan que só ele, pro lado da minha menina. eu junto, claro, de olho nos dois o tempo todo. vista grossa e carão feio pro figurinha. como se alguém me respeitasse dentro daquela casa. nasci mané e trocaram a etiquetinha de identificação na maternidade. da feita que, fora dela, também ninguém me respeita, não muda tanto a paisagem e a gente acaba se reconfortando na frente do espelho, refúgio seguro e sem expressão alguma. tem a minha. mas, então, é que nem eu disse. não vale, ninguém respeita. e fizeram estrago profissa, os dois, deu perda total do imóvel. a luty, coitada, saiu de lá com a promessa de notas fiscais chegando pelos correios e uma lordose fudida de boa. em compensação, levou a máquina fotográfica high-tech cheinha de enquadramentos crássicos – calvin e malu se espremendo dentro de um baú de plástico, calvin destroçando o pescoço da malu, calvin apontando o dedo pra luty numa crise de caretice repentina (será o benedito? “homem não usa brinco”), caco mostrando pro calvin o piercing de sua verruga na batata da perna, calvin mostrando pra malu o sucesso que foi sua fimose, malu com uma baqueta numa das mãos e as calças do calvin na outra, calvin e malu erguidos cada qual por uma das mãos do enfurecido caco, caco aos prantos e aos cacos sendo consolado por luty, calvin e malu (automático) – e dezoito segundos de uma gargalhada feminina gostosa que se desencadeava à ordem paramilitar de sentido – já faz uma semana, hein, dona luciana, tá dando teia de aranha na caixa de entrada. e é por essa e por outras que eu não tenho dado tanta atenção a este logradouro desde minha chegada a belém. dez dias era tudo o que me restava na praça – agora, só mais dois – dedicação exclusiva a uma só passageira. que tomou conta direitinho do papai dodói, substituindo as pancadas de palma pesada pelo afago carinhoso toda vez que aparecia um estranho na área. aê, esse é meu véio, sou eu quem tô cuidando dele, tá todo bichado, tadinho, quer ver? e puxava minha camisa, mostrando a cicatriz da operação. devo ser um bom pai, afinal. ontem, por exemplo, fiz minha filha de um ano e quase três meses se mijar de rir nas fraldas com a leitura de trechos dos – hã-han – lusíadas. tá certo que ninguém me respeita (aff...), nem me leva a sério, nem nada - o que acaba amaciando a carne um tanto. mas que é do caralho quando esse ninguém é aquele troço que a gente inventou de dar à vida, me desculpem os puristas, mas ah, é. dá até vontade de viver mais um pouquinho, só pra mandar ela tomar no cu quando tiver seus quatorze anos. um acumuladão, inclusive pela poeira que deixa quando passa.
Posted by cacoishak at 23.06.05 13:23
Comments
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Que biito, caco, lindo texto... mocionei...
tua filinha deve ta linda, 1 ano e 3 meses...
abraço, muleque, te cuida, safado!
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Posted by: bernardelli at 23.06.05 14:46