« chamada final | Main | vade retro »
30.05.05
farinha, mel, cachaça e... rrrrock del cacho!

está nas bancas a 10a edição, com matéria deste.
cheguei faz pouco de viagem. vou ao médico. mais tarde restabeleço comunicação. por ora, a matéria na íntegra:
FARINHA, MEL, CACHAÇA E... RRRROCK
A faixa pendurada entre dois postes de luz anuncia a festa. No trajeto do estacionamento à bilheteria, impressiona a diversificação da fauna local, entre velhos punks, posers, bangers, maurícios/patys, mods, hippies, gonzos, publicitários, indies e zé ninguéns. Logo na entrada, um skatista de seus vinte e poucos anos deixa escapar o tom da noite, num jorro de vômito, rumo à várzea, dos mais espontâneos. Limpa o excesso na manga da camiseta e sai pulando, feliz da vida. Não para menos. É uma noite de sábado, que vem fechar o inverno chuvoso paraense, e Suzana Flag, A Euterpia, Norman Bates, Madame Saatan e Álibi de Orfeu prometem esquentar até o mais deprimido dos artistas plásticos, em um show beneficente que visa à compra de uma cadeira de rodas para o atleta especial Eliézer Morais, campeão, em sua categoria, da São Silvestre 2004. Filantropia por essas bandas? Muita coisa mudou no cenário independente belenense desde que Roosevelt Bala rodou a baiana no final da década de 70...
Ao contrário da união que, a partir do lendário disco de estréia do Stress (relançado em março), fez crescer o movimento metaleiro da cidade, hoje tida como a capital brasileira do gênero, outras vertentes, por muito tempo, se engalfinharam até a morte. Caso de nomes da geração de 80, que acompanhou o boom do rock nacional, como Mosaico de Ravena, Ácido Cítrico, Nó Cego e Criado Mudo (vide “Decibéis sob Mangueiras, livro do jornalista Ismael Machado). Enquanto “ninguém estendia a mão pra ninguém e os egos se comiam”, nas palavras do produtor musical Beto Fares, os filhos de Bala – progenitor do trash metal, segundo o próprio – batiam suas cabeças numa harmonia só. Ainda hoje, embora isolados nos guetos da Cidade Nova (Meca dos bangers, localizada no município de Ananindeua, circunscrito na grande metrópole), aos domingos, invadem a mais tradicional praça de Belém, assustando criancinhas e demonstrando a força de sua devoção. Não à toa, trazem mais grupos de fora do que qualquer outra ramificação musical.
A paisagem começou a mudar, no entanto, quando, em 1994, as primeiras batucadas retumbaram nas caixas de som dos aparelhos de televisão sintonizados na MTV, recém-chegada à urbe. Chico Science e o manguebeat, Raimundos e o forró-core, Sepultura e seu Roots. Foi demais para a cabeça dos meninos que cresceram ouvindo brega, carimbó e guitarrada. De repente, toda a rebeldia adolescente que os fez trocar as raízes por NOFX, na cola do movimento punk que vinha se consolidando desde a década anterior, não pareceu mais fazer sentido. De repente, ser rebelde passou a significar um mergulho de volta às águas ribeirinhas e toda uma nova leva surgiu. Unidos num mesmo grito de valorização do que é da terra, Mangabezo, Patato Maman e Cravo Carbono embarcaram na caravana de Hermano Vianna e mostraram sua identidade papa-chibé a todo o Brasil. Com exceção do último, não resistiram à correnteza e acabaram naufragando. Mas o estrago estava feito e o surf voltaria a ser praticado, tão logo a pororoca recuperasse sua força.
Correndo por fora, com a propagação da internet e os milhares de mp3 baixados diariamente, não demorou para que um punhado de novas bandas pipocassem nas garagens de prédios classe média. Uma indicação aqui, um empurrãozinho aculá e, da unidade estabelecida na geração antecedente, chega-se à atual cena paraense (ver boxes), formada por garotos que cresceram no porão da loja que tomou emprestado o nome de seu proprietário, Ná Figueredo, gastando suas mesadas com as roupas descoladas e os cd´s raros que lá são vendidos. “Se você prestar atenção no que a garotada está escutando, tem de tudo. É como se o que antes eram várias tribos tivesse virado uma única, universalizou”, afirma o empresário, espécie de padrinho dos roqueiros. Lá, fica também a sede do selo Ná Records, que dissemina a música produzida na região há mais de oito anos.
De igual importância para o fortalecimento dos grupos locais entre a população, a Rádio Cultura FM vem realizando um trabalho louvável de apoio e promoção dos shows, além de divulgar as músicas em sua programação normal e, em especial, nos programas Cultura In Concert e Balanço do Rock. Uma outra infinidade de rádios comunitárias leva a produção das bandas aos confins mais remotos, a exemplo da FM Cabana, que dá voz ao programa semanal da ong Pró-Rock, “associação com fins políticos, que tenta garantir espaço para os conjuntos a ela vinculados”, diretamente ou não, de acordo com seu Diretor Administrativo, o músico Rui Paiva. Entretanto, como há quem duvide que rock é feito de boas intenções, outras saídas precisaram ser encontradas.
Público em expansão, o cobre – ainda que barganhem – voltou a tilintar nas caixas registradoras de casas de shows e de produtoras como a Dançum Se Rasgum, que, quinzenalmente, promove orgias musicais no Café Com Arte, um casarão onde se reúnem, em média, 500 transviados sedentos pelo velho e bom rock´n´roll, à módicos dez reais. Apesar do bom momento, talvez mesmo relativo, não era bem essa a freqüência de louros quando foi dado o ponta-pé inicial, lembra Marcelo Damaso, um dos responsáveis pela organização da folia. “Falo que empurramos isso pra frente porque, quando voltei pra Belém, as coisas estavam meio paradas. Muita banda e muito roqueiro sem lar. Talvez as coisas tivessem sido mais lentas se nós não tivéssemos insistido”. Outro tradicional antro de perdidos é o bar Mormaço, palafita onde o texto teve início, que reencontrou, recentemente, após alguns anos fechado para balanço, sua vocação libertina à beira-rio, pela metade do preço do concorrente.
De boato em boato, afigura-se nos bastidores a realização de um festival alternativo nos moldes dos grandes do país. O intercâmbio entre produtores/músicos da área e bandas de outros estados acena nessa direção. Alex Zambba, produtor do grupo Eletrola, por exemplo, trouxe, na base da camaradagem, MQN e Autoramas. A própria Se Rasgum apresentou no palco do Café, repetindo o esquema, a também goiana Réu & Condenado. E como não só de vindas se faz uma interação...
Do que se depreende que a mangueira genealógica da música paraense, após um longo período de amadurecimento, finalmente descobriu a fórmula de frutos suculentos em dois de seus múltiplos galhos: numa extremidade, o rock casca-grossa – ainda que, às vezes, não engorde tanto assim – e, em outra, experimentalismos a partir de fusões de ritmos. Em miúdos, ainda que exagerado, é como se houvesse a junção do Rio Grande do Sul e de Pernambuco num só estado – ironicamente, naquele em que o ramo do metal quase se confunde com o próprio tronco. Décadas de tradição em ambas as vertentes, seja pelas mãos dos guitarreiros marajoaras ou da velha-guarda punk, apenas comprovam a tese – no mínimo, a cabeça coça. Foi-se o tempo em que jacarés abocanhavam jibóias e quem mais neles tropeçasse, nessa fauna maravilha. Aprenderam a lição do ditado, uni-vos e proliferai. Pelo menos, até a chuva passar.
Posted by cacoishak at 30.05.05 13:59