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15.04.05

primeiro de abril de dois mil e cinco, relatório final - parte final

vejamos... onde parei? pois bem. o gordinho me espreitava ao longe. estacionei a caranga, respirei fundo para acalmar os ânimos e fui ter-me com o guardião. voz aveludada e tranqüila, tendo o cuidado de não passar uma imagem de jovem transviado em busca de prazer imediato, perguntei por informações. "olá, amigo, me perdi pelo meio do caminho, será que ainda há chances de eu poder participar da ocasião?". foi falar com o mestre. "aguarde aqui, por favor. ele logo virá conversar contigo". acomodei-me num dos bancos de madeira dispostos no bangalô. aquilo era realmente bem maior do que eu imaginava. uma casa aos fundos comportava cozinha/banheiro/quartos/etc; ao lado do chalé, um outro de cujas várias estacas pendiam algumas dezenas de redes; mato por todos os lados e, seguindo a trilha, o templo. enquanto esperava pelo mestre, ouvia o que seriam os estatutos sendo lidos para uma platéia já parcialmente absorta na imensidão do infinito - ninguém dando bola para porra nenhuma daquilo, a bem da verdade, como pude constatar mais adiante. repetia curtos mantras de resignação, "não foi dessa vez, não foi dessa vez", quando da porta do santuário surgiu o guru publicitário. fui só sorrisos, dando de encontro com a sisudez do homem. estava que era só borracheira a essa altura do certame. sem bronca. se fui aceito, vamos lá. como é? então, tenho de ir lá na frente com todos me olhando, "é ele, é ele o responsável pela interrupção de nosso bem estar, que coisa feia, que falta de responsabilidade, que imaturidade, isso são horas de chegar, logo em seu primeiro dia?", assim, na cara dura? cadeiras para um lado, mais cadeiras para o outro e uma mesa ao final do corredor, onde estavam sentados os fodões da parada. numa das extremidades, o irmão mais velho do popó - yes, aquele mesmo - embaixo de um arco verde iluminado e com estrelas amarelas. cruzei a pista, mordendo os lábios como se pudesse, assim de repente, engolir-me, na ausência de buracos. "assistente?". o cara quase roncava debruçado em cima da mesa. "assistente?". hum-hum. "assistente!". passou o copo, no qual popó, carrancudo, entornou o caldo amarronzado. como se ninguém me desse orientação alguma - algo mui natural, vez que a reação normal ante uma taça cheia é simplesmente sorver seu conteúdo - o fiz de gute-gute, disfarçando o amargo para não piorar a situação já bastante vexatória. "sente-se ali". primeira dúvida: seria aquele amortecimento na garganta o responsável pelos vômitos copiosamente relatados? pagava pra ver, enquanto as golfadas iniciais dos mais adiantados já podiam ser percebidas do lado de fora. mbpbb´s eram entoadas à exaustão e a borracheira teimava em não bater em minha porta. comecei a ficar ansioso demais, cruzava as pernas e revirava a vista pelos cantos do recinto na esperança de encontrar mais alguém por quem sentisse empatia. nada. todos de lunetas vendadas. resolvi, então, imitar a experiência e, zamba, que foi isso, meu filho? olha só, que engraçado... o que será que acontece se eu clarear? eia! isso é demais... "eu seeee-eeeee-eeeee-eeeeiii". não foi essa a música, mas sim. foi bob charles. o pouco que tinha construí­do até então, desmoronou. abstrai, abstrai, vamos, você consegue. mentaliza coisas boas, não te deixa ir por caminhos tortuosos. cid moreira. não! aí­ já é demais. pausa estratégica e libertária para um cigarro. "fumar corta, fumar corta", lembrava sofregamente das palavras do mestre dois dias antes, quando pude conhecer seu filho prodí­gio, nove anos e tocador de bach ao piano. rebati: nada poderia ser pior do que o cid. levantei-me e rumei fora. a partir de então, a coisa começou na real. não andava, era levado. as luzes pipocavam de seus pontos rumo às órbitas de meu self num bailar de cores e agitos. formigões comemoravam o dia em que o tamanduá bateu as asas e a floresta clamava por minha presença. no entanto, a consciência falou que nem mãe (chegaste atrasado, fizeste barulho ao entrar e ao sair, não penses que ninguém escutou aquela risadinha que tentaste abafar e ainda queres dar o fora no meio do rito?). não pegaria bem, de fato. e, nascido voltado para a lua, retornei no justo momento em que se iniciou o festival de perguntas absurdas de figuras sequeladas ao mestre popó. "mestre... o caminho da luz se confunde com a própria luz?", ao que o mestre, após meditar profundamente sobre a questão, respondeu: "o caminho da luz (pausa de aproximadamente quinze segundos)... não se confunde com a própria luz (pausa - 15 seg.)... o caminho da luz (25 segundos)... é o caminho para se chegar à própria luz...". mais silêncio. e eu lá, punhetando a mente, por que será que nenhuma cobra, dragão ou boitatá aparece para me salvar? larguei mão de maiores pretensões meditativas e decidi unir-me à brincadeira. falavam, falavam e eu apostando corrida de kart, saltando de pico em pico num canyon, tacando a cabeça para dentro de um jacaré. e assim fui até o momento do adeus. ao final, todos se confraternizaram numa mesa vasta de salgadinhos e refrigerante. "nossa, hoje foi muito bom... e quando tocaram roberto carlos, então! o que foi aquilo, gente? que demais, meu!". popó havia sumido. aos poucos, todos iam se retirando. a noite havia acabado. e aprendi a lição. amanhã tem mais. levarei algodões. e algdonles. ao menos, no pukes.


não se lembra de nada?

primeiro de abril de dois mil e cinco, relatório final - parte um
primeiro de abril de dois mil e cinco, relatório final - parte dois
primeiro de abril de dois mil e cinco, relatório final - parte três
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Posted by cacoishak at 15.04.05 16:53