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27.04.05

meu amigo bacalhau

- o que te faz pensar isso?
- sabe quando estávamos passando pelo coreto e tu espirrou?
- lembro...
- quais foram tuas palavras logo depois?
- ah, nem lembro.
- queria ver o que tem por trás daquele portão...
- eu disse isso, foi?
- não te faz de desentendida!
- e o que isso tem a ver?
- ah, tá bom! como se tu não fizesse idéia do que se passa naquele muquifo!
- vê bem... não acredito que tu se noiou com uma bobagem dessas!
- não me noiei, só fiquei surpreso com o interesse repentino...
- mas não foi interesse e nem repentino! eu só tenho curiosidade de saber o que tem lá dentro... desde pequena que ouço as histórias do povo, tu também já deve ter escutado.
- ô, se já! que nem a daquela garota que estudava na sala ao lado...
- o que tem ela?
- vai me dizer que tu não sabe?
- meu bem, essas historinhas, não sei se te recordas, ficavam restritas ao clube do bolinha. o que chegava aos nossos ouvidos eram apenas suposições, tudo muito por alto...
- como se conosco fosse diferente...
- vocês tinham certeza de tudo! pelo menos, agiam assim.
- coisa de homem.
- hahaha! um bando de moleque pimbudo!
- mas que tu fazia questão de rodear...
- eram os uniformes, bestão!
- sei... e em qual das categorias peirceanas isso se encaixa? primeiridade, secundidade ou terceiridade?
- viu isso na aula de ontem, foi?
- que nada... venho lendo as coisas do cara faz tempo.
- que cara?
- charles sanders pierce.
- nunca vi mais gordo.
- é o pai da semiologia. dizendo minha professora, foi um gênio.
- depois que entrou na faculdade, ficou todo metido... publicitário é foda!
- estás fugindo do assunto.
- que assunto?
- do coreto.
- vem cá, tu acha mesmo que só porque por um breve momento vislumbrei a possibilidade de talvez um dia ultrapassar os limites daquele portãozinho furreca, só por isso e nada mais, eu não quero mais levar adiante o que a gente planejou?
- ou um ou outro, minha querida. os dois não dá, são incompatíveis.
- quem te disse essa besteira?
- o bacalhau.
- e o bacalhau lá sabe de alguma coisa?
- ele já fez isso várias vezes com aquele protótipo que o pai dele deu pra pesquisa.
- o bacalhau não sabe de nada.
- tu não pode falar uma coisa dessas, sabe... pode pegar mal até pra mim. o cara é safo pra caralho, tem uma puta bagagem e não é só no campus! falar no bacalhau em qualquer biboca dessa cidade épraticamente passe livre pra tudo de bom que há na vida!
- faz-me rir...
- não estou entendendo... tu nem conhece o cara direito...
- queria ir lá contigo, seu babaca!
- a gente vai, cara, pra qualquer lugar que tu queiras ir.. só lá que não.
- tá certo, se o bacalhau falou, então tá falado!
- ih, tá com ciúme do cara, é?
- por quê? tu virou bichinha por acaso?
- vai apelar?
- do jeito que tu falas dele...
- não falo de jeito nenhum, só acho que tenho muito a ganhar ficando na cola dele...
- não viaja, mané! tu não ganhas nada de útil! só vai ser mais um chaveirinho pra coleção dele! fico puta com um troço desses! o cara não sabe fazer mais nada além de ficar analisando edital o dia inteiro, fala francês que é uma merda, mas, não, todo mundo acha o cara o máximo só porque fez um mísero trabalho pruma empresa furreca de são paulo! e que, diga-se, foi roubado!
- quem te disse que foi roubado?
- ora, quem me disse! todo mundo sabe!
- todo mundo quem?
- ah, deixa pra lá, vai, esquece...
- quem disse?
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Posted by cacoishak at 27.04.05 17:13