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26.04.05

crede or not

duas e meia, ameaça de um novo dilúvio, aguardava no hall de entrada as chaves chegarem na companhia do cavanhaque para iniciar a matança dos ponteiros. aproximava-se um senhor de seus setenta e poucos anos, mancando para o lado esquerdo, com uma criança a sua frente fazendo as vezes de bengala. andava um pouco e saltitava, mais um pouco e novamente. a criança. o velho, limitava-se a pigarrear um "lá defronte, lá defronte" e puxava seu apoio para perto de si. irritado pela impossibilidade de continuar a brincadeira de não pisar nas linhas que dividiam os blocos de granito, o menino passou a imitar o perneta, indo e vindo em solavancos. como se o tédio continuasse, nos intervalos entre uma descida e outra, uma rodadinha. o velho, prestes a ter um piripaque e já apalpando o vento, desistiu de pronunciar verbo que fosse, apenas resmungava e se atracava no pescoço da criança. salão atravessado, sentou-se na cadeira ao lado da minha. o menino ficou em pé, fitando-me, o nariz escorrendo.

- o senhor tem filhos?
- tenho, sim. uma menina.
- é difí­cil tomar conta, não é verdade?
- ô... é seu neto?
- gostou dele?
- simpático.
- a mãe era uma cadela linda. pariu cinco filhotes, dois morreram. daí­, foi embora, levando os outros dois e me deixou esse aqui.
- ah, é seu filho?
- como assim? o senhor está pensando que eu bolino animais?
- imagina! não quis dizer isso, é só que...
- não se respeita mais ninguém hoje em dia!
- meu senhor, tenha calma. o senhor disse que a mãe dele fugiu e...
- não fugiu, morreu, tava velha demais, a lady, já tinha dado o que tinha que dar.
- sei... cuidar de uma criança sozinho deve ser uma barra, na sua idade.
- o senhor, então, acha que eu sou velho?
- que nada, hoje em dia isso não existe...
- pois fique sabendo que vou me formar doutor no ano que vem e volto aqui pra te prender! toma, fica com ele!
- ...

levantou-se e foi coxeando em direção à porta de saí­da. o menino, em pé, ainda me encarava. "é teu avô?". ergueu o dedo médio, soltou um grito e correu atrás do velho aos pulos.
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Posted by cacoishak at 26.04.05 15:13