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1.12.04
O Sequestro de Pepezinha

Caralho! Cinco anos se passaram desde a primeira edição e, simplesmente, não me dei conta disso. Parabéns atrasado, então, para o finado Macacada (FASHION)! Bons e velhos tempos ao lado de grandes amigos, como o Arouck, editor e idealizador da parada junto comigo, e o Márcio Guerra, chargista oficial do pasquim. Hoje, estão por aí... tem nego até em Portugal, com uma moral do cão, né não, Thiaguito Vianna? Enfim... Hiram Damin, Leo Menescal, Nirson Neto, pra ficar nos que contribuiram mais frequentemente... pra matar as saudades, fica aí o terceiro texto que escrevi pro jornal, na segunda edição, de novembro de 1999. Contava então com 18 aninhos, uma criança praticamente. Mas vale a pena dar uma lida rápida... impressionante o quanto todos nós evoluímos!! Então, lá vai:
Em São Paulo, as notícias de mais uma rebelião na Febem prevaleciam nas manchetes dos jornais. Decerto a pior dos últimos tempos, oferecendo ao público imagens dantescas como a de um espantalho humano em chamas no terraço de um dos pavilhões do recinto. O batalhão de choque da Polícia Militar tentava reverter, em vão, a caótica situação, da qual ela própria fazia parte, enquanto o restante da cidade de concreto se afogava em um mar de violência ainda pior. Era, de fato, uma guerra civil, onde o inimigo em potencial eram a fome, o abandono, o desespero, a ansiedade... ânsia de sobreviver.
Em meio à confusão, Joselino da Silva Santos, 15 anos, preso por ter roubado uma galinha no quintal do vizinho para saciar o apetite de sua família, aproveitara a chance que o Pai havia dado-lhe na fuga de um grupo de detentos, acompanhando os companheiros de cela na aventura, indo à procura de sua mãe e de seus dois irmãos, dos quais não recebia notícias havia um bom tempo. Estava, enfim, solto no mundo e toda uma longa estrada estava a sua espera.
Neste mesmo período, desembarcava, no aeroporto de Cumbica, o boeing 140 da VARIG, vindo do Rio de Janeiro, transportando a ilustríssima emergente carioca Vera Loyola, acompanhada de sua não menos ilustre cadela Pepezinha, que vieram à São Paulo para participar do "I Meeting Nacional das Socialites Brasileiras".
Como de costume, Vera estava deslumbrante, envolta em seus apetrechos luminosos, espalhafatosamente chique, tendo Pepezinha, e sua áurea coleira, em seus braços. Por um breve momento, deixou a cadelinha em uma poltrona, para que pudesse ser fotografada com sua bagagem Louis Vuitton por um profissional da revista Caras, e, quando se voltou para o assento, a pequena Pepê não mais lá se encontrava. Em seu lugar, um bilhete notificando o seqüestro de Pepezinha. As Louis Vuitton escorregaram das mãos de Vera. Vera escorregou-se pelo chão...
No dia seguinte, as manchetes dos principais jornais, não somente de São Paulo, como também do Rio de Janeiro e de diversas capitais, noticiavam o cruel seqüestro da infortunada cadelinha. Restava, então, uma mísera coluna, quase que oculta, a respeito da rebelião na Febem de Joselino da Silva Santos.
Enquanto isso, Joselino, após percorrer, a pé, uma infindável distância até sua favela, finalmente deparava-se com a porta de seu barraco. E também com uma placa onde se lia, em letras escritas a giz, "VENDE-SE". Quebrantou a porta e em seu antigo lar somente encontrou solidão. Atordoado, sem encontrar respostas para suas poucas perguntas, decidiu investigar sobre o paradeiro de sua mãe e seus irmãos. Não foi difícil descobrir que seu irmão mais novo morrera havia pouco, devido a uma bala perdida, tempos depois de seu irmão mais velho ter tornado-se um travesti e desaparecer mundo afora. Sua mãe, coitada... esta, também morrera... de desgosto... Joselino estava sozinho nesta vida impiedosa, sem mãe, sem irmão, sem teto... com fome.
Do outro lado da metrópole, em frente ao Palácio do Governador, uma multidão enfurecida e indignada, liderada pelo Comitê Pró-Pêpe, este composto pelas mais caridosas emergentes, tais como Narcisa Tamborindeguy, a pseudo-aristocrata Maria Georgina Pavão de Almeida Machado - ufa! - e a própria Vera Loyola, proferiam, em voz alta, palavras de ordem, para que o governador Covas procurasse fazer justiça, que tomasse uma medida drástica a respeito do acontecimento em questão.
Coagido pelo povo, que mal sabia o que ali fazia, e pelas emergentes, o governador Covas mobilizou, então, a Polícia Militar e a Polícia Civil, para que não descansassem enquanto não achassem a tão bem amada Pepezinha. Fora elaborado todo um minucioso esquema de resgate por parte dos policiais, como nunca antes se vira em São Paulo. Enfim, os pracinhas estavam nas ruas!
E nas ruas, à mercê da sobriedade, estava também Joselino da Silva Santos, às duras penas, tendo a febre como sua coberta e a leptospirose como seu travesseiro. Vagava sem rumo pelas avenidas ao encontrar um grupo de pessoas eufóricas, e pôde escutar da conversa destes algo sobre uma "enorme e milionária moradia, onde todos estavam a habitar de graça". Tal idéia encantou o pobre menino, que resolveu seguir tal grupo àquela profética terra de Canaã. Ao longo do percurso, observou, na vitrine de uma loja, vários aparelhos de televisão com a imagem de uma cachorrinha. Tudo indicava que estavam, desesperadamente, procurando o canino. Joselino, então, seguiu adiante, acompanhando o grupelho.
No gabinete do governador, o rebuliço controlava a situação do seqüestro de Pepezinha. Além do Comitê das emergentes e dos vários jornalistas, ali também encontravam-se Lula, ACM, Ciro Gomes, Garotinho e Brizola, todos prestando solidariedade à inconsolável Vera Loyola. Não podia um repórter se aproximar da socialite, que ao lado dela já debatiam-se os candidatos 2002, buscando um meio de apareceram na TV confortando aquela dócil senhora, massacrada pelas mazelas da vida.
Joselino da Silva Santos, enfim, chegara com o grupinho no tão falado prédio. Do lado de fora, vários cartazes ocupavam as paredes da construção. Em um deles, Joselino pôde ler algo como "Os Sem-Teto comandam o TRT!". Não compreendia ao certo o que se passava, porém, entrou no imenso prédio e por lá ficou perambulando. Ainda estava com fome. Procurava algo para comer, ao encontrar em uma sala onde uns cinco ou seis homens molestavam uma cachorrinha indefesa.
Oh! Era a mesma da televisão! O que fazer agora? O menino Joselino se atormentou com suas dúvidas. Entretanto, ao encarar aqueles olhos de uma profunda melancolia da cadela, decidiu-se por avisar às autoridades sobre o paradeiro da cachorrinha.
No gabinete do governador, o telefone tocou. O silêncio, então, reinou em um clima de suspense barato. Todos se entreolhavam e eram atentamente observados pelos telespectadores do Brasil inteiro, ao vivo, via satélite. Todo o país havia parado graças ao seqüestro de Pepezinha. O ar na sala era tenso.
- Acharam a cachorra! Está na construção do TRT, foram os desgraçados dos Sem-Teto que roubaram a pobrezinha! - brandiu o governador.
Em menos de um minuto, Covas se viu sozinho em sua sala e resolveu também seguir rumo ao TRT. As ruas estavam tomadas pelo povo, todos em uma marcha sincronizada, dispostos a tudo enfrentar, caso necessário fosse, para libertar Pepezinha das garras malignas dos Sem-Teto. Não se via tamanha multidão nas ruas desde a campanha "Diretas Já!". Pouco tempo depois, o prédio do TRT estava cercado. Vera Loyola estava impaciente e nada mais lhe interessava, senão rever sua cadelinha tão amada. Invadiu o edifício e foi seguida por todos. Procuravam em todas as salas, mas não encontravam nada além de mortos de fome esparramados pelos cantos. A correria continuou, até que alguém parou, fazendo com que todos parassem. Vera se espremeu por entre a massa em silêncio e conseguiu ver o que todos viam, pasmados.
A cabecinha de Pepezinha, nesse tempo sem a coleira de ouro, estava sendo disputada por três ratazanas. O restante do corpo... bem, este estava ao fogo, sendo assado, um churrasquinho de primeira categoria! Vera, há muito, estava no chão.
Os Sem-Teto ficaram sem reação ante tanta gente e acabaram por ser quase que linchados pela multidão, porém, um dos seqüestradores conseguiu algo exclamar:
- Pelamordideus, meu! Deixa nóis falar! Nóis fomo mandado pra sequestrar o bicho! Nóis não tem culpa não! O mandante é o...
A cancerosa massa mal esperou que o Sem-Teto se esclarecesse. Tão logo pronunciou o nome do verdadeiro vilão e o motivo pelo qual havia armado o seqüestro, foi brutalmente aniquilado pela cólera coletiva. Foram, então, em busca do seqüestrador-mor.
* * *
Próximo ao Distrito Federal, uma tropa de dois mil homens da PM de Minas Gerais, comandadas pelo governador Itamar Franco, marchava rumo à Brasília, dispostos a tomar o poder e instaurar a ditadura do Topete Mineiro. Itamar era só sorrisos, falhando em sua tentativa de reprimir a ansiedade.
- Nossa Senhora! Esse trem tá bom demais da conta! Tá tudo dando tão certinho, que eu nem acredito! í”, me dá um pão-de-queijo, aí! Vamos comemorar, minha gente! Enquanto os bobão tão lá, preocupados com a cadela da Loyola, nós tamo aqui, indo pra Brasília dar um chute no traseiro do Fernando Henrique e tomar o poder! - discursava o governador mineiro - Meu plano deu certo, ninguém tá nem desconfiando!
Realmente, não havia viva alma que desconfiasse da participação de Itamar no seqüestro de Pepezinha e de suas idéias de invadir a capital brasileira. Todos, salvo raríssimas exceções, estavam então certos disso!
No Planalto Central, o presidente Fernando Henrique Cardoso se encontrava em um estado de puro desespero, após ter recebido as notícias de que Itamar Franco e sua tropa estavam a caminho de Brasília. Convocou o Exército para que este defendesse a Soberania Nacional, entretanto, não apenas o exército, mas as Forças Armadas como um todo, recusaram-se a obedecer as ordens do presidente, entrando em greve devido aos baixos salários e ao corte em seu orçamento por parte do Estado.
Fernando Henrique não acreditava que tal situação pudesse estar, de fato, acontecendo. Era de um surrealismo berrante, não podia ser verdade! O que estaria acontecendo neste país, meu Deus? Que um governador às margens da loucura trame o seqüestro da cachorra de uma emergente em um país sensacionalista por natureza, para que possa, então, instaurar uma ditadura, pode até ser concebível! Agora, o Exército entrar em greve? Tenha a santa paciência! Fernando Henrique estava só, não poderia contar com o auxílio de ninguém, já que todos estavam em São Paulo. Não havia outra escolha, senão esperar pelo pior. Chamou por Dona Ruth e os dois ficaram acompanhando os telejornais, apreensivos, com uma bacia de pipocas nas mãos.
Na marcha rumo ao Planalto, Itamar era de uma tranqüilidade inabalável, empanturrando-se de pão-de-queijo e tomando uma cachacinha de vez em quando, apenas para esquentar o clima um pouco. Restavam alguns quilômetros para que, finalmente, a tropa chegasse em Brasília, quando, do alto dos céus, surgiu uma voz em meio a um som estranho, como que de trovões:
- Itamar Franco, pare com esta farsa agora ou se arrependerá!
Devido aos goles de cachaça, Itamar, a princípio, imaginou que pudesse ser Deus lhe falando. Enfim, descobriu que a voz vinha de um helicóptero do Governo do Estado de São Paulo. Seus poros dilataram e sua testa começou a suar. Pensou em ignorar o helicóptero e seguir em frente, quando um dos seus subordinados veio correndo em sua direção para avisar-lhe sobre a multidão que estava a cercar a tropa por todos os lados e que, em breve, estariam ali. As pernas do governador golpista tremiam e não mais haviam pão-de-queijo, o que aumentava o pânico de Itamar.
Logo chegaram mais alguns helicópteros, inclusive os dos telejornais, que transmitiam o campo de batalha para todo o Brasil. A massa injuriada estava, então, há uns poucos metros e não havia o que se fazer, senão atacar. E assim fora feito.
Era uma luta razoavelmente justa, já que ambos os lados não possuíam as mínimas condições de combate. O povo brasileiro acompanhava atônito tal espetáculo, elevando a audiência das emissoras a níveis nunca antes alcançados na história da televisão tupiniquim. As câmeras todas focalizavam o governador das Minas Gerais, no centro da confusão, protegido por seus soldados.
Eis então que surge do meio da multidão, conseguindo passar pelos guardas do governador mineiro e, por fim, agarrando-se ao pescoço de Itamar, o menino Joselino da Silva Santos, que inicia uma batalha individual contra o mineiro, desfechando-lhe arranhões, puxões de orelha, mordidas e sacolejos. As câmeras filmavam tudo, inclusive o exato momento em que a guerra entre as multidões cessou.
Todos se voltaram para aquela cena um tanto deprimente, ao mesmo tempo cômica. Um moleque de rua no cangote do governador das Minas Gerais, Itamar Franco, estando ambos a observar, constrangidos, um topete estirado no chão. Sim, era o do governador. E sim, era, na verdade, uma peruca.
A raiva se transformou, então, em ironia. Todos gargalhavam e contavam anedotas sobre a careca de Itamar, não apenas os que estavam a seu redor, como também os telespectadores de todo o país, inclusive Fernando Henrique, que quase se molhava de tanto rir. A tropa da PM mineira se retirou, indignada, sendo alvo de chacotas do povo, humilhada pelo fato de ter aquele símbolo da decadência moral como seu líder. O constrangimento era tamanho, que o povo preferiu esquecer Itamar Franco e deixá-lo viver com sua vergonha. De fato, desde então, nunca mais ouviu-se falar no ex-governador de Minas Gerais. A paz, enfim, voltou a reinar nos Estados Unidos do Brasil.
Já de volta ao Rio de Janeiro, Vera Loyola, totalmente recuperada da traumática perda de Pepezinha, desfilava pelas festas da sociedade carioca com seu mais novo bichinho de estimação, Linozinho:
- Querida, ele é ótimo! É obediente, não late, não faz xixi nos tapetes, é perfeito! Fui obrigada a mudar seu nome, obviamente! Já imaginou sair nas revistas que eu dei uma festa de aniversário para o Joselino!? É muito brega, você não acha, querida?
E assim se deu a história de Joselino da Silva Santos, que, graças a seus heróicos atos, pôde optar entre continuar vivendo nas ruas ou ser adotado como o cãozinho de uma abençoada senhora, emergente carioca. Ora, o que você escolheria?
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Posted by cacoishak at 1.12.04 22:19