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9.12.04

ALUGA-SE MíRTIRES

Mas quem é esse garoto, de onde ele veio? É impressionante o estrago que ele está fazendo na zaga do time adversário! E, olha só, pegou a bola de novo... lá vem ele, veloz pela lateral esquerda, dois contra cinco, o companheiro pedindo a bola, mas o menino não parece estar disposto a dividi-la com ninguém, já passou por um, vem se aproximando da grande área, marcado por três jogadores... agora seu companheiro de equipe está em posição de impedimento, chega um quarto jogador para marcá-lo, o quinto que ficou para trás chegando, mas o menino não larga a bola, faz gracinhas, deixou dois no chão, fingiu que iria por um lado, foi pelo outro, meteu por entre as canelas do zagueiro, está atravessando a grande área, deu um chapéu no último jogador do outro time, matou no peito, chutou e gol! Goooool!!! Mas que golaço! Mas que go-laço! O goleiro não conseguiu nem ver a bola, ficou totalmente paralisado em seu canto! Todo o time corre para abraçar sua mais nova revelação, o salvador da pátria, quem fez o gol que pode dar ao clube o tí­tulo de campeão estadual pela primeira vez em sua história, faltando apenas três minutos para o fim do jogo! Mas ele não quer saber de abraços, sai correndo sozinho pelo campo, em direção à torcida, esse garoto ainda, de apenas dezesseis anos de idade, uma promessa para o futebol brasileiro! E, olha lá, que bonito! É isso aí­, menino, comemora, faz tuas graças! Parece mais malabarismo, de tanta cambalhota que ele está dando - acrobacias, né! E a torcida vibra! Que beleza, esse é o futebol brasileiro! E ele não pára, vai pulando de um lado pro outr... opa, a queda foi feia! A queda foi feia, hein! Acho que ele se desequilibrou na hora de cair e bateu com a cabeça no chão de mau jeito... está caí­do, imóvel, sem se mexer, todo mundo corre para ver o que aconteceu... momentos de apreensão... ninguém sabe o que de fato aconteceu, a equipe médica vai toda em direção do jogador, parece que a coisa foi feia, a situação é grave! Os médicos fazem sinais, a torcida em total silêncio, todos se perguntando o que aconteceu com o artilheiro de seu time... estão imobilizando o pescoço dele, vão colocá-lo numa maca, acho que ele será retirado do campo... é nessas horas que eu me pergunto, por que será que... clic.

- Acabou?
- É, foi... acabou. Vai pro quarto descansar, vai, tia. Daqui a pouco tem mais jogo... da Seleção.
- í”, mas que beleza! Quem foi escalado dessa vez?
- Não sei, tia, não sei, não. A gente vê isso na hora... vai dormir um pouco, vai.
- Tudo bem, mas me acorda antes de começar, viu? Não posso perder esse jogo por nada nesta vida!

Pode deixar, eu aviso. Amanhã de manhã, bem cedinho, tão logo eu acorde, na hora do almoço. Com o remédio que tomou, não vai querer saber de jogo nenhum mesmo. Além do mais, oportunidades não faltarão de assistir a todas as partidas de todas as seleções do mundo, está tudo gravado, um armário cheio de fitas de jogos de futebol, vai poder se esbaldar à vontade com pernas e sabe Deus o que mais ela consegue enxergar nesses noventa minutos de chutes e palavrões vindos de tudo quanto é lado, sem rumo certo, atingindo o primeiro que se sentir no direito de acolhê-los e multiplicá-los. É a maior paixão da velha, coitada. Jogos de futebol. Não digo a única, pois além do poodle sem dentes, obeso e centenário que se mudou com ela pra cá, bem sei que a pobre me ama também, aquela baboseira toda de o filho que nunca teve, nem tanto por incompetência própria, como pela falta de homem paciente o bastante para aturar as esquisitices que desde cedo a acompanham nesses oitenta e poucos anos de loucura e dribles na solidão. Dizendo minha mãe, que Deus a tenha, titia - na verdade, irmã de minha avó - já tinha sido muito garbosa na juventude, mas, ninguém sabe ao certo o porquê, endoideceu ainda moça, não dando chances às aproximações dos pretendentes que meu bisavô lhe arrumava. Foi envelhecendo, com o tempo a esclerosando ainda mais, coitada, de mão em mão passando pelos familiares até aterrissar na monotonia diária do cidadão desocupado aqui, à incompreensão de todos. Como é fácil de se lidar com a velha - é só colocar uma gravação de um jogo qualquer no ví­deo e torcer para que ela seja feliz em seu sono forçado -, preferi não arrumar confusão com os parentes, resolvendo aceitar os surtos de campeonatos mundiais por ela testemunhados em delí­rio e a ajuda de custo oferecida pelos primos em cuja casa estava antes da mudança. O cachorro estava dando muitos problemas, afirmaram desta vez, avançando em tudo quanto era convidado da casa, chegando até a morder o calcanhar da filha de não sei quem boulhosa. Bons tempos que com os dentes se foram. Já que titia não conseguiria viver sem seu precioso, pensaram que talvez eu, sozinho na vida e simpático a animais, pudesse acolhê-los sem problemas. Sem muito pensar, acabei então por concluir que, depositando mensalmente em minha conta o dinheiro para a ração do bicho, tudo bem, sem problemas mesmo. Não me importaria em ir ao mercado comprá-la, já que, com essa vida de jornalista desempregado e escritor virtuose ainda não reconhecido pela crí­tica nem pelo público, o que não falta em meu dia é tempo pra ir ali na esquina de quando em quando. Problemas, teria no dia em que esse projeto de cão morresse, aí­ sim, minha vida se tornaria um calvário. Não bastassem os traumas que já possuo quanto ao assunto - há alguns meses, ainda só e provavelmente por isso, comprei um vira-lata, baratinho, com direito a uns tantos vermes de brinde, os quais motivaram a visita do miserável a um veterinário recém-formado, cheirando a leite, baratinho também, que acabou receitando ao animal uma quantidade de medicamentos tal, que não só matou todo tipo de organismo vivo dentro do intestino do cachorro, como inclusive o próprio, de overdose no meio da madrugada, e eu lá, sem saber o que fazer e, cansado de me sentir um completo inútil a observar aquela criatura estrebuchando no chão do meu quarto, de olhos esbugalhados e arfando de lí­ngua pra fora, decidi ler um livro qualquer até o momento em que ele, enfim, quebrou o pescoço, tamanha fora a violência de suas convulsões, para que, então, já o dia amanhecendo, eu o depositasse numa caixa de sapatos e deixasse o resto por conta do caminhão de lixo que logo passaria - não bastassem meus traumas, seria obrigado a consolar titia por um bom tempo, assistindo com ela a todas as finais dos campeonatos brasileiros que temos aqui em casa, não poucas. Isto, se ela durar até a final de 95. Do jeito que as coisas vão, perigava o consolado acabar sendo o banguela do poodle dela mesmo. Coitada - não encontro outra palavra para referir-me a ela, coitada. O que, parando para pensar um tiquinho melhor, não lhe soa tão bem assim. Antes fosse descoitada, já que pela experiência do coito, até onde me consta, nunca passou. Que não me julguem mal pelo trocadilho, mas, ai, os trocadilhos, diria com meus dedos lambuzados de brigadeiro, como os adoro, principalmente se são para confundir a cabeça de titia. Se, nos tempos de redação, eram meu passatempo preferido, na hora em que tinha de elaborar as manchetes do dia, imaginem quanta não é minha satisfação ao oferecer uma dedada à titia, uma delí­cia, bem docinho. Não, não me tomem por um monstro. No fundo, até gosto dela, gosto sim. Depois que meu vira-lata se foi, é bom ter um certo movimento em casa, constante e que forneça algo próximo a uma espécie de segurança ao equilí­brio mental que tento manter em sábados como este, dias em que tudo parece ser um pouco menos do que realmente é. Acredito que seja isto mesmo. Não permitir que eu perceba estar a situação bem pior do que venho imaginando, eis o papel de titia em minha vida.

Que continue a dormir, então. É quase noite e já tive minha cota de realismo fantástico por hoje. Nada mais de rezadeiras aos quarenta e seis do segundo tempo, nem de beijos salivosos enquanto o cão fica alucinado com a gritaria e começa a esfregar-se em minha perna com cara de quem acabou de sair duma cirurgia plástica. Quero mais é arriar as calças e fazer chover. O cachorro, titia? Sim, sim, foi dar um passeio com Seu Douglas, o zelador, já deve estar voltando, daqui a pouco está por aí­ novamente, feliz da vida, mordendo o pé da mesa e arrastando o saco pelo chão frio. Não se preocupe, titia, está tudo bem, vá dormir. Não dizem que cachorro sempre volta pra casa do dono? Ou são os gatos que voltam? Percebe a diferença? Nem eu, nem ela. No fim, dá no mesmo e acabo dando um gato de presente pra titia. Certo que a embocadura é um tanto menor e o que latia era desdentado, mas hei de arrumar um jeito para que as coisas fluam naturais e titia há de aprender a ronronar seus prazeres, tão bem quanto os rosnava. Tomara que o cachorro volte, novatos são sempre um problema. Um dia a menos não deve ter a importância toda que lhe atribuem e, sem querer, na toada de uma bisca em vias de lordose crônica que lhe apavora a cauda e faz cantar o serelepe, termina por adiar um pouco mais a hora e esticar as patas rumo ao sul estreito. Eu me martirizar assim e por causa disso, é que não vou. De irracionalidade e chapa quente muitos morrem no comboio da madrugada, não seria uma fechadura trancada que impediria o cajado de cair na cabeça de alguém. Se pisou no asfalto e se mandou, não tenho nada a ver com isso. A velha, coitada, que se entenda com as ratazanas do vizinho. Já tenho muito com o que me preocupar, fique sabendo. Acabaram de me bipar lá da operadora, não se esqueça de, por favor, pagar em dia e dinheiro sua fatura que vence no dezoito próximo, evitando futuras complicações, vez passadas de acordo com o histórico de sua conta conosco. Quinhentos e cinqüenta e nove paus de celular foi o valor da lascí­via deste mês. As brincadeiras estão começando a ficar caras demais para quem ainda tem de encher as bexigas da festa. Mas, com a contaminação que o ar desta casa vem sofrendo, sentar e escrever são duas palavras que, juntas, não hesitam em misturar barbitúricos com aguardente e logo se excitam com a probabilidade dos urros e uivos que vêm da sala convidarem um nome da caderneta vermelha para um mamãe-eu-quero dos sacode. Assim, não há sangue que sobre para que os dedos fiquem rijos e a narrativa flua gostosa. Nem vale a pena relembrar o quanto já me estrepei por conta da pendenga, abrindo mão da genialidade enfim reconhecida por um punhado de sinais de ocupado ou pedidos de desculpa ofegantes. O resultado dispensa a reiteração do óbvio: debilitado, só me restam forças para uma maior angulação das pernas e um assobio dengoso. Ao tempo em que limpam o trabalho sujo, fico divagando sobre as idéias para contos perdidas por entre gemidos e as excreções literárias que defecava nos intervalos das ejaculações. É esse o presente da literatura, exatamente como nós a desconhecemos. Titia que o diga, coitada, de olhos no futuro. É uma santa e nem se dá conta disso. Numa hora dessas, já deve estar toda encharcada, disputando a bola com três zagueiros baianos. Ainda escrevo sobre ela. O difí­cil será arrumar um assunto a respeito do qual tratar e calmaria para fazê-lo. Titia me parece ser bastante fuzarqueira e, fecundação, ali, desocupou o imóvel faz tempo. Ando muito desconfiando, ultimamente, das coisas que me fazem pensar de certa maneira. Acho que sou retardado. Não tenho uma história e desaprendi a escrever. Não sei porque ainda perco meu tempo tentando. Antes estivesse no quarto, batendo uma bela duma punheta pra qualquer putinha de novela. O que me atordoa é que já fiz isso, coisa de hora e meia atrás. Portanto, não me resta opção. É isso aí­ mesmo. Não há opção. Sem história, não sei escrever e com a cueca suja de porra seca. Isso que é não ter mais nada para fazer na vida, ser escritor. Escritor... escritor é o caralho. Quero mais é virar publicitário, eleger presidente e encher o cu de grana.

Tenho de economizar nas conversas por telefone. Falar menos e foder mais, sabe como é. Continuar nessa de passar o dia tomando um não dá mensagem abaixo, aquele papo nasalado de me erra, garoto, vê se me erra, enquanto me estico um pouco para coçar o rabo suado de ficar sentado no sofá limpando o umbigo, já está deprimindo a paisagem. Pensar no trabalho que tive para completar essa lista. Anotava tudo quanto era combinação de números que conseguisse fazer com o que a sacana articulasse depois de alguns minutos de declamações ao pé do ouvido. Geralmente, as dúvidas que me impediam de concluir a elaboração de sua ficha na caderneta eram tiradas logo em seguida, ao tempo em que enfiava besteiras em sua cabeça e chupava gelo redondo com chiclete durinho, para, daí­ então, nunca mais. Outro truque que aprendi nas redações, ao contrário do que imaginavam as focas, doidas que estavam para que alguém as amestrasse num pau-de-arara. E assim vou levando. Nego-me a reconhecer que minto quando digo não fazer idéia do porquê do quadro ter se revertido. Bem mais simples seria provocar a confissão como se fosse em prol do prazer do detrator, como fazia. É o que digo, qualquer um fica mareado do alto de uma construção dessas. Se parasse com a embromação, talvez minha cama estivesse mais atulhada de gente e cheirando a peixe com sol na nuca. Não preciso que me toquem num dos ombros, sei reconhecer quando cada palavra está necessitando de uma entonação especí­fica e o caldo engrossa antes do tempo. Hora da pí­lula cantante. Tenho de me recompor se quiser dar seguimento à dança. Tomei. Minha caderneta vermelha. Após as perguntas, os dados todos iam parar lá. Basicamente nome, telefone e o perí­odo da menstruação de cada uma, quero me salpicar todo com o bafo quente do teu paquete - será que agora entendem de onde as bailarinas saem? A conveniência ditava as regras e, como disse, dúvidas nunca mais. Não me importava com os traumas da infância nas mãos dos vizinhos que carregavam entre as pernas, nem com o que as vizinhas falassem do movimento; um ruí­do e enchia a boca delas também, lambendo os beiços. Só me esforçava para que acreditassem no que lhes dizia o momento, teso que nem pedra. Memórias de uma mulher quase sempre desagradam, tem de socar bem forte para que permaneçam lá no fundo e não violem nenhuma regra de conduta. Foi quando titia chegou com o poodle e me deparei com o outro lado da força. De repente, quarto vazio, tornou-se mais cômodo trocar pequenos mimos por favores especiais a ter de gastar com motel ou convencer que valeria demais a pena se ela gastasse e acabei relaxando. Certa vez, quando mais moço, saí­ com a puta que ficava ao lado de minha janela, aqui na esquina de casa. Devia ter seus trinta e cinco ou sete anos e me chamou de gostoso quando passei por sua frente. Parei, ela deu dois passos e pegou no meu pau. Fiquei apaixonado e viemos pra cá. Ela se casaria comigo, contanto que eu pagasse adiantado. Paguei e, nos quarenta e cinco minutos seguintes, fiquei planejando os detalhes da cerimônia. Ao perguntar o que ela achava, disse, desabotoando minhas calças, que já era casada, masturbou-me e, serviço feito, foi procurar um ponto novo. Quase um conto de fadas, não tivesse me sentido um pouco indisposto por ter lambuzado de esperma a mão da única pessoa que conhecera que realmente fazia sentido no meio de tanta aberração marginal por aí­. No entanto, dos tais pequenos mimos não reclamava até o dia em que o cão mordeu doí­do e saiu correndo pela porta. Hoje. E me abandonou nesta modorra. Sem quarto, nem cachorro, a derrocada de um homem não tarda em chegar. Tenho de economizar. Mas é quase impossí­vel resistir ao apelo de um mistério por se revelar e a possibilidade que me avoluma, uma questão de sobrevivência no meio em voga. Vamos ver, então. Alice... é daquelas que quase vomitam, tamanho é o gosto que tem por um cacete na goela, essas coisas de encarar a morte de perto enquanto treina para ser maratonista. Uma vez me disse que sonhava em ser triatleta e a convidei para ir ao cinema. Não apareceu e, ingressos comprados, entrei sozinho. O dela, troquei por jujubas. Não posso dizer que me incomodei com o fato de todos estarem acompanhados, o som das cadeiras rangendo até me agradava, trilha sonora em harmonia com as cenas de ação. O problema foi o sujeito ao lado ter me apalpado para aliviar a dor. O lanterna disse que nada podia fazer, relaxei e acendi um cigarro. Era proibido fumar, a bichinha começou a se contorcer e gemia por socorro. Não me restou opção, senão validar a impressão e apagar o cigarro em seu rabo, indo embora sob o protesto de seus companheiros, que me ameaçavam com giletes e preservativos por eles empanturrados. Alice nunca ligou. Acabei descobrindo que, de tanta seiva, petrificou e parou de correr. Soraia, menstruada. Escritor bom, para ela, tinha de escrever sobre a miséria bucólica de pequenas cidades de paí­ses sul-americanos ou duendes que fabricam suas próprias calças a partir do resto que sobrou do almoço. Talvez, Jaqueline... vem cá meu tuiuiú, ao que lhe indaguei meu o quê, mulher? Ela. Meu tuiuiú, meu tuiuiúzinho, nunca viu um tuiuiú, não? Eu. Não. Ela. É aquela ave do pantanal, que tem um papão enorme, que, quando dois machos brigam, infla, fica que nem uma bolsa escrotal bem grandona e aquele bicão no meio e eu aqui, com meu tuiuiúzinho. Jaqueline tinha essa mania de ler revistas cientí­ficas e assistir a documentários, destacar os assuntos que mais lhe interessavam e colocá-los no cotidiano do dia seguinte, na cama principalmente. Quinhentos e cinqüenta e nove reais. Dá quase pra enrabar apresentadora de televisão com essa grana. Dizem que pagar por sexo tem suas vantagens, como se fossem dois os comandos do corpo de uma mulher. Profere um, a devassidão solta o verbo e envergonha até seminarista. Profere o outro e ela simplesmente cala a boca, meu estilo preferido. Cansei de orgasmo ultra-realista-high-techno-pop. O bom e velho rasga as costas com os dentes cravados na orelha deve ter seu valor ainda preservado na tabela de uma profissional. Nada de divagações a respeito de intrigas familiares ou do preço do açúcar. Uma transa crua e mormacenta, sem cremes hidratantes, posições que dão nó na coluna ou preliminares. A imagem do meu esperma naquela mão não deveria ser um bloqueio. Amanhã, sabe deus, sou castrado, e aí­? Vai doer o acumulado pro resto da vida. Não entendo o porquê de querer ser santo numa hora dessas, se até com carola no pé do altar eu já buli. Vamos parar com essa frescura, então. Ela brinca comigo e, caso eu queira dar uma de doido, sai mais barato do que deitar num divã e discutir futebol com o psicanalista. Simples assim. Pagou, levou. Quantas putas não foram dilaceradas nos clássicos? Nem quero tanto. Sorrindo pra mim, já ganho o dia. Como, despacho, viro pro lado e durmo. Eis a fórmula da satisfação. Era o que o cachorro proporcionava à titia, nada mais do que uma relação saudável em que as partes se entendiam sem pronunciar uma só palavra. Não existia um coitado, nem um pobrezinho, as ví­timas todas da história ficavam do outro lado da tv. Exploração seria se ela enfiasse o dedo no bicho; ainda assim, sem ele querer. Acho que devo uma à titia. As pessoas têm uma certa necessidade de escolherem alguém à margem da sociedade que lhes sirva, por uma cesta básica ao mês ou duas páginas numa revista, de consolo para a degradação moral em que acreditam estar, um cordeiro imolado que todos redimiria perante os olhos de seu deus ou do público, todo poderoso. E ai de quem não participe do espetáculo. Titia não participou, não ativamente, e deu no dado. Isolado aqui e sem perspectiva nenhuma, senão abanar o rabo em troca de afagos e gratificações, não me aguarda outro destino. Cansei de ser mais um fracassado, ficar mendigando uma chance para quem só quer me enrabar, acenando para a platéia. Que se dane a ajuda de custo que os imbecis dos primos dão; que comecem a dar coisas mais folgadas em outro lugar, que titia não precisará mais de gorjetas. Será minha secretária particular. Se é um desventurado que eles querem, para que possam dormir em paz debaixo de suas cobertas de seda emporcalhadas com a cortesia que golfaram nos ouvidos da baixada, terei o maior agrado em lhes saciar a fome de miséria. Amanhã, bem cedinho, tão logo titia nos acorde, penduro a placa na porta de casa. "ALUGA-SE MíRTIRES", assim, errado mesmo, que é para não duvidarem de minhas boas intenções. Ganho eu, ganham eles. Já estou até vendo a turba de prostitutas, mendigos, cobradores e pivetes, fazendo fila para preencherem a ficha de cadastro. Agora, sim, uma assessoria bem feita na vida de um jornalista. Pode ser que dê certo, pode ser que não. O que não poderão dizer é que não tentei, que não fiz minha parte. Mas, também, o que me importa o que digam? Não são eles os bandidos? Pois bem, nem tentar eu vou, então. Espalharei a notí­cia da inauguração do negócio, colocarei todos os ditos clientes numa lista de espera e, depois, falarei que desisti, assim de repente, nem quis arriscar. Quero ver a expressão de frustração nas caras dos putos, vamos ver o que falarão. Servirá, até mesmo, para que eu avalie se realmente não confiro a mí­nima importância a tudo o que disse, disseram e dirão a meu respeito. Pronto, está decidido, será um teste! Se bem que, vejamos... já estou sendo testado. E só eu que não sabia. Deixarei a porta aberta, talvez o cachorro volte enquanto assisto a uma partida de futebol.

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Posted by cacoishak at 9.12.04 2:38