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6.11.04

massas, condimentados e vomições

Quem não pode fazer mais nada na vida, faz isso. Fui ao supermercado. Com a intenção de me divertir um pouco. Tem sido um programão nesses últimos meses, ir ao supermercado. Embalagens coloridas, cheirinho de frango assando, chilli & peppers, carrinhos trombando em novos calcanhares. Com um pouco de boa vontade, dá pra se esquematizar uma boa diversão. Isso, quando não aparecem na minha frente fantasmas de um passado longí­nquo - bota distante nisso - de quando eu tinha oito anos e ainda queria ser uma tartaruga ninja. Tinha acabado de começar a usar óculos, aros grossos e desproporcionais ao desenho de meu rosto, e achava o máximo ostentar el grand sorvete sobre a cabeça. Era o penteado do Vanilla Ice, afinal. Tinha oito anos, o iní­cio da maldita fase de transição. Ninguém - ninguém - passa ileso. Começava a cantarolar minhas primeiras composições entre amigos - um conjunto de vozes, já que ninguém sabia tocar porra nenhuma - versões para músicas do Fábio Júnior e da Rita Lee - e rabiscar meus primeiros poemas. Por causa dela, para ela e sobre ela.

A Sí­lvia deve ter sido, a bem da verdade, meu primeiro amor. A musa das primeiras fotografias que tirei também, tudo às escuras, sem ela perceber - eu achava. A culpa toda, admito, foi do Aventureiros do Bairro Proibido. Filme fodido de bom, vibro até hoje com o cérebro flutuante de vários olhos, aquela cara de Buda safado que ele faz. E ela era a lata da atriz que hoje faz o seriado de quatro mulheres que tem como protagonista principal aquela que é a lata da Juliana. Ela fazia o papel da jornalista tagarela. Fiquei de quatro. Escrevia cartinhas de amor, escutava rádio FM depois das dez da noite, vivia meus fins-de-semana em função dela e agia como um retardado tentando impressioná-la. Ensaiava minhas primeiras fossas. Nesta mesma época, a babá dos meus primos - já uma mulher "experiente" de dezesseis anos, muito considerável - sabe-se lá por qual razão, era loucamente vidrada por mim, tentava de qualquer maneira me comer. E o babaca aqui fugia dela. Preferia ficar correndo atrás da menina flor com bicas na mão.

Até que fui convidado para sua festinha de aniversário, a ser realizada em sua casa, com toda a famí­lia reunida. Cheguei lá como o "namoradinho" da Silvinha. Passava de mão em mão, questionavam mesmo meus pensamentos e se mostravam interessados em meus planos de me tornar um excelente veterinário. Só que eu não queria mais ser veterinário, nem brincar de elefantinho colorido. Não sabia o que dizer, falava qualquer coisa, o que fosse saindo e que me parecesse mais plausí­vel para a ocasião. Estava conversando com minha futura sogra e suas irmãs, afinal de contas, tinha de ser educado e responsável e transmitir-lhes confiança, era literalmente a menina dos olhos delas quem eu queria tomar pra mim. Enfim, foi terrí­vel. Parecia que todos estavam achando o máximo tudo aquilo, menos eu e minha "namoradinha". No fim da festa, ainda tentei sair em surdina, o que quase consegui, não fosse uma mão gorda e pesada cair em meu ombro, acompanhado de um estridente "ei, não vai se despedir da tia?". Se nem da aniversariante eu havia me despedido, caramba. Era essa a idéia. Pois tive de dar beijinhos em todas as quatro pinturas de Botero, já suadas e ofegando em meu cangote.

í€ medida que as folhas iam caindo das árvores, fui esquecendo a Silvinha, a freqüência de nossos encontros foi diminuindo e, logo, já amava de paixão uma outra mulher. Anos depois, tendo se passado um bom tempo sem que eu me lembrasse de sua existência, altas horas, ela passou pela mesa do bar onde estava sentado, enchendo a cara com alguns amigos. Estava fantasiada de borboleta ou fada - vai saber - e o povo começou a zoar e rir de esguelha. Fiquei sem graça, não achei certo fazer aquilo, em nome dos velhos tempos. Eu fazer. Os outros podiam - e tinham motivos pra tanto. Mais um longo hiato e eis que vislumbro aquele monte de banhas em meu horizonte, esparramando-se ao longo do suporte do carrinho de compras, já no fim do corredor de utensí­lios domésticos. Tentei de tudo pra fazer com que não fosse percebido, mas era tarde demais. A mulher jogou seus olhos pra cima de mim e eu, quase esmagado, parti em outra direção. Não olha, não olha, não olha. Olhei. A cria tinha acabado de se juntar à mãe. O desconcerto tinha tudo pra se agravar e foi o que aconteceu, podiam preparar minha cova.

Ouvi risadas. E risadas e mais risadas. A senhora bacon com ovos e a mariposa noturna riam de mim. Dá pra acreditar numa coisa dessas? Não dá. A gente faz um esforço danado pra crescer e se desenvolver da maneira correta, aprendendo a apreciar as boas coisas da vida, requintando o paladar e gostando menos das porcarias de outrora, pra acontecer esse tipo de constrangimento, ser tratado como o mesmo garotinho de gostos estranhos e senso estético duvidoso de antigamente. Quer saber? Vai tomar no cu, Silvinha. Você e sua mãe. E leva as tias gordas também.


By Fernando Botero

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Posted by cacoishak at 6.11.04 1:03