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9.09.04

Sobre um cara que eu conheço, my testimonial

O He-Man, logo que nasceu - e ainda não tive o prazer de ser apresentado a seus verdadeiros pais (se é que eu me lembraria caso o já tivesse sido) -, estranhou o mundo. Quando era pequenininho, e talvez ainda fosse Tiago, disseram pra ele que o diabo daria sorvete de creme com passas de graça, pro resto da vida, a quem aceitasse tê-lo como amigo invisí­vel e idolatrasse o Ozzy mais que tudo na vida, até que a pessoa completasse dezessete anos. A idéia do sorvete lhe agradou muito. Mas do diabo, tinha medo. Seria um pouco tenso, mas topou. Ouviu pela primeira vez Mettallica e gostou. Sim, talvez fosse bom mesmo. E a coisa foi evoluí­ndo. Gostava tanto de Black-O-Negative, que achava um sacrilégio a mais sutil menção à farofa do Van Halen. Sim, ele odiava os anos oitenta. E os malditos hippies dos sessenta também. Até que ele conheceu João, o menino perdido, surgido das profundezas dos setenta, era Bakunin, vômito, rou-rou-rou e Pistols. João também odiava os malditos hippies. "The roof, the roof, the roof is on fire...", lá estavam os dois cantando. Só que João era chegado em algumas coisas dos oitenta. Como a Legião Urbana, por exemplo. Porra, ele é tão legal e gosta dos oitenta. Deve ter algo de bom lá. E He-Man descobriu os Misfits. Daí­, foi um pulo pro resto. He-Man começou a fumar. Beber, já bebia, a bem da verdade. E hoje, é o que é: sabe deus o quê. Fui testemunha disso tudo e me sinto grato por isso. É verdade que houve discórdia entre a gente. Coisas de terceiros.Um tempo triste, que só comporta dor. Mesmo assim, a sinceridade entre a gente, inclusive nessas horas, sempre prevaleceu. E foi o primeiro a dar o braço a torcer, tão logo o erro mostrou a cara. De lá pra cá, quase morremos juntos umas três ou quatro vezes. Fucking Queens. Ia demorar um pouco até nascer outro que nem ele. Talvez, nascesse algum outro Tiago, mas, aí­, seria outra história. O Tiago, eu não cheguei a conhecer. Se é que Tiago já existiu. Os pais dele, sim, conheço. E muito, muito bem. Nos encontramos pouquí­ssimas vezes, mas todas marcantes. Algumas das maiores confusões que aprontei pro He-Man envolveram sua famí­lia. Na verdade, foram lá, na casa dele. Que o digam os pratos de porcelana de sua mãe, as convidadas de suas festas e as poltronas do hall de entrada. Ninguém frita um ovo como o He-Man. Vivi muita coisa boa lá. Muita merda também. Momentos que, de um jeito ou de outro, contribuí­ram com os rumos que minha vida tomou. E ele sabe disso. Se tem um cara que sabe me deixar pra baixo, é ele. Adora falar mal de mim. Um verdadeiro terapeuta. E de graça. Posso dizer que já salvou minha vida umas vezes aí­. É meu anti-herói. Puta-que-pariu! Estou começando a achar que, se eu fosse viado, daria pro He-Man. Isso não é nada bom. Agora, que encontrou seu canto do outro lado do paí­s, quer porque quer voltar a ser andrógino, não iria nem querer saber de mim. Mas não poderia estar mais feliz por ele. Que vá pro Paraná, então. Deixe todos aqui, órfãos de seus tiques. O melhor dos oitenta está lá, só esperando por ele mesmo. Isso que é mudar completamente de vida, porém preservando a mesma tosqueira de sempre. Prova de que a evolução pode existir, de fato. Mas conserva as coisas como elas são. Do diabo, tem medo até hoje.

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Posted by cacoishak at 9.09.04 2:30