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14.08.04

Por onde andarão as platéias verdureiras?

O grande problema das artes contemporâneas é o público. Antigamente, quando uma peça de teatro era ruim - nem precisava ser tão ruim a ponto dos atores serem péssimos, atuando Shakespeare como se estivessem lendo num pote de margarina -, a platéia jogava todo tipo de objetos no palco, tendo sido o tomate o de maior regularidade. Do mesmo modo ocorria com um cantor ou qualquer outro artista expondo sua arte. Não fossem bons, tomates neles! E isso não acontece mais em nossos dias. É um corporativismo tamanho no mundo das artes, que se o indiví­duo não fizer parte daquele meio, ele será posto à margem do grupo, quando não da própria sociedade, em certos casos. Quanto aos que, conscientemente ou não, fazem parte do tal meio, se um deles fizer um trabalho ruim, por pior que seja, tenderá sempre a ser aclamado pelo meio que o acolhe. Em uma cidade com maior número de pessoas e diversificação de tendências, isso talvez não seja um problema, vez que existe um confronto maior entre os diversos grupos, sempre havendo um espaço maior para um debate mais sincero entre eles, muito embora a quase homogeneidade criativa que flutua mui tenuemente sobre suas cabeças lhes assemelhe os métodos e conteúdos. Em uma cidade como Belém, os grupos são poucos, pouquí­ssimos, praticamente não há de fato um confronto entre eles, e, conseqüentemente, é tendencioso. Um filme tal não presta e, no entanto, é aclamadí­ssimo. "Matinta Perera", por exemplo. É uma merda. Não fosse pela lenda, seria perda total. OK, justiça seja feita. Aquele ator, o moleque que vai de moto pra periferia comprar drogas, interpretou seus 6 segundos muito bem. E acabou. O resto é, sinceramente, horrí­vel. A direção é podre, não há maestria alguma, tudo jogado grotescamente, sem técnica, repleto de obviedades inúteis, fora que a edição parece ter sido feita por um bando de moleques recém-ingressos na universidade. Ganhou o tal cacareco ver-o-peso, a maior picaretagem do festival - conspirada na surdina, por um júri popular que era formado pelos mesmos artistas do grupo -, só ficando atrás do prêmio de melhor ator. Prefiro nem citar o nome do intérprete do traficante mais articulado, eloqüente e forçado que conheço. Onde estão os tomates, eu me pergunto? De onde vem esse corporativismo, que tanto assusta as platéias verdureiras? Pensarei mais sobre o assunto...

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Posted by cacoishak at 14.08.04 0:44