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3.08.04

Cultura de massa

Não que haja alguma relação lógica nisso - se existe, ainda não a descobri. A verdade é que, ontem, estava escutando Cursive no caminho de volta pra casa do trabalho, totalmente envolvido nos arranjos de suas músicas de melodia quebrada e instrumental pesado, orquestrado e lisérgico, quando me ocorreu uma teoria que, salvo engano, não deve ser minha mesmo, ao menos não de todo. Se for, mamãe e papai acertaram em minha educação e estou aproximando-me da genialidade. Mais coerente, no entanto, seria tratar-me simplesmente como o bom e velho megalomaní­aco que meu caro He-Man insiste em que eu seja e refutar desde já qualquer fagulha de maiores pretensões que, porventura, eu venha a ter.

Enfim, o pensamento foi o seguinte: é óbvio que, com as descobertas cientí­ficas na área quântica de um século e meio pra cá, o mundo não pode mais ser encarado sob a velha perspectiva newtoniana que, ironicamente, aprendemos na escola. Mas isso é assunto pra outro dia - pra todos os dias, em verdade - e, portanto, só esse introdutório, por ora, já basta. O ponto em que, com isso, quero chegar é de cunho a priori cultural. Se formos parar pra prestar atenção, tudo em nossa volta se resume basicamente a uma pergunta: como? Ao ligarmos a televisão, veremos na novela aquele velho e batido argumento de todas as novelas: o casal apaixonado que passará a história toda separado devido a circunstâncias mil e, no final, acabarão juntos, felizes pra sempre. Nos filmes de Hollywood, é a mesma coisa: o mocinho que sofre nas mãos do bandido o filme todo, sem poder fazer nada, até que se dê uma reviravolta mirabolante e aquele acabe por vencer o último. O que, então, prende a atenção do telespectador? Justamente a vontade de saber COMO é que o casal ficará junto - as tais circunstâncias mil - e COMO o mocinho derrotará o bandido.

Os telejornais também não fogem disso. Limitam-se a expor COMO os eventos se dão em volta do mundo. COMO o Sr. João conseguiu vida próspera, COMO se darão os novos ataques bélicos do Novo Império e COMO os investidores reagirão depois que tal medida for aprovada. Isto, quando muito; pois, na maior parte do tempo, tão somente o O QUíŠ já basta.

É neste terreno fortemente preparado pela cultura de massa, que privilegia o tal COMO em descrédito do POR QUíŠ, que cientistas e pensadores continuam semeando as idéias ultrapassadas, cartesianas, e que são automaticamente consumidas por nós, já condicionados aos comoí­smos da vida. Se nos explicam COMO uma árvore, de uma sementinha, brota e cresce e dá frutos, damo-nos por satisfeitos. Não atentamos para o PORQUíŠ daquela árvore crescer, já sabemos o final da história, afinal de contas. Se o Seu Firmino resolveu invadir uma terra e acabou matando o funcionário da fazenda, isso basta pra pô-lo atrás das grades. Um preguiçoso sem vergonha e, ainda por cima, assassino! Mas POR QUíŠ ele fez isso? O quê está por trás de seus atos e o levou a cometer esses dois crimes? "Bem, meu jovem, fica difí­cil de se levar adiante o que propões, pois sabe Deus o que se passa na cabeça de um marginal desses"...

Vejam bem: não estou falando daquele por quê que na verdade só se passa por POR QUíŠ, não sendo nada além de um COMO maquiado. Não cuida, de forma alguma, dos assuntos metafí­sicos da coisa em si. É um kantismo ferrenho! Minha cabeça já está doendo...

A ciência, assim, apresenta-se como aquela clássica figura paternalista, que, pretendendo preservar os filhos da realidade, impõe-lhes certas regras e preceitos, restringindo-se à exposição do COMO os filhos devem agir, mas não do POR QUíŠ. Ao povo nada mais resta senão bestializar-se. E a cultura de massa realiza tão despropositado desejo.

Bem, isso já está um pouco longo demais pro meu gosto e nem sei se, de fato, faz sentido. Sou péssimo em dar exemplos práticos e acredito estar já no limiar do patético. Portanto, é melhor que eu me cale. Por enquanto...

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Posted by cacoishak at 3.08.04 16:27