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18.08.04
Amit Goswami no Túnel do Tempo
Nem lembrava mais que havia resenhado esse livro. Foi publicada no Capitu.com, em julho de 2002. Leitura obrigatória, pra quem quiser entender.
ESCOLHO, LOGO EXISTO
Prefácio. "No início era o Verbo, e o Verbo estava voltado para Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava, no início, voltado para Deus. Tudo foi feito por meio dele; e sem ele nada se fez do que foi feito. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam" (Jo 1, 1-5). Fim do prefácio.
Capítulo Primeiro. Com o passar dos séculos, duradoura fora a época dominada pelas trevas, embora a luz arquejasse nos corações dos homens. Vieram, então, Descartes e sua dualidade entre mente e matéria - Penso, logo existo -, sem demora seguidos por Galileu, Kepler e Newton na edificação da física clássica, completada a tri-p/b-ulação quando da chegada de Darwin e Freud. O separatismo, finalmente, estava amadurecido, dando margem à matança de Deus por parte de Nietzsche. Fim do primeiro capítulo.
Capítulo Segundo. Deus matou Nietzsche, qual anunciou, posteriormente, a velha e conhecida anedota. Planck se encontrava já em seu posto e repassou o quantum a Bohr, Heisenberg e Schrí¶dinger para, juntos, descobrirem a mecânica quântica, alterando, assim, definitivamente o velho discurso materialista. Fim do segundo capítulo.
Capítulo Terceiro. Em 1982, o físico Amit Goswami, ainda apegado a um dos dogmas da filosofia realista - a consciência como epifenômeno da matéria, ou seja, um fenômeno secundário, que existe contigente à existência anterior de alguma outra coisa -, esboçou um volume no qual pretendia solucionar os paradoxos da física quântica. No entanto, algo não se encaixava em sua proposta: como a consciência, feita de matéria, pode agir sobre esta com novidade causal? Após anos de meditação, leitura de filosofias místicas, discussões e pensamento concentrado, numa conversa com um amigo seu, o místico Joel Morwood, Goswami solucionou o paradoxo em questão, utilizando-se, para tanto, do idealismo monista - filosofia que define a consciência como realidade primária, como o fundamento de todo o ser -, escrevendo, enfim, o livro O Universo Autoconsciente (Ed. Rosa dos Tempos; R$ 60,00; 357 pág.; tradução de Ruy Jungmann).
Com um riquíssimo acervo remissivo para pesquisas ulteriores, o livro, de acordo com o físico Fred Alan Wolf, "é uma tentativa de lançar uma ponte sobre o antiquíssimo abismo entre ciência e espiritualidade". Nas palavras do próprio autor, busca "o reconhecimento de que a ciência moderna confirma uma idéia antiga - a idéia de que consciência, e não matéria, é o substrato de tudo que existe". Por idéia antiga, entenda-se a base mística das tradições religiosas na desembocadura da filosofia idealista. Uma revolução no mundo científico, capaz de abalar todos os alicerces deste, poderíamos dizer. Pretensão demais ou faro apurado? No mínimo, interessante e merecedor de ser objeto de estudos e pesquisas. Para isso, entretanto, faz-se mister uma breve análise do conteúdo, para, a partir de então, cada qual se aprofundar na matéria de fato. Assim sendo, vejamos as teses do Dr. Goswami.
Empunhando as premissas básicas da moderna física quântica - as quais são exaustivamente demonstradas e explicadas ao longo da primeira metade do tomo, de maneira que até uma pessoa que tenha gazeteado a todas as aulas da disciplina no colégio possa entender o funcionamento de tal mecânica -, Goswami vai derrubando, um a um, todos os fundamentos essenciais do monismo materialista newtoniano, os quais, segundo o autor, servem perfeitamente para solucionar problemas com macrocorpos, falhando, porém, no mesmo experimento em relação aos corpos quânticos, os microbjetos.
Quais são tais rudimentos? São eles os princípios da Objetividade Forte (objetos separados existem independentemente do observador), Determinismo Causal (o mundo é causal e inteiramente determinado pelas leis do movimento e condições iniciais de um objeto do universo espaço-tempo), Localidade (todas as interações ou comunicações entre objetos ocorrem através de campos ou sinais que se propagam através do espaço-tempo, obedecendo ao limite da velocidade da luz), Materialismo e Epifenomenalismo, estes dois últimos já tratados no presente texto.
Sem entrar por completo no mérito da questão - encargo este que reservo aos leitores que se interessarem pelas teorias do livro -, limito-me a salpicar as antíteses quânticas de Goswami, e, sem maiores delongas, concluir como o físico solucionou os paradoxos enfrentados pela ciência durante o século XX.
Deste modo, batendo de frente com os fundamentos de Newton e cia., respectivamente na ordem em que citados acima, a mecânica quântica postula que: a) devido à dualidade onda-partícula de um objeto (este ser, ao mesmo tempo, onda e partícula - princ. da complementariedade), é o observador quem escolhe qual das duas possibilidades se revelará em uma dada situação, "a observação faz com que entre em colapso o pacote quântico de ondas e se transforme em uma partícula localizada. Sujeito e objeto estão inextricavelmente misturados" (princ. da objetividade fraca); b) jamais poderemos determinar simultaneamente, com absoluta certeza, a velocidade e posição de um objeto (princ. da incerteza), tornando-se "impossível uma descrição rigorosa de causa e efeito do comportamento de um objeto isolado; c) "ondas se espalham por enormes distâncias e, em seguida, instantaneamente, desmoronam quando fazemos medições", do que se conclui que a influência da medição não viaja localmente (princ. da não-localidade); d) para contradizer o materialismo e o epifenomenalismo, e compreendendo o comportamento de objetos quânticos, "precisamos introduzir a consciência - nossa capacidade de escolher - de acordo com o princípio da complementariedade e a idéia da mistura sujeito-objeto".
Afirmações como essas, desacreditam, por exemplo, aquela velha história de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, ou vice-versa. Nada fácil de ser assimilado, conforme supra observado. Tentarei, portanto, ser o mais claro possível - e eis a palavra-chave: possibilidade! Possibilidades virtuais ou, como Heisenberg preferiu definir, potentia. Goswami explica: "A potentia existe em um domínio transcendente da realidade. Entre observações, o elétron existe como uma forma de possibilidade, tal como um arquétipo platônico, no domínio transcendente da potentia". Como já vimos, é a consciência que produz o colapso da onda em uma partícula no mundo da manifestação. Esclarecedor para o autor foi averiguar que o "domínio da potentia existe também na consciência. Nada existe fora da consciência". Desta forma, torna-se plausível deduzir que até mesmo "o universo existe como potentia informe em uma miríade de ramos possíveis, no domínio transcendente, e que se torna manifesto apenas quando observado por seres conscientes".
"Ai, minha cabecinha...", não? Compreendo-lhe perfeitamente, caro leitor. E digo mais: a confusão aumentará. Mas não se preocupe. Não me recordo com exatidão qual foi o pensador que disse que o indivíduo que se gaba por ter entendido os mecanismos da física quântica tão logo a conheceu, em verdade não entendeu nada. Porém, concordo com ele e espero que o leitor considere suas palavras para seguir em frente na leitura.
Pois bem. Elucidados os fundamentos da nova física, Goswami se deparou com um significativo estorvo: de que forma solucionaria os paradoxos quânticos, se o realismo materialista se tornara uma modalidade incompleta e ineficaz para, através dele, ter-se uma visão lógica do funcionamento do cérebro/mente e suas experiências, posterior ao aspecto não-local da consciência? Para o cientista, somente através do idealismo monista, perspectiva esta provocada quando da conversa com um amigo místico, o qual lhe abriu os olhos para a hipótese de que "a consciência é anterior e incondicionada. Ela é tudo o que há. Nada mais existe, senão Deus". Assim, imaginou a denominada "ciência idealista", pela qual "chegamos a uma ciência que não tem requisitos de admissão, que não exclui o subjetivo nem o objetivo, o espírito ou a matéria e é, portanto, capaz de integrar as dicotomias profundas de nosso pensamento".
Não deixa de ser, admito, bastante tentadora essa teoria de que nada mais existe, senão Deus, ou seja, Deus é tudo o que há, inclusive nós mesmo. Porém, algo deve nos instigar nesse raciocínio: e o nosso "Eu", como fica nessa história? De acordo com Goswami, o "Eu" referencial do self, em oposição ao "nós" da consciência unitiva, o que ele chama de "separatividade ilusória", dá-se devido a nossa inconsciência do processo subjacente quando escolhemos nossas experiências conscientes, o que pode ser resolvido se aplicarmos aí o conceito de hierarquia entrelaçada, do matemático Kurt Gí¶del, onde o nível superior e o nível inferior de uma hierarquia estão tão misturados que não podemos identificar os diferentes níveis lógicos.
Desta feita, "o self de nossa auto-referência é conseqüência de uma hierarquia entrelaçada, embora nossa consciência seja a consciência do Ser que está além da divisão sujeito-objeto. Não há como no universo outra fonte de consciência. O self da auto-referência e a consciência da consciência original constituem, juntos, o que chamamos de autoconsciência". Sendo o cérebro-mente um sistema dual quântica/mecanismo de medição, e, portanto, único, "é o local onde acontece a auto-referência de todo o universo. O universo é autoconsciente através de nós. Em nós, o universo divide-se em dois - em sujeito e objeto".
Todavia, se eu sou tudo e tudo sou eu, onde ficaria nosso livre-arbítrio nesse emaranhado idealista? Segundo Dr. Goswami, "a opção define o self primário (...). Escolho, por conseguinte (hierarquicamente entrelaçado), eu existo. Com o condicionamento a que estamos sujeitos, no entanto, a escolha não é mais inteiramente livre, mas predisposta em favor de respostas condicionadas", processadas por nosso ego. Nosso livre-arbítrio, destarte, "consiste da capacidade de dizer não a respostas condicionadas aprendidas", originada em nossa própria iniciativa causal, habilidade esta que atingiríamos através da meditação, num mergulho transcendente a nossa consciência unitiva.
Atingimos, por conseguinte, o objetivo geral do livro. Não obstante, findo o estudo, ainda sentimos algo vago em nós e na filosofia do idealismo monista. As palavras de Goswami, apesar de possuírem um valor científico-espiritual incontestável - seja pelas experiências práticas a comprovar os estudos quânticos, seja pelas experiências empíricas de místicos e das tradições religiosas -, não revelam de todo o mistério da criação, da vida. Certo, a consciência produz o colapso da onda em partícula e não há outra fonte de consciência no universo além do Ser que está além da divisão sujeito-objeto, o que faz com que o universo seja autoconsciente através de nós. Até aí, tudo bem.
Porém, é o próprio autor que nos adverte: "Temos que ter cautela quando cientistas de olhos esbugalhados começam a fazer alegações". Como podemos afirmar que não há nada em nós aquém dessa consciência unitiva e além de nosso ego condicionado, algo que nos torne únicos, mas ainda parte do todo? Eis a falha de Goswami; não há explicação coerente - quiçá alguma - a essa indagação. Na tentativa de uma melhor ilustração para o que digo, suponho ser válida uma analogia com uma passagem bíblica, a qual reza que "... o corpo é um e, no entanto, tem vários membros; mas todos os membros do corpo, não obstante o seu número, formam um só corpo..." (1Cor 12, 12). Ora, o pé tem uma função distinta da mão, mas os dois fazem parte do mesmo corpo, o mesmo acontecendo com a cabeça. Assim, creio, também sucede com o homem. Acreditar que somos meras ramificações de um Ser supremo e submetidos a sua auto-admiração em frente ao espelho, seria o mesmo que creditar veracidade à antiga tese de que a cabeça foi feita para colocar-se-lhe o chapéu.
Certamente, para o desgosto dos mais céticos, nada de tão grave que possa vir a tirar, em sua totalidade, o mérito vanguardeiro de Goswami, qual já o demonstrei antes. Pelo contrário, que outros se beneficiem e usufruam a contradição, ou omissão, em futuros estudos científicos, metafísicos e filosóficos - e, por que não, em exercícios espirituais -, como, inclusive, o próprio autor propôs ao final de sua tese. De fato, é ele mesmo quem corrobora, ainda que inconscientemente, a idéia de que, possivelmente, há um equívoco em algum lugar: "A intuição de um gênio é freqüentemente frutífera de maneiras inesperadas, que pouco têm a ver com os detalhes da teoria da pessoa em causa". Afinal, tudo são possibilidades. Fim do terceiro capítulo.
Capítulo Quarto...
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Posted by cacoishak at 18.08.04 0:24