Antes de dormir ontem resolvi ler o livro novo do Velho. Terminando a [incrível] leitura [ele conseguiu outra vez, puto] não pude deixar de observar a lua imensa na minha janela, acesa como um farol e iluminando sem permissão quase todo o meu quarto. Desisti em meu primeiro mês de entender o clima dessa cidade.
Daí dei play numa faixa nova do ermão. Engraçado [ou pelo menos curioso] como posso passar um dia inteiro consumindo apenas obras de amigos. Daí olho para uma pasta cheia de escritos inacabados, outra com traduções toscas e uma label no email que carrega algumas discussões não finalizadas.
Coisas abandonadas. Resolvi ler e ver o que ainda é aproveitável disso tudo.
Durante minha expedição encontrei em um anexo de uma conta de e-mail que nem uso mais um .doc com o título de Primeiro_toque_acidental. Baixei, abri e comecei a ler surpreso.
Era um romance que escrevi aos 16 anos e julgava perdido, pois dei a única cópia impressa e deletei os arquivos. Exatos 31.739 mil caracteres em oito capítulos. Cheios de erros ortográficos, narrativos, estruturais e emocionais. Parecido com o que escrevo hoje em dia. Devo ter escondido em um anexo de forma proposital.
Não devia ter achado. Muito cedo para ler aquilo tudo outra vez. Comecei a lembrar da garota [afinal teria de haver um motivo como esse para que eu escrevesse um romance], das noites digitando baixinho no escritório do meu pai capítulos cheios de amor adolescente adjetivado em limites inacreditáveis. Cômico, para dizer o mínimo.
Terminei de ler e pensei que uma revisão, alguns acréscimos e uma edição cuidadosa poderiam salvá-lo. Por alguns longos minutos decidi fazer isso tudo. Já estava convocando amigos para encarar a leitura e participar da revisão quando desisti.
Não é preciso ressuscitar obras acabadas. Não quando ainda tenho tanta coisa para finalizar. Deletei o livro. Não antes de enviar para um amigo de longa data. Minha única recomendação é para que ele não leia enquanto eu estiver vivo.
Dias de Kafka, todos temos.
