novembro 2009 Archives

Numa segunda-feira de novembro de 2008, exatamente um ano atrás, eu chegava em Congonhas com duas malas, um celular descarregado e anotações rabiscadas/amassadas de endereços, caminhos e referências para não me perder.

Era oito da manhã de um dia quente. Passei no então apartamento do Serpa, deixei as duas malas na sala e, usando o mesmo táxi que me trouxe do aeroporto, fui para o escritório.

No final do dia que me dei conta: não sabia voltar para casa. Quer dizer, nem casa havia.

Hoje, ano um: completo.

[Me perguntei: qual a faixa que mais escutei durante esses doze meses: last.fm disse que foi essa:

Right on]

Logo na primeira edição de Desolation Jones. Arte de J.H. Williams III. Vai aqui mesmo porque o FRAG! morreu faz um tempo.

Até mesmo o trabalho solo de Dan Aurbach é incrível. A apresentação acima com Dante Schwebel é para uma rádio, mas bem que poderia ser de um show prestes a acontecer na próxima sexta.

"i have all my cds in alphabetical order!"

McCarthy em entrevista ao WSJ:

WSJ: "The Road" is this love story between father and son, but they never say, "I love you."

CM: No. I didn't think that would add anything to the story at all. But a lot of the lines that are in there are verbatim conversations my son John and I had. I mean just that when I say that he's the co-author of the book. A lot of the things that the kid [in the book] says are things that John said. John said, "Papa, what would you do if I died?" I said, "I'd want to die, too," and he said, "So you could be with me?" I said, "Yes, so I could be with you." Just a conversation that two guys would have.

Para ler cinco vezes.

[blue dog apresentou. em caso de um dia difícil, de uma semana difícil ou de uma EXISTÊNCIA difícil, dê play e pelos quatro minutos da faixa acima deixe o corpo ir sem limites com o BATUQUE e na simpatia do ultimate band leader Shacho, descrito como "agitator, spirit". TODA banda devia ter um. terminada a faixa, repita ou volte para a miséria etc]

Spike must die, not for theatrical purposes but to add to the message that the creators of the series wanted us to see.

For all the gun-toting coolness and style of Cowboy Bebop, the heart of the series is a sincere one. If we fail to understand Spike's choice and fate, then we would have missed out on an important idea:

You're Gonna Carry That Weight.

We're gonna carry that weight -- that weight that is at once the load of our past and also the promise and burden of unrealized hopes and aspirations for the future -- the future Spike never had a chance with. As Shinichiro Watanabe once revealed about this line taken from the last Beatles album, the meaning behind that phrase, since the Beatles took a lot of weight from the fans, was that the fans had to now carry that weight. This short series of 26 sessions has been nothing short of an immaculately conceived dream. The Bebop takes us on a joyride but sends us back with an encouraging lesson: while Spike is no longer able to carry the weight, we, whose lives and dreams continue, can. [daqui]

bebop.jpg

i keep throwing it down two hundred at a time / it's hard to find it when you knew it / when your money's gone / and you're drunk as hell

uma grande canção sobre poker [é]. num show que acompanhava o nascer do sol. ou o contrário [pena que o final do vídeo corta seco]. para quem já esvaziou um rack de fichas em uma jogada esperando encontrar a redenção. as cartas não perdoam [e as fichas te deixam sem cerimônia].

Bill Hicks me ensinou que seja lá o que você for fazer, que venha do coração. 500 Days of Summer não vem. É tudo muito bonito -- e ver Zoey Deschanel com seus olhos imensos trocando momentos de intimidade é deveras agradável.

Porém o filme engana a si mesmo: é uma história de amor, apesar de o letreiro inicial anunciar que não. Mal contada, artificial e apenas interessante por conta do seu apelo estético, mas é uma história de amor.

Faz chorar quem ainda não tem casca ou nunca domou um leão em busca de um beijo e teve que lidar com uma paixão tão destruidora que confundiu-se com os seus próprios demônios. Há um ar clean muito incômodo até mesmo no sofrimento do garoto protagonista. Não há coração em nenhum momento do filme.

Posso até imaginar Hicks apontando o dedo indicador para a testa e fazendo bang. Isso porque eu sou romântico.

Me sinto idiota por tanta coisa, também. O que posso me fazer é olhar no espelho e dizer, velho, é assim mesmo. Felicidade não existe pra quem já refletiu sobre o gigantesco abismo que ela representa. Enquanto não der pra dormir bem, se dorme mal. Enquanto não tiver grana pra tudo, se aperta e malabariza. Enquanto não der pra ser quem eu gostaria, e enquanto não me livrar de todas as expectativas que criei sobre mim, vou deixando as cascas irem se incorporando à identidade. Só me atendo no que é essencial -- continuar caminhando. O resto é resultado. E seria de qualquer forma, mesmo que eu me entregasse à tristeza.

A maior resenha acidental já cometida em meu inbox. Nesse caso de Moon, filme que venho pensando todos os dias desde que vi. E não consegui escrever uma linha sobre.

Aí o ermão vem e me comete essa. Amor infinito [verbeaters são telepatas].

Antes de dormir ontem resolvi ler o livro novo do Velho. Terminando a [incrível] leitura [ele conseguiu outra vez, puto] não pude deixar de observar a lua imensa na minha janela, acesa como um farol e iluminando sem permissão quase todo o meu quarto. Desisti em meu primeiro mês de entender o clima dessa cidade.

Daí dei play numa faixa nova do ermão. Engraçado [ou pelo menos curioso] como posso passar um dia inteiro consumindo apenas obras de amigos. Daí olho para uma pasta cheia de escritos inacabados, outra com traduções toscas e uma label no email que carrega algumas discussões não finalizadas.

Coisas abandonadas. Resolvi ler e ver o que ainda é aproveitável disso tudo.

Durante minha expedição encontrei em um anexo de uma conta de e-mail que nem uso mais um .doc com o título de Primeiro_toque_acidental. Baixei, abri e comecei a ler surpreso.

Era um romance que escrevi aos 16 anos e julgava perdido, pois dei a única cópia impressa e deletei os arquivos. Exatos 31.739 mil caracteres em oito capítulos. Cheios de erros ortográficos, narrativos, estruturais e emocionais. Parecido com o que escrevo hoje em dia. Devo ter escondido em um anexo de forma proposital.

Não devia ter achado. Muito cedo para ler aquilo tudo outra vez. Comecei a lembrar da garota [afinal teria de haver um motivo como esse para que eu escrevesse um romance], das noites digitando baixinho no escritório do meu pai capítulos cheios de amor adolescente adjetivado em limites inacreditáveis. Cômico, para dizer o mínimo.

Terminei de ler e pensei que uma revisão, alguns acréscimos e uma edição cuidadosa poderiam salvá-lo. Por alguns longos minutos decidi fazer isso tudo. Já estava convocando amigos para encarar a leitura e participar da revisão quando desisti.

Não é preciso ressuscitar obras acabadas. Não quando ainda tenho tanta coisa para finalizar. Deletei o livro. Não antes de enviar para um amigo de longa data. Minha única recomendação é para que ele não leia enquanto eu estiver vivo.

Dias de Kafka, todos temos.

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calor

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Supermercado da Vila Madalena, ontem à noite. Eu caminhava pelos corredores tentando montar uma refeição para as próximas horas quando passa empurrando um carrinho com duas caixas de massa e nenhum molho uma loira com o cabelo preso no topo da cabeça, óculos pequenos, camisa cinza listrada e saia combinando, como se fosse um terno ou algo do tipo.

Estava descalça, enormes pés arrastando pelo chão. Atendeu o celular e num alemão impecável começou a conversar. Continuei andando e cantarolando When They Fight, They Fight. Adoro esse supermercado, devo ter pensado.

Na seção de frios duas moças bem jovens, morenas, contavam piadas entre si e riam. Do outro lado, nos iorgutes, uma senhora lia um sms [ou algo do tipo] no blackberry e sorria. Parece que hoje os maridos e namorados ficaram em casa. Uma boa noite para vagar pelos corredores e imaginar historinhas para todas as mulheres solitárias.

Estava escolhendo um tipo de pão quando notei que no sistema de som tocava algum smooth jazz desses lentos e cheios dos solos de sax e pianinhos virtuosos. Nossa, que música triste, ela me disse com um sorriso. O que você quer dizer? Eu só acho... ruim. Ela sorriu, é nesse sentido que eu pensava. Caminhou passando por mim ainda com um resquício de sorriso no rosto. Olhei para uma das saídas de som lá no alto e disse para mim mesmo: entendo.

Escolhi o pão e encarei a fila do caixa pensando naquele discurso do Foster Wallace. Trincheiras do dia-a-dia: amo.

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Era mais um começo de dia, meio da semana, quando a gente confunde quarta com terça-feira (e suspira ao lembrar que sexta está longe). Acordei quase derrubando-a da cama. Dei um beijo desajeitado sem sua testa e fui sentar na mesa com o laptop, ler emelhos. Coloquei bem baixinho aquele disco do Josh Rouse que começa com Quiet Town. Ela acordou e fingiu ficar dormindo.

O quarto estava amarelado pela luz que atravessava os furinhos da janela. Quase oito da manhã. Ar quente circulando numa brisa agradável pelo quarto gelado. Manhãs frias, o que mais lembro de São Paulo, disse pra mim mesmo imitando um velho saudosista na fila da padaria.

Parei os olhos nas costas tatuadas dela por um momento. Esperando o ar trazer até minhas narinas o cheiro levemente ácido (mas ao mesmo tempo doce) que tanto amo. Bateu como um raio de sol na temperatura certa, abrindo um sorriso instantâneo - desses verdadeiros que movimentam toda a tua face. Não esses George Clooney e Obama. Um sorriso de verdade.

Como se fosse uma canção:

O que eu quero é te fazer feliz [disse com um sorriso de canto]
Guria, já fazes sem notar [mexendo no anel do dedo anelar esquerdo]
Mas quero de um jeito que não possa ser comparável a nada [sentando no colchão]
Exclusividade, entendo [fazendo cara de serious business]
Você é bobo, não é isso [olhando para o chão]
Não alimente expectativas. Nem precisa [levantando da cadeira]
O que eu preciso fazer então? [se jogando para trás no colchão]
Ficar quietinha. Agora é quando eu te faço cócegas [segurando a cintura dela]
Hahaha é isso que te faz feliz? hahaha [contorcendo]
Quem tá rindo aqui é tu, guria [mordendo o pescoço]
Ai barba hahah ai para [se encolhendo]
REMEMBER EVERLONG [imitando dave ghrol air drum solo de guitarra headbanger]

Levantei e estiquei a coluna, quase tocando o teto com a ponta dos dedos. Veja bem, guria, eu te quero todo dia. Se você estiver comigo, eu estou feliz, pode contar. Estarei cheio do sentimento que faz escrever romances e cantar alto e fazer coletâneas e caminhar de mãos dadas. Simples.

Ela: é, simples.

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