Respira fundo e segura
Existem coisas em que a vida mata a pau, não tem jeito. Não há ficção capaz de ser tão surreal, supreendente e incrível quanto certas notícias que o cotidiano traz. A morte do ator David Carradine, por exemplo, é uma das que me tiraram do pino. Não a passagem desta para uma outra em si, mas o modo como se deu.
O sujeito foi encontrado nu, enforcado, dentro de um guarda-roupas. Logo que soube da notícia, saquei que só podia se tratar de uma mal sucedida _ e, no caso, fatal _ tentativa de aplicar a técnica do estrangulamento durante um ato sexual, conhecida como hipoxifilia. Afinal, ninguém tira a roupa pra se matar, começa por aí.
Mas o caso do Bill não é isolado. Ele é até mais comum do que parece. Quem já falou dele _ e de uma maneira bem peculiar _ foi o escritor Chuck Palahniuk (Clube da Luta, Choke), no aterrorizante conto Guts. Abaixo, o trecho específico:
Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer... melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.
A história, que o autor disponibiliza na íntegra no seu site oficial, foi publicada na coletânea Haunted.
Outro que se deu mal querendo tocar uma ao mesmo tempo que passava uma corda pelo pescoço foi o então vocalista do INXS, Michael Hutchence. O cabeludo foi encontrado morto em um hotel na Austrália, em novembro de 1997, estrangulado por um cinto.
Vinte anos antes do cantor errar a mão, porém, o cineasta japonês Nagisa Oshima já mostrava com delicadeza e maestria a hipoxifilia no clássico O Império dos Sentidos. A 1:38, uma mostra da técnica logo no trailer:
Claro que nem sempre a coisa termina bem _ como não termina no caso da fita japonesa e como mostra mais explicitamente esse curta do diretor Alejandro Lemos:
Não que Oshima tenha criado a prática. A asfixia auto-erótica é prática antiga e deu origem, inclusive, a expressão "afogar o ganso". Quem tem contato com o mundo rural sabe ser comum a iniciação sexual dos garotos com animais do campo, incluindo vacas, cabras, porcos e até... gansos. Neste último caso, o lance consiste em, durante a curra, enfiar a cabeça do animal dentro de um tanque, balde, ou qualquer recipiente com água. Como está se afogando, o ganso começa a se debater, contraíndo os músculos do corpo e proporcionando mais prazer ao sujeito.
O mesmo princípio se aplica aos seres humanos, como explica Patrícia Espírito Santo, em seu livro O Lado Obscuro e Tentador do Sexo, que pode ser degustado aqui e do qual destaco essa parte:
"A falta de oxigenação é entorpecente e, para alguns, prazerosa. Até mesmo entre os praticantes do mergulho que não utilizam balões de oxigênio, é regra não passar muito tempo debaixo d´água. O prazer do torpor, alcançado pela deficiência de oxigênio, coloca a vida em risco. A hipoxifilia também pode ser fatal, porém é uma prática auto-erótica que vem sendo utilizada há vários séculos. A justificativa para essa prática, que pode ser considerada masoquista, é a busca do aumento das sensações de prazer sexual proporcionada pela privação de oxigênio por meio de asfixia (...)"
Na dúvida, ouça o conselho delas:

Prezado Americana,
lendo teu excelente post, fui acometido por uma dúvida: teria o Bill morrido em Bangkok ou simplesmente "bangin' cock"?
Abraço
Scarecrow, depois que o GALO cantou, tanto faz... :D