Uma dorzinha gostosa

| comentários (3)

Um grande amigo tinha/tem cálculo renal. Certa vez, num boteco, depois de várias cervejas, o cara foi ao banheiro. Uns bons 30 minutos se passaram e nada do sujeito voltar. Preocupado, fui atrás pra ver se tinha dado algum problema. Chego e encontro o cara curvado em frente a privada, uma mão apoiada na parede e outra segurando o pau, o rosto vermelho e brilhante de suor, a boca torcida entre um sorriso e um esgar de dor.

Saquei que ele estava tentando expelir uma pedra e não estava conseguindo. Como tinha ouvido dizer que só a dor do parto supera a dor de botar pra fora _ e pela uretra _ um pedregulho, fiquei preocupado e perguntei se estava tudo bem, se queria que chamasse alguém ou fizesse alguma coisa _ de repente ser abatido para acabar de vez com seu sofrimento, sei lá.

Mas o cara apenas virou o pescoço e, de olhos apertados de dor, respondeu que "não, tudo bem, tá doendo, mas é uma dorzinha tão gostosa". E notei que, cacete, o sujeito estava de fato gostando daquele exercício sádico de ficar controlando o jato de urina de acordo com a quantidade de dor que a pedra, em curso, lhe causava.

Hoje, percebo que tenho a mesma sensação de "dorzinha gostosa" quando ouço St. Anger, do Metallica. Especialmente a bateria, considerada por 20 entre 10 bateristas como uma das piores coisas já criadas em N planos astrais, caraca, é como expelir pedras renais pelos tímpanos!

St. Anger é meu cálculo renal. E sua audição constitui o mesmo prazer mórbido que meu chapa tinha em fazer passar um cristal de sal pelo canal do pau (fiz um hai kai? o_O). Por mais que seja ruim _ e eu e todos os fãs do Metallica e todos os não-fãs e principalmente todos os detratores sabem disso _, mesmo assim, de alguma forma, me agrada.

Coloco o bicho pra rodar e ouço inteiro, do começo ao fim. E ele é longo, como deve ser o processo de expelir uma pedra dos rins. De vez em quando, tal qual meu camarada de cócoras no banheiro do boteco, eu solto uma risadinha nervosa do tipo "deus, como isso é horrível, onde os caras estavam com a cabeça?", mas jamais pulo uma faixa. Às vezes, quando vou para o trabalho ouvindo o disco no celular, chego a esperar pelo fim da música antes de entrar.

E nem há uma ligação emocional, o tipo mais comum de link em casos assim. Por exemplo: tu só gosta de "Always", do Bon Jovi, porque quando adolescente teve uma namoradinha que ouvia essa merda o tempo todo.

Mas com St. Anger não é assim. A sonoridade do disco me agrada imensa, pura e simplesmente _ é um lance até físico, tipo as pedras rasgando a uretra do meu camarada. Não tenho orgulho disso, mas também não tenho como evitar. E nem quero, porque é mais forte que eu. Já tive várias e ótimas discussões com amigos que são autoridades no quarteto californiano e nunca arredei o pé. Mesmo ouvindo e reconhecendo os clássicos do grupo, é St. Anger que, numa situação de ilha deserta, eu levaria para ouvir eternamente.

St. Anger dói, eu sei. Mas é uma dorzinha tão gostosa...

3 Comments

Sempre Alerta said:

Nunca ouvi o St. Anger, mas o texto tá muito bom, parabéns!
Aquele abraço.

bruno said:

Você deve gostar da música por que te lembra o pau do teu amigo!

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Esta página contém um post de Brigatti publicado em abril 22, 2009 2:12 PM.

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