Sem dúvidas

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Vou confessar uma coisa.

Não faço a menor idéia de como analisar 90% da produção musical que chega pra mim no jornal. Sério. Confesso aqui, agora, a minha total incapacidade de fazer uma crítica com mais de duas linhas a respeito desse monte de caixinhas que aparecem todos os dias na bancada que divido com outros repórteres da editoria.

Vou dar um exemplo.

The Fame, disco de estréia de Lady Gaga.

Quem é Lady Gaga? De onde vem? O que representa? Qual sua relevância? O QUE DIABOS ELA FAZ?

A capa é um close do rosto dela, usando uma franja loira rente aos óculos escuros. Abaixo, lábios delineados com um batom claro. De um lado, encostando em uma das lentes do óculos, um amontoado de cristais que "contamina" o acessório.

Se eu parasse por ai, sem sequer abrir o maldito plástico que lacra a caixinha, incorreria na prática do "não ouvi e não gostei". Besteria. Eu sei que não vou gostar, mas "vai que...". Então ouço.

A primeira faixa chama-se Just Dance. Eu conheço de ver o clipe na TV. Começa com um sintetizador que emula uma alarme esgoelado. Aí entram efeitos e não se distingue nada além de uma batida genérica e ruídos diversos para preencher os espaços em branco. A voz da garota, tratada com quilos de Pro-Tools, às vezes ganha um vocoder para dar um ar muderno. De repente entra um sujeito _ ou dois _ declamando versos quaisquer. Fim.

Ficou curioso? Aqui ela disponibiliza uma amostra. É suficiente, acredite.

Meu diagnóstico aponta uma Cristina Aguilera aqui, uma Kylie Minogue ali, um tanto de Pussycat Dolls acolá, quer dizer, tenho mesmo que ouvir a segunda faixa? É só mais um genérico do genérico, outra lambisgóia que se veste mal e paga de piranha, como diabos critico isso?

E não se trata de limitar a arte, procurando um rótulo pronto para catalogar ou meia dúzia de tags que facilitem o meu trabalho. Pelo contrário. É tão raso, ralo, medíocre, confuso, que sequer consigo me posicionar adequadamente. Como afirmei no começo do texto, simplesmente não sei o que fazer com um troço desses.

Porque ele não me causa outra sensação que não a de uma inexorável perda de tempo. Sinto os ponteiros do relógio derreterem no meu ácido estomacal sempre que boto um disquinho laminado desse tipo para rodar.

E isso chega aos borbotões dentro de grandes envelopes pardos, com ou sem o logotipo de gravadoras. E não é apenas o pop eletrônico. Gente grande, com certa respeitabilidade, também desafia os limites de qualquer crítica.

Visualizo agora, por exemplo, o novo do Chris Cornell, Scream. Sei, apenas de olhar a contracapa, que não pode ser bom. A produção é do Timbaland. Mas eu vou ouvir. Treze longas faixas da derrocada de um dos maiores vocalistas que o rock anos 90 produziu. Eu tenho que ouvir.

Tenho mesmo?

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Esta página contém um post de Brigatti publicado em abril 13, 2009 9:17 PM.

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