Claro que isso nunca aconteceu, mas bem que podia...
- Pois não?
- Oi... hã... olha, eu moro no terceiro andar do prédio aqui do lado, esse marrom, sabe?
- Ãham.
- Hã... você é do apartamento que tem a área de serviço virada pra minha janela?
- Bah, acho que sim... é, acho que sim.
- Bom... hã... tem como você descer pra gente conversar? É um assunto meio complicado, tem como?
- Tá... bom, tá, eu desço. Só um instante.
- Oi, e aí?
- Opa, beleza. Puxa, ainda bem que é você mesmo, hehehe. Pois é, eu moro com a minha esposa no terceiro andar e a gente sempre te vê estendendo roupa no varal.
- Ah, não tem jeito, esses prédios são todos grudados, né? É foda...
- É, não dá nem pra ficar pelado, se não fechar todas as janelas, ixi...
- Ah, entendi. Putz, olha, desculpa de andar pelado, cara, mas é que eu moro sozinho e às vezes nem me ligo...
- Não, não, não, nada a ver, não é nada disso, hehehe, não, não. Quer dizer, mais ou menos.
- Não, eu sei, é foda, minha cozinha é toda aberta e dá direto pra tua janela, na mesma altura e tudo, pô, mas é que...
- Não, não, tá tudo bem, não é bem por isso que eu vim conversar contigo. É que, bom, a gente, eu e a minha esposa... olha, vou ser bem direto, ok?
- Tá, beleza.
- A gente queria que você assistisse a gente trepando.
- Uou... velho, olha, eu...
- É que a gente te viu pelado, notou que mora sozinho também, e pensou que, sei lá, "o cara é meio desencanado, quem sabe pudesse participar, na boa", manja?
- Pois é... mas é que eu trabalho a noite, só chego de madrugada em casa, não sei bem o horário que vocês querem fazer, digo...
- Não, não, quando for melhor pra você. Pra gente de madrugada tá ótimo, nossa...
- Tá, e o que eu faço? Só vou pra janela da lavanderia e fico vendo?
- É que na verdade tem que ser algo mais, assim, sem querer, sabe? Não pode parecer que você está lá pra isso, manja? Tem que parecer casual, meio flagrante, entende?
- Ah, tá. Mas é que de madrugada, não sei como fazer isso na lavanderia...
- Não tem vezes que você chega do trabalho e vai recolher a roupa do varal?
- Tem. É...
- Então, é isso. Tu chega e vai recolher as roupas do varal. E aí a gente vai estar lá...
- Tá, mas você não tem medo que o meu prédio inteiro veja você, quer dizer, não tem só a minha janela que dá pra janela de vocês, que é bem grande por sinal.
- Sim, sim, mas vamos fechar uma das persianas e ficaremos no fundo da sala, de um jeito que só da sua janela vai dar pra ver. Aí é só acertamos um horário.
- Hum. Tá, então eu chego, finjo que vou recolher as roupas do varal e aí fico vendo vocês, é isso?
- Isso, isso...
- Mas não posso ficar encarando o tempo todo, é isso? Tipo, eu só dou umas olhadinhas de vez em quando...
- É, no começo sim, mas depois que o negócio engrenar aí não tem problema, pode até pegar um binóculos, hahahaha!
- Hahahahahaha!
- Hahahahaaaaaa... hã... então, é isso. Pode ser hoje à noite?
- Pode, pode... lá pela meia-noite e meia?
- Bah, tá ótimo, muito bom.
- Bom, então vou colocar umas roupas pra bater agora e dar tempo de estender antes de ir pro trabalho.
- Beleza, beleza. A gente combina alguma sinal?
- Ah, fica meio de olho por esse horário, que eu vou chegar, acender a luz do corredor pra deixar as minhas coisas e aí vou pro varal.
- Beleza, beleza, legal. Fechado, então.
- Tá certo. Até mais, então.
- Até.

Escuta, posso saber se vc fez uma, uma única receitinha do seu caderno? Quem cozinha não tem tempo de ver vizinho trepar!
Ainda bem, porque moro do lado de um casal de velhos que deve ter um cem anos cada, vixe.
claro que não, nunca. ainda mais porque ele é parecido com você e seria MUITO estranho se ver trepando sem ser no espelho do teto ahahhahaa
"seria MUITO estranho se ver trepando sem ser no espelho do teto"
Bá, tem uma cena de um romance japonês em que acontece exatamente isso. Uma guria fica presa no alto de uma roda-gigante em um parque perto da casa dela. De onde ela está, vê a janela da própria casa. Aí percebe que: 1, a janela está aberta. 2, a luz está acesa. 3, tem um casal trepando na sala e dá pra ver da janela e 4, a guria que está lá mandando ver é ela mesma.
Se não me falha a memória, é no Minha Querida Sputnik, do Murakami.
Carlos, qualé, e não é estranho?
Se fosse rotineiro, estaria num filme dos irmãos Farrelly.