Para o sacrifício

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Tu levanta para o sacrifício, acredite. E geralmente sabe _ mesmo inconscientemente_ o que tem que fazer. Pode ser pelo catzo de razão que for, o sacrifício cotidiano é inseparável da própria vida.

E então qualquer tipo de analogia cabe aqui. Seja do boi vulgar que entra no abatedouro pra sair picado, seja do índio pré colombiano nobre, guerreiro, capturado pela tribo rival e que abaixa a cabeça que vai rolar para salvar seus iguais.

Dá no mesmo, ao final das contas?

Christopher McCandles tinha uns pais de merda. Pegou uma mochila e partiu para o sacrifício sem a menor sombra de dúvida. Sozinho. Ele sabia que não ia voltar. Pegou o que pôde com quem encontrou pelo caminho e rumou irrefreável para a morte, numa linha tão sinuosa e liquefeita quanto possível. Suicídio? Pouco se importou com quem gostava dele ou o que seria feito daquilo tudo. Partiu sozinho, do jeito que veio ao mundo. E agradeceu por isso. "Mas tinha tudo esse menino", ouço alguma mãe falar. É, tinha. Principalmente vontade de ser ele mesmo.


Walt Kowalski tinha uns filhos de merda. E achava que tudo ao seu redor também estava errado. Sozinho. Acabou encontrando naqueles que odiava alguma razão para sorrir de vez em quando e até amar. Mas ao final, precisou fazer o que devia ser feito. E ele sabia o que e como. Não teve qualquer dúvida. E foi para o sacrifício, certo que não voltaria. Atrás, deixou gente que realmente o amava. E foi neles que pensou, afinal.



Randy "The Ram" Robinson sintetiza os dois acima. Um devoto de si mesmo, não conseguia cumprir com as trivialidades que lhe eram sugeridas. Simplesmente não conseguia ser um bom pai, marido, cidadão. E olha que ele tentou quando o coração _ fisicamente falando _ lhe deu um ultimato. Desafiado, entregou-se a sua única razão de existir: ser ele mesmo. E foi inevitavelmente para o sacrifício, consciente de ser aquele seu último movimento.

Esses caras não existem. São personagens, por mais que sejam "baseados em histórias reais". Mas me lembram My Way. Só que na versão do Marcelo Nova, manja? E esse trecho é capital:

Pra que serve o homem
O que é que ele tem
Ou é um puta barão
Ou João ninguém
Fazer as coisas
Que desejou
Comer as mulheres
Com quem sonhou
Eu me fodi
Mas resisti
I did it my, my, my way

A música, as histórias, os sujeitos, são vulgares, sim, são humanamente desumanos, são contraditórios, caprichosos, egoístas, e por isso mesmo dizem tanto _ pelo menos para mim. Porque é exatamente o teu que tu tem que botar na reta pra fazer valer. Um boi, um guerreiro asteca, tanto faz, desde que seja pelo teu couro que tu te sacrifique, que tu lute, que tu acredite. Foi o que eles fizeram.

O que fez a diferença prum McCandles, Kowalski, Randy ou Marcelo Nova da vida foi o culhão de sacrificar não um membro coxo, mas uma parte saudável. O risco supremo, a beira do abismo, o fio da navalha, the point of no return, vai, neguinho, vai!

Tá certo? Tá errado?

Como ser um grande escritor, por Charles Bukowski

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada

1 Comments

Minha velha vivia cantando My Way num embromation dela. Sabia a letra inteira no embromation. Ela cantava com um lindo sorriso no rosto. Um dia eu traduzi a letra para ela, porque achei que ela deveria saber. Nunca mais a vi cantar My Way.

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