O bom, o mal e o feio

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Vem que tem.jpgKevin Smith teve uma boa ideia: um casal de amigos sem NENHUMA tensão sexual, que divide uma casa há anos, está falido e decide fazer um filme pornô para levantar alguns trocados. Ele chama Seth Rogen _ presente em quase todas as comédias politicamente incorretas e legalzonas dos últimos anos _ e Elizabeth Banks para protagonizar. A coisa segue hilária, os caras improvisando com atores pornô de segunda, locações inadequadas, performances absurdas, até que o personagem de Seth corta a barba e... eles se apaixonam. Pronto, assim, do nada por causa da barba.

O cara tinha a mina como um parceiro de truco e, de repente, ela é a mulher da sua vida. Daí para o final é aquela galinhagem de "eu te amo, mas, mas, mas". E termina com os dois juntos. Drama, romance e tensão NUMA COMÉDIA COM MOTIVO PORNÔ! E que, por sinal, recebeu o melhor título brasileiro dos últimos, sei lá, 40 anos: "Pagando Bem, Que Mal Tem?".

Michel Gondry _ opa, opa, opa, não conheço o cara e QUERO QUE SE FODA O QUE ELE FEZ ANTES! _ teve uma boa ideia: uma dupla de desastrados apaga acidentalmente as fitas de uma videolocadora e começa a fazer versões caseiras do filmes, a conhecida suecagem. A despeito de TODOS os personagens ostentarem algum tipo de autismo _ o que os torna mais irritantes que engraçados _ as cenas dos caras produzindo artesanalmente Ghostbusters, A Hora do Rush, Robocop e outros é demais. Prova que certos filmes de fato não precisariam de mais que 20 minutos de fita e dois bobocas no elenco para darem seu recado. E no auge da picardia, montam uma linha de produção suecadora e fazem um baita sucesso.

E o que acontece? O que acontece? O que acontece? Gondry resolve fazer uma crítica à indústria do cinema e bota a Sigourney Weaver fechando a fábrica de suecagem por violação de direitos autorais. Resultado: a dupla se une com a comunidade do bairro para filmar a vida e obra de um músico de jazz local, já que isso os grandes e malvados estúdios de cinema não podem tirar deles.

Não sei, mas desconfio seriamente que em Hollywood deve existir um tipo de diretriz que impede o sujeito de manter uma boa idéia funcionando por mais de 45 minutos. Porque esse costuma ser o tempo que um filme como esses dois se mantêm atrativo, interessante, honesto e, principal e tão somente, bom de assistir.

Kevin Smith insiste em ser cineasta quando devia ter parado com Dogma, onde fez exatamente o mesmo que agora. Pegou uma boa idéia e transformou num panfleto cheio de "bons ideais". Pai do céu, se eu vou assistir a um filme de barbado que desenha superherói a última que espero é algum tipo de lição, ensinamento, o diabo que seja. O mesmo vale para o Gondry. Quer fazer crítica à indústria num filme com o Jack Black e o Mos Def? Não dá pra simplesmente fazer um filme engraçado, divertido e inteligente como ESTAVA DE FATO SENDO FEITO?

Bolas, aprendam com o novato Mitchell Lichtenstein. Sim, o filho do Roy _ aquele cara dos quadro com inspirações em quadrinhos, precursor da pop art e coisa e tal _ e seu Teeth. Nele, um garota descobre que tem dentes na vagina. E o que ela faz com quem tenta abusar dela? CORTA O PAU FORA! No remorse, no pity, no regret. E quando ela pensa ter encontrado seu príncipe encantando, o cara que de fato "conquistou" sua vagina, o que acontece? CORTA O PAU DO CARA FORA quando descobre que ele tinha apenas feito uma aposta com um amigo. E o irmão de criação que deixou sua mãe morrer? SERRILHADO PELA BASE, irmãozinho!

E a coisa só piora quando, na finaleira, ela pega carona com um velho babão querendo folgar. Não há redenção, final feliz, gente embevecida de mãos dadas cantando uma antiga canção folclórica, faça isso ou pense naquilo. Começa como termina, feito uma boa e decente canção pop.

Porque é desse cinema que estamos falando, pop (pop = popular, dãh...), do cinema feito para a massa _ mesmo que seja pretensiosamente cult, como faz supor a etiqueta de Gondry. Se você bota pra atuar gente que passa metade do seu dia fugindo de fotógrafos, e cobra cachês acima de seis dígitos, então tu faz cinema popular. Tu faz cinema pra massa. E se for fazer, faz direito, porra! E não me faz perder cinco horas de download...

1 Comments

Espantalho said:

A coisa mais legal sobre o Rebobine Por Favor é que era um projeto que não se encerrava em si mesmo: acessando o site oficial era possível ver todos os filmes suecados, na minha opinião, a verdadeira razão de ser de toda essa história. Agora nem isso tem mais, pois com o lançamento em DVD, eles retiraram os links. Youtube neles!

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