Código de barras

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Comigo aconteceu acho que só com a Legião Urbana. Essa coisa de se identificar com as letras, manja? Porque por mais que seja legal a canção, e você goste dela, não quer dizer que ela seja um decodificador de código de barras da alma.

Com a Legião era assim e nem preciso perguntar para saber que muita gente também pensa isso. Renato era o irmão mais velho que a gente não tinha. O amigo que falava as coisas certas, na hora certa e da maneira certa. Um professor menos sacal e mais articulado que aqueles que nos faziam acordar às sete da manhã. Cada disco era um compêndio de "eu sou isso e isso e isso e isso aqui também".

O problema (ãh...) é que não dá para levar o Renato para além da adolescência. Depois de umas topadas na quina da mesa da vida, aquilo tudo deixa de fazer sentido. Você não é mais aquilo, e aquilo não te representa mais. Não é mais o seu mundo. Continua sendo lindo, mas para o teu primo que está sentindo vergonha das primeiras espinhas purulentas. Não pra você.

E você também começa a ouvir mais coisas, abre seu leque de experimentações, se permite um pouco mais e vai além. Aí encontra uma ou outra linha que te faz abrir um sorriso e pensar "ei, se não sou eu aqui". Mas é tudo meio disperso, não era como com a Legião, entende? Não há uma unidade de obra, uma linha mestra, um, digamos, conceito (blergh...) na falta de uma palavra melhor.

Até ouvir o Viana Moog neste final de semana. Até ler esse trecho:

"Depressão pós-foda e drogas místicas".

Putz. Daria para escrever um milhão de posts a respeito de depressão pós-foda! E drogas místicas, então, hahahahaha, qualé, não haveria gigabites suficientes. Mas tem mais. Ou menos, já que as letras das 13 faixas que compõe o disco que estou ouvindo são quase hai kais de duas ou três linhas. Conciso e preciso.

Outra:

"Tudo que eu quero é acordar de ressaca com você".

Sim! Esse é o meu universo! O mundo que criei e onde vivo! É disso que se trata, a função, o esquema, a parada, o lance todo! De novo, alguém está falando comigo sem ser concretista, charlatão, petralha loser, branquelo pagando de preto, ou me tratando como retardado - o que dá tudo na mesma, afinal...

E essa:

"Eu tenho na boca dentes de Chat Baker
Eu tive nada, ela teve nada
E no entanto, ninguém teve tanto do oceano e seus danos"

Acha que Chico Buarque entendia as mulheres? Então olha isso:

"Foda-me antes de vê-la
Foda-me antes de voltar para ela"

Do instrumental, nem vou me demorar. Queens of the Stone Age sai no braço com o britpop dentro de uma torradeira elétrica pós-punk.

Ouça no MySpace.

Assista:

 

4 Comments

joao~grando said:

"depressão pós-foda" é tipo "provar p/ todo mundo que não precisava provar nada p/ ninguém".
ali a galera se encontra, ali se sabe do que está falando.

joao~grando said:

"depressão pós-foda" é tipo "provar p/ todo mundo que não precisava provar nada p/ ninguém".
ali a galera se encontra, ali se sabe do que está falando.

Fábio Shiraga said:

Ueba! Bacana se animar assim com uma banda!
Volto prá ouvir durante o dia. Que tô com preguiça de pegar o fone de ouvido e a galera dorme.

Abraço, Briga.

"Putz. Daria para escrever um milhão de posts a respeito de depressão pós-foda!"

E isso que é um assunto antigo. Há um verso latino antigo, atribuido umas horas a Galeno e outras a HOrácio, que diz

"post coitum triste omne animal est"

"Todo o animal é triste após o coito".

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