Não, não estamos falando da mesma coisa

| comentários (5)

O Batata fez o seguinte comentário:

 

Você já leu algum gibi desses considerados excelentes? Preacher, Sandman, Maus, Cavaleiro das Trevas, Watchmen, V de Vingança, qualquer um desses?

Se leu e não gostou, tá ótimo.

Agora se não leu, deveria ler. São obras-primas. Chamá-los de gibi não diminui a importância ou qualidade delas. Não julgue tudo ruim apenas por conta do formato (mas sim, a grande maioria é).

E sim, você precisa ver o filme. Aliás, precisa conhecer o mínimo de qualquer coisa antes de decidir que é coisa de adolescente punheteiro. Até lá, a merda está na sua cabeça.

 

Não conheço o cara. Nem ele me conhece. Mas seu comentário esclarece alguma coisa.

Ele me questiona a respeito do que chama de obras-primas dos quadrinhos. Os de sempre, Watchmen, Cavaleiro das Trevas, V de Vingança, enfim. Sugiro a leitura desse texto do Alerta Geral. A propósito, o AG é um dos poucos blogs que trata de nerdices e afins sem ser pedante ou chato.

Eu li isso tudo o que o Batata citou. Li e provavelmente soltei um "Uau, que foda". E fui cozinhar, dormir, aparar as unhas ou qualquer outra coisa. Nada mudou. Nada. Porque esse tipo de leitura representa exatamente isso, nada. E afirmo com a autoridade de um consumidor de quadrinhos que sou, do tipo que é louco por edições especiais encadernadas, em papel especial, limitadas e caras. Gosto delas tanto quanto gosto de pastel de queijo. Nos dois casos, ambos são gostosos, mas não contêm todos os nutrientes de que preciso. Tira gosto, enfim.

Mas ler essas obras todas serve para entender melhor suas adaptações para o cinema? Se eu ler The Dark Night do Frank Miller, e a Piada Mortal, do Alan Moore, gostarei mais ou menos do filme do Christopher Nolan que, dizem, foi nelas inspirado? Mas é claro que não. Nunca um estúdio de Hollywood deixaria um diretor fazer um filme baseado em quadrinhos cujos únicos a entendê-lo/gostar seriam os leitores dos mesmos. Deixa disso, diria o blog do Flávio Prada.

A premissa básica de um blockbuster é atingir o máximo de gente possível. Logo, não importa de que raio de personagem/história ele trata. Ninguém precisar sequer conhecer o Batman para assistir ao Cavaleiro das Trevas. Se trocar o Batman pelo Homem Libélula e o Coringa pelo Dinho Ouro Preto o resultado final será o mesmo. O que contou mesmo foi a campanha de marketing dos caras. E ela foi muito boa, é preciso admitir. Mobilizou milhares de adolescente punheteiros e geradores de conteúdo para adolescente punheteiros ao redor do mundo e quebrou recorde atrás de recorde. Até um Oscar póstumo está preparado. Sim, os bambas de LA sabem o que fazem.

 

Do the bartman!.jpgNão tem nada de errado com o filme do Batman. Nem de certo. Não tem é nada, pra ser honesto. Assim como qualquer outro filme inspirado em gibis de sujeitos que vestem a cueca por cima da calça. Então por que tentar achar algum significado/profundidade/sentido onde está claro que não existe? Por que querer que o filme seja mais do que é?

Para parecer menos estúpido quando, numa rodinha com gente um pouco mais adulta, disser que se emocionou vendo o discurso de frases feitas do mocinho? Para se justificar pra gostosa da academia quando deixar escapar que espera salivante pela edição dupla comemorativa do DVD que vai trazer uma réplica do bat-sinal? Ou ter uma desculpa para vasculhar a prateleira de filmes infantis da locadora em busca da primeira temporada do desenho animado que faz uma ponte entre o primeiro e o segundo filme?

Bom, sinto dizer, mas é tarde.

5 Comments

Meu caro Brigatti.

As pessoas QUEREM que as coisas de que gostam tenham alguma transcendência. Precisam disso para não se sentirem idiotas. Quando a gente investe um monte de angústia em enfiar um fio dentro de uma agulha e só faz isso, acaba por saber tudo a respeito e a encontrar nisso alguma filosofia, arte, sei lá.

Quando saí do cinema, absolutamente entediado com aquele discurso horroroso de crença na humanidade (algo realmente lido e relido, ouvido e reouvido, só que ali num formato mais duro e macho) dava para ver nos olhos das pessoas que elas tinha visto o CAMINHO e uma estética só compreensível para quem está devidamente TREINADO NA INFANTILIZAÇÃO. Brigatti, houve aplausos! Era como se todos tivessem se tornado subitamente púberes. Uma coisa lastimável ver as pessoas vendo a ARTE naquela merda.

Infelizmente, acho que estamos chegando num ponto em que uma nova estética reducionista e infantilizada começa a se impor. E talvez o grande cinema torne-se coisa de especialistas.

Abraço.

P.S. - Uma cerveja com o Tiago qquer hora dessas? Lembras que tu viesses aqui em casa durante a visita do Idelber?

Se o Batata quiser ir, posso levar um achocolatado pra ele...

:¬)))

Brigatti said:

Porra Miltones, claro que lembro da cerveja na tua casa! E bora marcar outra com toda certeza. Aproveito e levo biscoito recheado pro nosso amigo, rs!

Biajoni said:

tá, agora faz um post falando do que é que tem sustância para você, filhão. logo você, que coleciona bonequinhos do kiss???
;>)
gibis e adaptações são muito diferentes de, ér, homero? homero, da odisséia, manja? talvez ele não tenha feito quadrinhos pq não sabia desenhar. olha só o que disse o crítico Aristófanes de Ancaro sobre a Odisséia: "herói que se perde, não acha o caminho de casa, e se mete em enrascadas... clichê!".
:>)
não gostei das adaptações, mas os quadrinhos estão sim, acima da média da arte que se produz hoje, seja literária ou plástica.
:>/

Ed said:

Mas o quadrinho, ou o livro ou o filme, o que for, precisa mudar a sua vida para ser considerado de bom gosto? Diz aí a grande diferença entre Preacher e O Apanhador no Campo de Centeio no âmbito LEITURA. Com o segundo você se identificou?

Bah. Há algumas besteiras neste post, não obstante a qualidade geral.

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