Sem-teto
Teoricamente, eu ainda sou um sem-teto. Moro num apartamento cedido por uma amiga de um amigo, que viajou e tem data certa para voltar. Não, não reclamo. É fácil de limpar, veio parcialmente mobiliado e com vocação para câmara frigorífica. Fica no centro nervoso da boemia porto-alegrense e perto de supermercados e pontos de táxi. Dele, vou a pé para o trabalho. Atrás, tem um misto de locadora alternativa com café chamada Paris que cobra R$ 3 (adiantados) do aluguel de DVDs e tem um expresso duplo honesto a R$ 2,50. Na frente, um restaurante mexicano.
Mas não é meu. Não é meu nos sentido de identificação. Moro nele, mas não pertenço ao lugar, sacumé? O máximo que tinha feito era instalar o videogame, o laptop e plantar uma pimenteira. Até o último final de semana. No último final de semana, comprei este quadro.

Pronto. Agora o apartamento é meu.
Sem parecer exagerado, devo ter ficado bons dez minutos contemplando as duas meninas penduradas na minha parede. Elas representam duas das coisas que mais gosto. Beijo e mulher. Logo, mulher se beijando...
Mas não fica nisso. Ele encerra todo tipo de fantasia masculina com o menor esforço. Bote reparo. Não há cinta-ligas, rendas, couro, corpete, ou qualquer outro acessório. As garotas sequer estão maquiadas. Cores somente atrapalhariam. Tudo sugere casualidade. Acabaram de acordar - ou estão indo deitar -, vestem blusinhas e calcinhas brancas de algodão, pijamas solamente.
E beijam um beijo longo, honesto, de rosto colado, íntimo e leal. Elas se conhecem e devem fazer isso todos os dias, diz o pôster. Olhos fechados, braços entrelaçados, um abraço apertado e ao mesmo tempo casto, que junta o tórax enquanto afasta o púbis. Não há impulso sexual - não num primeiro momento, pelo menos. Existe apenas a cara e simples cumplicidade.
Dá vontade de passar o dia todo olhando para ele. Porque ele representa um espaço. Um espaço que não nunca existiu e demorou seis meses para finalmente ser composto. E precisou tão somente de um quadro.
Não qualquer quadro, mas Kiss, da fotógrafa Tanya Chalkin. Há outras tentativas, mas nenhuma como Kiss. E ela sabe disso. Tanto quanto eu.

Você parece ter razão...
constatação nº 1: belissíssimo quadro;
constatação nº 2: me parece só mais ou menos honesto o duplo da Paris; nunca, porém, me cobraram os 3 pilas adiantados... porque será?
abs!
Ah, Barretão, qualé! Vai dizer que tu frequenta aquela boca também? Hehehe! Mas de mim elas cobram adiantado, sim. Deve ser porque uso chapéu e, bom, não tenho comprovante de endereço ainda, hehehehe!
Já muito café tomei ali naquela locadora - de chapéu, e sempre fui bem servido.
Mas nunca peguei filme, vai ver é por isso que não me cobraram adiantado.