Eu passo muito tempo comigo mesmo (I)
- O problema é que ninguém quer assumir ninguém. Bando de bunda-moles. Ficam o tempo todo se policiando para não foder com a vida de alguém. E o que há de errado em foder com a vida de alguém de vez em quando? É o único jeito de se fazer notar, de ser lembrado, de movimentar algumas coisas.
- Então tudo se resume a isso, a marcar em brasa, tipo gado, para não ser esquecido. O teu medo é não ser lembrado, é isso? Por que se for isso, de fato, foder a vida de alguém é um excelente caminho.
- Não, não é isso. O que eu tô tentando dizer é que não vejo porquê ficar nessa de "ah, faz o que você quer por você, não faz por mim, porque se der errado, não quero me sentir culpado". Então tu é capaz de abrir mão de algo que tu acha valioso só para evitar um possível ataque de consciência no futuro? Como se alguém pudesse prever isso, como se fosse natural adivinhar o que vai acontecer antes de se fazer.
- Algumas coisas dá, sim. Só de olhar pra elas, dá pra sacar que são péssimas idéias e evitar a dor de cabeça que vão dar. Pra ficar na dor de cabeça como exemplo, é certo que tomar vinho vagabundo dá dor de cabeça no dia seguinte. Então tu não toma.
- Mas e se eu quiser tomar?
- Então toma já sabendo do que vai acontecer. Pra mim, isso é burrice. Se sabe que vai ser ruim, porque insistir?
- Porque posso estar errado.
- No que toca a vinho vagabundo, jamais.
- Tô falando de pessoas. Por que evitar problemas? Por que se encolher num canto? Covardia. Covardia pura e simples.
- Ninguém quer tomar uma atitude que só vai dar encheção de saco depois, é só isso.
- Ah, tá, então o que devemos fazer é só agir quando tivermos absoluta certeza? Não somos cupins, somos seres humanos. Não agimos com lógica. E no toca à relacionamentos, sequer com inteligência.
- É isso que tanta gente quer evitar. Agir sem inteligência. Por isso a cautela.
- Cautela demais é medo. É arregar. É preferir matar um sentimento a assumi-lo e vivê-lo da forma que se deve.
- E que forma é essa?
- Intensamente. Cegamente. Irracionalmente.
- O resultado pode ser ruim, e aí?
- O resultado pode ser bom, e aí? Prefere mesmo escolher o caminho mais fácil? Imagina quanto tempo a gente não morou em caverna por causa de gente que morria de medo de, sei lá, tigres dentes-de-sabre? Até que alguém levantou e disse "porra, cansei de comer aipim, vou lá fora arrancar o couro do primeiro bicho que cruzar o meu caminho e fazer um churrasco".
- O cara deve ter sido morto.
- Melhor morto que vegetal. Que é a forma como esse povo vive.
- Estamos falando de foder com a vida de alguém, e não matar um animal pré-histórico. São coisas diferentes.
- Tá, foder a vida de alguém, às vezes, não é todo ruim. Te contei da XXX, não?
- A-hãm.
- De certa forma, ela fodeu a minha vida. E até hoje eu agradeço por ela ter sido tão filhadaputa comigo e ter me ensinado que as luzes não acendem enquanto os créditos sobem numa telona retangular. O que eu acho é que muitas vezes as pessoas estão só esperando terem suas vidas fodidas.
- Não é bem assim. Você se saiu bem. Tem gente que, dependendo de como a coisa acontece, só pioram. Então é melhor deixar como está.
- Não, não tem que deixar como está.
- E quem é você para decidir se é para deixar ou não como está.
- Alguém que teve a vida fodida e sabe do que está falando.
- Você é um. Seu parâmetro é só seu, não tenta aplicar ele a outras pessoas. O que deu certo pra você, não quer dizer que dará certo com os outros.
- Mas e se der?
- Vai arriscar? Não estamos falando de cupins, estamos falando de pessoas, como você mesmo disse. Já pensou nas conseqüências do que tu faz, das coisas que tu fala?
- Toda noite.
- Então sabe do que eu tô falando. Sabe que pode estar errado, mas prefere pensar que está agindo certo.
- Só quero ajudar.
- Ajuda quem te pedir ajuda. Pára de querer lobotomizar todo mundo que encontra pela frente.
- Eu não tento lobotomizar ninguém, só faço o que acho que tenho que fazer. E assumo isso, ao contrário dessa gente que prefere não fazer nada. Não tô nessa a passeio.
- Ótimo, mas tem gente que está. Tem gente que embarcou nesse ônibus sem querer e não vê a hora de descer no próximo ponto. Se tu quer curtir a viagem, beleza. Mas não incomoda os outros.
- Não consigo.
- Então vai se foder.
- Então tudo se resume a isso, a marcar em brasa, tipo gado, para não ser esquecido. O teu medo é não ser lembrado, é isso? Por que se for isso, de fato, foder a vida de alguém é um excelente caminho.
- Não, não é isso. O que eu tô tentando dizer é que não vejo porquê ficar nessa de "ah, faz o que você quer por você, não faz por mim, porque se der errado, não quero me sentir culpado". Então tu é capaz de abrir mão de algo que tu acha valioso só para evitar um possível ataque de consciência no futuro? Como se alguém pudesse prever isso, como se fosse natural adivinhar o que vai acontecer antes de se fazer.
- Algumas coisas dá, sim. Só de olhar pra elas, dá pra sacar que são péssimas idéias e evitar a dor de cabeça que vão dar. Pra ficar na dor de cabeça como exemplo, é certo que tomar vinho vagabundo dá dor de cabeça no dia seguinte. Então tu não toma.
- Mas e se eu quiser tomar?
- Então toma já sabendo do que vai acontecer. Pra mim, isso é burrice. Se sabe que vai ser ruim, porque insistir?
- Porque posso estar errado.
- No que toca a vinho vagabundo, jamais.
- Tô falando de pessoas. Por que evitar problemas? Por que se encolher num canto? Covardia. Covardia pura e simples.
- Ninguém quer tomar uma atitude que só vai dar encheção de saco depois, é só isso.
- Ah, tá, então o que devemos fazer é só agir quando tivermos absoluta certeza? Não somos cupins, somos seres humanos. Não agimos com lógica. E no toca à relacionamentos, sequer com inteligência.
- É isso que tanta gente quer evitar. Agir sem inteligência. Por isso a cautela.
- Cautela demais é medo. É arregar. É preferir matar um sentimento a assumi-lo e vivê-lo da forma que se deve.
- E que forma é essa?
- Intensamente. Cegamente. Irracionalmente.
- O resultado pode ser ruim, e aí?
- O resultado pode ser bom, e aí? Prefere mesmo escolher o caminho mais fácil? Imagina quanto tempo a gente não morou em caverna por causa de gente que morria de medo de, sei lá, tigres dentes-de-sabre? Até que alguém levantou e disse "porra, cansei de comer aipim, vou lá fora arrancar o couro do primeiro bicho que cruzar o meu caminho e fazer um churrasco".
- O cara deve ter sido morto.
- Melhor morto que vegetal. Que é a forma como esse povo vive.
- Estamos falando de foder com a vida de alguém, e não matar um animal pré-histórico. São coisas diferentes.
- Tá, foder a vida de alguém, às vezes, não é todo ruim. Te contei da XXX, não?
- A-hãm.
- De certa forma, ela fodeu a minha vida. E até hoje eu agradeço por ela ter sido tão filhadaputa comigo e ter me ensinado que as luzes não acendem enquanto os créditos sobem numa telona retangular. O que eu acho é que muitas vezes as pessoas estão só esperando terem suas vidas fodidas.
- Não é bem assim. Você se saiu bem. Tem gente que, dependendo de como a coisa acontece, só pioram. Então é melhor deixar como está.
- Não, não tem que deixar como está.
- E quem é você para decidir se é para deixar ou não como está.
- Alguém que teve a vida fodida e sabe do que está falando.
- Você é um. Seu parâmetro é só seu, não tenta aplicar ele a outras pessoas. O que deu certo pra você, não quer dizer que dará certo com os outros.
- Mas e se der?
- Vai arriscar? Não estamos falando de cupins, estamos falando de pessoas, como você mesmo disse. Já pensou nas conseqüências do que tu faz, das coisas que tu fala?
- Toda noite.
- Então sabe do que eu tô falando. Sabe que pode estar errado, mas prefere pensar que está agindo certo.
- Só quero ajudar.
- Ajuda quem te pedir ajuda. Pára de querer lobotomizar todo mundo que encontra pela frente.
- Eu não tento lobotomizar ninguém, só faço o que acho que tenho que fazer. E assumo isso, ao contrário dessa gente que prefere não fazer nada. Não tô nessa a passeio.
- Ótimo, mas tem gente que está. Tem gente que embarcou nesse ônibus sem querer e não vê a hora de descer no próximo ponto. Se tu quer curtir a viagem, beleza. Mas não incomoda os outros.
- Não consigo.
- Então vai se foder.

Nossa, passo por situações do gênero todo dia...
Sei lá, talvez os dois estejam errados. Viver sempre em função do outro, como se as únicas opções fossem a da boa ou da má intriga (mas sempre viver em intriga), não é limitar demais a própria vida?
bah, que massa. tem muitas camadas e me fez pensar o texto inteiro pensando "ah, eu isso, eu aquilo".
mas é, tem quem, simplesmente, goste de viver no rasinho.
eu gosto de vinho vagabundo. hehe