Vida que segue

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Tem quem consiga. Desligar-se pura e simplesmente. Como se houvesse um botão on/off no peito. Sei lá. Para viver melhor, dizem. Viver melhor... Melhor do que o quê? Melhor por que? Dá pra definir viver melhor, assim, bonitinho? Seria o mesmo que um menear de cabeça seguido de um "vou levando"? Ou seria igual a um muxoxo do tipo "é a vida"? Os dois, quem sabe. Mas "ir levando a vida" é diferente de "deixar a vida levar". O primeiro pressupõe atividade, atitude, algum esforço, talvez uma medida de responsabilidade ou desejo de sentir-se parte de um processo algo imprescindível.

Como o sujeito que fica empurrando a vida pra cima de uma montanha só para, depois, vê-la descer morro abaixo e reiniciar o trabalho. Mas esse novo Sísifo não usa os bíceps, e sim a barriga. Ele vai empurrando a vida com a barriga até o pico e, sinceramente, não vê a hora que ela despenque ribanceira abaixo para ter novamente o que fazer. Falta-lhe um propósito, o mais insignificante, que o faça largar mão daquela porra de sina. É como a dona de casa que não forra o fogão com papel alumínio só para ter contra o que praguejar quando o leite derramar. Certeza que toda vez que a pedra rolava Sísifo bufava um "puta que pariu". Mas descia para recomeçar a parada toda, afinal, ele não tinha mais nada para fazer.

É diferente de deixar a vida levar. Se deixar levar é como boiar num rio ao sabor da correnteza, aproveitando o que ele reserva a cada curva, entroncamento, queda d´água, até chega ao mar. É, sim, um ato de coragem e entrega suprema. É estar aberto a possibilidades e conseqüências totalmente imprevisíveis, esperar por tudo sem ter nada a entregar ou muito pouco com o que se defender, braços abertos, peito estufado pra cima sujeito a toda sorte de intempérie. É... aceitação. Mas não aceitação passiva do destino ou coisa que o valha. Isso é levar a vida. É empurrar a pedra por não ter escolha. Deixar a vida levar é, ao contrário, se deparar continuamente em bifurcações, sem saber o curso do rio, e precisar escolher ali, na inconstante da corrente, para onde ir. Depois, conviver eternamente com a dúvida de ter escolhido certo ou não e imaginar o que se estará perdendo por não ter optado pelo outro lado.

Levar a vida é fácil. É escolher um emprego que te pague o suficiente para o aluguel e a chalaça, é reduzir a marcha numa descida. Uma quase-morte. É trabalhar 14 horas por dia para deixar um sujeito que já é rico, mais rico ainda, e no final, chegar em casa exausto com uma sensação de dever cumprido que só pode ser explicado pelo cristianíssimo "trabalho que enobrece o homem" - se ser nobre é isso, melhor ser plebeu a vida inteira. Ligar a TV em qualquer lixo para "descansar a cabeça". Comprar molho de tomate achando que o conteúdo daquela latinha, válido por no mínimo 6 meses, é realmente molho de tomate. Ler para dormir. Beber só um pouquinho "porque não quero acordar amanhã com dor de cabeça", e aí acordar, comprar o jornal mais gordo da banca e passar a manhã folheando os catálogos de lojas de departamento atrás de qualquer coisa desnecessária. Se acostumar. Reencostar a cabeça no travesseiro à noite com a sensação de que ocupou seu tempo com algo "construtivo" e "útil" - mesmo sem saber bem ao certo o porquê daquela náusea que o faz acordar no meio da noite.

1 Comments

Caralho, Briga. E eu achava que estava só nestes questionamentos e revoltas... Ingenuidade minha.

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Esta página contém um post de Brigatti publicado em abril 13, 2008 8:37 PM.

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