Sobre o Homem de Ferro
O que todo mundo sabe: o filme do Homem de Ferro está para estrear. O que pouquíssima gente sabe: o Homem de Ferro foi o responsável por um dos poucos momentos dignos da minha adolescência.
Se você é/foi um adolescente normal, sabe o quanto é difícil manter a dignidade. A luta por um naco de respeito parece sempre perdida. Ninguém te considera pra nada, no final das contas. A menos que você faça algo digno. Algo que te dê dignidade, ora bolas, e, automaticamente, uma talagada de respeito - próprio e alheio. Foi o que o Homem de Ferro me proporcionou.
Era meados de 1997. Não me lembro da data precisa, apenas que era o meio do ano porque minha namoradinha usava uma jaqueta jeans e eu, um blusão qualquer. Então estava frio, devia ser entre junho e agosto. O lugar era o Welcome Center. O "elcômi", como o chamávamos, era/é uma espécie de centro de compras/lazer em Americana, menor que um shopping center e mais bonito que o convívio municipal. Havia recém inaugurado e era a melhor coisa da cidade para quem não possuía dinheiro, carteira de motorista ou um pouco de ambição.
O programa era ficar encostado por ali fazendo coisas que hoje soam estranhas, tipo beijar na boca pura e simplesmente, tomar refrigerante e jogar fliperama. O fliperama ficava onde hoje está uma das salas de cinema do lugar. Minha memória diz que era uma sala retangular profunda, de pé direito gigantesco e uma vidraça maior ainda que dava para a rua. Mas não devia ser tudo isso. De qualquer forma, ali era uma parada certa.
A ficha podia ser cara - algo como R$ 0,50 - mas não havia maloqueiros te importunando e as máquinas eram novas, com joysticks limpos e botões que funcionavam de fato - quem frequentou bocadas malafamadas de fliperamas sabe do que estou falando. E tinha Marvel Super Heroes. Para nós, capiais do interior paulista, aquilo ali era o ápice. Misturava videogame de alta tecnologia com nossos heróis preferidos.
Um aparte para a história:
Marvel Super Heroes era inspirado na saga Desafio Infinito, da editora Marvel. Nela, o vilão Thanos junta as seis Jóias do Infinito (Alma, Mente, Poder, Tempo, Realidade e Espaço ) e torna-se algo como um semi deus. Nada se tornar impossível para ele, a não ser agradar a amada, que no caso era a própria morte. O sujeito então resolve dizimar metade da população do universo, equilibrando o número de vivos com o de mortos. É quando os heróis se juntam para pegar o cara.
E o jogo foi lançado - pelo menos para nós - justamente na época que estávamos lendo as duas continuações da saga, Guerra Infinita e Cruzada Infinita. Só colocar a mão dentro da calcinha de uma menina podia ser mais incrível que aquilo - com a vantagem de que no jogo só dependeria de você para terminar o que começou, enfim...
Então lá estava eu. Com minha namoradinha de um lado e alguns amigos do outro. Escolhi o Homem de Ferro. De verdade, eu mal conhecia o personagem. E na época ele não estava tão em voga quanto hoje, figura central da última grande saga Marvel, Guerra Civil, e tal. Não passava de um herói de segundo escalão dentro de um grupo criado para juntar todos os sujeitos que não tinham moral para uma revista própria. Mas ele era o mais fácil de apelar! Para um cara que não tinha dinheiro a perder com treinamento de técnicas de combate, só a vitória interessava.
E o Homem de Ferro era perfeito para isso. A seqüência de ouro consistia em soltar um raio pelo peito (Laser Beam), seguido de bombas pelos ombros (Shoulder Bombs), aguardar o inimigo contra-atacar para então mandar um Repulsa Blaster e começar tudo de novo. Até o momento que a barra de poder estivesse cheia e você pudesse desferir um Proton Cannon, que nada mais era que um Canhão de Prótons (sim...) materializado do nada no ombro do Tony Stark, que lançava uma rajada brutal capaz de consumir mais da metade da energia do oponente. Aí a briga estava praticamente ganha.
Fui nessa toada até os três chefões finais, sendo dois não jogáveis. O primeiro, Magneto, venci com certa facilidade. Doutor Destino era o segundo e chegado numa apelação, do tipo ficar se defendendo num canto esperando a própria barra de poder encher para então lascar um movimento especial na minha fuça de lata. Perdi um round, ganhei o segundo e venci o terceiro constatando que as manoplas da máquina estavam escorregadias.
Foi quando dei uma olhadela pra trás e reparei uma pequena multidão aglomerada, de olhos vidrados no monitor. Parecia que a seção toda havia parado para assistir a partida, como se ninguém nunca tivesse chegado tão longe no jogo e mostrado aqueles cenários e personagens. Lembro de um amigo falando algo como "agora fodeu, é o chefão final" e minha namoradinha fazendo sua típica cara de paisagem, como se aquilo não fosse mais que a última fase do fliperama mais quente de nossas ridículas existências.
Então veio Thanos. Thanos e a Manopla do Infinito. Na verdade, sua própria luva, porém cravejada com as Jóias do Infinito. Ele era capaz de tudo e eu sabia disso. Portanto estava em vantagem, porque eu havia lido sobre ele, mas HÁ! ele não tinha conhecimento da minha estratégia. O cenário era composto dos principais heróis não jogáveis da saga petrificados. E eu seria o próximo, dava a entender o vilão, que sequer possuía movimentos de corpo-a-corpo e mantinha-se a distância lançando mão de todo tipo de golpes de longo alcance.
Adotei a estratagema do Doutor Destino. Me encolhia num canto e lascava um poder ou outro quando visualizava uma brecha. Ele caiu no primeiro round, eu perdi o segundo. E veio o terceiro. Meus arquivos dizem que nessa hora havia mais gente na sala de fliperama que em todo "elcômi". Não mexi no time e levei a taça. Tava lá. Eu havia, pela primeira vez na vida, fechado, zerado, terminado, finalizado, um jogo de fliperama. E todo mundo tinha visto.
Eu havia vencido Thanos. Eu e o Homem de Ferro. Vitória apelativa, inglória, feia, suja e malvada, na raça, no sangue, corinthiana, maloqueira e sofredora graças a deus. Tanto não podiam tirar aquilo de mim que, após assistir a toda a animação final e os créditos, coloquei minhas iniciais no posto mais alto do ranking. Por algum tempo, todos que jogassem - ganhando ou perdendo - veriam um GHB garrafal escrito no topo da lista.
Aos 15 anos, eu não tinha como aspirar a mais nada. Talvez colocar a mão dentro da calcinha da paisagem ao meu lado, certo, mas não naquele momento.

Cara, você era o GHB!???... Tô brincando. Você não era um ídolo no Welcome.
Minhas histórias de fliperamas - as que eu lembro - são muito mais tristes. No geral, lá estava eu me divertindo sozinho com Street Fighter IV quando chegava um filho da puta daqueles ratos parasitas e colocava um ficha no player 2, sem pedir permissão, pra me desafiar. Ele geralmente vestia chinelos havaiana e exalava odores típicos de quem estava ali desde o começo da manhã, enquanto eu me fodia na escola ao invés de aprender os hadukens do Ryu.
Eu sempre tomava pau desses desgraçados, que continuavam jogando na máquina em que eu estava... Por isso que hoje eu tenho um video game e aqui só joga quem eu quero.
Cara, você era o GHB!???... Tô brincando. Você não era um ídolo no Welcome.
Minhas histórias de fliperamas - as que eu lembro - são muito mais tristes. No geral, lá estava eu me divertindo sozinho com Street Fighter IV quando chegava um filho da puta daqueles ratos parasitas e colocava um ficha no player 2, sem pedir permissão, pra me desafiar. Ele geralmente vestia chinelos havaiana e exalava odores típicos de quem estava ali desde o começo da manhã, enquanto eu me fodia na escola ao invés de aprender os hadukens do Ryu.
Eu sempre tomava pau desses desgraçados, que continuavam jogando na máquina em que eu estava... Por isso que hoje eu tenho um video game e aqui só joga quem eu quero.
"Apelativa, inglória, feia, suja e malvada" que nada, Tony Stark sempre foi meio que tudo isso aí!
HAHAHAHAHAHAHAHA
Se nao me engano eu participei dessas visitas ao Welcome center ... mas nao tenho uma memória tao detalhada desse dia em específico, mas dessa epoca eu tambem guardei o vicio de jogos de luta, em especial esses em que a tecnica de apelacao é sempre a mesma: Meia lua e os 3 socos !
Só sei que eu curto esses flashbacks da epoca do Jardim Sao Paulo, tirando o dia em que eu detonei o seu jogo do Diablo I, quase no último andar, prestes a enfrentar o Diablo cara a cara ...
HAHAHAHAHAHAHAHA
Gustavo Tognetta
Há! Gustavo Tognetta, uma testemunha ocular do meu maior momento! Tu tava lá, rapá, tava lá! E, se não me engano, não queria pegar a Carol e tal... ixi, falei demais... hehehe
E Léo: também passei por isso. E pensando bem, hoje acho que deveríamos ter perdido tempo aprendendo hadoukens ao invés da Fórmula de Báskara.
Cara, é por isso que eu te amo! (amor de amigo, Sol).
Parabéns pela blog, pelo texto e pela coragem de narrar a história. desde a infância, o Iron Man foi um símbolo de dignidade, força, superação. Um herói humano, que usou sempre sua inteligência e seus dons naturais para mudar o mundo. O Homem de Ferro acompanhou a minha infância, a minha adolescência e minha vida adulta (tenho 38 anos). Nas suas revistas, eu aprendi a ler. Minha saudosa avó comprava, todos os meses, e meu pai. Ei recriava as aventuras. Asssitir ao filme foi a realização mais do que um sonho, mas a consolidação de uma vida. É um herói norte-americano, o cra é rico, mas nunca levantou ideaisi de guerra nem as cores de certa bandeira. Assim que se acidentou, lutou contra as guerras mundiais e estev sempre ao lado dos mais humildes, mesmo tendo ocultar a identidade. Hoje, como todo mundo já sabe quem é, tenta combater até mesmo os males bélicos de seu próprio governo. Fico feliz em saber que o herói foi - e é - tão importante par outras pessoas maravilhosas. Assim coo a Mõnica,o cebolinha, cascão... Personagens fictícios que acompanharma nossa infãncia, que nos trouxeram alegrias e sonhos, que nos ajudaram a ser o que somos -e continuam guardados com carinho em nossos corações.