Uma velha e boa discussão antes do feriado

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Ms. Gabizago é uma destas forças da natureza que me maravilham. Nem bem completou 1/4 de século e escreve com tal propriedade que fica difícil não se impressionar - ou intimidar. Ela é uma observadora atenta do jornalismo como ferramenta de mudança social. Mas ao contrário do Alberto Dines, não é um pé no saco.

Conheci ela via Tiagón - outro zeitgeist com o qual tenho prazer de me embebedar pelo menos uma vez por semana. Cheguei também no professor Trasel, que assim como GZ, também permanece de olho no que vai ser do jornalismo. Como eles, muito mais gente discute o assunto, apresentando novos pontos ou revisitando velhos. Beleza. Tudo certo. Então vou contar um lance aí que talvez possa colaborar com isso.

Pra começar, admito que ainda não me convenci de que é possível fazer jornalismo via blog. Quando quero me informar, procuro primeiro os portais dos meios de comunicação consolidados em papel. Depois, me aventuro por outras barras de rolagem. Mesmo assim - correndo o risco de parecer anacrônico - é no papel que confio.

Tá, sejamos honestos, há tanto jogo de interesse num jornal ou revista impresso quanto num portal ou blog. Em ambos têm quem faça o certo e quem faça o errado. Quem age de má fé e quem contribui com informação qualificada. Ainda assim, as letras impressas me parecem ainda mais confiáveis por um motivo muito básico: escrever besteira em jornal ou revista impressa não tem volta. Uma vez que as rotativas foram acionadas e o calhamaço entregue, acabou-se.

Aconteceu onde eu trabalhava e foi simples assim. Um editor leu no portal de uma retransmissora de TV local uma denúncia contra o prefeito de uma das cidades de sua cobertura. Pediu para o repórter checar a informação. Ele não conseguiu. Na ânsia de dar a informação, o editor pediu que o repórter fizesse a matéria com base nas linhas do site.

No dia seguinte, o advogado do prefeito ligou para o jornal dizendo que estava entrando com um processo por - que eu me lembre - calúnia e difamação. O site já havia retirado a página com a denúncia do ar. Até onde sei, o portal se safou. O jornal, não. Pouco adiantou publicar errata, fazer outra reportagem se desdizendo, o escambau. Tomou, vai responder na Justiça e blá-blá-blá.

Para mim, essa é a diferença crucial entre o impresso e o digital. A responsabilidade de quem publica no impresso é naturalmente maior pelo simples fato de que não é possível voltar atrás. Escreveu besteira? Caluniou, difamou, distorceu, não checou? Tá lá, registrado para a eternidade em milhares de exemplares.

No caso que contei, o advogado do prefeito poderia até ter impresso a tela onde estava a notícia, provando que ela ficou X horas no ar e que isso atingiu um número Y de pessoas, assim como as edições impressas. Mesmo assim, a defesa do portal se beneficiaria com muito mais atenuantes que a defesa do jornal. Diria que a notícia entrou por engano, que foi um estagiário irresponsável e já demitido que colocou no ar, que era apenas um teste, enfim.

Se papel aceita tudo, o que dirá de planilhas virtuais? Chego a lembrar daquelas lousinhas mágicas, onde depois de escrever, bastava levantar a tela plástica para brincar novamente.

Responsabilidade. Quando pego um jornal impresso, sei que o sujeito que escreveu aquilo ali - assim como eu e muitos dos meus companheiros - deve estar até agora se cagando de medo com a possibilidade ter escrito besteira ou checado até na Enciclopédia Britânica o nome do presidente da República. Se não porque ele é realmente preocupado com o que faz, pelo menos porque não quer ter aporrinhação depois.

É esse depois, esse além, que ainda não vejo no virtual. Porque é tudo fácil demais de consertar. Para mim, é aí que reside o problema. E não sei como pode ser solucionado.

3 Comments

larissa said:

fora o prazer de ler um jornal de papel.
de sentar no banco da praça com o cotidiano e teu mate, dividir os cadernos e comentar: quê beleza, ou quê bosta isso, com tua companhia. ou pensar isso sozinha, na mesa de um café, dar um tempo e olhar pras pessoas na volta...
eu gosto de jornal de papel!

Gabriela said:

Lógica do papel >> conferir antes, publicar depois.
Lógica da web >> publicar antes, conferir depois.
Com isso, o papel já tem sua credibilidade construída, sólida, a gente sabe que dá para confiar. Já na web precisamos nos fiar em outros elementos acessórios - como autoridade de quem diz, links, comentários validando a informação, etc. - para construir a credibilidade. E o resultado é que as pessoas confiam mais em blogs vinculados a grande empresas jornalísticas (tipo os blogs da ZH :P) do que em blogs em geral...
Mas, enfim, sintetizando... para notícias, para o jornalismo diário de hard news, também prefiro o papel :) Mas até o papel pode falhar às vezes... e nesses casos temos os blogs e a web para conferir o(s) outro(s) lado(s) da história :D

666-bolchevik said:


Amigo grande questão a que vc coloca.
Vale ler, no papel o ultimo capítulo do livro Videologias escrito pelo Eugênio Bucci. Vai nesse sentido, ainda que sobre outra questão e com outro trato.

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