De pedra

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Há um consenso, até certo ponto infantil e burro - como a maioria dos consensos - de que artista bom é artista doidão. Pegue os grandes revolucionários de qualquer área em qualquer época e tá lá: os caras faziam merda. Pouca ou muita, não importa. Gente que mexe com a estrutura precisa estar aditivada. Não dá para criar, destruir, enfrentar, descontruir, o escambau que seja, tomando achocolatado.

Entretanto, poucos levam isso para onde a coisa fica séria. No caso, o bolso. Principalmente quando se trata de música. Quebrar quarto de hotel, normal. Ser fotografada sem calcinha, ok. Flagrante com o narizão enfiado no pó? Rotina. Dar entrevistas desconexas, então, é quase uma regra. Mas na hora de subir no palco para cantar, ah, aí a caretice predomina. E dá-lhe encenação. Até cuspir "sangue" neguinho cospe para pagar de maluco. Porque o palco é o ganha-pão. No palco, a alma cheira talco, diria GG. Cagar o pau ali em cima é risco de perder público, patrocínio, ter contratos cancelados, turnês encurtadas, o que significa menos combustível para a fornalha de besteiras de praxe.

Não é difícil perceber que por mais endemoniado que o frontman pareça - olhar de demente, cabelos desgrenhados cobrindo parte do rosto, punhos crispados, dentes projetados - ele está representando. Pode até ter consumido um ou outra coisinha, mas tem plena consciência do dever. O máximo a que se permite é esquecer partes de canções obscuras depois de um longo tempo de estrada e (in)conseqüente exposição à todo tipo de substântica. Fora isso, tudo ocorre dentro do previsto.

Não discuto a predileção ou uso constante e indiscriminado de drogas (legais ou não) pelos capitulares da música que fizeram e fazem a diferença. Mas quantos deles ousam levar suas pirações para o local de trabalho? Melhor: quantos realmente apostam que seu público é tão fiel e generoso que vai pagar para assistir ao seu artista predileto NÃO fazer o que ele deveria fazer, no caso, cantar?

 

AmyWinehouse4ofDiamonds-703822.JPGOntem assisti pela TV uma apresentação da Amy Winehouse. Já tinha visto, no Léo, um trecho de show da garota e comentei que pediria meu dinheiro de volta. Ao ver a apresentação completa, tenho certeza que jamais darei um níquel pra essa mina. Acho que tirando o Tim Maia que não aparecia, ou o Steven Tyler que caia e não levantava mais no meio de concertos, ela parece ser a única persona de respeito no meio que não liga a mínima para o seu público. Gracinhas como as do White Stripes, de tocar UM acorde e ir embora não contam, porque o séquito deles sabia o que esperar. Agora, o que Amy faz é digno de nota.


Na apresentação que assisti, ela canta uma canção e some do palco. A banda, empolgadíssima, termina a música enquanto um dos integrantes vai sabe-se lá para onde buscar a garota. Ela volta, emburrada, olhar vago, diz algumas bobagens, e canta mais. Some de novo. Alguém traz ela de volta ao palco. Cada vez mais incomodada, anuncia a próxima faixa, praticamente regurgitando a letra enquanto tenta lembrar a coreografia que deveria fazer junto com os backing vocals. Antes do fim da canção, lá vai Amy, correndo para os bastidores como se procurasse um banheiro para aliviar o X-Tudo da noite anterior. Toca um infeliz puxar a doida e colocá-la em frente ao pedestal do microfone, onde ela balbucia ser a última música da noite. Com a mesma empolgação, canta o que consegue e vai embora. A banda toca por mais uns minutos e agradece o público de um jeito meio "olha, desculpem, sabem como é, ela tá passando por um período barra-pesada e tal".

Não há como nem porque negar que Amy é uma baita cantora. Nada a ver com as grandes divas negras, mas num meio conservador como o do pop, ela é um diferencial bem-vindo. Pode ser pelo pior motivo - pelo menos para mim - mas se peca, peca por ser legítima e sincera demais. Isso, do meu ponto de vista, por mais paradoxal que seja, é respeito pelos fãs e à si mesmo. Coisas que muita banda, que em entrevista fica exultando os responsáveis pelos seus conversíveis, não tem.

5 Comments

Fábio said:

No Brasil tinha o Raul Seixas também. Tenho amigos que viram alguns shows dele, sendo que todos estes amigos que disseram que viram alguns, foram algumas metades de shows, porque ele geralmente caia no meio do show.
O Renato Russo tinha suas crises nos shows também e nem ligava. Eu vi a última apresentação da Legião ao vivo, e ele não cantou Faroeste Caboclo porque tinham jogado uma lata de cerveja no palco. Enquanto a banda tocava e tentava fazer o público acompanhar, ele ficou deitado perto do tecladista, cruzando as pernas e fumando um cigarro.
Eu curto prá caralho esta Amy Winehouse. E até hoje não entendi como surgiu aquele vídeo dela usando crack.

Biajoni said:

discussão recente no brasil: o show do dylan.
foi patético ver gente dizendo que "não foi para aquilo que pagaram", uma idiotice que alguns chamam de profissionalismo.
ora, quando vc vai ver uma peça ou um filme, vc sabe de antemão de vai gostar? com show é igual, ele pode não te agradar, sim, isso pode acontecer.
se vc vai ver a amy, deve conhecer o perfil dela.
vamos ver o yo la tengo aqui e sabemos que eles podem entrar em trips experimentais sem fim.
mas... se vc quer ver algo que sabe exatamente como vai ser é só procurar pelo deep purple ou pelo aznavour que vem ao país com o mesmo show que faz há 30 anos.
:^/

havia também o Jim Morrison. ele era tão loucão que nem o público mais doido dele o aguentou. o cara literalmente botava o pau pra fora no show.

Karen said:

Má cê tá muito "coolzão", hein? Show é como bunda de neném, vc nunca sabe o que vai sair. Beijo.

Brigatti said:

Fábio, tive uma pontaça de inveja de ti por ter visto o derradeiro show da Legião. Lembrou bem dois outros artistas que se mantinham fiéis ao que eram.

Bia, quase te citei, lembrando do show que o Lou Reed fez no Brasil e todo mundo meteu o pau porque ele ficou de firula com a guitarra. Como disse, isso é respeito pelo fã, que tem que (e gosta de) se foder por causa do seu ídolo! ;)

João, o Jim é mito, né, cara? Com o risco de isso soar meio gay, eu pagaria para ver ele ser retirado do palco pela polícia depois de mostrar o pau, hehehe!

Karencita, eu não critico quem faz doideira, e sim quem não faz! :D

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