Por que, meu deus, por quê?
Era só isso que eu me perguntava logo depois de entrar no cinema para assistir a "Eu Sou a Lenda". Cercado de adolescentes por todos os lados, lembrei da trágica sessão maldita de "Homem-Aranha 3". Eram 16h de uma segunda-feira, numa sessão a ridículos R$ 10, essa molecada não tinha que estar na escola ou em casa resolvendo equações de segundo grau? E como eles tem dez pilas para queimar assim, sem ninguém questionar nada? Ah, é janeiro. Ah, é férias. Ah, eles só pagam cincão. Ah, que se foda eu, então.
O melhor de "Eu Sou a Lenda" é que ele é curto. Coisa de hora e meia. E é das coisas mais medonhas que já botei os olhos. O tédio foi tanto que cheguei ao ponto de ficar checando, de 10 em 10 minutos, se minha editora não tinha me ligado pedindo para voltar para o jornal e remendar algum ponto qualquer. Necas. E dá-lhe Will Smith repetindo o mesmo papel de "Independence Day" - só que levando a coisa "a sério" - no filme que, li por aí, é a terceira refilmagem do livro de mesmo nome de Richard Matheson. Para uma obra da década de 50 ser colocada na telona pela terceira vez, é preciso fazer alguma diferença, não?
Mas não faz. "Eu Sou a Lenda", o livro, a idéia original, pode ser o precursor da idéia do morto-vivo infectado por um vírus, tornado ultraviolento e sedendo por carne humana. Beleza. Só que chegou atrasado na festa. George Romero fez história com "A Noite dos Morto-Vivos" e sedimentou o que seria, dali por diante, o cinema de zumbis. Ponto. Hordas de vampiros correndo alucinados atrás de pescoços têm aos montes desde os primórdios do cinematógrafo, mas um caçador estiloso e cheio de artimanhas quem fez foi John Carpenter em "Vampiros" com James Woods. O lance do vírus criado artificialmente e que se espalha pelo ar, mordida ou sangue, e que resulta num morto-vivo meio bobão e famélico virou o "Resident Evil" (game, filme, o que seja). Juntando os três e adicionando um pouco de velocidade nós temos "Extermínio", de Danny Boyle.
Quer dizer, ninguém mais hoje em dia se espanta com isso. Ou sequer se impressional com humanóides atléticos, de pele acinzentada e carecas, trotando pela noite e quebrando tudo o que encontram pelo caminho. Sustos, sim, dois ou três para quem começou ontem a dormir de luz apagada. Fora que devem ter pago um cachê tão alto para o Will Smith que sobrou nada para fazer os monstrengos, que mais parecem terem sido retirados de algum joguinho vagabundo de terror PlayStation One.
Então pra que serve "Eu Sou a Lenda" se não para Will Smith encher a burra de dinheiro? Mostrar como Nova York ficaria sem a presença humana. Desculpa, mas "Os 12 Macacos" já fez isso também (ou era Los Angeles? Bom... era uma cidade grande). Que tipo de discussão pode levantar? Que tipo de frescor para o gênero pode trazer? O sujeito que luta sozinho contra seu destino? Tenha dó, desde os gregos se fala disso. A criatura que se vira contra seu criador? Não me faça citar Frankenstein. O chamado de Deus? Bom, o herói morre igual a Joana D´Arc, se isso serve de consolo. Ah, claro, a inevitável dependência do mundo, cujo futuro está nas mãos de um norte-americano que jamais abandona seu posto porque tem plena consciência da merda que causou e prefere morrer lutando a bater em retirada e reorganizar sua estratégia. Lógico que ele consegue. Lógico que no final tem uma bandeirona de estrelas e listras tremulando no horizonte sob uma narração em off da Alice Braga (!!!). Lógico que antes dos créditos subirem eu vesti meu chapéu e corri alucinado para não perder meu T7.

Hoje mesmo no elevador ouvi uns caras a comentar sobre esse filme: "Nossa, bom demaaaaaaais!" etc., e daí já não botei mesmo muita fé.
Ainda não vi o filme, mas não esperava grandes coisas dele mesmo... Humpf.
Minha pior experiência em cinema foi quando fui ver o remake de "A Fantástica Fábrica de Chocolates" às 14h de um domingo. Não sei o que era pior: a criança do meu lado, que ficava contando pro amiguinho tudo o que ia acontecer na cena seguinte, a da frente, que perguntava o tempo todo para o pai dela o porquê de cada cena ("por que o rio é de chocolate?" "por que o chiclete dela é tão grande?"), ou as de trás, que ficavam me jogando pipocas, e papeizinhos. Gaaaah.
mas... tu esperava mesmo que fosse um bom filme?!
tudo bem, a gente precisa ver essas coisas vez por outra, deixar o cérebro no piloto automatico.
pelo que percebi, esta chegando em no porto verão nem tão alegre, mas lôco de escaldante. claro, te venderam a provincia por artigo do bom, agora tu vê a quantidade de pequenas disfunções no territorio.
(mas eu adoro porto alegre, mesmo assim.)
however, will smith não te enganaria, assim? estou enganada?
Gabiz: faça um bem para o seu dinheiro e não veja. Com a pila, compre alguma coisa alcoólica e chame os amigos (e vizinhos de condomínio :D)
Lariz: sempre penso que realmente posso me divertir com blockbusters. E não é para isso que eles servem - ou deveriam servir? O problema é que me sinto cada vez menos tolerante com "coisas" que subestimam minha inteligência além do simples e altamente recomendável "deixar o cérebro no piloto automático".
Ah, sim, fui ludibriado. Esperava a Suiça, e encontrei praticamente um Senegal, hehehe! Mesmo assim, gosto cada dia mais de POA, incluindo suas pequenas tapeações... ;D
T7 ?
O que eu pensei foi: "puta filme parado!". Mas fui recriminado pelo meus amigos. O filme faz questão de se agarrar a todo clichê holliwodiano: mortos vivos com uma fraqueza patética, um cara durão com um passado traumático, uma moça que aparece no meio do filme quando a história já estava perdendo fôlego (sic) e um final com narraçãozinha que amarra a trama. O que ajuda o filme é que o Will Smith é um cara carismático.
E, com certeza, se a questão era caracterizar um cara durão, o John Carpenter fez o melhor, o inigualável caçador de vampiros anti-clerical interpretado pelo James Woods.
Brigatti, disseste tudo. Se era para refilmar pela terceira vez, pelo menos que trouxesse um elemento novo para a parada. Mas não - e Richard Matheson ainda fica com cara de tacho.
Neste caso, é sempre melhor ficar com o livro, que não nos decepciona.
Abraço do novo condômino!!
Muiot ruim é pouco: o do Charlton Heston é bem melhor!