De novo
Hunter S. Thompson era uma farsa. Uma fraude. Um embuste. Um grande erro que foi levado adiante e a sério por muito tempo. HST é como o nosso Lobão. Mais interessante que qualquer coisa que possa criar é o personagem que interpreta toda vez que sai às ruas. E só. E já está de bom tamanho.
Qualquer um já ouviu falar de Hunter. Jornalista fanfarrão, americano debilóide, anarquista, louco varrido e, ah, o criador do gonzo jornalismo. A porcaria do gonzo jornalismo. Uma sandice que só foi possível porque seu autor abusou da teoria woodyalleniana que diz que sucesso é 90% sorte e 1% talento. HST teve 99,99% de sorte. Era o cara certo, no lugar certo, na hora certa e entre as pessoas certas.
Seu primeiro livro, sua primeira grande reportagem foi “Hell´s Angels”. É uma obra caretíssima em seu formato – justamente onde o Sr. Thompson veio a fincar bandeira. Thompson era um repórter medíocre. Nunca deu um furo, nunca descobriu qualquer história que realmente fosse relevante. Era, sim, como ele próprio se define, “bêbado, louco e vivia armado até os dentes”. Só que conheceu os caras certo.
Calhou de levar sua fome por bolinhas para a Califórnia. Lá fez “Hell´s Angels” e chamou a atenção de uma nova mídia que nascia por ali, mais precisamente uma nova ordem de mídia ali pelo meio dos anos 60. Conheceu Ken Kesey e toda a turma beat, fez amizade e a rompeu depois com Timothy Leary, e acabou nas graças de Jann Werner, editor de uma revista que nascia por aqueles tempos, a Rolling Stone.
Entendam: Thompson JAMAIS trabalharia na Rolling Stone hoje. Não da forma como fez fama. Nem na RS, nem em qualquer outro lugar. Provavelmente teria um blog. E, coincidência ou não, era exatamente isso que ele fazia em seus últimos anos de vida – uma coluna no site da ESPN. Acredito que uma coluna no site da ESPN tenha tanto ibope quanto o nível intelectual do fã de esporte norte-americano.
Mas eram outros tempos os 60´s. Um sujeito doidão escrevendo borracha para uma revista recém-nascida era legal, afinal, o que tinham a perder? Mas não foi só isso. Depois ele perambulou pela Sports Ilustrated, por quem foi cobrir uma corrida no deserto e acabou com “Medo e Delírio em Las Vegas”, sua obra mais famosa – que foi inclusive rejeitada pela publicação por não ter qualquer nexo e acabou na RS – que virou filme com e graças a Johnny Depp, seu pupilo desde os anos 80. Nos 80 ele cobriu a invasão americana à Granada e passo um tempo em Cuba também.
O problema é que não deixou herança alguma. E o recém-lançado “Reino do Medo” prova isso (aparte: o livro, de 2003, é um amontoado de textos publicados amarrados por comentários do autor. Ah, claro, e ele ataca Bush). O tal jornalismo gonzo só existiu na cabeça dele e de seus camaradas. Ninguém nunca poderá fazer o mesmo. O que resta são estudantes de comunicação babões que acreditam em tudo, de Lenine e Zeca Baleiro a Adorno e Marilena Chauí. Logo, não há legado. Não há influência alguma em ninguém que vá de fato fazer a diferença. Lógico, posso montar um blog, me encher de barbitúricos e sair digitando abobrinhas como inclusive estou fazendo agora. Mas dificilmente ganharia algum dinheiro com isso. Hunter ganhou porque soube vender seu peixe como ninguém.
Seu carisma é incontestável. Mas tem limites. Como quando tentou se candidatar a xerife de Aspen, cidade onde viveu até meter uma bala na boca em 2005. Fundou o movimento Freak Power, que defendia doidões como ele a se candidatarem a cargos públicos. Claro que não deu certo e ele perdeu por votação pública, tanto que por mais que conte sobre conspirações, assume que perdeu nas urnas e boa. Aceitou o fato de que é, um maluco com uma pena na mão é divertido, mas, ei, não vamos deixar ele tomar conta da gente, né? Não vamos deixa-lo fazer algo importante com cuidar da nossa segurança.
Isso foi tudo o que Hunter não fez. Algo importante. Algo que valesse a pena de fato. Seus livros reportagens não são de se jogar fora, admito, embora sua ficção seja das mais sofríveis. E sempre há aquela eterna dúvida: o que é verdade e o que irreal? O que de fato aconteceu e o que ele alucinou? Como no episódio que conta ter visto uma onça pintada num banheiro de boteco no Rio de Janeiro, onde afirma que se fala brasileiro, e não português. Sim, o típico gringo deslocado, ignorantão, cidadão da América e órfão do resto do mundo.
Apesar disso, não pensava na hora de atacar a política ianque, desancar seus mandatários. Ao mesmo tempo, era louco por armas – ironia? Alguém pediu uma porção de ironia? -, motos velozes e drogas. Esta última, o motivo de detenções diversas e outros problemas com a justiça de Jefferson. Era, portanto, uma contradição em si. Mas ao contrário de Lobão, morreu coerente.
Sua figura inspira simpatia, mas seu trabalho tem relevância quase zero, é isso. Salvo pelo método pouco ortodoxo de fazer jornalismo – que serviu apenas como material para seu folclore pessoal – o que valeu de HST foi ele mesmo. E olha que não era lá grande coisa, ainda mais se deslocado de sua época – hoje há muitos mais doidões fazendo coisas muitos melhores que ele.
Incompreendido não foi. Talvez perseguido, mas não se sabe ao certo se pela própria paranóia ou pela paranóia alheia, que enxergava nele alguém mais perigoso com uma caneta do que com um rifle. Bobagem. O trabalho de Thompson só tem seguidores menores de 30 anos. Depois disso, quando a chapa realmente esquenta, dá-lhe Manual de Redação para garantir o PPR do ano.

bom texto, Brigatti. o tal do gonzo journalism foi uma piada, patético e pseudo-literário. muito bem.
típico texto recalcado, de quem teve um texto rejeitado e/ou minuciosamente editado.
tsc.
...
1 - vc se encheu de barbitúricos pra escrever isto?
2 - não acha interessante misturar real e imaginário?
3 - jann wenner ou werner herzog?
:^)
Típica participação biajônica: non-sense, desnecessária, engraçadinha e vazia. Tipicamente... gonzo! ;)