Então. Deixa eu te dar a real. Eu tô vendo o teu esforço. Todo mundo tá vendo. É bonito de ser ver, a propósito. Sim, um propósito, tu tem um propósito, tá fácil de sacar. Mas, ó, não vai dar certo. Não, escuta, olha, não quero te sacanear ou te desmotizar, apenas alertar. É sério. Não vai dar certo. Simplesmente não vai. Não adianta. Todo esse verbo que tu tá conjugando, na boa, não vai dar em nada. Nada.
Não é por sua culpa, a questão nem é essa. É só que é assim que as coisas são. Coisa é um conceito amplo demais e que, por isso, sua professora de Redação disse que deveria ser evitado, né? Mas você não está mais na escola. E eu não sou sua professora. Não tô aqui pra te ensinar nada, na real. Apenas te dizer que não vai dar certo.
Mau agouro, o que é isso, nada a ver. Como se diz, eu pago muito pau pra essa parada que tu tá fazendo. É sério, já te disse isso várias vezes, tu sabe. Diria até que nutro uma inquietante admiração, do tipo "meu deus, que bom que conheço o sujeito que tá fazendo isso". Mas chega um momento em que é preciso alertar o vivente. E eu tô fazendo isso. Só isso. Te alertando.
Não significa que tu deve diminuir a pegada, começar a fazer corpo mole ou largar tudo. Não. Acho até que, livre da responsabilidade de ver o resultado que você tanto almejada e traçou lá na blueprint, tu deve é descer o braço com vontade. Pisar fundo como se não houvesse amanhã. Pensa comigo: se não vai dar certo mesmo, por que maneirar? Por que se ater aos limites do projeto inicial? Ele não vai dar certo mesmo!
Não que saindo da pista tu vá acertar, epa. Não tô te oferecendo uma luz. É bem capaz que se tu te desviar da parada original, vai dar mais errado ainda. Agora, é possível dar mais ou menos errado? Eu acho que não. Então foda-se. Se é pra dar errado _ e vai dar, acredite _ que seja do seu jeito. Né não?
Agora, não vai fazer merda. Só tô te dando essa barbada porque, sei lá, me senti meio que na obrigação. Te vejo todo dia empenhado nessa parada com tanto vigor, tanta dedicação e disposição que não consigo não pensar "se ele dispensasse metade dessas sinapses fazendo o que realmente..." entende o que quero dizer?
O que tem que ser feito tem que ser feito. Bota tudo, mesmo. Mas saiba que não vai dar certo. E, afinal, nem estamos aqui pra isso, vai dizer?
Não dá pra te respeitar. Na boa. Não dá. Como vou respeitar _ amar, você tem a cara de pau de pedir _ alguém que diz que é bem mais atraente com roupa. Ridículo. Você é toda ridícula. Roupa? Sério? Tu acha mesmo que fica melhor de roupa? Quer convencer quem que é melhor ficar de roupa do que sem? Que tipo de auto-estima tu tem? A mesma que uma abobrinha hidropônica, calculo.
Não, ei, não, ei, espera. Não acho que tu tem que ser feliz com o teu corpo. Pode até não gostar dele. Mas não vem me dizer que ele é melhor coberto do que desnudo. O cacete, pô. Porque eu _ e qualquer outro ser humano que eu conheço e eu conheço vários _ concorda que o que interessa está debaixo desse monte de trapo costurado. Nada a ver com sexo, tô falando de ti. Do que tu é, do que tu não tem como fugir, dos teus genes, do teu pai e da tua mãe. Tô falando de tu fugindo de casa pra ir morar com um viciado em café e fast food qualquer.
Não é só vergonha do seu corpo. É uma vergonha que beira o medo. É quase um atentado contra a nossa razão de existir. Não, não tenho o corpo que quero, tu sabe disso. Mas quando eu fico pelado, aaaaaaaaah, tu sabe o que acontece. E eu fico pelado quase o tempo todo em que não tenho que me misturar com gentinha como você. Cheia de pudor, de vergonha, de culpa, de medo, do escambau.
Eu não. Eu não tenho isso, não. E não é narcisismo. É um espécie de orgulho ancestral. Sabe quantos milhões de nós tiveram que desentortar a coluna até caminharmos assim? Não sabe, por você ainda andaríamos de quatro, defecando pelas coxas cheios de calos nas palmas das mãos. É isso que tu é. Não, retifico. Se tu fosse isso, seria um bicho. E eu te respeitaria. E até te amaria. Mas nem isso.
Bicho nenhum acha que ficaria melhor coberto. Só tu. Babaca. E nem feia tu é. Pior é isso. É só uma série de acidentes psicológicos que te foderam a cabeça e agora fica aí, achando que "ai, eu fico tão melhor vestida". Porra! Como assim? Tá certo gostar de roupa. Tá certo gastar o cacete que for comprando o que quiser. Mas não me diz que isso é melhor que a sua pele. Que os teus pêlos. Que as tuas extremidades expostas. Não me diz isso.
Não te cobre quando estamos só nós dois. É infame. Quero te cobrir de desaforo quando tu puxa o lençol depois de uma trepada. Não, não tá frio. Qual o seu problema? Não, não pode ser só vergonha. Tem algo mais. Tem um tipo de demência que suplanta a simples insegurança e necessidade de auto-afirmação adolescente.
E novamente, não estamos falando de sexo. É além. Não te angustia essa cobertura toda? Não é natural, pombas, concorda comigo! Tu te entope de verdura, me faz beber essa porra desse café orgânico, mas a primeira coisa que faz quando se levanta é botar uma calça. E tá 39º nesse apartamento, me explica. Ah, tá, vai botar um shortinho, uh, grande merda.
Te pela, inferno!
Eu tenho uma lista de coisas que tenho medo no meu dia a dia. Essas são as duas maiores.
PISCA-ALERTA
Não é preciso dirigir para saber que quando alguém bate a mão naquele botão com um triângulo vermelho, destacado no painel do carro, vai dar merda. Sim, a merda "vai dar" e não "já deu", como deveria ser. Praticamente todo motorista tem um uso próprio para a porcaria do pisca-alerta e nenhum é justificável. Nenhum é para a finalidade prevista pelo Código de Trânsito Brasileiro. Porque a partir do momento que se tem as luzes de setas ligadas simultaneamente o mundo vira um grande parque de diversões e todos os precedentes são abertos. Sério, me arrepio inteiro quando estou dirigindo e o carro da frente aciona os piscas, porque a partir daí, ah, a partir daí tudo o que o sujeito fizer tá justificado pelo "aviso" que ele mui prudentemente deu. Vira festa. É como se gritasse "eu não sei o que fazer, tô perdido, fudido, alguém me segure que eu vou fazer merda, olha eu zureteando, olha, olha, cuidado, hein?". Nego liga as luzinhas e pára em fila tripla na frente da escola pra pegar os filhos, diminui a velocidade em frente a porcaria da boate pra mexer com um par de coxas, faz conversão irregular, estaciona em cima da calçada para falar ao celular ou ir no bar comprar cigarro, dá marcha ré em avenida movimentada para não pegar o próximo retorno, até cortar limões pruma caipirinha o desgraçado deve cortar quando liga o pisca-alerta. Dane-se quem tá atrás, quem tá na frente, quem tá do lado, quem tá de moto ou a pé, ligou o pisca-alerta tá blindado de qualquer responsabilidade. Dá vontade de ter um big foot só pra passar a borracha nas costas do fulano. Ô se dá.
TAMPA DE VASO SANITÁRIO ABAIXADA
Mesmo se você é homem, chega uma hora que vai precisar fazer uso da privada _ mesmo que seja como alternativa aos mictórios ocupados. Se você é mulher, bom, meus mais profundos sentimentos. O fato é que não tem situação mais desesperadora que abrir a porta do reservado, no trabalho, num restaurante, boate que seja, e dar de cara com a tampa abaixada. E aí? O que será que tem ali? Você vai pagar pra ver? Quer dizer, vai botar mesmo seus dedos embaixo do tampo e levantar para conferir se dá para fazer uso? E vai fazer isso de uma vez ou só o suficiente para ter um vislumbre do que te aguarda? Nessas horas, eu sei, nego reza pra que educação (ou bom senso, civilidade, respeito, escolhe um) seja tipo um parasita que gruda e nunca abandona o hospedeiro. Ou torce para que o último sujeito que se aliviou ali não tenha sido o Mogli. De qualquer forma, a dúvida permanece: should I stay or should I go? Seguro um pouco mais? Procuro outro reservado? Mando ver ali na cestinha de lixo, mesmo? Qualé, claro que não, você é um sujeito que não faz para os outros o que não quer pra si. Então é melhor ser positivo. Melhor pensar que quem abaixou a tampa deve ter sido educado no seio de uma família composta majoritariamente por mulheres ou tem um exemplar em casa que vive lhe dando catiripapos toda vez que esquece a dita levantada. De qualquer modo, novamente, a dúvida se impõe: o que fazer? Eu não sei. Nunca sei. Já encontrei tanta coisa levantando uma tampa de privada que chego a pensar em fraldas quando saio de casa. São bem mais confiáveis que seres humanos, no final das contas.
Somos animais e você sabe disso.
Por isso não fazemos sexo. Nem amor. Sequer trepamos. Está mais para um coito, uma cópula, aquilo que deixa a roupa de cama imprestável em menos de 30 minutos. Definição mais próxima, apenas para localizar, porque no fundo sabemos que não é nem isso. Transcende nomes e as mordidas e marcas espalhadas pela pele estão ali como testemunhas mudas durante dias e noites. Não somem nunca, são apenas reforçadas.
Lambidas são para curar arranhões e dentadas, nada além. Nada de carinho, nada de cumplicidade, nenhum jogo de sedução ordinário. Sem segundas intenções. Aliás, sem qualquer intenção. Não deita no meu peito e alisa minha barriga procurando proteção paterna, não é isso. Eu também não encosto a cabeça nos seus peitos procurando colo de mãe, não é isso. Somos animais e você sabe disso.
Nada começa ou termina dentro de qualquer tipo de convenção. Enquanto estamos dentro um do outro, tempo e energia ganham outro significado que não cabe entender.
Não há planejamento. Também não é divertido. Quando nos enfiamos um no outro, é porque a coisa ficou séria e você sabe disso. Sabe pelos meus olhos úmidos e sua boca querendo engolir o que conseguir alcançar. Sem erotismo, pornografia, historinhas, nenhum estímulo plástico literal ou metafórico. Cessam fantasias, medos, sonhos, traumas, quero isso, quero aquilo, faz assim, do outro lado é melhor, besteirinhas ao pé do ouvido _ não falamos, apenas arfamos.
Só o que existe é a vontade. Um laço apertado pelo instinto, por uma fome ancestral, pela pura razão de se fazer valer sobre qualquer razão.
Por isso também não há inteligência no que fazemos. Apenas extensões que ganham o significado que deveriam ter e não se limitam a qualquer centímetro de pele, dobra ou buraco. Não deitamos esperando por uma piadinha, uma tirada espirituosa ou uma declaração. O caldo que se forma no seu umbigo, branco de sal, é único contrato que firmamos.
Se nos encostamos é porque está frio e precisamos trocar calor. Se alisa meus cabelos é porque a textura te excita, e se passo meus dedos pelas tuas costas é querendo o prolongamento até a exaustão. E exausto, dormimos _ única forma de, a propósito.
Nada a ver com satisfação, sublimação, vitória, gozo, isso não vem ao caso. Isso é para quem busca e nós não buscamos. Não procuramos nada. Não queremos. Sem desejos. Sem trapaças. Sem mentiras. Sem verdades.
Somos animais e você sabe disso. Não há exigências. Por isso, estamos livres de cobranças. Sem culpa ou desculpa por essa total falta de apego. Sem necessidades de explicações. Sem necessidades. Apenas animais. Eu e você.
Dedicado à C.
Talvez isso choque um pouco, mas é apenas a verdade, ok? Então procure relaxar (e relativizar, se for o caso).
Mas o fato é que homens se importam com celulite. Nas mulheres, eu digo. Sim, você está certa, mulher que agora levou a mão à boca indignada, nenhum deles admite. Todos _ quase sem exceção _ responde um "foda-se" seguido de uma lista imensa de "tudo o que realmente interessa", coisas que você certamente conhece porque certamente, em algum momento, já foi consolada por ela. Pela lista, não pela celulite.
Tranquilo, é assim mesmo, não te preocupa. Nenhum homem em sã consciência vai estragar as possíveis chances de um dia trepar com uma mulher ao mencionar que ele gosta, sim, de uma bunda lisinha e durinha. Muito menos dizer, quando questionado por essa mesma mulher, que ela deveria sim se preocupar com os furos que estão transformando seu traseiro num mousse _ em forma e consistência.
Mas no seu íntimo, quando se depara com um catálogo de lingerie encartado no jornal, ele folheia feito um adolescente, pensando "ah, eu com uma dessas lá em casa... elerê...". O mesmo para atrizes, modelos ou "essas mulheres que vivem disso, assim até eu, dia inteiro na academia, humpft". E o sujeito pode ser condenado por isso? Por querer uma mulher sem celulite? A indústria cosmética, que se desdobra e apodrece de enriquecer com pesquisa, criação e venda de produtos feitos para livrar as mulheres desse bicho, não deixa mentir.
Dá para se enganar, claro. É inclusive aceitável. Necessário, pra ser totalmente sincero. A gente se acostuma, vai, é isso. Se consola olhando outras bundas desnudas e pensando "é, até que a da minha mulher não é tão ruim". Sacou? "Não é tão ruim" não quer dizer que seja boa, que seja ideal, que seja o que sujeito mandaria emoldurar e pendurar na sala.
E recorre à lista do primeiro parágrafo, cheia de boas e perfeitas soluções, do tipo "mulher que é mulher tem celulite", "mulher sem celulite é traveco", enfim. E tá tudo certo. Pelo menos até o dia que ele pega uma garota sem celulite e aí, bom, aí a vida do cara vira uma merda _ o que não vem ao caso agora, é assunto para outra vida inteira de análise.
Mas, ó, duas coisas: nenhum homem faz disso um drama. Nenhum homem perde noite de sono ou dispensa uma trepada pensando em celulite. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Celulite não atrapalha, sequer é assunto. Ele nunca vai chegar pros amigos e dizer "fulana tinha uma bunda que parecia uma casca de mexerica, argh".
Agora _ e isso é importante _ ele certamente vai entrar no bar batendo na mesa e dizendo "rapaz, o que é a bunda da beltrana, coisa de deus, cheguei a improvisar uma oração quando tirei as calças dela, e olha que sou ateu, então pensei no Niemeyer, deve ter sido coisa daquele velho safado, rapaz, que perfeição". Natural o sujeito querer se gabar, oras, quantas dessas ele vislumbra em toda a vida? Faça as contas e se deprima comigo.
Outra coisa: homem algum vai deixar de gostar de você, de se sentir atraído, de te amar, querer casar e constituir família ou te comer com toda a vontade e sinceridade do mundo. Não é o fim do mundo. É só... celulite. Ele sabe disso, você sabe disso e estamos conversados.
E ter celulite está para as mulheres como ter pau pequeno está para os homens. No fundo, ambas as partes se preocupam, se incomodam, mas fingem que, no final, não faz diferença. E não faz, mesmo. Mas se puder escolher, não existe mulher que queira uma bunda macilenta e porosa. Nem um homem, um pau pequeno. E vice-versa.
Sim, é tudo verdade o que você andou lendo por aí. Plastic Beach, novo disco do Gorillaz, é mesmo o melhor disco de música pop já lançado este ano _ quiçá, em toda a história do gênero. Diria mais. Diria que é a exata definição do que é a música pop neste exato momento: um amontoado de barulhinhos desconexos feito para deslumbrar críticos pertencentes a uma geração que se impressiona e leva a sério videogame depois dos 30 anos e, de quebra, pegar o dinheiro de ouvintes que engolem qualquer coisa sem mastigar.
Porque Plastic Beach, convenhamos, é simples. Não por ser básico, mas por ser preguiçoso. Quase todas as suas 16 faixas baseiam-se em colagens de batidas que remetem a Depeche Mode, Erasure, Daft Punk e David Bowie. Destas, uma metade possui vocal rap ou algo que o valha e outra metade traz Damon Albarn _ o cabeça responsável pela parada _ declamando alguma coisa em tom monocórdico. Sobre elas, uma grossa cobertura de sintetizadores e efeitos. E deu. Não passa disso. Quase uma hora de suplício eletrônico amparado por convidados que vão de rappers (mas que originalidade...) ao Lou Reed (deve estar precisando de dinheiro, o coitado).
Sério que esse é o futuro da música pop? Uma costura de blips, bléps e tóins que lembra a trilha sonora do Sonic? E o exemplo não é gratuito. Como no jogo do porco-espinho azul, a música está ali apenas para preencher os espaços de respiro das suas sinapses enquanto elas estão mais preocupadas em ajustar o timing do salto entre as plataformas.
Não há uma liga, um tronco que dê sustentação ou sentido, que torne o disco real, palpável. Plastic Beach é tão irreal quanto a banda que o executa, perdido entre os penduricalhos eletrônicos pesquisados por Albarn _ de pesquisador limitado, pelo menos, ninguém pode acusá-lo, ele realmente vai fundo nas colagens.
Claro que vai ter gente enxergando um épico em cada uma das músicas e levantando loas. Da minha parte, só consigo detectar mais um embuste de um sujeito cujo grande (único?) mérito é saber se vender a cada nova picaretice que inventa.
Se o propósito do disco é divertir (como foi o primeiro disco), não conseguiu me fazer esticar um único músculo. Se é apontar caminhos, me deixem longe da bússola de Albarn. Esse sujeito está exatamente como 2D, o personagem que ele interpreta no quarteto, nessa imagem abaixo que ilustra o encarte do disco: cercado de influências, mas totalmente à deriva.
Todo mundo conhece a ladainha. A banda estoura no primeiro disco, se consolida - ou derrapa - no segundo e "amadurece" no terceiro. Problema é que esse "amadurecimento", quando muito, se encerra num experimentalismo canhestro que não engana ninguém. Poucos entendem, como entenderam os Superguidis, que essa transição não existe sem dor, medo e angústia. Bem-vindos ao lado escuro dos Superguidis.
Foto: Thiago Piccoli
No apagar das luzes de uma adolescência que nos dias de hoje se estende até os 30 anos, os Guidis não são mais os guris que gravaram O Véio Máximo em 2003, colocando Guaíba no mapa do rock brasileiro - na qualidade de cidade-irmã de Seattle. Andrio Maquenzi (voz e guitarra), Lucas Pocamacha (guitarra), Marco Pecker (bateria) e Diogo Macueidi (baixo) continuam tendo o som notabilizado por Nirvana e afins entre suas maiores referências, mas é marcante o aumento do peso - instrumental e espiritual - que esse terceiro disco (batizado simplesmente de Superguidis) carrega. Como se o deboche quase juvenil de Dave Grohl, ex-Nirvana e hoje Foo Fighters, desse lugar ao fatalismo castrador de Layne Staley, a finada voz do Alice in Chains, aprisionado numa gaiola de cordas magnetizadas e palhetadas com toda força e rapidez.
- Acho que é uma tendência natural, um novo caminho que se abre - arrisca Lucas.
Caminho que pode ter tido como irônico farol o Pink Floyd de The Dark Side of the Moon. O disco-tratado que decompõe a sociedade inglesa, suas idiossincrasias e contradições, na virada dos anos 1960 para os 70, acabou por inspirar os Guidis a levar ao divã toda a sua geração. É dessa massa, que agora bate (ou está perto de bater) as três décadas de vida, sem modelos, sem regras claras, vivendo das próprias incertezas, que o "disco do triângulo" (outra referência a Dark Side) trata.
Apesar de não ter sido composto como um trabalho conceitual ou coisa que o valha, a sintonia entre as faixas é fina o bastante para construir um personagem que transcende as linhas do encarte e convida para uma autoanálise. Esse sujeito começa a desconfiar que a festa acabou, as luzes se apagaram e tudo o que resta é um estrobo histérico que mais atrapalha que ajuda.
Por isso tateia no escuro, alternando explosões de raiva (Não Fosse o Bom Humor, Quando se É Vidraça), momentos em que joga a toalha e abre uma garrafa para se consolar (Roger Waters), busca sentido em qualquer coisa (Visão Além do Alcance), briga consigo mesmo (As Camisetas), quer ser autossuficiente (Casablanca), mas se mostra acuado e frágil (De Mudança). Por fim, consola-se em saber que não está sozinho (Aos Meus Amigos).
- Procuramos um diálogo com quem ouve a gente, que passa pelas mesmas coisas. Não tem como fugir disso - explica Andrio.
Obscuro, tétrico e flertando abertamente com o metal, o disco vai de encontro a qualquer fórmula fácil de hit de FM e a ditadura do terninho do rock gaúcho. Em sua integridade, o "disco do triângulo" não deixa espaço para a felicidade instantânea prometida por um novo amor, o colo dos pais, drogas ou baladas, lugar-comum supremo da produção pop atual.
Isso tudo - os Guidis deixam claro - passou e não faz mais diferença. Respostas? "O que dá pra fazer, é esperar passar" é o máximo que eles oferecem. E que ninguém mais duvide que amadurecer dói.
Reportagem publicada originalmente no Segundo Caderno da Zero Hora de 13.03.2010
Dentes te dão a melhor noção de finitude que pode existir.
Eles não nascem com você. Crescem quando menos se espera _ ou quando tudo o que se espera é um mamilo macio que verta leite quentinho e saboroso e alguém que troque suas fraldas. E quando nascem, te deixam prostrado de dor. Você e seus pais. Talvez os irmãos mais velhos. Quem sabe um condomínio inteiro, dependendo da altura e constância dos seus ataques de choro. E depois que nascem, rasgando suas gengivas, eles caem.
E dão lugar a uma nova e definitiva sequência de ossos mineralizado, polidos, limpos e tortos. Sim, dentes são tortos, sempre. Pergunte a qualquer dentista e ele vai dizer que você precisa de aparelhos corretivos. Mas que para isso precisará arrancar, com sorte, pelo menos quatro deles, e não serão os mais exibidos. Também dirá que sua escovação é precária e que não passa fio dental _ com exceção do dia de visitar o dentista. E se passa, passa errado. E escova eles errado. E vai te ensinar com fazer isso da mesma forma que o dentista anterior fez.
Dentes nascem brancos como uma ficha na polícia. E como tal, vão sendo preenchidos com os seus abusos e hábitos pouco saudáveis. Cigarro, bebida alcoólica (especialmente vinho, cujo cálice diário recomendado pelos cardiologistas não é bem visto pela comunidade odontológica), café, refrigerantes, sucos cítricos, doces, carne vermelha, frutas que soltam fiapos, qualquer alimento duro, pelos púbicos, tudo, enfim. Tudo vai acabar sendo registrado pelos seus dentes e sempre da pior forma, ou da forma mais constrangedora _ o que inclui aí saladas de folhas.
Dentes são uma tragédia anunciada e é mister repará-la o melhor possível. O dano já está feito, não tem como voltar atrás, então parte-se para minimizar o estrago. Obturações, restaurações, limpeza com fluor, aparelhos corretivos internos, externos, fixos e móveis, placas de silicone para bruxismo noturno, pontes, canais, pivôs, cremes dentais que custam R$ 10 o tubo com 50g, jaquetas, clareamento. Tudo para ficar mais ou menos bom, porque bom, bom mesmo, nunca. Sempre vai faltar alguma coisa. Talvez dentes de titânio. Ou nascer um tamanduá, só língua.
E não adianta tentar se adiantar. Vai dar merda mesmo que você os poupe, passando a vida à sopa e pão de forma _ uma provável deficiência de minerais e vitaminas fatalmente incorrerá em algum problema para os seus dentes, pode ter certeza. Seus dentes são sua sentença de morte. Sentença não, um aviso. Porque quando começarem a cair, quando nada mais der jeito de segurá-los na sua boca _ e eles não se regeneram, os pulhas _ é sinal que o barco todo está fazendo água. Ou já está a pique e os dentes, sacanas como sempre, só avisaram agora, na bacia da almas.
Mas à essa altura, livre deles, você também estará livre. Como impávidas testemunhas oculares silenciadas pelo tempo, eles já não podem provar nada, nenhum dos seus crimes, nenhum dos seus pecados, agora perdidos em cestos de lixo ou _ deboche supremo _ servindo de modelo para estudantes de odontologia.
Viverão para sempre, os dentes. Você, não.
a fada do dente dos Family Guy, tirado daqui.

O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias, foi o melhor livro lançado em 2009 que li em 2010. Sua gênese está no conto Concentração, publicado na segunda edição brasileira da revista literária Granta. Nele, Lísias testava as tintas que mais tarde pintariam pra valer o romance de quase 400 páginas lançado pela Alfaguara.
Mas aconselho caminho inverso, como eu fiz: leiam o livro e depois, o conto. Na minha percepção, funcionou como o making of de um filme que, se apreciado antes, estraga a obra completa mais tarde.
Abaixo, a matéria publicada no Segundo Caderno do dia 24 de fevereiro.
EXECUTIVOS ALUCINADOS
Ricardo Lísias explora mundo dos altos negócios em O Livro dos Mandarins
Para o senso comum, o universo corporativo costuma evocar associações imediatas com tecnocratas embrulhados em ternos importados, tricotando relatórios com cifras, envoltos por um ambiente estéril onde imperam a sordidez e falta absoluta de humanidade. E ficaria assim, se o escritor paulista Ricardo Lísias não atravessasse as portas dos espigões de aço e concreto desse mundo e revelasse um improvável conteúdo lisérgico do qual ele é composto em seu O Livro dos Mandarins.
Absolutamente sedutora, a trip alucinógena proposta por Lísias chega a lembrar, em estilo e espírito, o clássico sessentista O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, de Tom Wolfe. Mas enquanto o norte-americano lançou mão de um texto elíptico e algo histérico para contar as peripécias do escritor e agitador Ken Kesey em sua cruzada pela disseminação do LSD nos EUA, Lísias usa o mesmo recurso para compor a escalada de um cinzento homem de negócios denominado Paulo.
Além das percepções alteradas - provocadas por agentes externos ou cultivadas internamente -, a devoção quase religiosa às suas convicções uniria, numa realidade paralela, esses dois personagens. Mas termina por aí. Nada de drogas ou ideais altruístas na história de Paulo, executivo do alto escalão de um banco, totalmente convicto de que irá para a China, dentro do audacioso projeto que está selecionando funcionários do mundo inteiro.
Uma vez na China, irá tratar de uma misteriosa dor que movimenta-se em suas costas (e o impede, entre outras coisas, de ter calafrios, sob o risco de colocá-lo prostrado), terminará seu futuro livro (previamente intitulado O Livro dos Mandarins) e percorrerá os mesmo lugares que seu guru e ídolo, Fernando Henrique Cardoso, percorreu durante sua viagem pelo país do Grande Timoneiro como presidente do Brasil.
Entre seus coadjuvantes (termo apropriadíssimo, é bom ressaltar) estão outros Paulos, algumas Paulas e estrangeiros como Paul e Paulson. A repetição - de nomes, acontecimentos e idiossincrasias durante todo o livro - é uma das chaves para entender o pico induzido por Lísias, como ele próprio esclarece:
- Os nomes repetidos significam identidades repetidas, comportamentos banalizados, pessoas massificadas. São vozes que se repetem dentro de um mesmo grupo. Infelizmente, o comportamento massificado me parece determinante hoje em dia, para muitos grupos sociais, se não todos...
Uma crítica, portanto, que não fica restrita às salas de paredes brancas entrecortadas por vidraças encapsulando sujeitos de ternos bem cortados. Ela vai pra fora e se espalha por outros espaços e personas, que aos poucos vão aderindo à loucura de Paulo à medida que se envolvem nos projetos de uma insuspeita consultoria - que oferece, entre outros serviços, massagens feitas por gueixas.
- E esse mundo é assim mesmo! Muitas vezes ouvi a conversa de um executivo que dizia mil maravilhas para uns quatro ou cinco subordinados boquiabertos. Era uma loucura, uma quimera qualquer. Mas todos acreditavam - relata Lísias.
Como numa viagem de LSD...
ME DIZEM...
Estamos com uma promoção: por mais R$ 3, você adiciona 5 cm de diâmetro no pão do seu xis. Ou aproveita o nosso lançamento, com molho de aspargos fritos na manteiga de garrafa, batatas soté salpicadas com gengibre brabo e lascas de cascas de ovos de tartaruga marinha azul. Há ainda a opção de, como estamos no ano da Copa, substituir o hamburguer bovino por um bife de girafa ou rinoceronte. Acompanha um alargador Banto de brinde.
MAS EU SÓ QUERIA SABER SE...
... é gostoso?
Nosso cinema é dotado de equipamento para exibições em versão normal, 3D, com implantes neurais, bomboniere que trabalha com cartões, tiquetes, vales e órgãos, além de poltronas besuntada de Iô-iô Cream ou com indução intravenosa de Ovomaltine. Se preferir, pode escolher também o tipo de estofamento, que vai do supermacioflexduovaseline ao jesusmeacode.
... o filme é bom?
Para esse voo, nossa companhia aérea oferece 17 tipos de tarifas, incluindo ou não poltrona com 2,34 graus a mais de reclinação, fones de ouvido estereo, wi-fi, telefone para ligações internacionais, seu nome gravado no travesseiro, 0,78 cm de espaço a mais para a sua cabeça, cabide exclusive para pendurar chapéus Panamá e menu de antepastos elaborado com exclusividade pelo premiado chef Jin Fon Chown.
... chega rápido?
Esse cobertor é dos Andes, fabricado 100% com pelos de lhamas, costurados artesanalmente fio por fio. Tá vendo essas partes mais escuras? São das marcações à ferro feitas pelos aldões, o que significa dizer que ele é único, exclusivo até mesmo dentro do seu bando. O forro é afixado com linhas de algodão azul-turquesa sem o auxílio de agulha: ele utilizam os dentes.
... é quente?
Nossa banda funde o cancioneiro popular da costa norte da Irlanda com os pífanos do Nordeste, mas abraça também influências de twee pop sobre letras que parecem extraídas de um pesadelo de Lewis Carrol. costurado por guitarras distorcidas e pedal duplo. Mas sem abandonar a fofura indie, uma marca dessa nova geração que busca na contemporaniedade a sua identidade e modo de expressar indiganção, amor, raiva, angústia e paixão por videogames 8-bits.
... a música é boa?
Há coisa de 10 anos atrás, a Worldengine não existiria. Pelo menos não com a proposta atual, um imenso projeto colaborativo envolvendo 20 músicos ao redor do mundo produzindo uma verdadeira, legítima world music (se o Grammy não estereotipasse esse gênero com qualquer coisa feita a base de percussão, claro). E tudo por conta, ironicamente, de uma imensa dificuldade de entrosamento musical.
Começou com a dupla Valmor Pedretti Jr. e Cristiana Camboim, em meados de 2002, tentando montar uma banda. Não uma banda qualquer, mas um grupo que transcendesse os bares e fosse pautada pelo profissionalismo extremo.
_ As dificuldade começaram aí. Não achávamos ninguém interessados em levar o negócio a sério _ comenta Valmor, acrescentando que mesmo os encontros para ensaios eram infrutíferos. _ Chegar todo mundo num lugar, plugar os instrumentos e começar a criar também não funcionava.
Nesse ínterim, entre trocas de formações e ensaios frustrados, Valmor e Cristiana mostraram-se agentes de seu tempo. Um tempo onde "projeto musical" é sinônimo de "banda" e as fronteiras são delimitadas tão somente pela cara-de-pau.
_ E isso nós temos de sobra _ brinca Cristiana.
E cara-de-pau foi só do que precisaram. Frequentando o fórum do site oficial do baterista do Dream Theater, Mike Portnoy, o gaúcho conheceu instrumentistas que dividiam com ele mais do que a paixão pela banda de prog metal norte-americana. Um deles foi o alemão Paul Schreier, também baterista e que logo se tornaria a primeira peça desse motor.
_ Montei uma demo mostrando mais ou menos o que eu queria, o clima da faixa e tal, mas deixando claro que era para ele fazer do jeito dele _ explica Valmor, que recebeu, além do arquivo digital contendo o áudio, um vídeo de Paul tocando o instrumento.
Era o que a dupla precisava para correr atrás, no próprio fórum e em sites especializados, de mais gente interessada em fazer parte não de uma banda, mas de um projeto altamente profissional e de vanguarda, compromissado unicamente com música de qualidade.
Utilizando o mesmo expediente, ao longo dos anos Valmor e Cristiana foram juntando dezenas de instrumentistas de todas as partes do globo, fazendo com o Worldengine o que Josh Homme e Zakk Wylde fazem com seus Queens of the Stone Age e Black Label Society respectivamente.
Como os seus co-irmãos estrangeiros, o projeto da dupla não possui uma fórmula pronta e vai sendo montado de acordo com os participantes. Embora siga uma identidade definida.
_ Nosso único limite era nossas preferências, o que acabou pendendo para o rock progressivo _ salienta Cristiana.
Mas nada de toneladas de teclados e solos soporíferos. Estão lá os teclados e os solos, claro, porém diluídos numa atmosfera etérea e sombria, vagando entre o metal melódico e gelado do ártico e o folk com violões de aço. A primeira faixa, 12th, com participação de Andrio Maquenzi, da gaúcha Superguidis, nos vocais, e disponibilizada no MySpace e no canal do YouTube do grupo, dá uma ideia da proposta musical do Worldengine.
_ Mas tudo pode acontecer daqui por diante. Mesmo as músicas prontas hoje estão bem diferentes do que eram no início, foram evoluindo com o tempo _ pondera Valmor.
O acesso a bons equipamentos, portanto, tornou-se fundamental. Dos programas caseiros onde fez as primeiras mixagens, em casa, o projeto agora é lapidado no Lado B, estúdio onde Valmor trabalha. Com a ajuda de Thiago Grün, as faixas soam tão límpidas que nem parecem ter sido criadas através da costura de arquivos de som enviados de milhares de quilômetros.
_ É exatamente o som que queríamos ouvir há 10 anos atrás _ comemora Valmor.
O próximo passo será juntar todo o material para lançar um disco físico. A arte da capa e o primeiro vídeo oficial eles já possuem, e da mesma forma que conseguiram todo o resto: na base da colaboração.
Reportagem publicada originalmente no Segundo Caderno do dia 13.01.10
Romances publicados pela metade (ou nem isso). Manuscritos desprezados pelos autores e que, mesmo assim, ganham as prateleiras das livrarias. Costuras de fragmentos recuperados que vêm a público postumamente. De tempos em tempos, o mercado literário - incluindo aí os herdeiros de escritores - se vale de tais expedientes e reacende a antiga polêmica a respeito de sua validade.
Um dos casos mais antigos e célebres é o de Franz Kafka (1883 - 1924). Antes de morrer, o escritor teria pedido ao seu melhor amigo, Max Brod, que destruísse originais que ele não considerava à altura de sua obra (só A Metamorfose, Um Médico Rural e Na Colônia Penal já haviam sido publicados). Por motivos até hoje não muito claros, Brod salvou da fogueira clássicos como O Processo e O Castelo.
Para preservar a memória de um grande escritor através de seus escritos, o editor Ivan Pinheiro Machado, da L&PM, afirma, convicto, que, sim, publicaria o que quer que fosse. Mesmo contra a vontade de seu criador.
- Autor não tem vontade, ele é uma pessoa pública. E quando ele transcende a simples condição de escritor, é uma obrigação publicar sua obra - diz Ivan, abalizado pelo trabalho com pelo menos duas obras que se encaixam no primeiro parágrafo.
Uma delas foi Súplicas Atendidas, de Truman Capote, o autor de Bonequinha de Luxo. O livro, um compêndio de histórias que escancarava o mundinho do jet set nova-iorquino, foi encomendado pela Random House no final dos anos 1960. O problema é que Capote morreu em 1984 tendo escrito apenas três capítulos _ dois, inclusive, publicados na revista Esquire quase uma década antes.
Como havia pago um gordo adiantamento, a editora americana juntou tudo num único livro e o lançou em 1987. No Brasil, Súplicas Atendidas só saiu em 2009, acompanhado da necessária introdução de seu editor americano Joseph M. Fox, explicando que é um romance inacabado _ mas nem por isso menos incendiário.
Caso diferente de As Muralhas de Jericó, confiado pessoalmente a Ivan por Josué Guimarães (1921 - 1986). Espécie de diário da viagem do autor gaúcho à União Soviética e à China na década de 1950, foi lançado 15 anos depois de sua morte, em parceria com o Instituto Estadual do Livro e o Acervo Literário Josué Guimarães.
- Há uma diferença entre lucrar em cima de qualquer coisa que um escritor tenha feito e disponibilizar para estudiosos, para interessados na história do autor - relativiza Ivan, usando como contraponto o incompleto terceiro volume de A Ferro e Fogo, do mesmo Josué: - Não publicaria porque não faria sentido, é muito fragmentado, mas está lá no acervo para consulta.
Ter acesso ao material bruto de um escritor pode significar muito para estudiosos ou mesmo curiosos. Maria da Glória Bordini, coordenadora do acervo de Erico Verissimo e professora do programa de pós-graduação em Letras da UFRGS, acredita que o contato com o processo de criação - como no caso de O Original de Laura (Alfaguara Brasil, 304 páginas, R$ 47,92), de Vladimir Nabokov (1899 - 1977), que permite conferir desde a maneira como ele escrevia e até sua caligrafia - valida a publicação de uma obra inacabada.
- É uma maneira até de desmitificar o autor, muitas vezes não lido por ser considerado complexo ou difícil demais. Quando ele é apresentado dessa maneira crua, dá para ver que o autor trabalha muito, que nada surge de pura inspiração - defende Maria da Glória.
Mas há ressalvas. Uma delas é que, no caso de uma reunião de fragmentos, o melhor destino não é uma livraria, mas uma biblioteca de estudos. Pode ser esse o caminho, por exemplo, da ficção A Hora do Sétimo Anjo, que Erico Verissimo deixou em forma de rascunho e que, na opinião de Maria da Glória, serve mais para trabalhos acadêmicos do que para o leitor em geral.
Mesma opinião tem o doutor em Literatura pela USP Flávio Loureiro Chaves, justamente o organizador do segundo volume de Solo de Clarineta. A obra, lançada em 1976, trouxe uma nova coleção de memórias de Erico (1905 - 1975) - que morreu antes de concluí-la. Segundo Loureiro Chaves, foram selecionadas páginas em redação final e que contemplavam a vivência internacional do escritor.
- É um documento fundamental para esclarecer essa faceta da personalidade do Erico, que é um autor muito ligado ao Rio Grande do Sul. Esse volume mostra que ele rompeu essas fronteiras - pontua Loureiro Chaves.
De fora ficaram cerca de 150 páginas manuscritas, que não atendiam ao padrão de qualidade exigido pelo organizador. O que não aconteceria se o responsável fosse o escritor Moacyr Scliar, para quem todo manuscrito deve ser publicado:
- Os manuscritos estão cada dia mais raros por conta da informatização. Então, os que existem devem, sim, ser levados a público.
E sentencia, o imortal:
- Eu particularmente daria liberdade para fazerem o que bem entendessem. Até porque, os mortos não falam.
Reportagem publicada originalmente no Segundo Caderno de 09.01.2010
Em 1992, Art Spiegelman trocava as trevas do underground dos quadrinhos pela sombra que sua obra-prima, Maus, começava a projetar sobre ele ao vencer o Prêmio Pulitzer. Feito inédito para um quadrinista, a (merecida) distinção ao mesmo tempo jogava luz sobre aquele judeu de meia-idade, filho de sobreviventes do campo de concentração nazista de Auschwitz e que tinha muitas histórias para contar. Parte delas está reunida em Breakdowns - Retrato do Artista Quando Jovem %@*!.
O compêndio cobre o período de 1972 a 1977, considerado pelo próprio Spiegelman, hoje como 61 anos, como um tempo de experimentação quando ele, na falta de horrores melhores para descrever, resolveu falar da própria vida. É quando se dá, por exemplo, a gênese de Maus, inicialmente uma história de três páginas em que o pai conta o terror da ocupação nazista na sua Polônia natal, na forma de uma inocente parábola para dormir - em que judeus são retratados como ratos, e nazistas, como gatos. O quadrinista sueco radicado nos EUA demoraria quase 10 anos para estender a narrativa e transformá-la no best-seller que o consagraria.
Lançado inicialmente em 1978, Breakdowns sai em formato de luxo com uma introdução autobiográfica que por si só valeria o investimento. Nela, Spiegelman conta um pouco de sua solitária infância em Nova York (avesso a esportes e louco por gibis, o que ele queria?), o despertar da paixão pela arte (leia-se a então transgressora MAD e revistinhas de ficção e terror), a difícil relação com o pai (que mais tarde lhe entregaria, de uma forma ou de outra, o Pulitzer de bandeja...) e a formação de um gigantesco complexo de culpa que o levaria a uma de suas criações mais emblemáticas e tristes.
Prisioneiro do Planeta Inferno recria, em traços grossos e duros, o impacto do suicídio da mãe num Art Spiegelman de 20 anos que acabara de voltar de uma temporada numa instituição psiquiátrica. A tragédia, junto com o Holocausto judeu, definiria o leitmotiv de sua obra.
Abalado, tudo o que faz a partir disso, especialmente em Breakdowns, é desnudar-se diante dos leitores, numa espécie de autoanálise pública ("Fazer arte é mais barato", afirma, em tom de deboche, com relação à terapia). É possível, então, distinguir não só as diversas escolas que influenciaram o desenho de Spiegelman (de Picasso aos expressionistas alemães, passando pelo amigo Robert Crumb), mas também seus mentores intelectuais (os parceiros Woody Gelman e Justin Green em especial), as incursões pela psicodelia movidas a muito LSD e o tratamento, nem sempre ortodoxo, dado ao sexo.
Breakdowns, seu antes e depois, são mais do que um retrato do artista quando jovem. São o flagrante de toda uma vida. Uma vida em quadrinhos.
Reportagem publicada originalmente no Segundo Caderno da Zero Hora de 23.12.2009
É noite de rock no Dr. Jekyll. Enquanto a primeira banda mutila seus instrumentos, em frente ao palco Gabi Lima se destaca em meio ao pequeno público com uma Nikon D40 nas mãos. Fotografia está entre suas paixões, mas não foi isso que a tirou de casa numa noite úmida de primavera porto-alegrense e a abalou até o decano bar da Cidade Baixa. A razão foi a mesma que a empurrou para fora de outra casa, fez fixar residência na Capital e, no meio da festa, tentou me convencer a comprar seu primeiro disco _ mesmo eu o tendo baixado, de graça e há muito tempo, em seu site oficial.
_ Mas esse aqui está com qualidade melhor. Vai, seis pilas, olha que impressão legal a da capa _ ela insiste, agora assumindo a identidade de Gru.
E aqui cabem algumas explicações. Gabi Lima é a porção civil de Gru, compositora, cantora e multiinstrumentista. A primeira acaba de chegar de Pelotas, onde viveu os últimos 27 anos, para morar com o namorado em Porto Alegre. Trouxe pouco mais que o violão, laptop, Ipod, quatro barras de chocolate Milka de meio quilo cada e o livro Alucinações Musicais, de Oliver Sacks.
A segunda é dona de uma voz rasgada, da escola de Cássia Eller e PJ Harvey, canta num inglês perfeito, gravou sozinha (somente garganta, violão e dor de cotovelo) o disco de covers Loneliness Keeps Company, em 2005. Nele, entrega as referências que usaria para construir, quatro anos depois, Kitchen Door, seu primeiro trabalho autoral _ e que, naquela noite, tentou me vender.
Óbvio, Gabi trouxe Gru para vencer em Porto Alegre. Depois que Pelotas ficou pequena, a Capital foi um movimento natural, onde espera encontrar terreno fértil para seu pop diferenciado. Veio em busca de contatos também, apesar de já conhecer figuras chaves da cena underground da cidade, ser apadrinhada pelos mineiros do Pato Fu (John Ulhoa produziu uma das faixas de Kitchen Door e a banda toda fez backing vocals) e estar pronta para se lançar nacionalmente pelo selo Senhor F Virtual, do prestigioso capo indie Fernando Rosa.
Nenhuma pressa, ela garante, enquanto trabalha num estúdio de gravações produzindo trilhas para jingles publicitários. Quer mostrar toda a potência de Kitchen Door, e para tanto precisa de uma banda de apoio _ por isso, também procura por parcerias musicais. Se conseguir espaço apenas para voz e violão, tudo bem, ela volta ao pocket show "Gabi vai tocar" que a fez conhecida em Pelotas.
_ Mas aí é uma apresentação mais de covers, no estilo do meu primeiro disco _ comenta, lembrando com carinho dos Wilco, Sublime, Elvis Costello e R.E.M. presentes em Loneliness.
Alguns números do "Gabi vai tocar" podem ser assistidos no YouTube. Entre músicas "sérias", Gabi faz versões impagáveis de Crazy in Love, de Beyoncé, e Womanizer, de Britney Spears. Estranho? Inadequado?
_ Tento equalizar diversão com o que gosto. O importante é soar bem _ sentencia, sem ligar para uma eventual patrulha ideológica.
E como uma patrulha pegaria alguém que se identifica com os irmãos Hanson até fisicamente? Que canta Tom Waits com tanta vontade mesmo sendo abstemia? Que não tem pudor em compor um cancioneiro pop tão perfeito que caberia em qualquer propaganda moderninha de telefonia celular? Que escreve sobre todo tipo de amargura juvenil tendo uma máquina de algodão doce e coleção de latas de refrigerante em casa? Gabi responde:
_ Isso é um problema, sabe? Essa coisa de ter que fazer música assim ou assado, de precisar cantar em português, de ter essa ou aquela influência.
A música de Gru reflete a mulher do seu tempo que é Gabi. Adolescente classe média nos anos 90, ela é parte da geração que substitui a TV aberta pelo cabo, descobriu na incipiente internet uma janela para o mundo e nunca deu bola para o rádio. Por isso a naturalidade em escrever e cantar em inglês, as referências importadas (literalmente), a identificação com o Do It Yourself expressa desde tocar todos os instrumentos até montar o próprio site para divulgação.
Além de, claro, vender seu peixe com a certeza de que vale cada centavo investido. Como tentou fazer comigo naquela noite de quarta-feira. E quase conseguiu, não tivesse oferecido de bom grado, antes que eu abrisse a carteira, a cópia que havia levado para a festa. Sorte minha.
Kitchen Door (2009)
1. Saturday Morning Hope
2. The Same as Being
3. Pick up the Pieces
4. California (I´m Outta Here, Bitch)
5. Losing You
6. All This Time
7. Drugs
8. Maybe Today
Loneliness Keeps Company (2005)
1. 3rd Planet (Modest Mouse)
2. Frying Pan (Victoria Williams)
3. Almost Beating (Bill Janovitz)
4. Radio King (Golden Smog)
5. Sunken Treasure (Wilco)
6. New Realization (Sublime)
7. Bedlam (Elvis Costello)
8. This Cold (John Frusciante)
9. Saudade (Pato Fu)
10. Hope (R.E.M.)
Baixe os discos completos + faixas bônus aqui.
Reportagem publicada originalmente no Segundo Caderno de 07.12.2009.
ATENÇÃO: esse é um post pago.
Eu paguei por ele.
Paguei exatos R$ 8,90. Preço de banca da primeira edição da Billboard, publicação norte-americana que ganhou versão brasileira no mês passado. Demorei para escrever a respeito porque simplesmente não conseguia passar da metade. Agora, na madrugada de 1 de dezembro, reuni forças para ir um pouco além.
Devia uma resenha a respeito da publicação sobretudo para uma amiga, que me perguntou _ diante da locomotiva desgovernada de críticas em mesa de bar _ qual revista de música eu recomendaria para ela. Respondi que nenhuma. Se quer ver, ouvir ou ler sobre música, esqueça as bancas de jornais, desligue rádio e TV e ligue o computador. O resto é consequência.
Mas sobre a revista da Billboard. Que começa errada pela capa, com Roberto Carlos. "Flagrado" em sua pose padrão, o cantor sorri para a chamada que indica uma matéria sobre bastidores de sua turnê. E aí já dá pra sacar muita coisa. Qual turnê? De 77? Pouco importa! Que tipo de reportagem sobre os bastidores de uma turnê de Roberto Carlos poderia trazer alguma informação nova? O que catzo pode ter mudado que valha uma matéria de capa se nem a roupa e maneira de segurar o microfone o sujeito modificou ao longo de toda a sua carreira?
Bom, de repente, nas mãos de um repórter diferenciado, talvez dê para extrair alguma coisa. E quem é o autor da supracitada? Pedro Alexandre Sanches. Que na minha opinião, faz um jornalismo musical bem chapa-branca e é, vejam só, autor de um livro sobre Roberto Carlos _ era sobre a Jovem Guarda, mas não sejamos inocentes. A linha fina:
"Os bastidores da turnê que emociona meio milhão de brasileiros: como Roberto Carlos superou mitos, manias e medos para chegar aos 50 anos de carreira como o maior ídolo popular do país".
Quer dizer, não vai ser dessa vez que veremos a perna mecânica do maior censor do Brasil. O quem vem em seguida é uma esperada babação de ovo de Sanches. Depoimentos emociados de amigos, fãs, novos e velhos companheiros de trabalho, aquele blá-blá-blá que, se for inventado, passa despercebido de tão... nada. E NADA define bem as oitos páginas da reportagem.
Embora seja preciso destacar um momento capitular: uma página de retranca intitulada "Para Servir Sempre" cuja linha fina é "Seja um taxista ou uma advogada, Roberto Carlos sabe exatamente como cativar o fã". E qual a diferença de um taxista para uma advogada em 2009? Em 77 ela até existia, mas em 2009? Que tipo de exemplo é esse? Entendi que devia ser para mostrar o quanto é plural o séquito do rei e como ele é benevolente, mas não fui adiante.
Fico sem saber o real motivo da publicação de uma matéria como essa. Duas propagandas internas de página inteira e uma contracapa, sobre os shows de Roberto Carlos, indicariam alguma coisa?
Mas voltando para seguir adiante. Seção UPFRONT, que deve ser para colocar qualquer coisa que não seja uma reportagem de uma página. Então tem desde ping-pongs aleatórios com Victor Chaves, da dupla sertaneja Victor & Leo, e o nadador Cesar Cielo; números aleatórios sobre o rapper Jay-Z; notas aleatórias sobre o mercado fonográfico; até um perfil aleatório do vocalista do NX Zero, dizendo que já foi vegetariano, mas que agora ama batata.
ENTREVISTA DO MÊS com Paul McCartney. Vale o mesmo raciocínio aplicado para a matéria sobre a turnê de Roberto Carlos.
Cinco páginas sobre a história da Billboard. Passo.
PONTO DE VISTA, deve ser uma coluna, de autoria de Marcelo Braga diretor de rádio FM moderninha, falando sobre a relação música x tecnologia. Leio na diagonal e ele explana a respeito de como os jovens de hoje em dia... e eu pisco para não dormir.
Três páginas sobre os 30 anos do movimento punk, pelo Silvio Essinger. Gosto dele, mas o texto é mais um artigo construído com jargões, lugares e ideias comuns a respeito do movimento do que o provocador título "Do Caos ao Fresno" sugere.
Quatro páginas sobre como o Kiss _ aka Gene Simmons _ sabe ganhar dinheiro. Vale o mesmo raciocínio aplicado para a matéria sobre a turnê de Roberto Carlos. Embora essa valha pela legenda de uma foto que registra Simmons mostrando um caixão do Kiss. Diz o texto: "Ele (Gene Simmons), Paul Stanley e Ace Frehley (ao fundo) apresentam um caixão...".O problema é que não são os outros dois sujeitos lá, e sim um display promocional de papelão. Tudo bem os caras serem músicos de talento bidimensional, mas...
Seção DISTRAÇÃO. Tags: filmes, games, HQs, etc. Ou seja, duas páginas de textos aleatórios sobre qualquer coisa.
Seção MÚSICA. Não se engane, é só outra seção de textos aleatórios, só que temático. E as outras não eram? Ah, veja bem... Na capa da seção, legenda engraçadinha para o disco novo do Alice In Chains. Segue com perguntas para Ney Matogrosso, resenhas elogiosas para Jerry Lee Lewis, João Donato, Leonard Cohen e Charles Aznavour _ geriatria pegando forte pelos lados da Billboard...
Resenhas de CDs e DVDs. Essa é sempre a pior parte. Achei que nunca veria pior que as da Mosh, mas me enganei. Vou citar uma, apenas uma, para mostrar o que aguarda o sujeito que decidir desembolsar R$ 8,90 pela publicação.
Artista: Charlie Brown Jr. Disco: Camisa 10 (Joga Bola Até na Chuva). O que diz Carlos Messias, o resenhista: Camisa 10 traz a típica miscigenação musical do Charlie Brown em versão anabolizada.
Sem mais.
Fecha com oito páginas de listas, gênese da Billboard. Penso que se ela publicasse somente esses dados, pode ser _ PODE SER _ que interessasse a jornalista em início de carreira, do tipo que se fia em listas e acredita que números podem salvar uma pauta ruim.
Não podem. Assim como nem toda boa vontade e profissionalismo de uma equipe ou a desmesurada inoncência do público consumidor mundo poderiam fazer a Billboard valer R$ 8,90. Ela é a porta-voz das gravadoras e, consequentemente, do mainstream. Seu objetivo é ajudar a massificar o que de mais óbvio, chato, anacrônico, desprezível e anódino existe no meio musical.
Não demora, ela diminui o formato, como fez a Rolling Stone. Depois, o número de páginas. Daí para a tiragem e acaba.
Vai tarde, Billboard.







