- Escrevi uma carta para você.
- É algo importante?
- Sua vida.
- Ah...
- Mas leia depois. Não é nada demais. Ou, de repente, é. Não sei. É só tudo aquilo que estava aqui, ó, entre o estômago e as amídalas desde, putz... Acho que desde que nos conhecemos. Não puxa esse sorrisinho de lado. Não tem graça. A mínima, em nenhum sentido. Para de querer achar graça em tudo. Chega. Que coisa. Você já é um adulto, dá um tempo, pô. Bom, você vai ler. Não precisa me dizer depois o que achou, não foi pra isso que escrevi. Nem é um acerto de contas, nada a ver. Também não quero que tire algum tipo de conclusão. Só acrescenta isso aí na nossa biografia. Arquiva em algum lugar. Melhor, queima depois de ler. Não guarda, não. Nosso lance não permite juntar coisas. Não vamos ter tempo depois para olhar para trás, ter saudade, avaliar o que aconteceu ou essas coisas, de qualquer forma. Nunca envelheceremos juntos, você sabe. Com direito àquelas caixinhas com fotos e recortes velhos que acabam aparecendo durante reuniões de família. Sempre tem alguém que lembra de alguma coisa daquilo. Mas isso não funcionaria com a gente. Somos presentes demais. Não temos passado, então fica claro que jamais viveremos um futuro. Resta o agora. Tá tudo escrito aí, você vai ler. O perfume não foi de propósito, é sério, nem o papel de carta estilo fichário do colegial. Escrevi com pressa, queimando de raiva e paixão. Isso tudo que você cansou de me explicar como funciona. Só que nem você sabe direito como acontece, porque passa por isso o tempo todo em frente ao espelho e ele não te dá resposta alguma. Só ouve. O espelho aceita tudo. Papel também, aprendi por aí. Então coloquei tudo o que queria nessas folhas. Frente e verso, letra corrida, sem revisão nem nada. Não que não tivesse tempo, mas se não me corrijo quando conversamos, porque faria isso no papel? Sei que você também não se importa com isso. Você se importa com coisas demais de valor de menos para ligar para caligrafia ou conjugação verbal. Tá, tô na tua frente, e se for ver, você também aceita quase tudo o que digo. Mas não consigo te imaginar como uma folha de papel em branco. Tem tanta coisa escrita nela que às vezes me perco tentando entender o que outras pessoas já escreveram e imaginar o que me aguarda. Inútil, eu sei. Você já me falou isso. Já me falou tanta coisa. Me ensinou uma ou outra - nada importante, sinceramente. Mesmo assim, não consigo fingir indiferença. Fico dando voltas para acabar nessa mesma pocilga que é a sua enciclopédia de desculpas tão ridículas quanto honestas. Você é honesto, eu sei. Pior, é honesto consigo mesmo. A maior parte do tempo, claro, porque também gosta de se enganar de vez em quando que eu sei. Beira a charlatanice, eu diria. Quer dizer, faz de conta que é isso, quando na verdade sabe que logo vão descobrir a verdade. A verdade traz a culpa, olha aí, ó. Eu sei, eu sei, não gira os olhos para provar que já passou por poucas e boas por conta disso. Se fodeu, eu sei. Queria ter me fodido no seu lugar se pudesse. Incoerente, eu sei. É a vida. A sua vida. A minha vida. E uma impensável nossa vida. Pior é que nunca fizemos promessas de verdade. Ou fizemos? Não me lembro. Lembro de tantos detalhes de algumas coisas ao mesmo tempo que esqueço completamente de passagens inteiras. E não é porque eram menos importantes, eu só não consigo me lembrar. Nem as coisas tristes, nem as coisas felizes. Acho que é porque às vezes o baque era tão grande que causava uma amnésia do tipo alcoólica. E aí? Vamos embora?
- Só depois de ler a carta.
Ms. Gabizago é uma destas forças da natureza que me maravilham. Nem bem completou 1/4 de século e escreve com tal propriedade que fica difícil não se impressionar - ou intimidar. Ela é uma observadora atenta do jornalismo como ferramenta de mudança social. Mas ao contrário do Alberto Dines, não é um pé no saco.
Conheci ela via Tiagón - outro zeitgeist com o qual tenho prazer de me embebedar pelo menos uma vez por semana. Cheguei também no professor Trasel, que assim como GZ, também permanece de olho no que vai ser do jornalismo. Como eles, muito mais gente discute o assunto, apresentando novos pontos ou revisitando velhos. Beleza. Tudo certo. Então vou contar um lance aí que talvez possa colaborar com isso.
Pra começar, admito que ainda não me convenci de que é possível fazer jornalismo via blog. Quando quero me informar, procuro primeiro os portais dos meios de comunicação consolidados em papel. Depois, me aventuro por outras barras de rolagem. Mesmo assim - correndo o risco de parecer anacrônico - é no papel que confio.
Tá, sejamos honestos, há tanto jogo de interesse num jornal ou revista impresso quanto num portal ou blog. Em ambos têm quem faça o certo e quem faça o errado. Quem age de má fé e quem contribui com informação qualificada. Ainda assim, as letras impressas me parecem ainda mais confiáveis por um motivo muito básico: escrever besteira em jornal ou revista impressa não tem volta. Uma vez que as rotativas foram acionadas e o calhamaço entregue, acabou-se.
Aconteceu onde eu trabalhava e foi simples assim. Um editor leu no portal de uma retransmissora de TV local uma denúncia contra o prefeito de uma das cidades de sua cobertura. Pediu para o repórter checar a informação. Ele não conseguiu. Na ânsia de dar a informação, o editor pediu que o repórter fizesse a matéria com base nas linhas do site.
No dia seguinte, o advogado do prefeito ligou para o jornal dizendo que estava entrando com um processo por - que eu me lembre - calúnia e difamação. O site já havia retirado a página com a denúncia do ar. Até onde sei, o portal se safou. O jornal, não. Pouco adiantou publicar errata, fazer outra reportagem se desdizendo, o escambau. Tomou, vai responder na Justiça e blá-blá-blá.
Para mim, essa é a diferença crucial entre o impresso e o digital. A responsabilidade de quem publica no impresso é naturalmente maior pelo simples fato de que não é possível voltar atrás. Escreveu besteira? Caluniou, difamou, distorceu, não checou? Tá lá, registrado para a eternidade em milhares de exemplares.
No caso que contei, o advogado do prefeito poderia até ter impresso a tela onde estava a notícia, provando que ela ficou X horas no ar e que isso atingiu um número Y de pessoas, assim como as edições impressas. Mesmo assim, a defesa do portal se beneficiaria com muito mais atenuantes que a defesa do jornal. Diria que a notícia entrou por engano, que foi um estagiário irresponsável e já demitido que colocou no ar, que era apenas um teste, enfim.
Se papel aceita tudo, o que dirá de planilhas virtuais? Chego a lembrar daquelas lousinhas mágicas, onde depois de escrever, bastava levantar a tela plástica para brincar novamente.
Responsabilidade. Quando pego um jornal impresso, sei que o sujeito que escreveu aquilo ali - assim como eu e muitos dos meus companheiros - deve estar até agora se cagando de medo com a possibilidade ter escrito besteira ou checado até na Enciclopédia Britânica o nome do presidente da República. Se não porque ele é realmente preocupado com o que faz, pelo menos porque não quer ter aporrinhação depois.
É esse depois, esse além, que ainda não vejo no virtual. Porque é tudo fácil demais de consertar. Para mim, é aí que reside o problema. E não sei como pode ser solucionado.
O que todo mundo sabe: o filme do Homem de Ferro está para estrear. O que pouquíssima gente sabe: o Homem de Ferro foi o responsável por um dos poucos momentos dignos da minha adolescência.
Se você é/foi um adolescente normal, sabe o quanto é difícil manter a dignidade. A luta por um naco de respeito parece sempre perdida. Ninguém te considera pra nada, no final das contas. A menos que você faça algo digno. Algo que te dê dignidade, ora bolas, e, automaticamente, uma talagada de respeito - próprio e alheio. Foi o que o Homem de Ferro me proporcionou.
Era meados de 1997. Não me lembro da data precisa, apenas que era o meio do ano porque minha namoradinha usava uma jaqueta jeans e eu, um blusão qualquer. Então estava frio, devia ser entre junho e agosto. O lugar era o Welcome Center. O "elcômi", como o chamávamos, era/é uma espécie de centro de compras/lazer em Americana, menor que um shopping center e mais bonito que o convívio municipal. Havia recém inaugurado e era a melhor coisa da cidade para quem não possuía dinheiro, carteira de motorista ou um pouco de ambição.
O programa era ficar encostado por ali fazendo coisas que hoje soam estranhas, tipo beijar na boca pura e simplesmente, tomar refrigerante e jogar fliperama. O fliperama ficava onde hoje está uma das salas de cinema do lugar. Minha memória diz que era uma sala retangular profunda, de pé direito gigantesco e uma vidraça maior ainda que dava para a rua. Mas não devia ser tudo isso. De qualquer forma, ali era uma parada certa.
A ficha podia ser cara - algo como R$ 0,50 - mas não havia maloqueiros te importunando e as máquinas eram novas, com joysticks limpos e botões que funcionavam de fato - quem frequentou bocadas malafamadas de fliperamas sabe do que estou falando. E tinha Marvel Super Heroes. Para nós, capiais do interior paulista, aquilo ali era o ápice. Misturava videogame de alta tecnologia com nossos heróis preferidos.
Um aparte para a história:
Marvel Super Heroes era inspirado na saga Desafio Infinito, da editora Marvel. Nela, o vilão Thanos junta as seis Jóias do Infinito (Alma, Mente, Poder, Tempo, Realidade e Espaço ) e torna-se algo como um semi deus. Nada se tornar impossível para ele, a não ser agradar a amada, que no caso era a própria morte. O sujeito então resolve dizimar metade da população do universo, equilibrando o número de vivos com o de mortos. É quando os heróis se juntam para pegar o cara.
E o jogo foi lançado - pelo menos para nós - justamente na época que estávamos lendo as duas continuações da saga, Guerra Infinita e Cruzada Infinita. Só colocar a mão dentro da calcinha de uma menina podia ser mais incrível que aquilo - com a vantagem de que no jogo só dependeria de você para terminar o que começou, enfim...
Então lá estava eu. Com minha namoradinha de um lado e alguns amigos do outro. Escolhi o Homem de Ferro. De verdade, eu mal conhecia o personagem. E na época ele não estava tão em voga quanto hoje, figura central da última grande saga Marvel, Guerra Civil, e tal. Não passava de um herói de segundo escalão dentro de um grupo criado para juntar todos os sujeitos que não tinham moral para uma revista própria. Mas ele era o mais fácil de apelar! Para um cara que não tinha dinheiro a perder com treinamento de técnicas de combate, só a vitória interessava.
E o Homem de Ferro era perfeito para isso. A seqüência de ouro consistia em soltar um raio pelo peito (Laser Beam), seguido de bombas pelos ombros (Shoulder Bombs), aguardar o inimigo contra-atacar para então mandar um Repulsa Blaster e começar tudo de novo. Até o momento que a barra de poder estivesse cheia e você pudesse desferir um Proton Cannon, que nada mais era que um Canhão de Prótons (sim...) materializado do nada no ombro do Tony Stark, que lançava uma rajada brutal capaz de consumir mais da metade da energia do oponente. Aí a briga estava praticamente ganha.
Fui nessa toada até os três chefões finais, sendo dois não jogáveis. O primeiro, Magneto, venci com certa facilidade. Doutor Destino era o segundo e chegado numa apelação, do tipo ficar se defendendo num canto esperando a própria barra de poder encher para então lascar um movimento especial na minha fuça de lata. Perdi um round, ganhei o segundo e venci o terceiro constatando que as manoplas da máquina estavam escorregadias.
Foi quando dei uma olhadela pra trás e reparei uma pequena multidão aglomerada, de olhos vidrados no monitor. Parecia que a seção toda havia parado para assistir a partida, como se ninguém nunca tivesse chegado tão longe no jogo e mostrado aqueles cenários e personagens. Lembro de um amigo falando algo como "agora fodeu, é o chefão final" e minha namoradinha fazendo sua típica cara de paisagem, como se aquilo não fosse mais que a última fase do fliperama mais quente de nossas ridículas existências.
Então veio Thanos. Thanos e a Manopla do Infinito. Na verdade, sua própria luva, porém cravejada com as Jóias do Infinito. Ele era capaz de tudo e eu sabia disso. Portanto estava em vantagem, porque eu havia lido sobre ele, mas HÁ! ele não tinha conhecimento da minha estratégia. O cenário era composto dos principais heróis não jogáveis da saga petrificados. E eu seria o próximo, dava a entender o vilão, que sequer possuía movimentos de corpo-a-corpo e mantinha-se a distância lançando mão de todo tipo de golpes de longo alcance.
Adotei a estratagema do Doutor Destino. Me encolhia num canto e lascava um poder ou outro quando visualizava uma brecha. Ele caiu no primeiro round, eu perdi o segundo. E veio o terceiro. Meus arquivos dizem que nessa hora havia mais gente na sala de fliperama que em todo "elcômi". Não mexi no time e levei a taça. Tava lá. Eu havia, pela primeira vez na vida, fechado, zerado, terminado, finalizado, um jogo de fliperama. E todo mundo tinha visto.
Eu havia vencido Thanos. Eu e o Homem de Ferro. Vitória apelativa, inglória, feia, suja e malvada, na raça, no sangue, corinthiana, maloqueira e sofredora graças a deus. Tanto não podiam tirar aquilo de mim que, após assistir a toda a animação final e os créditos, coloquei minhas iniciais no posto mais alto do ranking. Por algum tempo, todos que jogassem - ganhando ou perdendo - veriam um GHB garrafal escrito no topo da lista.
Aos 15 anos, eu não tinha como aspirar a mais nada. Talvez colocar a mão dentro da calcinha da paisagem ao meu lado, certo, mas não naquele momento.
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Seção de links bucaneiros devidamente atualizada
Tem quem consiga. Desligar-se pura e simplesmente. Como se houvesse um botão on/off no peito. Sei lá. Para viver melhor, dizem. Viver melhor... Melhor do que o quê? Melhor por que? Dá pra definir viver melhor, assim, bonitinho? Seria o mesmo que um menear de cabeça seguido de um "vou levando"? Ou seria igual a um muxoxo do tipo "é a vida"? Os dois, quem sabe. Mas "ir levando a vida" é diferente de "deixar a vida levar". O primeiro pressupõe atividade, atitude, algum esforço, talvez uma medida de responsabilidade ou desejo de sentir-se parte de um processo algo imprescindível.
Como o sujeito que fica empurrando a vida pra cima de uma montanha só para, depois, vê-la descer morro abaixo e reiniciar o trabalho. Mas esse novo Sísifo não usa os bíceps, e sim a barriga. Ele vai empurrando a vida com a barriga até o pico e, sinceramente, não vê a hora que ela despenque ribanceira abaixo para ter novamente o que fazer. Falta-lhe um propósito, o mais insignificante, que o faça largar mão daquela porra de sina. É como a dona de casa que não forra o fogão com papel alumínio só para ter contra o que praguejar quando o leite derramar. Certeza que toda vez que a pedra rolava Sísifo bufava um "puta que pariu". Mas descia para recomeçar a parada toda, afinal, ele não tinha mais nada para fazer.
É diferente de deixar a vida levar. Se deixar levar é como boiar num rio ao sabor da correnteza, aproveitando o que ele reserva a cada curva, entroncamento, queda d´água, até chega ao mar. É, sim, um ato de coragem e entrega suprema. É estar aberto a possibilidades e conseqüências totalmente imprevisíveis, esperar por tudo sem ter nada a entregar ou muito pouco com o que se defender, braços abertos, peito estufado pra cima sujeito a toda sorte de intempérie. É... aceitação. Mas não aceitação passiva do destino ou coisa que o valha. Isso é levar a vida. É empurrar a pedra por não ter escolha. Deixar a vida levar é, ao contrário, se deparar continuamente em bifurcações, sem saber o curso do rio, e precisar escolher ali, na inconstante da corrente, para onde ir. Depois, conviver eternamente com a dúvida de ter escolhido certo ou não e imaginar o que se estará perdendo por não ter optado pelo outro lado.
Levar a vida é fácil. É escolher um emprego que te pague o suficiente para o aluguel e a chalaça, é reduzir a marcha numa descida. Uma quase-morte. É trabalhar 14 horas por dia para deixar um sujeito que já é rico, mais rico ainda, e no final, chegar em casa exausto com uma sensação de dever cumprido que só pode ser explicado pelo cristianíssimo "trabalho que enobrece o homem" - se ser nobre é isso, melhor ser plebeu a vida inteira. Ligar a TV em qualquer lixo para "descansar a cabeça". Comprar molho de tomate achando que o conteúdo daquela latinha, válido por no mínimo 6 meses, é realmente molho de tomate. Ler para dormir. Beber só um pouquinho "porque não quero acordar amanhã com dor de cabeça", e aí acordar, comprar o jornal mais gordo da banca e passar a manhã folheando os catálogos de lojas de departamento atrás de qualquer coisa desnecessária. Se acostumar. Reencostar a cabeça no travesseiro à noite com a sensação de que ocupou seu tempo com algo "construtivo" e "útil" - mesmo sem saber bem ao certo o porquê daquela náusea que o faz acordar no meio da noite.
Então passei a madrugada toda pensando em como escrever aquilo tudo quando resolvi apenas pura e simplesmente copiar o que a mulhervizinha tão bem colocou, assim, dessa forma:
Isso basta. Ou deveria, pelo menos...
"Muita gente entrou numa de que blog dá dinheiro... Cada vez mais virou uma coisa mal vista abrir mão de suas convicções por grana. Com o post pago, tu queima a tua credibilidade e a única moeda que se tem a oferecer na internet é a sinceridade"
Cardoso - sim, "ele" - no Link do Estadão
Clóvis Schamizt havia acabado de chegar no estacionamento. Ao seu lado, prostrara-se o guardador de carros. Segundo testemunhas, o proprietário do Audi V8 sacou uma pistola e disparou contra o rapaz negro, de porte franzino, por volta de 32 anos e de nome desconhecido que agora se encontra em uma das gavetas do IML do cemitério Sagrado Coração de Jesus. O assassinato, segundo a polícia, coloca fim no relacionamento de dois dias que ambos mantiveram nas imediações do Colégio Imaculada Virgem Alargadora de Cós.
Schamizt, empresário do ramo de alimentação, é proprietário da firma que acabara de vencer a licitação para fornecimento de merenda para as escolas da rede pública de ensino. Um dia antes do homicídio, havia encontrado com o guardador de carros, que dormia pela região e pedia dinheiro para todos que paravam no local, num espaço anexo ao colégio.
- Ele veio pedir dinheiro logo após eu estacionar o carro, e isso me irritou muito. Na Capital, eles costumam cobrar cinco reais, então fiz as contas, dei 150 paus para ele e disse para só me encher o saco no próximo dia 12.
Entretanto, no dia seguinte, o guardador veio até Schamitz logo que este estacionou seu veículo ao lado da escola onde mantinha uma de suas 23 cantinas. De braço esticado e mão em forma de concha, recepcionou o empresário.
- Eu já havia dado dinheiro para ele no dia anterior, quer dizer, ele não tinha nada que vir me importunar - defende-se Schamizt.
O empresário tirou sua Taurus 9mm de debaixo do banco do motorista e efetuou três disparos contra o peito do flanelinha, que tombou no mesmo instante. Em seguida, Schamizt guardou a arma e foi até a escola, onde conferiu estoque, saldo e conversou amenidades com o diretor.
- Ele não me parecia perturbado, pelo contrário, estava bem disposto - declarou A.L.S., coordenador de ensino da instituição.
O empresário alega ter agido em legítima defesa, dizendo que se sentiu lesado e que pouco ou nada poderia esperar das autoridades competentes.
- Não tem polícia por aquela região, estamos a mercê da bandidagem - disse, salientando ter o registro da pistola e o porte de armas expedido pela Secretaria de Segurança Pública do Estado.
O guardador será enterrado em vala comum no Cemitério da Ressurreição Eterna se o corpo não for reconhecido em 30 dias. Schamizt aguarda em liberdade o desenrolar do caso.
Dá um bico nesse show aqui
Sim, são os Smiths. E olha a data: 21 de outubro de 1986. Quatro meses antes eles haviam lançado sua obra-prima, The Queen is Dead. A canção do vídeo é Bigmouth Strikes Again, segundo single do disco, disponibilizada em maio do mesmo ano, um petardo pop inigualável, perfeito em qualquer sentido. Ela encerra a apresentação da banda no Royal Concert Hall, em Nottingham, para a turnê do trabalho recém-lançado.
Não sei você, mas eu assisto a uma apresentação desta e logo penso: "alguma coisa está errada". Não há um brucutu de terno preto mal cortado ao redor do palco. Pelo contrário, o público está debruçado no tablado, recebendo cumprimentos do Morrissey, que em dado momento tira a camiseta, gira e atira para a platéia.
A câmera foca no vocalista enquanto ele continua a interagir com o público, e quando volta para Johnny Marr ele está tocando e dançando com um sujeito qualquer. É a deixa para mais meia dúzia subir e começar a dançar no palco. Não contente, Morrissey puxa um sujeito para que se junte aos outros. Logo, há uma pequena multidão junto com os músicos, dançando e cantando. Ao final, os "penetras" descem, tranqüilos.
Esqueça a bandinha da galera que toca na festinha no clube recreativo da cidade. Não é disso que estamos falando. Nem de antigos ídolos decadentes que topam qualquer roubada pra se promover e comer alguém. Estamos falando da banda que mudou a configuração da música pop nos anos 80, seja por ter um letrista que hoje é considerado O Maior Inglês Vivo, seja por ter um guitarrista que influenciou no mínimo duas gerações.
Os Smiths já eram grandes - pelo menos na Inglaterra, onde a celebração em questão foi realizada. Estavam em seu terceiro LP e prontos para tomar de assalto os EUA e daí para o resto do mundo numa rajada de riffs. E lá estão eles, puxando fãs para o palco, claramente confortáveis com isso, meio que dizendo "é, isso fazer parte da coisa toda, é assim que tem que ser, então vamos curtir".
Interação. Você ali, literalmente a um palmo do seu ídolo, com a opção de chegar, dar um abraço no cara, de repente cantar um refrão junto, ou só ficar pulando em volta dele. Ele não vai ter um chilique por causa disso, nem tu corre o risco de ser espancado por meia-dúzia de bandidos semi-letrados com "Segurança" ou "Apoio" pintado nas costas.
Interação. Real. Verdadeira. Sincera. Onde foi que isso se perdeu? Em algum momento, alguém deve ter errado. O público, que se tornou beligerante e passou a exigir do artista mais do que um aceno ou autógrafo por conta dos seus "serviços" prestados? O artista, que de tão insuflado se dá mais importância do que realmente possui? Os dois? Não sei.
Em papo com Tiagón a respeito, ele lembrou outro antológico show, esse em 1970, no mesmo Royal Albert Hall, protagonizado por uma banda de similiar importância e que estava em igual patamar na época: o Led Zeppelin (aqui, a parte 1 de 12). El Rey sustenta que parte disso é culpa da típica e invejável civilidade inglesa, só equiparada com a classe dos frequentadores dos espetáculos de jazz nos EUA dos anos 50.
Eu não sei. Apenas assisto a esse vídeo toda vez que quero ter idéia do que seria um show ideal. É esse. E eu nem pularia no palco. Apenas por saber que eu poderia, já estaria de bom tamanho. Apenas o fato de saber que meu ídolo me receberia bem, como alguém além de um simples comprador de discos ou ingressos, mas um sujeito que, como ele, também gosta de música e foi lá, no show dele, para celebrar essa paixão. E não é assim que tem que ser?
Segue o show completo. Cortesia do maio acervo dos Smiths e do Morrissey do YouTube, o Lapislazuli.
2 - Panic
3 - I Want The One I Can't Have
4 - Vicar In A Tutu
5 - There Is A Light That Never Goes Out
6 - Ask
7 - (Marie's The Name) His Latest Flame/Rusholme Ruffians
9 - The Boy With The Thorn In His Side
10 - What She Said
13 - Cemetry Gates
14 - London
15 - Meat Is Murder
16 - I Know It's Over
17 - The Draize Train
18 - How Soon Is Now
19 - Still Ill
Estou aprendendo a contar com ela. E mais ninguém.
Sittin' on my own
Chewin' on a bone
A thousand million
Miles from home
When Something hit me
Somewhere right between the eyes
Sleepin' on a plane
You know you can't complain
You took your last chance
Once again
I landed, stranded
Hardly even knew your name
I wanna talk tonight
Until the mornin' light
'Bout how you saved my life
You and me see how we are
All your dreams are made
Of Strawberry lemonade
And you make sure
I eat today
You take me walking
To where you played
When you were young
I'll never say that I
Won't ever make you cry
And this I'll say
I don't know why
I know I'm leavin'
But I'll be back another day
I wanna talk tonight
Until the mornin' light
'Bout how you saved my life
(You saved my life)
I wanna talk tonight
