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agosto 27, 2006

Fim das utopias?

"Você, meu amigo de fé, meu irmão, camarada (...) me lembro de todas as lutas, meu bom companheiro" são versos de Amigo, música cantada pelo Roberto Carlos. Fala de amizade, companheirismo, afetos cultivados desde a infância e presentes pela vida a fora.
Faço um recorte e destaco: "amigo de fé"!

Será que existem ainda 'amigos de fé' num mundo de tantos incrédulos?
Não me refiro, apenas, à fé religiosa, que irmana as pessoas sob a garantia de que Deus é pai de todos e, portanto, a todos ama igualmente - este é o princípio que garante a coesão de qualquer religião (vã tentativa de se evitarem as brigas, dissensos, guerras: na verdade, nada segura nossa propensão ao egoísmo, à luta pela supremacia, o temor do desprezo e da rejeição.]

A 'fé' - em qualquer coisa - é o suporte simbólico para que suportemos a incompletude inerente ao ser humano. Saber-se incompleto, faltoso, manco e mortal é uma ferida narcísica tão grande que seria insuportável viver se não tivéssemos algum recurso para mitigar nossa dor. Cairíamos no desespero - falta de esperança.

Quando falta este suporte simbólico, então caímos na descrença. Falo de muitas incredulidades: descrença na política, nos políticos, nos ideais de mudança, de mais igualdade, etc. Alguns chamam isso de 'fim das utopias'. Desesperança que enfraquece qualquer desejo de lutar. Se 'cada um tem que se virar', se vivemos numa época do 'salve-se quem puder', se perdemos a crença na fidelidade, na amizade, na honestidade, então não temos mais 'irmãos de fé, irmãos camaradas'...

Será este o mal contemporâneo?
Será possível distinguir suas causas?

O discurso da Psicanálise sobre a função paterna talvez nos dê uma pista.
Os psicanalistas compreendemos o Pai como a instância que garante a Lei. Como isso se dá? Pela castração, termo inventado por Freud para descrever a instituição de limites à onipotência do bebê - e do ser humano, por extensão.
Ao sofrer a 'barra' que impede a realização dos desejos sexuais em direção à mãe, a criança aprende que 'nem tudo é possível'. A função paterna (castração) inaugura a linguagem - uso de símbolos - saída para que não se 'passe ao ato'. Sem a palavra, o que nos resta senão o puro fazer? Sem o simbólico, resta-nos o desespero.

O declínio da função paterna se caracteriza pela ausência de referência, ou seja, a destituição de autoridade, o apagamento de valores e, o pior de tudo, a crença na onipotência.

O que vemos imperar por aí? Desigualdade social, desamparo dos mais pobres, falta de perspectiva na escalada social, privação dos bens oferecidos pelo mercado, maracutaias dos políticos, corrupção generalizada e o império do 'deus mercado'.
Tudo isso leva o homem contemporâneo a descrer de um poder maior com o qual poderia se identificar e ao qual se submeteria. Mundo sem Pai = mundo sem Lei.

A Política, então, deixa de ser um meio para se resolverem conflitos sociais, administrar a coisa pública, aparar diferenças. Não! Política é lugar de ganhos pessoais, mecanismo de se locupletar e obter vantagens corporativas e pessoais.
A descrença impera: quem aí tem paciência para ouvir propaganda eleitoral? Quem quer discutir política?

Alguém aí acredita que as propostas dos candidatos sejam, realmente, para melhorar o país?

Não há mais 'tranferência vertical', ideais a serem cultivados. Resta a 'transferência horizontal', caracterizada pela adaptação mimética aos imperativos da moda e do consumo: "se tenho o que o outro tem, se compro o que o vizinho comprou, se uso o que todos agora usam, então estou bem, estou 'por dentro', serei aceito".

As tribos se aglutinam, então, pela adesão maciça a um determinado tipo de música, pela adoção comum de objetos de consumo, pela freqüência a um restaurante especial, etc. Tudo numa ilusão de que, com isso, se estará 'completo', 'realizado', 'inteiro'.
A falta? Ora, nada me faltará se tiver dinheiro para comprar tudo que me é oferecido. Mesmo sem dinheiro, há o cartão de crédito...

Não existem mais impeditivos éticos à consecução daquilo que se almeja: rouba-se, corrompe-se, guerreia-se para que se tenha mais e mais. Quem tem, é. Quem não tem, não existe!

Assim com se fala do fim das utopias, podemos falar do fim das fantasias:

Não há mais o que fantasiar: o Mercado nos oferece tudo e a Ciência tudo promete: corpo perfeito e sarado (há quem acredite em juventude eterna); iPod capaz de armazenar 15 mil músicas (que nunca escutarei); um automóvel que faz 300km por hora (mesmo que as estradas sejam esburacadas e as placas proíbam velocidade acima de 80km)...
O importante é gozar, não importa como: pode ser pelas drogas, pela violência, pelo excesso.

A morte? Ora, a morte! Como dizem alguns jovens ('meninos do tráfico') marginais ou marginalizados: "Se eu morrer, que é que tem? A vida não vale a pena!"

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Blog do autor: PrasCabeças

agosto 8, 2006

Acuado

Vi e revi a entrevista do candidato Alckmin ao Jornal Nacional de ontem.
Confesso que não esperava muito do 'jornalismo insipiente' - estou sendo lisongeiro demais? - do JN, geralmente perpetrado pelo casal W. "Hommner" e sua sempiterna sorridente consorte, mas me surpreendi: colocaram o Picolé de Chuchu completamente acuado.

Abordaram assuntos que o candidato preferiria não abordar nunca: o escândalo da Nossa (lá, dele) Caixa e a incompetência do governo paulista em gerir o sistema carcerário.
Ainda naquele dia, o estado de São Paulo se quedava perplexo e apavorado sob a "terceira onda" de ataques por parte do que costumam chamar de "facção criminosa", como se PCC já não fosse nome oficial, com certidão passada em Cartório.

Inda mais, relembraram o caso do 'mensalista' Eduardo Azeredo, o senador peessedebista que inaugurou a apropriação indébita via Marcos Valério, antes do tsunami escancarado há pouco mais de um ano.

O que Alckmin respondeu? Que explicações deu?
Necas de bulufas coisa nenhuma.
Gaguejou um pouquinho, deixou o companheiro de legenda a se queimar ("Isso ele já explicou ou terá de pagar pelo seu erro") e... bem, repetiu que "o PT dizia que era um partido diferente dos outros; agora diz que é igual... Igual coisa nenhuma, nós (PSDB) somos diferentes").
Sobre a aprovação pelo Congresso do aumento de 16% aos aposentados, liderada pelo PSDB apenas para provocar desgaste presidencial, o tucano disse que "faria tudo para pagar". Só não disse como. Afinal, candidato é pra isso mesmo: prometer, prometer, prometer.

Supreendeu-me, repito, a insistência com que bombardearam o entrevistado, a ponto de Fátima Bernardes ter sido advertida pelo maridão que já estava na hora de terminar.
Foi até engraçado.

Aqui em Minas já correm piadas acerca das constantes visitas que Alckimin faz junto ao Aécio, buscando assombrear-se na popularidade do governador mineiro... Este, como tenho dito, joga com a esperteza de sempre.

Agora acabo de ler os resultados das últimas pesquisas (julho) de intenção de voto:

Lula cresce e Alckmin decresce (7,5%). O atual presidente ainda retomou os índices de aprovação de um ano atrás, antes do estouro do escândalo do mensalão.
Se o Lula está confiante demais - Alckmin, segundo a Folha, ri:
"Alckmin classificou o resultado como piada. "Só trato de assuntos sérios. Acho que é uma boa piada. Você leva a sério isto? Acho uma boa piada", afirmou. De acordo com ele, pesquisas internas do partido apontam para uma estabilidade no quadro eleitoral."


Pois é, se eu falava na semana passada que a coisa andava meio morna, será que agora está esquentando?

E se esquentar demais, o picolé derrete?

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Em tempo: Este post é classificado como Miscelânea. Não é sobre Política, pois o que se vê por aí nada tem a ver com Política. Talvez com politicagem... talvez como um circo de péssima qualidade. (Desculpem-me os palhaços e malabaristas, pela comparação).
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Blog do Autor: PrasCabeças

agosto 5, 2006

Passando a sacolinha

Por ELENARA IABEL CARIBONI - Alguns podem achar que é off-topic a imagem em anexo, mas não é! Trata-se da mais crua e dura realidade, de onde vai parar o voto do povo brasileiro, desnutrido, esfomeado.

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Aos que ainda não sabem, a Constituição da República Brasileira é a Lei Maior, alíás, considerada por muitos juristas, estrangeiros inclusive, a melhor, a mais bela, a mais completa constituição de um país.

Estou convencida de ser o direito constitucional uma das maiores riquezas da humanidade; é do direito constitucional que deriva, em última instância, toda a capacidade dos agrupamentos humanos de desenvolver sua cultura e sua qualidade de vida. É o poder controlado pelo conhecimento racional, qualquer que seja este conhecimento, produzido pela sabedoria do coletivo organizado sob a forma de nação.

O avanço político e filosófico, o aperfeiçoamento da produção do direito constitucional, poderá direcionar a sociedade humana rumo a um processo civilizatório mais harmônico, pacífico e equilibrado com aquilo que chamamos de Natureza, o restante da vida no Planeta, da qual dependemos para existir e crer no futuro. Basta querer fazer valer.

A liberdade de manifestação de cada um dos membros da sociedade não é o princípio que inaugurou o direito constitucional em nossa história, no entanto, é um dos elementos fundamentais de uma sociedade humana viável, nos próximos séculos; para que uma comunidade esteja sempre se reconhecendo como tal é necessário que seus componentes participem da constituição desta comunidade e isto acaba sendo um fenômeno dependente da regularidade e permanência, sem o que a comunidade tende a abrigar uma crescente contradição entre mundo real e mundo jurídico, ficando este último definido por interesses e culturas minoritárias dos que detém o controle da economia, do aparato bélico e dos meios de comunicação. Mas esta capacidade de pensamento e criação de idéias e linguagens não depende só da permissão formal dos que controlam o poder, é necessário que os que o delegam estejam atentos ao seu importante papel na constituição do ordenamento social. Se isso não ocorrer, se a maioria dos membros de uma comunidade não estiver sempre utilizando seu direito de falar, pensar e agir de forma legal, a permissão formal dos donos do poder passa a ser alegoria, enfeite e aparência simulada, ocultando a verdadeira condição autoritária e arbitrária da produção da ordem social.

A liberdade plena de pensar, falar e agir de forma legal, para todos, é uma utopia condutora das ações daqueles seres humanos que lutam diariamente para ampliar a eficiência e durabilidade do direito constitucional. Disso depende a sobrevivência da espécie humana no Planeta.

No mundo inteiro, atualmente de forma mais radical e menos humanista, os subordinados são conduzidos a abandonar o campo do direito de falar, pensar e se organizar e estimulados a retribuir aos donos do poder através de ações que propiciem a manutenção do status quo.

No Brasil, estas relações de poder, entre subordinados e elites, estão carregadas de um forte viés psicológico no qual o subordinado é assediado moralmente desde a mais tenra infância, pelos seus próprios pais, para ter uma auto-estima reduzida, uma estrutura interna desorganizada e frágil e um ego desequilibrado.

Sempre houve, em nosso país escravista, o risco de miséria e de perda iminente da capacidade de sobrevivência para a maioria da população; somente com o populismo desenvolvimentista de Getúlio Vargas se formou uma classe média significativa oriunda do povo pobre. Muitos pais de bancários, servidores públicos e professores de hoje são filhos de gente analfabeta, calçada quase sempre de chinelos de borracha, ou de madeira. A insegurança constitui a nação brasileira. Os discursos democráticos ocorridos em vários momentos da história brasileira apenas cobrem, como um manto muçulmano, o medo real que as pessoas comuns têm de perderem direitos mínimos de sobrevivência.
É no interior dessa violência da constituição real brasileira que se formaram os perfis dos militantes políticos atuais. Os militantes sindicais e partidários da atualidade não são vistos como pessoas comuns pelos habitantes comuns das cidades. Exceto os membros do MST, as comunidades evangélicas e as comunidades envolvidas com o tráfico de drogas – que formam ilhas diferenciadas no campo do agir político – a maioria dos ambientes civis apresenta a participação política organizada de um grupo reduzido de pessoas, a maioria delas envolvidas com organizações político-partidárias ou ordens secretas. Estas pessoas organizadas se dedicam a conquistar e manter lugares de poder, na sociedade civil, formando pirâmides de poder que têm seu topo no governo federal, no congresso, na cúpula do judiciário e das forças armadas. Tudo isso acontece no interior de uma forte tradição patrimonialista, herdada de Portugal, na qual interessa mais o tripé humildade, fidelidade e obediência do que direitos humanos inscritos na nossa desobedecida, esquecida e picoteada constituição jurídica formal. A lei maior do agir político brasileiro é a seguinte: manda quem pode, obedece quem precisa.

Vamos continuar assim? Porque assim foi, assim sempre será?
Saudações do front
Elenara Iabel

(Atualização das 18h40: Milton!, eu gostaria de uma mudança, se for possível, que se desse crédito ao Bicarato (Alfarrábio), também, o título que ficou é dele, foi ele quem criou para sua página, foi ele quem botou na rede...

agosto 4, 2006

Tá tudo muito devagar...

As eleições se aproximam.
Não era hora de as discussões ficarem mais acaloradas? As posições políticas mais bem definidas?
Entretanto, o que vemos é uma campanha eleitoral morníssima, na qual os candidatos apenas se acusam: antes era pior, agora é que é péssimo, antes tinha corrupção, agora a corrupão está maior, o país melhorou, melhorou nada: piorou... Conversa fiada pra boi dormir, penso eu.

O PSDB lançou um candidato cujo apelido diz tudo: chuchu. Nem o maior cabo eleitoral dele convence no apoio timidamente manifesto: Aécio Neves finge, é público e notório.
O que quer o governador de Minas, de verdade?
Quer suceder a Lula e sabe muito bem que o discuros "anti-reeleição" do Alckmin é leréia pura. Já mencionei a verdadeira "chapa mineira": Lulécio. O índice de aprovação ao neto de Tancredo é altíssimo, e subiu mais a partir da parceria espúria do PT com Newton Cardoso - tema de meu último post aqui no Bombordo.

O que tenho percebido é a indiferença em relação à política e aos políticos, como se aquela fosse equivalente aos últimos.
A mídia faz seu papel:
a) com razão - ou não - joga lama no ventilador. Vi estatísticas dizendo que apenas 26% da população acompanha as notícias sobre o descalabro da corrupção. Desses, muitos votarão nos "mesmos", ou seja, não mudam os votos, pois querem resguardar os próprios interesses;
b) oferece o "circo" - já que pão não é de sua competência: Copa do Mundo, Libertadores, Páginas da Vida, Fofocas, Chiques e Famosos, Ratinho et caterva.
A oposição - fraca! - provoca reações de defesa da coligação que dá suporte a Lula, e nenhuma proposta séria para o país é apresentada. Ironicamente, nem um projeto de gestão econômica original os peessedebistas podem sugerir: afinal, os lucros dos bancos foram os mais altos de toda história e a política econômica da era FHC foi aprofundada. Viram os dois bi do Itaú, só no primeiro semestre? Quantas Varigs poderiam ser compradas com esse lucrinho?
Onde está o discurso da esquerda?

Heloísa Helena denuncia o neo-liberalismo, mas suas palavras ainda não têm a repercussão merecida. Será que cairão em terreno fértil e darão frutos?

Aqui no Bombordo, a coisa tá morna, pra não dizer, gelada. Os últimos posts não mobilizaram discussões, nem apoiamentos, nem os indesejáveis trolls: indiferença? descrença? cansaço?
Nas rodas de boteco, nas reuniões sociais, nos clubes e no trabalho, conversa sobre política é logo descartada. Ninguém quer saber. Quando surgem discussões, resvalam para chistes e enojamentos.

Entretanto, poucos se lembram de que o campo da política tem a ver com as "estruturas de poder" e, supostamente, no regime democrático, "todo poder emana do povo, etc e tal..." Quem quer saber disso?

Os jornais "de direita" ou "que defendem o grande capital" malham o governo, relembrando cuecões repletos de dinheiro, mensalões, sanguessugas, como se fossem as únicas realizações de Lula.

Creio que a pergunta fundamental que deve ser feita, antes das eleições, é:
- Você vai votar pela manutenção do atual governo? Por que?
- Você vai votar contra a manutenção do atual governo? Por que?
Quase um plebiscito. Mas não é nisso que a campanha atual se resume?

Mais importante que as repostas, que fiquem as perguntas. Como dizia Jacob Moreno, criador do Psicodrama: uma (boa) pergunta suscita mil respostas. Ou milhões de votos.
E mais do que palavras: que fazer?
"Existem palavras sábias, mas a
sabedoria não é suficiente, falta ação" - do mesmo Moreno.

Blog do Autor: PrasCabeças