Miscelânea Política
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Se ela dança, eu danço
Após alguns anos de blogoseira, eu afirmo que sou uma unanimidade. A direita anaeróbica me odeia, os liberais libertinos não vão com a minha cara, e até mesmo alguns bombordos me olham de sotavento. Devo isto, eu sei, a uma capacidade inata de desagradar a gregos e a troianos.
É por isso que eu me sinto autorizado a dizer o que vou dizer agora.
A esquerda erra, e erra feio, ao embarcar na canoa proposta por Lula como panacéia universal para os problemas de segurança, a educação.
Acho que ninguém pode ter dúvidas de que, em geral, maiores níveis educacionais melhoram o padrão de vida de um povo, apesar de certos malabarismos procurando desconectar educação e criminalidade. Por exemplo, vi uma reportagem na Globo fazendo uma comparação entre níveis educacionais gerais do Brasil, do Egito e de um país egresso da cortina de ferro. Chegava-se à conclusão de que embora o Brasil tenha um nível educacional melhor do que o Egito, a criminalidade aqui é maior do que lá. Talvez isso seja um plano da Globo para implantar a Sharia no Brasil. A verdade é que embora o nível educacional seja um fator explicativo, não é o único, principalmente se estamos falando de culturas tradicionalmente repressivas.
De qualquer maneira, uma solução como essa, embora possa cair ao gosto de um certo direitismo, principalmente o de extração religiosa, não teria o condão de agradar à esquerda, tradicionalmente vinculada à idéia de maiores liberdades e mais, e não menos, emancipação do cidadão (que me perdoem os tradicionalistas religiosos, que vêem a única emancipação possível como sendo aquela que emana do encontro do homem com o divino).
Por outro lado, a esquerda, principalmente a mais ingênua, nutre há muito tempo uma admiração romântica pelo banditismo, visto como uma transgressão da ordem burguesa. Bem, alguns concordariam, outros mais radicais diriam certamente que o banditismo é a outra face da ordem burguesa, alguns diriam que é a mesma face. O smart aqui acha que o banditismo é muitas coisas, e que o banditismo existente na mulher humilde que rouba o supermercado para dar o que comer ao seu filho é diferente do banditismo da Tranchesi, que rouba o erário público descaradamente, que por sua vez é algo bem diferente do banditismo de um grupo organizado e armado, verdadeiros warlords, que, “presos”, comandam os destinos dos “soltos”.
Daí a leviandade daqueles que atribuem todo o poder de “cura” da atual situação à educação. A literatura é pródiga em mostrar o impacto de vários fatores sobre os índices de criminalidade: a legalidade do aborto, os maus tratos a crianças, e até, pasmem, o grau de concentração do sistema bancário. E em todo o caso a educação é uma solução de longo prazo. Como se diz, podemos ficar 5 dias sem comer, 5 horas sem beber, mas não podemos ficar 5 minutos sem respirar _ e a criminalidade organizada pode simplesmente “nos tirar o tubo”. Razão pela qual falar em educação é apenas uma saída eleitoralmente aceitável para a crise da segurança. Tanto Lula sabe disso que no seu discurso sobre as virtudes curativas da educação, ele se eximiu de falar sobre o que vai fazer a respeito, e concentrou-se em atirar a culpa sobre os seus predecessores dos últimos vinte anos.
O crime não é romântico, ele não é antiburguês. Ele quer viver das riquezas do mundo moderno como qualquer parasita. Com a supremacia do crime, a civilização regride e pode dançar.
E se ela dança, eu danço.
22/mai/06 |
18:47 |
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