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Cultura
Renato Guimarães blog do autor

Língua, cultura e sobrevivência

“Saudade”, uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa, é também a sétima mais difícil do mundo para se traduzir. O que todo mundo já desconfiava foi comprovado por uma pesquisa feita pela empresa de tradução britânica Today Translations junto a mil tradutores de todo o mundo. Aquela considerada a mais difícil de traduzir é “ilunga”, falada no sudoeste do Congo e que significa "uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez".

Outras palavras da lista que eu gosto são “shlimazl” (ídiche), que designa uma pessoa cronicamente azarada e “radioukacz” (polonês), que é a pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro.

A pesquisa também revelou as 10 palavras mais difíceis de traduzir do idioma inglês. Por exemplo, a palavra “serendipity” (terceira da lista) realmente não é fácil. Significa algo como a faculdade de fazer boas descobertas por acaso, sem estar procurando por elas. A palavra vem do conto persa “As três princesas de Serendip”, que tinham justamente a característica de encontrar coisas maravilhosas sem se dar conta.

Todas estas palavras pertencem a grupos lingüísticos ainda ativos, falados por populações identificáveis nos mapas. Transmitem conceitos facilmente compreensíveis por aqueles que as utilizam em seu cotidiano. Têm, portanto, uma vida e uma história.

Quando uma língua desaparece, ainda que sobreviva o povo que a falava originalmente, é todo um universo simbólico que vai junto, engolfado em uma espécie de cataclismo silencioso. A Unesco desenvolve um interessantíssimo “Programa de Línguas Ameaçadas”, que à semelhança de seus congêneres sobre espécies animais, procura mapear os riscos que correm as diferentes línguas faladas no mundo.

Algumas das conclusões levantadas pela investigação mais recente do Programa indicam que:

- Mais de 50% das cerca de seis mil línguas faladas no mundo estão ameaçadas.
- 96% das seis mil línguas são faladas por apenas 4% da população mundial.
- 90% das línguas do mundo não estão representadas na internet.
- Uma língua desaparece a cada duas semanas em média.

No atual ritmo, estima-se que 40% das línguas faladas hoje vão desaparecer nos próximos 50 a 100 anos. Além dos impactos sociais e econômicos, seu desaparecimento significa a perda da memória coletiva de todo um povo. A maneira como se descreve os sentimentos comuns, os nomes das coisas, o modo como se designam as ações prosaicas do cotidiano, enfim, tudo o que determina a identidade coletiva desaparece com a língua quando ela deixa de existir.

Para os especialistas em lingüística uma língua está sob ameaça quando não é aprendida por mais do 30% das crianças de uma comunidade. Está seriamente em perigo à medida que estes poucos falantes da língua original vão crescendo e envelhecendo. Fica definitivamente moribunda quando apenas alguns poucos da comunidade ainda a lembram. E quando estes morrem, lhes acompanham até o túmulo. Uma morte absoluta, que leva além do corpo físico o repositório cultural de um povo ou comunidade.

Mas, por que se preocupar tanto com a morte de uma língua, principalmente se ela for falada por um grupo humano restrito, como por exemplo, uma tribo amazônica ou africana?

A própria Unesco, em um paper muito interessante chamado Language Vitality and Endangerment, procura responder:

“A extinção de uma língua resulta em uma perda irrecuperável de conhecimento cultural, histórico e ecológico. Cada língua é uma expressão única da experiência humana do mundo. Assim, o conhecimento singular de cada língua pode ser a chave para responder questões fundamentais sobre o futuro. Cada vez que uma língua morre, temos menos evidências para entender as tendências na estrutura e função da linguagem humana, da pré-história humana e da manutenção dos diversos ecossistemas mundiais”.

Evidentemente, para repisar um conceito tautológico, a morte faz parte da vida. Não se pode esperar que todas as seis mil línguas faladas permaneçam vigentes para sempre. As novas tecnologias, associadas ao efeito avassalador da globalização, estão dando sua contribuição para a extinção de maneira acelerada de grupos lingüísticos inteiros.

Por outro lado, este movimento dinâmico também tem contribuído para o surgimento de ações concretas para preservar línguas que já estão quase desaparecendo. O Programa de Línguas Ameaçadas, da Unesco, é uma iniciativa que merece respeito. Outras, como a do Google, com sua página de buscas em Quéchua, também.

Mas ainda falta politizar mais o assunto, quem sabe com uma ampla mobilização para salvar línguas (e culturas) ameaçadas. Este bem poderia ser o grande movimento de massas deste novo milênio, com um impacto semelhante ao que teve a emergência do movimento ecológico nos anos 60 e 70.

É como dizia um ancião Navajo citado pelo paper da Unesco:

Se você não respira,
Não existe ar.

Se você não anda,
Não existe terra.

Se você não fala,
Não existe mundo.

Mais informações:

As 10 palavras mais difíceis de traduzir

Programa de Línguas Ameaçadas da Unesco

Atlas interativo das línguas ameaçadas

Paper Language Vitality and Endangerment (para download)



12/mai/06 | 04:20 | discuta este artigo [22]


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