Maria Helena Nóvoa blog do autor
Direita e Esquerda
Como o Bombordo, supostamente, é um site de esquerda, convém fazer algumas distinções sobre a orientação esquerda/direita que não se limitem a rótulos colados em quem é contra ou a favor do aborto, do casamento gay ou do porte de armas. Estas são opiniões pessoais, circunstanciais e nada ideológicas.
A esquerda e a direita divergem, ideologicamente, sobre a organização do Estado. E nem os comunistas comem criancinhas nem os capitalistas vendem a mãe. Pelo menos, não todos.
Na sociedade primitiva o Estado não existia e surgiu com a sua divisão em classes antagônicas formadas por dominadores e dominados. O tipo histórico de Estado se define segundo o regime econômico que defende e protege; e segundo a classe a que pertence o poder estatal. Seus principais instrumentos de poder são as Forças Armadas, os órgãos de repressão e as polícias. Tanto nos regimes de direita como de esquerda.
A partir do final do século XVIII - com as guerras de independência das colônias e o começo do fim das monarquias - os dois lados se definem e começam a pensar sobre a melhor organização para os novos estados burgueses.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, afirmando – pela primeira vez, na história da Civilização - que todos os homens nascem livres; iguais, perante a lei; e têm direito à busca da felicidade, provocou uma tremenda questão: A felicidade estaria na possibilidade do cidadão comum, anônimo, conseguir riquezas e poderes reservados, até então, às cabeças coroadas ou receber a sua justa parte nas riquezas produzidas pela coletividade? As duas perguntas eram novas, as respostas foram elaboradas ao longo do século XIX.
Os fundamentos das principais teorias econômicas vigentes hoje foram assentados no século XIX, portanto, estamos engatinhando nas nossas tentativas de estabelecer sociedades livres e justas e muita água ainda vai correr debaixo da ponte pelos próximos tempos.
Os dois lados se apropriaram da palavra democracia. Então, direita e esquerda divergem quanto aos métodos mas têm um objetivo comum: o governo do povo, para o povo e pelo povo. Já que decapitamos cabeças coroadas e ninguém mais admite ser governado por monarquias absolutistas, o “povo no poder” é a meta da direita e da esquerda no mundo todo. O diabo é como o povo vai chegar lá.
O Estado liberal, ou capitalista, adota a economia de mercado. O Estado socialista acredita na economia planejada. O desejo de lucro, propriedades e ascenção social, move a economia capitalista. O socialismo prega a abolição das classes, não admite a propriedade privada a não ser da própria casa, do próprio veículo, livros e discos, da própria mulher e da óbvia escova de dentes (nem tudo no socialismo é propriedade comunal). Não é permitido lucrar com trabalho de terceiros.
A tábua de salvação, no capitalismo, é ser empreendedor; no socialismo é ser colaborador. No capitalismo não há emprego garantido mas o sujeito empreendedor e ambicioso não passa fome. No socialismo há emprego garantido mas não adianta o Manuel das Couves ser empreendedor porque jamais ficará rico. Basicamente, é isso.
Enquanto o maná bíblico não nos cair do céu para alimentar indistintamente a todos, eu prefiro a filosofia socialista. Mas este é apenas um ponto-de-vista pessoal e uma resposta pessoal à questão básica: “Em que mundo quero viver: numa sociedade competitiva ou colaboradora? Prefiro disputar ou compartilhar?”
Não acredito numa adesão isenta a um ou outro lado, fruto apenas da observação histórica: no século XX os dois regimes construíram dois blocos e pelo menos duas grandes nações poderosíssimas, com ideologias opostas. Os dois lados, na prática, evidenciaram grandes acertos e promoveram terríveis distorções que não fazem parte da ideologia nem de quem defende a direita nem de quem defende a esquerda. Em condições ideais de funcionamento, as pessoas se adaptarão melhor a um regime ou a outro, dependendo de fatores subjetivos. O mundo do emprendedorismo competitivo não é estimulante para todos, pode ser angustiante. E o mundo do planejamento, com o mínimo garantido mas sem possibilidade de riquezas individuais, também não garante a felicidade coletiva.
O mundo socialista se capitalizou mas também é verdade que o mundo capitalista se socializou. O socialismo não morreu e o mercado também não morrerá.
Estaremos à procura da democracia, esteja ela à direita ou à esquerda; no oriente ou no ocidente; porque somos todos iguais perante a lei – isto quase todas as Constituições do planeta garantem – e se não há mais senhores e escravos, dominadores e dominados, patrícios e plebeus, mas apenas povo, podemos – e devemos - sonhar com o regime que efetivamente nos coloque no poder.
Acredito que a oposição esquerdaXdireita ainda será superada dialeticamente numa síntese neutralizadora, que permita a cada indivíduo a busca subjetiva da própria felicidade. Talvez o futuro seja o sensato caminho do meio.
Para isso, um diálogo honesto e civilizado entre os destros e os sinistros será indispensável.
(Só me recuso a discutir com quem afirma que o capitalismo gera necessariamente a bomba de Hiroshima e o socialismo os expurgos stalinistas).
28/mai/06 |
02:36 |
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