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Vanessa Rodrigues blog do autor
Desejo, necessidade, vontade - é possível ser socialmente responsável na era do consumo desenfreado?!
Qual é o caminho para a felicidade? A resposta parece simples: consumir. Quem não consome não existe, não vale, não conta e, em algumas culturas, não presta. Consumir está na base das nossas sociedades pós-industriais e globalizadas e independe de ideologias, o que bem sabiam os alemães orientais ávidos por invadir as brilhantes lojas de Berlim Ocidental ou estão descobrindo recentemente os chineses, habitantes do novo “shangrilá” do Capital.
Não se trata de uma felicidade abstrata, mas naquela baseada na possibilidade concreta de ter acesso a bens e serviços que cada vez mais se transformam no elo de ligação mais forte que temos com o mundo e com as outras pessoas. E não estamos falando de ter o modelo mais recente do iPod ou comprar aquela roupa cool vendida na loja mais descolada da esquina.
Estas são apenas exteriorizações dos nossos impulsos internos, estes sim mediados pelo desejo. A tríade desejo-consumo-felicidade está na base da civilização pós-industrial. O iPod não vale mais por si mesmo, pela “mais-valia” que podia gerar para o seu fabricante. O seu verdadeiro valor só pode ser dimensionado pelo grau de “felicidade” gerado pela legitimação do possuidor como capaz de “consumi-lo”, satisfazendo assim um desejo que ele sequer sabia que tinha. Não gosta do iPod? Não tem problema. É só substituí-lo por qualquer coisa - desde ideologias, religiões, sexo até o último modelo de TV de plasma.
As seitas pentecostais compreenderam muito bem este fenômeno ao criar a teologia da prosperidade. A premissa é simples: cada um tem o direito à felicidade aqui e agora, com a satisfação de seus desejos materiais e espirituais neste mundo e da maneira mais “observável” possível - normalmente pela aquisição de bens materiais (uma nova casa, um carro melhor, a faculdade dos filhos etc). Para isso, acreditar fielmente em Jesus é só um detalhe.
As grandes catedrais deste admirável mundo novo são sem dúvida os shoppings centers. Sua estrutura arquitetônica, baseada no princípio da oferta de uma multiplicidade de serviços, está dominando cada vez mais a lógica de organização das nossas sociedades. Que o digam os centros de atendimento ao cidadão que os governos abrem para colocar à disposição da coletividade um cardápio de serviços públicos. Ou ainda os novos estádios esportivos, estações do metrô, museus etc. que incorporam toda uma gama de opções de consumo.
Entretanto, essa lógica não é uma unanimidade, ainda que pareça inexorável. Já existem algumas reações que tentam, se não controlar, ao menos atenuar seus efeitos deletérios. Há quem se pergunte se a felicidade obtida pela satisfação do desejo de consumir não pode, ao menos, contribuir para produzir efeitos positivos para a comunidade ou coibir práticas negativas em grupos sociais mais desassistidos.
Esta noção está na base de movimentos como o do “Comércio Justo” (Fair Trade), que usa soluções de mercado baseadas no “poder de escolha” dos consumidores de valorizar produtos ou serviços que beneficiem produtores de pequena escala que usam técnicas ambientalmente e/ou socialmente corretas e sustentáveis.
Recentemente, as maiores redes de supermercados britânicas, capitaneadas pela Sainsburry, gastaram rios de dinheiro em propaganda para divulgar sua decisão de vender somente café certificado como “Fair Trade”. Segundo a FLO, federação que reúne as agencias de certificação de comércio justo de todo o mundo, na Europa o mercado de Comércio Justo cresce 20% por ano desde 2000. Produtos com o selo de “Fair Trade” podem ser encontrados em mais de 55 mil supermercados em todo o velho continente.
Este tipo de iniciativa tenta incluir um componente racional à tríade desejo-consumo-felicidade. Assim, movimentos como o de Comércio Justo ou aqueles que impulsionam ações de “consumo consciente” ou “consumo responsável” procuram agregar um componente ético a um ato – o de consumir – que na sociedade moderna tem implicações que vão muito mais além da simples satisfação de uma necessidade individual.
No Brasil, há mais de dez anos a Fundação Abrinq reconhece como amigas da criança empresas que atuam no combate ao trabalho infantil e nas áreas de educação, saúde, direitos civis e investimento social na criança e no adolescente. Atualmente, mais de mil empresas já receberam o selo de Amiga da Criança. Na ponta de cá, cabe à gente dar preferência em nossos atos de compra por empresas que possuem o tal selinho.
Não podemos nos esquecer daquelas acusadas de atuar sob fortes suspeitas de utilização de mão-de-obra escrava, infantil ou que não respeitam básicos fundamentos ambientais e trabalhistas. Sem querer nos colocar numa redoma politicamente correta que pode paralisar nossas ações e satisfação de desejos, podemos adquirir como prática diária uma reflexão sobre todas essas questões, para assim nos tornarmos consumidores melhores. Cidadãos mais responsáveis, enfim.
27/mai/06 |
04:51 |
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