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maio 31, 2006

Pra não dizer que não falei das flores.

Finalmente as flores! A primavera aqui na Itália é uma sinfonia ininterrupta composta de cores, sons, perfumes e brisas refrescantes. Natural vir a vontade de uma volta em bicicleta. Passo por todo o centro e vou até a ciclovia da praia e reconheço ali um senhor meio calvo que vai pedalando decidido uns cem metros adiante. Procuro alcançá-lo mas o velhinho pedala forte. Quando consigo estar mais próximo, venço o embaraço e grito por ele: Elio! Nem um sinal que demonstre ter ouvido. Grito de novo mais alto. Nada, parece surdo, mas eu sei que não é, que raios. Pedalo como um louco e gritando mais forte, depois de muito tempo ele para a bicicleta e entra em um bar. Eu o sigo e quando entro vejo que sobre o balcão estão duas taças de vinho e diante delas o velho que sorri em minha direção. Ainda esbaforido, tento lhe falar:

-Elio, seu viado, você tinha me ouvido ou não?
-Claro que tinha ouvido, queria ver como vão estas pernas.
-Mas que cazzo, eu saí pra passear, não pra me estourar os músculos.
-Olha quem é o viado aqui.
-Olha, você tem idade pra ser meu pai, pois então, com todo respeito, vai tomar no teu cu.
-Hehehe, sabe que hoje isso pode ser até um elogio? Acho que não ofende mais, justamente, essas alusões a homossexualismo.
-Vai me dizer que você é gay? Você é casado e tem filhos, é tudo de fachada? Hahaha, tipo Rock Hudson?
-Ria bobão. Mas não sou gay não, nem nunca tive vontade disso. Mas isso nunca me impediu de respeitar quem quer que seja e que como você deve ter lido nos jornais, tem menos direitos que outras pessoas.
-Os gay tem menos direitos?
-Se vê que você não lê mesmo os jornais. Um dos assuntos mais comentados por estes tempos, ainda durante a campanha eleitoral foi justamente o da legalização da união de fato. Garantir que quem é companheiro por toda uma vida, ao menos tenha os mesmos direitos de assistência e herança que os demais cidadãos.
-Claro que eu li, como não? A igreja estava morrendo de medo da esquerda ganhar a eleição, principalmente por esse tema. Mas parece que chegaram a um acordo e não vão reconhecer os casais de fato. Pra falar a verdade, eu não sei bem o que pensar. Me parece estranho que duas pessoas de mesmo sexo possam se casar, ou mesmo pensar em casamento, que é uma instituição que objetiva regrar a reprodução e por isso se baseia em uma relação que possa gerar e gerir uma familia.
-Bem, você incorporou todo o discurso dos católicos, parabéns.
-Não, sei bem que é a igreja que impede que se faça essa lei em muitos países, Itália em primeiro lugar. Justo eles, os padres, que usam saias rendadas. Mas o meu estranhamento é autônomo, sou hetero e não entrei na psicologia dos gays pra sacar isso.
-Mas o caso não é de psicologia, é de direitos. Você não precisa entender como se sente uma mulher, coisa que aliás você não conseguiria mesmo que quisesse, pra defender os direitos femininos. Se você precisa ser judeu, ou negro, ou deficiente físico para entender que estes grupos tem direitos iguais, você não sabe nada sobre direitos. Não confunda cu com bunda.
-Ok, na Espanha foi aprovada a lei de união gay. Isso não desestrutura o módulo sobre o qual se baseia toda a sociedade? Ou seja, homem, mulher e filhos é algo mais natural que dois homens por exemplo, que nem filhos podem ter.
-Você só tem que levar em conta que esta estrutura que você diz mais natural é, em termos da evolução e mesmo da própria historia, muito mas muito recente. Além disso existem milhares de exemplos de homossexualismo no mundo animal pra nos incomodar as idéias.
-Bem, vamos mudar de assunto.
-Não foi o Freud que disse que toda amizade, principalmente entre homens, tem uma componente homossexual?
-Eu sei lá, nem quero saber. Basta desse papo.
-Sempre incomoda, não tem jeito. Porque vai mexer com essas coisas que ficam latentes lá no fundo da mente.
-Não tem nada no fundo não. Era só o que me faltava. Um ex-operário comunista velho me fazendo propaganda de boiolice. Concordo com os direitos etc, mas daí a dizer que eu tenho desejos secretos è muito pra minha cabeça.
-Independente disso, não seria mal se o mundo de repente voltasse a ser mais feminino.
-Elio, olha pra você mesmo. Me vem de vomitar só de te imaginar maquiado e rebolando, meu amigo. Mas não é possível, esse vinho tá estragado, só pode.
-Não è disso que estou falando, boneca.

Elio me olhava meio de lado enquanto dizia “boneca” e logo em seguida os seus lábios secos faziam movimentos ritmados, projetando beijinhos pelo ar. Eu estava meio tonto, não pela pedalada frenética e nem menos pelo vinho. Um milhão de coisas me passavam pela mente vendo aquele quase septuagenário careca e de pele estragada, me lançando piscadelas maliciosas. Não posso negar que com menos de três segundos disso, eu estava já muito irritado:

-Vamos parar com isso, porra. Agora passou do limite. Eu vou embora.
-Tá vendo que isso mexe mesmo com qualquer um?
-Você tá querendo se revelar e não sabe como.
-Não iria ser com você caro. Eu tenho bom gosto… e estou zoando com tua cara, seu mané.
-E o que você quer dizer com mundo mais feminino?
-Brincadeiras à parte, o mundo mais feminino è um mundo mais colaborativo e justo.
-Lá vem você de novo.
-Algumas das mais recentes conclusões da arqueologia e da paleontologia, remetem a uma situação social de nosso antepassados onde a familia era simplesmente a mãe e os filhos. Os homens eram os apêndices ocasionais que serviam somente para a reprodução. Com o passar do tempo, foram as fêmeas que, como tinham contatos sociais mais intensos e também pela necessidade de transmitir conhecimento, desenvolveram a linguagem e o uso de instrumentos.
-Isso explica porque falam sem parar.
-Talvez. Foram elas também que deram impulso à agricultura e à caça cooperativa. Aliás o espírito cooperativo é muito feminino. Os machos recolhiam folhas e caçavam bichos pequenos, sempre sozinhos. No momento da procriação, a partir desse instinto de cooperativismo, as fêmeas selecionavam os machos mais colaborativos em detrimento dos egoístas, por razões de sobrevivência do grupo. Principalmente em situação de escassez de recursos isso era fundamental.
-Isso explica o harém do ponto de vista feminino, ou não?
-Exatamente. Para uma comunidade constituída de fêmeas, basta um macho pra suprir a necessidade de reprodução, sem consumir muitos recursos. Nos períodos ou locais de grande oferta de alimentos, os grupos eram mais promíscuos e se moviam muito mais pelo território.
-Mas onde você quer chegar com isso?
-Espera, a grande mudança ocorreu quando os machos começaram a aprender a linguagem e o uso dos instrumentos. Quando começaram a se constituir os primeiros aglomerados fixos, possibilitados pela agricultura cada vez mais desenvolvida. Acontece que essa atividade começou a privilegiar a força física, usada também para outra das invenções desse período: a guerra. Fixando-se no território, era necessário defender a propriedade dos ataques de outros grupos que visavam roubar os grãos ou os animais.
-Quer dizer, você considera os homens culpados por todos os males e agora devemos desmunhecar para que o mundo melhore?
-Você faz o que quiser. O ponto é que se começarmos a raciocinar em termos de grupo coletivo que é consciente da necessidade de colaboração para o bem de todos, acabaremos por assumir um comportamento que tem como base até biológica nas nossas divinas fêmeas. Se dermos mais voz e poder a elas então, o caminho fica facilitado. Meu caro, não é à toa que as divindades antigas eram todas belas fêmeas. Já reparou que quando surgiram os deuses machos, todos soltam fogo e raios e mandam pra guerra, essas coisas?
-Elio, você tem feito exame de sangue?
-O que isso tem a ver?
-Como tá teu nível de testosterona?
-Vamos fazer o seguinte. Vamos ali atrás, eu jogo esse guardanapo no chão, você se abaixa pra pegar e fica sabendo na hora como anda meu testosterona.
-Vai tomar no…vai a merda!

maio 29, 2006

Grande Sertão: 50 anos

"A gente estava em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. (...) Ali, a gente não vê o virar das horas. E a fogo-apagou sempre cantava, sempre."

Da Sirga à fazenda São Francisco, passando pela Tolda, Pindóia, Santa Catarina, Andrequicé, Vereda do Catatau, Meleiro, Cordisburgo. Para Manuelzão, Zito, Santana, Bindóia, Gregório, Sebastião de Morais, Aquiles, Sebastião de Jesus, o trajeto de 40 léguas, ou cerca de 240 quilômetros, já era bem conhecido. Para o auto-intitulado "vaqueiro-amador", tocar as 600 cabeças de gado de uma fazenda a outra, num percurso de dez dias, a viagem serviu de matéria-prima para uma obra que instiga pesquisadores, confunde leitores não-iniciados, desafia tradutores.

Acompanhando a boiada, atento a cada detalhe da fauna e flora do norte das Minas Gerais, sem deixar passar nenhum causo, piada, aventura, cantoria dos vaqueiros, o médico-diplomata João Guimarães Rosa mantinha presa a um cordão, no pescoço, uma cadernetinha. Os registros da viagem incluem, também, as impressões do escritor, como as frases que abrem este artigo.

Era maio, dia 19 de maio de 1952. Quatro anos depois, há exatos 50 anos, nascia o resultado da viagem: "Grande Sertão: Veredas". Nonada, o neologismo hermético que inicia a fala de Riobaldo Tatarana ao baldear o "Gaiola" rumo ao norte, rumo ao "desejo de Deus", Diadorim, entraria de vez para o léxico português.

"Tenho de segredar que -- embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica -- minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda sorte de avisos e pressentimentos. No plano da arte e da criação - já de si em boa parte subliminar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza -- decerto se propõe mais essas manifestações. (...) Quanto ao Grande Sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido -- por forças ou correntes muito estranhas", diria Rosa, em "Tutaméia", sobre como a obra se fez, ou foi feita.

Presença frequente nas maiores antologias literárias, "Grande Sertão: Veredas" teve mais um reconhecimento. O jornal inglês The Guardian convocou cem escritores de todo o planeta para elegerem as cem maiores obras literárias da humanidade. O único representante brasileiro: "Grande Sertão: Veredas". Vale lembrar que Rosa e Machado de Assis disputam o título de maior escritor brasileiro. Coincidência ou não, Rosa nasceu exatamente no ano em que Machado morreu, 1908. Seria um dando continuidade à obra do outro?

O João Rosa, como o chamavam os vaqueiros, fez apenas uma exigência durante a viagem: que ninguém o chamasse de "doutor". Montando a mula Balalaika ou o burro Canário, o médico e diplomata, àquela altura já consagrado por "Sagarana" e então chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura, quis apenas resgatar suas próprias origens, viver ao relento, começar o dia com um gole de cachaça e um punhado de feijão tropeiro ("Dormidas: 1ª noite: tapera de paiol. 2ª noite: garage de caminhão. 3ª noite: uma rebaixa de engenho", registrou Rosa em sua caderneta).

E percorrer as veredas, apreciar o pôr-do-sol moldado pelos buritis, saborear a sabedoria nata daqueles homens e reses tão brutos quanto sensíveis. "Isso porque a vida de vaqueiro é bebida, briga e rapariga, e a alegria de pobre é um dia só: é uma libra de carne e um mocotó", resume Bindóia (ou Raimundo Ferreira do Nascimento) no livro "Nas Trilhas do Rosa", de Fernando Granato. Bindóia, o campeiro da expedição, chamou a atenção de Rosa por um detalhe: sempre descalço, mantinha uma espora amarrada ao calcanhar.

A exemplo de Bindóia, outros vaqueiros da expedição acabaram imortalizados como personagens de Rosa. O mais famoso deles: Manuel Nardi, o Manoelzão, o caboclo de 1,90 metro de altura que protagonizaria "Corpo de Baile", ou "Manuelzão e Miguilim". E não apenas as personagens, mas boa parte das cenas narradas por Rosa, são mais do que verídicas. A inauguração da capela construída por Manuelzão em homenagem à mãe, com direito a festa e participação de todos os moradores da redondeza, é fato. Restam hoje apenas as estruturas de madeira da velha capelinha, na entrada da fazenda da Sirga, que se chamaria "Samarra" no conto "Uma Estória de Amor".

Personagem de si-mesmo, Rosa fez daquela viagem o reencontro de sua meninice em Cordisburgo, "quase só lugar." "É uma região de muito isso", diria Rosa em seu discurso de posse na Academia, exatos três dias antes de falecer, em novembro de 67. Hoje, a casa em que Rosa nasceu é sede da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa. Entre objetos pessoais e fotos, no grande cômodo da frente está caracterizada a antiga "venda" do sr. Florduardo, ou melhor, "seu" Fulô, pai do JGR. (Parênteses: outubro de 99, estive lá. Deixei meu registro na página 55 do livro de presenças.)

Na venda de seu Fulô, Rosa teve os primeiros contatos com vaqueiros. O comércio, em frente à estação ferroviária Central, era ponto de parada dos cavaleiros. A mesma estação, hoje praticamente desativada, que, com um pouco de imaginação, pode-se "ver" o conto "Sorôco, sua Mãe, sua Filha". Entre um gole e outro de cachaça, os causos dos viajantes começavam a formar o universo literário de Rosa, depois revivido na viagem de 52, da fazenda da Sirga ao pasto do Capão do Defunto.

Ascese Literária

Da via-crucis das baldeações de Riobaldo pelo "Gaiola" à busca metafísico-existencial da Terceira Margem do Rio; da aquiescência do mundo sob a ótica do Burrinho Pedrês à purificação penitenciosa de Augusto Matraga; do non-sense sentimental do Cavalo que Bebia Cerveja à audição surda mas onipresente das orações de um sapo por parte de Maria Euzinha.

As letras como instrumento da ascese místico-medieval de Santo Tomás e Ruisbröeck; os desejos de Deus – Diadorim -- ao encontro do Fausto. A narrativa fluida mas consistente como as de um rio, "que é sempre igual sem ser o mesmo". A dureza de homens que choram e se submetem à noite da encruzilhada. Mitos junguianos revisitados emoldurados pela dignidade simples – legítima! -- das durezas das lágrimas, buritis, São Francisco, chuva. Águas sempre presentes na estiagem do sertão. O sim pelo não.

O mundo concentrado num cenário infinito -- "o sertão é do tamanho do mundo". Personagens que de tão normais ganham dimensões épicas incomensuráveis. Tempo legitimamente concentrado em instantes que remetem a histórias imemoriais. Tudo costurado por linhas mestras de uma linguagem única, reconstrutora de sintaxes indiferente ao pensamento cartesiano-ocidental, subvertendo lógicas à zen budismo. "Tens panos para remendos? Sim, mas de que cor são os buracos?"

Páginas herméticas acessíveis a não-iniciados; disposição de espírito, entrega de alma. "Quem tem medo de viver não nasce..."

Rosa não se furtou ao destino, e selou-o com a presença legítima em quaisquer das antologias mundiais que se prezem. O que, no entanto, tornou-se problema para os bibliotecários: onde classificá-lo? Filologia? Filosofia? Sociologia? Literatura...
Ironia do destino fazer essa confusão com os homens dos livros. Borges, quem sabe, na sua cegueira, pudesse entrever essa classificação. Ambos cosmopolitas ao extremo, marcando a literatura por detalhes locais; o Grande Sertão ou a Recoleta. Fantástica viagem pelos labirintos do ser-tão veredas.
Os óculos de Miguilim embaçaram-se. A capela de Manuelzão ganhou seu santo definitivo. Tresaventuras...

Rosa humanista

Diplomata, servindo em vários países, João Guimarães Rosa teve uma faceta particular revelada apenas há alguns anos. Em 1938, Rosa é nomeado cônsul adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. Ademais, embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy.

Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém. A concessão da homenagem foi precedida por pesquisas rigorosas com tomada de depoimentos dos mais distantes cantos do mundo onde existem sobreviventes do Holocausto. Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo nazismo.

Rosa, na condição de cônsul adjunto, facilitava vistos aos judeus em fuga para o Brasil. Os vistos eram proibidos pelo governo brasileiro e pelas autoridades nazistas, exceto quando o passaporte mencionava que o portador era católico. Sabendo disso, a mulher do escritor, D. Aracy, que preparava todos os papéis, conseguia que os passaportes fossem confeccionados sem mencionar a religião do portador e sem a estrela de Davi que os nazistas pregavam nos documentos para identificar os judeus. Nos arquivos do Museu do Holocausto, em Israel, existe um grosso volume de depoimentos de pessoas que afirmam dever a vida ao casal Guimarães Rosa.

O escritor, que fez o que fez, sempre se furtou a comentar o assunto. Ele apenas fez o que devia.

maio 28, 2006

Direita e Esquerda

Como o Bombordo, supostamente, é um site de esquerda, convém fazer algumas distinções sobre a orientação esquerda/direita que não se limitem a rótulos colados em quem é contra ou a favor do aborto, do casamento gay ou do porte de armas. Estas são opiniões pessoais, circunstanciais e nada ideológicas.

A esquerda e a direita divergem, ideologicamente, sobre a organização do Estado. E nem os comunistas comem criancinhas nem os capitalistas vendem a mãe. Pelo menos, não todos.

Na sociedade primitiva o Estado não existia e surgiu com a sua divisão em classes antagônicas formadas por dominadores e dominados. O tipo histórico de Estado se define segundo o regime econômico que defende e protege; e segundo a classe a que pertence o poder estatal. Seus principais instrumentos de poder são as Forças Armadas, os órgãos de repressão e as polícias. Tanto nos regimes de direita como de esquerda.

A partir do final do século XVIII - com as guerras de independência das colônias e o começo do fim das monarquias - os dois lados se definem e começam a pensar sobre a melhor organização para os novos estados burgueses.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, afirmando – pela primeira vez, na história da Civilização - que todos os homens nascem livres; iguais, perante a lei; e têm direito à busca da felicidade, provocou uma tremenda questão: A felicidade estaria na possibilidade do cidadão comum, anônimo, conseguir riquezas e poderes reservados, até então, às cabeças coroadas ou receber a sua justa parte nas riquezas produzidas pela coletividade? As duas perguntas eram novas, as respostas foram elaboradas ao longo do século XIX.

Os fundamentos das principais teorias econômicas vigentes hoje foram assentados no século XIX, portanto, estamos engatinhando nas nossas tentativas de estabelecer sociedades livres e justas e muita água ainda vai correr debaixo da ponte pelos próximos tempos.

Os dois lados se apropriaram da palavra democracia. Então, direita e esquerda divergem quanto aos métodos mas têm um objetivo comum: o governo do povo, para o povo e pelo povo. Já que decapitamos cabeças coroadas e ninguém mais admite ser governado por monarquias absolutistas, o “povo no poder” é a meta da direita e da esquerda no mundo todo. O diabo é como o povo vai chegar lá.

O Estado liberal, ou capitalista, adota a economia de mercado. O Estado socialista acredita na economia planejada. O desejo de lucro, propriedades e ascenção social, move a economia capitalista. O socialismo prega a abolição das classes, não admite a propriedade privada a não ser da própria casa, do próprio veículo, livros e discos, da própria mulher e da óbvia escova de dentes (nem tudo no socialismo é propriedade comunal). Não é permitido lucrar com trabalho de terceiros.
A tábua de salvação, no capitalismo, é ser empreendedor; no socialismo é ser colaborador. No capitalismo não há emprego garantido mas o sujeito empreendedor e ambicioso não passa fome. No socialismo há emprego garantido mas não adianta o Manuel das Couves ser empreendedor porque jamais ficará rico. Basicamente, é isso.

Enquanto o maná bíblico não nos cair do céu para alimentar indistintamente a todos, eu prefiro a filosofia socialista. Mas este é apenas um ponto-de-vista pessoal e uma resposta pessoal à questão básica: “Em que mundo quero viver: numa sociedade competitiva ou colaboradora? Prefiro disputar ou compartilhar?”

Não acredito numa adesão isenta a um ou outro lado, fruto apenas da observação histórica: no século XX os dois regimes construíram dois blocos e pelo menos duas grandes nações poderosíssimas, com ideologias opostas. Os dois lados, na prática, evidenciaram grandes acertos e promoveram terríveis distorções que não fazem parte da ideologia nem de quem defende a direita nem de quem defende a esquerda. Em condições ideais de funcionamento, as pessoas se adaptarão melhor a um regime ou a outro, dependendo de fatores subjetivos. O mundo do emprendedorismo competitivo não é estimulante para todos, pode ser angustiante. E o mundo do planejamento, com o mínimo garantido mas sem possibilidade de riquezas individuais, também não garante a felicidade coletiva.
O mundo socialista se capitalizou mas também é verdade que o mundo capitalista se socializou. O socialismo não morreu e o mercado também não morrerá.

Estaremos à procura da democracia, esteja ela à direita ou à esquerda; no oriente ou no ocidente; porque somos todos iguais perante a lei – isto quase todas as Constituições do planeta garantem – e se não há mais senhores e escravos, dominadores e dominados, patrícios e plebeus, mas apenas povo, podemos – e devemos - sonhar com o regime que efetivamente nos coloque no poder.

Acredito que a oposição esquerdaXdireita ainda será superada dialeticamente numa síntese neutralizadora, que permita a cada indivíduo a busca subjetiva da própria felicidade. Talvez o futuro seja o sensato caminho do meio.

Para isso, um diálogo honesto e civilizado entre os destros e os sinistros será indispensável.

(Só me recuso a discutir com quem afirma que o capitalismo gera necessariamente a bomba de Hiroshima e o socialismo os expurgos stalinistas).


maio 27, 2006

Desejo, necessidade, vontade - é possível ser socialmente responsável na era do consumo desenfreado?!

Qual é o caminho para a felicidade? A resposta parece simples: consumir. Quem não consome não existe, não vale, não conta e, em algumas culturas, não presta. Consumir está na base das nossas sociedades pós-industriais e globalizadas e independe de ideologias, o que bem sabiam os alemães orientais ávidos por invadir as brilhantes lojas de Berlim Ocidental ou estão descobrindo recentemente os chineses, habitantes do novo “shangrilá” do Capital.

Não se trata de uma felicidade abstrata, mas naquela baseada na possibilidade concreta de ter acesso a bens e serviços que cada vez mais se transformam no elo de ligação mais forte que temos com o mundo e com as outras pessoas. E não estamos falando de ter o modelo mais recente do iPod ou comprar aquela roupa cool vendida na loja mais descolada da esquina.

Estas são apenas exteriorizações dos nossos impulsos internos, estes sim mediados pelo desejo. A tríade desejo-consumo-felicidade está na base da civilização pós-industrial. O iPod não vale mais por si mesmo, pela “mais-valia” que podia gerar para o seu fabricante. O seu verdadeiro valor só pode ser dimensionado pelo grau de “felicidade” gerado pela legitimação do possuidor como capaz de “consumi-lo”, satisfazendo assim um desejo que ele sequer sabia que tinha. Não gosta do iPod? Não tem problema. É só substituí-lo por qualquer coisa - desde ideologias, religiões, sexo até o último modelo de TV de plasma.

As seitas pentecostais compreenderam muito bem este fenômeno ao criar a teologia da prosperidade. A premissa é simples: cada um tem o direito à felicidade aqui e agora, com a satisfação de seus desejos materiais e espirituais neste mundo e da maneira mais “observável” possível - normalmente pela aquisição de bens materiais (uma nova casa, um carro melhor, a faculdade dos filhos etc). Para isso, acreditar fielmente em Jesus é só um detalhe.

As grandes catedrais deste admirável mundo novo são sem dúvida os shoppings centers. Sua estrutura arquitetônica, baseada no princípio da oferta de uma multiplicidade de serviços, está dominando cada vez mais a lógica de organização das nossas sociedades. Que o digam os centros de atendimento ao cidadão que os governos abrem para colocar à disposição da coletividade um cardápio de serviços públicos. Ou ainda os novos estádios esportivos, estações do metrô, museus etc. que incorporam toda uma gama de opções de consumo.

Entretanto, essa lógica não é uma unanimidade, ainda que pareça inexorável. Já existem algumas reações que tentam, se não controlar, ao menos atenuar seus efeitos deletérios. Há quem se pergunte se a felicidade obtida pela satisfação do desejo de consumir não pode, ao menos, contribuir para produzir efeitos positivos para a comunidade ou coibir práticas negativas em grupos sociais mais desassistidos.

Esta noção está na base de movimentos como o do “Comércio Justo” (Fair Trade), que usa soluções de mercado baseadas no “poder de escolha” dos consumidores de valorizar produtos ou serviços que beneficiem produtores de pequena escala que usam técnicas ambientalmente e/ou socialmente corretas e sustentáveis.

Recentemente, as maiores redes de supermercados britânicas, capitaneadas pela Sainsburry, gastaram rios de dinheiro em propaganda para divulgar sua decisão de vender somente café certificado como “Fair Trade”. Segundo a FLO, federação que reúne as agencias de certificação de comércio justo de todo o mundo, na Europa o mercado de Comércio Justo cresce 20% por ano desde 2000. Produtos com o selo de “Fair Trade” podem ser encontrados em mais de 55 mil supermercados em todo o velho continente.

Este tipo de iniciativa tenta incluir um componente racional à tríade desejo-consumo-felicidade. Assim, movimentos como o de Comércio Justo ou aqueles que impulsionam ações de “consumo consciente” ou “consumo responsável” procuram agregar um componente ético a um ato – o de consumir – que na sociedade moderna tem implicações que vão muito mais além da simples satisfação de uma necessidade individual.

No Brasil, há mais de dez anos a Fundação Abrinq reconhece como amigas da criança empresas que atuam no combate ao trabalho infantil e nas áreas de educação, saúde, direitos civis e investimento social na criança e no adolescente. Atualmente, mais de mil empresas já receberam o selo de Amiga da Criança. Na ponta de cá, cabe à gente dar preferência em nossos atos de compra por empresas que possuem o tal selinho.

Não podemos nos esquecer daquelas acusadas de atuar sob fortes suspeitas de utilização de mão-de-obra escrava, infantil ou que não respeitam básicos fundamentos ambientais e trabalhistas. Sem querer nos colocar numa redoma politicamente correta que pode paralisar nossas ações e satisfação de desejos, podemos adquirir como prática diária uma reflexão sobre todas essas questões, para assim nos tornarmos consumidores melhores. Cidadãos mais responsáveis, enfim.

maio 25, 2006

a péssima impressão de José Serra em sua primeira visita ao interior do estado

Sim, vão me chamar de tendencioso e petista e o que quiserem. Mas estive hoje com José Serra, o candidato do PSDB ao Governo do Estado de São Paulo, e esse texto é para dizer como o tucano é chato, arrogante e prepotente. Acho o Mercadante, candidato do PT, um picolé de chuchu, insípido. Serra não, tem gosto amargo, trata os jornalistas como idiotas e chega a zombar das repórteres.

Foi divulgado que José Serra passaria por Limeira por volta de meio-dia e meia nesta Quarta-Feira, a caminho de Piracicaba, onde o governo municipal é tucano. Em Limeira vivemos um desiludido governo do PDT depois de oito anos de números diabólicos, contratações sem licitação e demonstração de ingênuo despreparo caboclo de dois tucanos, Pedro Kuhl e José Pejon. Kuhl, que deixou a prefeitura nas mãos do vice no segundo mandato para disputar um lugar na Câmara Federal, caso único na história da política brasileira, está com os bens confiscados pela justiça depois de ter contratado a FIA-USP para uma "consultoria" (e quando não é?). O vice era tão ou mais despreparado que Kuhl e conseguiu apenas construir uma mega-mansão em um condomínio fechado em seus dois anos e meio de mandato. Como Ministro da Saúde, Serra esteve na cidade para falar sobre a dengue - e poderia voltar a falar sobre isso hoje sem estar desatualizado. Mas não. A passagem de Serra por Limeira teve ao menos uma motivação subcutânea: mostrar a população que ela não deve temer mais os ataques do PCC.

Sim. Limeira está no epicentro da crise da segurança. O marginal Gibi, do PCC, é daqui e foi ele quem deu as ordens de matança a policiais. Na gravação que a Polícia Civil fez e que eu tive o desprazer de escutar, ele diz para os capangas "apagar o mala do PSDB". Isso deixou os tucanos em polvorosa por aqui. Serra, ao que parece, chamou para si a condição de "mala" e marcou um desfile pelas ruas centrais da cidade, justamente na hora do almoço.

Chegou com uma hora de atraso e não levantou o braço uma vez sequer para acenar. Carrancudo e com um assessor irritado a tiracolo negou-se a falar com os jornalistas em exclusivas e se fez de surdo quando alguém perguntou o que achava da cidade. Duas senhoras idosas parecem ter reconhecido e gostado de ver Serra ali. A maioria olhava de soslaio e cruzava a calçada. Ele e a trempa entraram numa pastelaria e cumpriram o clichê básico de "comer o pastel fazendo cara de 'que gostoso!'". Os jornalistas viram que era furada ficar por ali e voaram todos para o anfiteatro de uma escola de línguas, onde aconteceria a coletiva.

Todos sentados, microfones ligados e sobre a mesa, entra o irritado assessor para comunicar a imprensa que Serra ia primeiro conversar com alguns alunos da escola e depois iria atender a imprensa. Confusão! Irritação! Exclamação! Eles achavam que a imprensa estava ali à disposição deles! Alguns ameaçaram sair até que o sensato dono da escola veio dizer que talvez fosse melhor Serra falar com os jornalistas primeiro. Contrariado, o irritado assessor concordou, mas não deixou Serra entrar na sala, levando todos os jornalistas para fora, para uma entrevista pleno sol de duas da tarde. Sim, aqui fez sol.

Entrevista não é bem o termo do que ocorreu nos minutos seguintes. Serra fingia não escutar algumas perguntas. A muvuca lhe era favorável; parece ser uma técnica. Só que os jornalistas daqui são ordeiros e respeitam os colegas e o constrangimento pela postura do candidato chegou a ser evidente em bicos tucanos. Havia apenas um homem rodeando o candidato, fazendo perguntas, e umas oito ou nove jornalistas. Ele tenta ser simpático: "Isso parece uma editoria feminina...".

serra.jpg

Trechos de perguntas de jornalistas e respostas do candidato:

"- O Governador Cláudio Lembo criticou o senhor dizendo que o senhor sequer ligou para ele durante a crise do PCC...
- Eu não entendi isso como uma crítica.
- Saiu na Folha...
- Pois é...
- O senhor ligou para ele?
- Bom, vamos para outros assuntos!"

"- O que o levou a deixar o comando de São Paulo para sair candidato?
- Foi uma conclamação! Às vezes, na vida, fazemos as escolhas... às vezes, somos escolhidos. [...] Na capital a orquestra e a partitura são as mesmas, não há descontinuidade nesse trabalho!"

"- Qual o principal culpado da onda de violência?
- O celular é a grande arma do crime. [...] A ANATEL parece mais preocupada com o lucro das empresas do que com a segurança."

"- A última pesquisa mostra que Lula está o dobro à frente que Alckmin nas intenções de voto...
- Lula tem uma caudalosa exposição na mídia, nós não."

"- Se o senhor fosse o governador, como iria lidar com o problema da violência?
- Eu não sou governador, sou apenas pré-candidato. Eu não vou ficar aqui simulando!"

"- Como o senhor está avaliando essa semana de violência e execuções...
- No final de semana fizemos (sic) a Virada Cultural, com mais de dois milhões de paulistanos nas ruas. Quando eu for governador vou realizar atividades como essa no estado inteiro!"

Engraçado: para falar sobre a violência, ele não quer se colocar na condição de governador. Mas para falar da Virada Cultural... Hummm...

Não durou mais de 10 minutos; as respostas líquidas do candidato afugentaram os jornalistas.

P.S. - escrito em 24/05, visita de José Serra a Limeira (SP). O Jornal de Limeira publicou matéria hoje sobre.

maio 24, 2006

Escola de monstros

O sistema penitenciário brasileiro transformou-se numa Universidade do Crime Organizado, onde bandidinhos transformam-se em bandidões e os meliantes mais espertos tornam-se chefões mafiosos, comandando um exército surpreendentemente bem articulado.
Depois, os indultos e os relaxamentos de pena soltam estes catedráticos nas ruas, para exercerem mais livremente seu expertise.
A desculpa é a superlotação do sistema, e é de fato desumano socar pessoas em celas imundas e apertadas, além de ser extrema burrice. Experimente trancar 10 ratinhos numa gaiola onde não caberiam mais que cinco. Em pouquíssimo tempo estarão se matando e tentando fugir desesperadamente. Daí não adianta dar aula de teatro, catequese cristã e o escambau. Vira bicho lutando por um espaço vital de sobrevivência.
Mas também não pode soltar os ratos enfurecidos, só pra aliviar a barra na gaiola.

Além disso, um ser humano adulto e saudável tem que produzir, gastar energia. Nunca entendi essa coisa de preso não poder trabalhar na cadeia. Eles comem uma lavagem, mas não podem fazer a comida? Vivem na imundície mas não recebem o material de limpeza pra fazer uma faxina? Eu cozinho e faço faxina na minha casa, sem remuneração, e não tem nenhum grupo de direitos humanos dizendo que faço trabalho escravo. Viver é isso, é ralação! Se o sujeito não se ocupar, vai ter tempo demais pra pensar besteira. Além de ser péssimo pra auto-estima de qualquer um. Por que os presos não fazem as próprias roupas, a própria comida, a limpeza? Porque não se criam fazendas penais onde eles possam cultivar a terra, plantar e colher, aprender coisas úteis em contato com a natureza, se re-humanizar através do labor diário?
Agora, sair pra fazer serviço na rua, isso pode! O “Belo”, preso por ligações com o tráfico, arrumou um empregaço: produtor musical, com salário de R$ 3.500,00 por meio expediente, e carteira assinada! Volta pra cadeia pra dormir, tipo apart-hotel, e às expensas do Estado.
Ei, será que nessa produtora aí não tem uma vaguinha pra mim? Olha, eu sei que a minha ficha é constrangedoramente limpa, mas prometo que aprendo depressa alguma contravenção… Nada que um cursinho de verão numa penitenciária não possa resolver!

Então vamos combinar assim: preso tem que ter espaço, higiene, condições básicas e uma rotina saudável.
Mas TV de plasma não! Eu não tenho, pô, vou assistir à copa em TV velha, de tamanho médio, nenhum cinema.
Pensando bem, vou ver se descolo um “curralzinho vip” num presídio de São Paulo… Quem sabe eu não consigo arrumar um namorado na cadeia, pra fazer “visita íntima” e tirar uma beirada do cine-presídio?…

Os tempos estão mesmo bicudos. O clima nas grandes cidades é de salve-se quem puder.
E agora, em caso de assalto, sequestro ou outra ocorrência, melhor esquecer a polícia, que eles estão mais apavorados que nós e deram pra sair matando também. Na dúvida, mandam bala! Depois é que vão ver se o presunto era culpado.
Portanto, numa emergência, faça como o Chico Buarque (disfarçado de Julinho da Adelaide, que ele não é besta de se identificar numa hora dessas):
Chame o ladrão!

maio 22, 2006

Se ela dança, eu danço

Após alguns anos de blogoseira, eu afirmo que sou uma unanimidade. A direita anaeróbica me odeia, os liberais libertinos não vão com a minha cara, e até mesmo alguns bombordos me olham de sotavento. Devo isto, eu sei, a uma capacidade inata de desagradar a gregos e a troianos.

É por isso que eu me sinto autorizado a dizer o que vou dizer agora.

A esquerda erra, e erra feio, ao embarcar na canoa proposta por Lula como panacéia universal para os problemas de segurança, a educação.

Acho que ninguém pode ter dúvidas de que, em geral, maiores níveis educacionais melhoram o padrão de vida de um povo, apesar de certos malabarismos procurando desconectar educação e criminalidade. Por exemplo, vi uma reportagem na Globo fazendo uma comparação entre níveis educacionais gerais do Brasil, do Egito e de um país egresso da cortina de ferro. Chegava-se à conclusão de que embora o Brasil tenha um nível educacional melhor do que o Egito, a criminalidade aqui é maior do que lá. Talvez isso seja um plano da Globo para implantar a Sharia no Brasil. A verdade é que embora o nível educacional seja um fator explicativo, não é o único, principalmente se estamos falando de culturas tradicionalmente repressivas.

De qualquer maneira, uma solução como essa, embora possa cair ao gosto de um certo direitismo, principalmente o de extração religiosa, não teria o condão de agradar à esquerda, tradicionalmente vinculada à idéia de maiores liberdades e mais, e não menos, emancipação do cidadão (que me perdoem os tradicionalistas religiosos, que vêem a única emancipação possível como sendo aquela que emana do encontro do homem com o divino).

Por outro lado, a esquerda, principalmente a mais ingênua, nutre há muito tempo uma admiração romântica pelo banditismo, visto como uma transgressão da ordem burguesa. Bem, alguns concordariam, outros mais radicais diriam certamente que o banditismo é a outra face da ordem burguesa, alguns diriam que é a mesma face. O smart aqui acha que o banditismo é muitas coisas, e que o banditismo existente na mulher humilde que rouba o supermercado para dar o que comer ao seu filho é diferente do banditismo da Tranchesi, que rouba o erário público descaradamente, que por sua vez é algo bem diferente do banditismo de um grupo organizado e armado, verdadeiros warlords, que, “presos”, comandam os destinos dos “soltos”.

Daí a leviandade daqueles que atribuem todo o poder de “cura” da atual situação à educação. A literatura é pródiga em mostrar o impacto de vários fatores sobre os índices de criminalidade: a legalidade do aborto, os maus tratos a crianças, e até, pasmem, o grau de concentração do sistema bancário. E em todo o caso a educação é uma solução de longo prazo. Como se diz, podemos ficar 5 dias sem comer, 5 horas sem beber, mas não podemos ficar 5 minutos sem respirar _ e a criminalidade organizada pode simplesmente “nos tirar o tubo”. Razão pela qual falar em educação é apenas uma saída eleitoralmente aceitável para a crise da segurança. Tanto Lula sabe disso que no seu discurso sobre as virtudes curativas da educação, ele se eximiu de falar sobre o que vai fazer a respeito, e concentrou-se em atirar a culpa sobre os seus predecessores dos últimos vinte anos.

O crime não é romântico, ele não é antiburguês. Ele quer viver das riquezas do mundo moderno como qualquer parasita. Com a supremacia do crime, a civilização regride e pode dançar.

E se ela dança, eu danço.

maio 17, 2006

Pregos

Há um ditado que diz: "quando a única ferramenta que temos na mão é um martelo, tudo vira prego".

Assim como somente médicos podem exercer a medicina e somente advogados podem exercer a advocacia, somente administradores deveriam exercer a administração nas organizações, sejam elas privadas ou públicas.

A tese, ainda discutível nas organizações privadas - embora as organizações privadas cada vez mais compreendam a necessidade da profissionalização dos seus quadros executivos e gerenciais -, tem sido solenemente ignorada nas instituições públicas. E por quê? Porque ainda subsiste a idéia de que administrar é, basicamente, usar do bom senso, seja lá o que se queiram dizer com isso.

Idalberto Chiavenato, um "guru" da Administração brasileira, refere em seu livro Introdução à Teoria Geral da Administração que três são as habilidades necessárias para que um administrador execute de forma eficaz o "processo administrativo":

Habilidade técnica: consiste na utilização de conhecimentos, métodos, técnicas e equipamentos necessários para a realização de suas tarefas específicas, através de sua instrução, experiência e educação;

Habilidade humana: consiste na capacidade e discernimento para trabalhar com pessoas, compreender suas atitudes e motivações e aplicar uma liderança eficaz;

Habilidade conceitual: consiste na habilidade para compreender as complexidades da organização global e o ajustamento do comportamento da pessoa dentro da organização. Esta habilidade permite que a pessoa se comporte de acordo com os objetivos da organização total e não apenas de acordo com os objetivos específicos e as necessidades de seu grupo imediato.

Ainda segundo Chiavenato, quanto mais alto o cargo ocupado na hierarquia, maior deve ser o componente habilidade conceitual.

O que ocorre na administração pública é que, aos chamados administradores públicos, não são exigidas nenhuma dessas três habilidades. Qualquer um pode ser um administrador público, bastando candidatar-se para tal e vencer uma eleição, ou ser escolhido para um cargo de direção. Sequer a habilidade conceitual é exigida de quem vai governar ou dirigir uma instituição pública.

A alegação básica é de que os quadros funcionais deveriam ser compostos por pessoas com a formação necessária e que a "direção" (ou aqueles que estabelecem as "políticas públicas") devem preocupar-se apenas com os "destinos". A questão é que estamos no Brasil e isso não acontece. Primeiro, por falta desses quadros funcionais preparados; segundo, pela falta de preparação dos "agentes políticos" em entender a necessidade de ter, nas suas instituições (em todos os níveis da administração), esses profissionais. É mais fácil dizer que necessitam de "pessoas de confiança", que lhes permitam a "flexibilidade", do que tratar a questão com o profissionalismo necessário para o país.

Qual a vantagem disso para quem pensa assim? A primeira e mais visível é a possibilidade da corrupção. Quadros técnicos e estáveis tendem, em tese, a evitar a corrupção. A segunda, menos visível, é a possibilidade da não realização da eficiência e da eficácia na prestação dos serviços públicos, pois esses profissionais possuem as necessárias habilidades técnicas. Falta de eficiência e eficácia são belas desculpas para a corrupção. Por fim, a falta de habilidade conceitual permite que esses "administradores" privilegiem a si e ao seu grupo próprio, em detrimento do todo. É o que se vê nos partidos políticos, que só pensam na manutenção do poder e esquecem de administrar o país.

Como a lei não obriga a qualquer um que queira se candidatar que seja um administrador (da mesma forma que obriga a quem queira operar que seja um médico, ou a quem queira entrar com um ação que seja um advogado), o que temos, na administração pública brasileira, é uma monte de gente com um martelo na mão.

Tudo mais, no país, é prego!

maio 15, 2006

Troquem seus celulares, rápido!

ross_pic.jpg “Está na hora de vocês trocarem o número dos seus telefones celulares, rápido.”

Parecia a cena de um filme sobre a era Nixon. Mas essa frase foi dita na vida real, este fim de semana, por um membro do alto escalão da área de segurança do Governo Bush, aos repórteres Brian Ross (foto) e Richard Esposito, da rede de TV americana ABC News, numa conversa em pessoa (por telefone, nem pensar). Essa fonte revelou que o Governo está registrando os números de todas as ligações feitas por e para os dois repórteres, para tentar descobrir quem são os funcionários que estão vazando informações secretas da administração Bush. Outras fontes informaram os repórteres da ABC que o Governo também está acompanhando os registros de telefonemas de repórteres do New York Times e do Washington Post, pelo mesmo motivo.

Essa revelação feita ontem, no blog da ABC News, causa um frio na espinha de quem se preocupa com a democracia e o respeito às liberdades civis e à Constituição nos Estados Unidos. A espionagem da imprensa é um recurso digno de ditaduras, e remete dolorosamente aos anos Nixon, quando o governo instalava escutas nas casas de funcionários que poderiam estar agindo como wistleblowers ou fontes anônimas, e até na casa de um repórter bastante próximo a Henry Kissinger.

Na última quinta-feira, o jornal USA Today revelou que o Governo Bush está registrando TODOS os telefonemas feitos dentro dos Estados Unidos (números e duração da ligação) através das telefônicas AT&T, Bell South e Verizon, na maior database já reunida no mundo, com o pretexto de descobrir “patterns” de ligações que possam ser feitas entre terroristas. A reportagem causou revolta entre cidadãos e parlamentares preocupados em respeitar os direitos à privacidade e à lei que proíbe espionagem doméstica telefônica sem mandado judicial. Até o momento, nem o Congresso, nem a opinião pública sabem se esse programa, promovido pela Agência Nacional de Segurança (NSA) tem respaldo legal, ou se a database está sendo usada puramente na luta contra o terrorismo. O incidente com os jornalistas da ABC News parece ser uma pista importantíssima de que a tal database telefônica está sendo usada para perseguição de inimigos políticos internos. Nixon Redux.

É interessante notar que, quando o New York Times noticiou o programa de espionagem telefônica da NSA meses atrás, o Governo garantiu que o registro das ligações só era feito nos telefonemas internacionais, e apenas os dos suspeitos de terrorismo. A matéria do USA Today, provando que o programa é muito maior e inclui as ligações de todos os cidadãos assinantes das três maiores telefônicas do país, mostrou que o Governo foi desonesto em sua primeira versão (agora, o próprio Bush admitiu que a database existe, mas que apenas os números dos suspeitos são objeto de investigação).

O governo Bush tem usado o 11 de setembro como pretexto para desrespeitar as liberdades civis, passando por cima ora da legislação nacional, ora da Convenção de Genebra. Pedem ao público que “confie” neles, pois combater o terrorismo exige o máximo de segredo e táticas não convencionais. Qualquer protesto ou debate sobre esses programas seria danoso à guerra ao terrorismo, e um sinal de falta de patriotismo da parte dos insatisfeitos. No entanto, o público americano e parte da imprensa já estão acordando para essa ameaça à democracia e aos valores mais caros aos cidadãos americanos. Palavras do jornalista Jack Cafferty, da CNN: “O senador Arlen Specter, líder da Comissão de Justiça, pode ser a última barreira entre nós e uma ditadura completa nesse país (…) Por que o Departamento de Justiça desistiu de investigar o programa da NSA, de espionagem de cidadãos sem mandado judicial, depois que a NSA disse que os advogados do Departamento não tinham security clearance? Sim, foi isso mesmo. A agência secreta do governo disse ao Departamento de Justiça que ele não podia investigá-la e fica por isso mesmo, desistem da investigação. We're in some serious trouble, boys and girls."

Uma boa oportunidade para o Congresso americano investigar o programa da NSA mais a fundo é a sessão do Comitê de Inteligência do Senado na quinta-feira, que vai interrogar o novo nomeado de Bush para a direção da CIA, Michael Hayden, que estava até mês passado à frente da NSA. E a Comissão de Justiça do Senado prometeu questionar os executivos das empresas de telecomunicações que estão fornecendo os dados das ligações domésticas ao governo.

urgente! - o caos nas mãos do PFL

O Horror. Na manhã de sábado (13), minha equipe de jornalismo acompanhava os ataques do PCC e de nanicos simpatizantes, paus-mandados da discórdia e/ou lambaris que aproveitavam o Terror para praticar atos de vandalismo, atentados ou mesmo para assassinar policiais desafetos. A polícia de Limeira estava de sobreaviso, mas não havia sido registrada nenhuma ocorrência na cidade. Um PM de Santa Bárbara D´Oeste, cidade vizinha, havia sido executado com 10 tiros. Na avaliação geral dos jornalistas, deveríamos ficar de sobreaviso sobre as rebeliões nos presídios, cadeias e centros de ressocialização - coisas podiam ocorrer. Mas os ataques a policiais deviam ser apenas "ato de um dia".

Na noite de Sábado, 20h, uma pessoa bate na portaria do prédio onde moro buscando ajuda; havia acabado de ser esfaqueado. O porteiro chamou o resgate, o sangue escorrendo pela calçada. Hoje cedo saí para trabalhar, o sangue coagulado, as ruas desertas, alguma neblina, um clima de filme de terror.

A contabilidade em Limeira na Segunda-Feira: 9 mortos; dois policiais, três marginais, quatro pessoas que aparentemente não têm conexão com o crime. Um garoto de 14 anos foi morto na madrugada há poucos metros de casa com um tiro na cabeça. Continua a contabilidade: cerca de 15 pessoas feridas em confrontos, tiroteios, atentados - entre eles, pelo menos 3 gravemente feridos, um policial. Cinco ônibus foram incendiados. Uma granada foi atirada mas não explodiu em um centro comunitário, uma bomba caseira atingiu uma escola. As aulas da rede pública foram canceladas.

Metade dos motoristas e cobradores de ônibus não apareceram para trabalhar. Guardas municipais foram recolhidos, deixando sem cobertura os prédios municipais, como a prefeitura. Em alguns desses prédios há agências bancárias.

Fizemos uma reunião na emissora onde trabalho e recolhemos as viaturas adesivadas, estamos utilizando veículos à paisana. Um jornalista e um cinegrafista optaram por fazer as coberturas com colete a prova de balas. "As coberturas", no caso, são entrevistas com o chefe da polícia civil local ("Temos informações que o comércio pode ser atacado"); com o secretário municipal de segurança ("Não estamos fazendo rondas com guardas municipais por precaução") e com o comandante da PM ("A população deve ter cuidado redobrado"). Uma ligação telefônica ameaçou nossa emissora: "O PCC vai entrar aí".

Nunca, em 16 anos de jornalismo, vi tamanho Terror, tamanha sensação de total e irrestrito perigo e insegurança. O medo, na verdade, começou na noite de Sábado, quando vi o Governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), dizer que "a situação é de controle absoluto". Ele devia saber que nunca é. Ele não devia saber que nunca deve desprezar ajuda, como desprezou da PF ou do exército. Ou talvez ele não devia saber nada; ele é a própria expressão do morto-vivo, um zumbi-mor que abre os portões do inferno para que outros ataquem.

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Está na Folha de hoje: "Lembo diz que esperava ações há 20 dias". Ele e os assessores esperavam "eventos explosivos" promovidos pelo PCC no dia das mães e, por conta disso, realizou uma reunião com um comitê de emergência na Quarta-Feira, antevéspera do final de semana explosivo. O dito popular ensina que quando não se quer resolver uma situação, promove-se uma reunião.

Como "ação de inteligência", decidiram transferir o Marcola na sexta e, com isso, anteciparam as ações do PCC, marcadas para o domingo. O que era "ação de um dia", virou "ação de um final-de-semana", triplicando o terror e abrindo possibilidades para aproveitadores. Romeu Tuma, senador do PFL, disse que o governador deu alerta para os policiais. "Ou os policiais foram indiferentes ao aviso ou não houve aviso", disse. Tuma, como policial, deveria saber que não houve aviso. Ou os policiais não se preocupam com suas próprias vidas?

Aí aparecem Alckmin e João Carlos Meirelles, coordenador de programa de governo do candidato-chuchu dizendo que a culpa pela violência é do Governo Federal. Caras-de-Pau. Foram eles quem fizeram o programa de governo de Alckmin, com propostas mirabolantes para conter a violência no Estado. E foi Alckmin quem pulou fora do Governo deixando para Lembo, do PFL, figura política e decorativa, como quase todo pefelista.

Também como Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo por conta da saída de Serra. Kassab quer convencer o Ministro das Cidades, Marcio Fortes, que todos os carros que rodam o Brasil deveriam ter chips para poderem ser localizados. Entende que essa medida reduziria a violência. Como a água bateu na bunda nesse final de semana, ele parou de lamentar que a prefeitura não tem dinheiro e disse que vai dar 7 milhões para a polícia da capital.

Na verdade, quem alertou o Estado sobre as ações explosivas foi a Secretaria Nacional de Segurança Pública e parece que os assessores e o próprio Lembo não levaram muito à sério num primeiro momento, deixando o posicionamento para última hora.

No site do PFL, um tal de Aleluia, da Bahia, "líder da Minoria na Câmara dos Deputados", diz que "a violência é conseqüência do desgoverno Lula". No caso específico da explosão de violência desse final de semana, certamente não é culpa do Governo Lula. É culpa primeiramente da omissão e descaso de Alckmin e Serra, mais experientes, que deixaram os cargos para os quais foram eleitos nas mãos de despreparados políticos de carreira que não demonstram qualquer afinidade com o Executivo, com a postura firme e sólida, de responsabilidade intrínseca, que situações que envolvem a vida de cidadãos merece.

Fosse Alckmin o governador, com certeza ele daria maior atenção aos avisos da Secretaria Nacional de Segurança, acionaria o prefeito Serra, não deixaria que as coisas tomassem a proporção que tomaram. E, infelizmente, a impressão das coisas, ao meio-dia dessa Segunda-Feira, é que tudo só tende a piorar.

UPDATE:
14h10 - Piorou. Falo das coisas de Limeira para dar uma idéia geral da região. Os ônibus pararam de circular, o comércio fechou e as faculdades cancelaram aulas - tudo sem previsão de volta. Informação de coxia é que tem policial indo pra casa pra proteger família. Tá virando terra de ninguém MESMO, algo como o Terra dos Mortos - e isso não é piada. De ontem para hoje DOBROU o número de civis mortos no Estado, passando de 90. Um policial acaba de ser baleado em frente a uma agência do Sudameris daqui.

UPDATE II - A quem interessar possa:
17h30 - Fecho matéria que será enviada para alguns jornais da região:

Limeira: 2 PMs, 3 marginais e 4 civis mortos
A onda de Terror provocada pelo PCC atingiu Limeira em cheio exatamente às 21h30 de Sábado. O policial militar Ricardo José Martins Lara, de 37 anos, estava próximo à uma padaria quando foi atingido por disparos de dois
homens que passavam pela calçada e que podem ter fugido em uma motocicleta. o PM Lara era querido tanto pelos colegas da corporação quanto pela imprensa. Na sequência, minutos depois, no mesmo bairro onde o PM foi morto, um jovem de 28 anos, J.S., foi alvejado por vários tiros. Encontra-se na Unidade de Terapia Intensiva da Santa Casa de Limeira. Se sábado para domingo as ocorrências aconteceram sucessivamente, numa onda de violência jamais registrada na história da cidade. Dois adolescentes de 17 anos foram feridos por projéteis no Parque Abílio Pedro; um jovem de 20 foi atingido na virilha enquanto voltava para casa, no bairro Nossa Senhora das Dores. Às 3h50 da manhã de Domingo, dois homens em uma moto Yamaha prata atiraram contra três jovens; apenas R.A.P. de 18 anos sobreviveu. José Lionaldo, 14, e Marcelo dos Santos, 18, morreram no local. Minutos depois a PM registrava a morte de Vilson Basílio da Silva, de 34 anos, encontrado próximo à sua residência, no bairro Profilurb.

Domingo
A população acordou assustada no Domingo. Reações espontâneas e quase inexplicáveis resultaram em cinco ônibus queimados e depredados. Pelo menos um deles foi em reação de familiares e amigos de um dos jovens mortos. No final da tarde, início da noite de Domingo, três jovens atacaram a tiros a base policial do bairro Vista Alegre. Os dois policiais foram atingidos e um marginal foi morto no local. O PM Wellington da Silva, de 26 anos, levou um tiro na perna, foi socorrido e passa bem. Já o colega, PM Rômulo Henrique David, de 23 anos, recém entrado na Polícia Militar, sofreu vários disparos e morreu a caminho do hospital. Os outros dois criminosos fugiram e sofreram perseguição, que teve ápice na rodovia Limeira-Cosmópolis, onde houve troca de tiros. Os dois acabaram mortos. No dia seguinte foram identificados como os irmãos Alex, de 22, e Anderson Rocha, de 27 anos. Também não foi possível identificar o jovem morto durante o tiroteio. Acredita-se que os três tinham ligação com o PCC. Várias outras ocorrências, de brigas, disparos e situações de Terror foram registradas na noite de Domingo em Limeira.

Segunda
Alguns motoristas e cobradores de companhias de viação não apareceram para trabalhar na manhã de segunda, e alguns estabelecimentos comerciais não abriram as portas. Por volta das 10h teve início uma onda de boatos generalizada envolvendo bombas em escolas e bancos, disparos na região central e ameaças de ataques a orgãos de imprensa. Duas ligações à TV Jornal de Limeira ameaçaram invasão e morte de jornalistas. Poucos restaurantes abriram para o almoço e as aulas da rede pública foram canceladas. Às 15h quase todos os estabelecimentos comerciais estavam fechados e a sensação de quem transitava pelas ruas era de total estranheza para uma Segunda-Feira. Os bancos também cerraram portas.

Ligações
Os jovens mortos ou atingidos em Limeira aparentemente não têm ligações com a facção criminosa PCC - Primeiro Comando da Capital. Os incêndios a ônibus parecem ter sido comandados por algum braço secreto da facção, já que testemunhas dizem que menores de idade estiveram à frente das ações. A Associação Comercial e Industrial de Limeira, ACIL, sugeriu que os comerciantes mantivessem as lojas fechadas nesta terça feira e o prefeito Silvio Félix (PDT) não quis se pronunciar pela trágica onda de violência que acometeu a cidade no final de semana.

UPDATE III:

O Jornal da Rede TV, com Marcelo Resende, será especial hoje, a partir das 21h10 com imagens da TV Jornal de Limeira. Limeira foi uma das cidades com mais mortos do interior do Estado. Curiosidade: deve participar do programa o jornalista limeirense Geraldo Luis, que foi base para o personagem Geraldo Assis do meu livro.

maio 12, 2006

Língua, cultura e sobrevivência

“Saudade”, uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa, é também a sétima mais difícil do mundo para se traduzir. O que todo mundo já desconfiava foi comprovado por uma pesquisa feita pela empresa de tradução britânica Today Translations junto a mil tradutores de todo o mundo. Aquela considerada a mais difícil de traduzir é “ilunga”, falada no sudoeste do Congo e que significa "uma pessoa que está disposta a perdoar qualquer maltrato pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez".

Outras palavras da lista que eu gosto são “shlimazl” (ídiche), que designa uma pessoa cronicamente azarada e “radioukacz” (polonês), que é a pessoa que trabalhou como telegrafista para os movimentos de resistência ao domínio soviético nos países da antiga Cortina de Ferro.

A pesquisa também revelou as 10 palavras mais difíceis de traduzir do idioma inglês. Por exemplo, a palavra “serendipity” (terceira da lista) realmente não é fácil. Significa algo como a faculdade de fazer boas descobertas por acaso, sem estar procurando por elas. A palavra vem do conto persa “As três princesas de Serendip”, que tinham justamente a característica de encontrar coisas maravilhosas sem se dar conta.

Todas estas palavras pertencem a grupos lingüísticos ainda ativos, falados por populações identificáveis nos mapas. Transmitem conceitos facilmente compreensíveis por aqueles que as utilizam em seu cotidiano. Têm, portanto, uma vida e uma história.

Quando uma língua desaparece, ainda que sobreviva o povo que a falava originalmente, é todo um universo simbólico que vai junto, engolfado em uma espécie de cataclismo silencioso. A Unesco desenvolve um interessantíssimo “Programa de Línguas Ameaçadas”, que à semelhança de seus congêneres sobre espécies animais, procura mapear os riscos que correm as diferentes línguas faladas no mundo.

Algumas das conclusões levantadas pela investigação mais recente do Programa indicam que:

- Mais de 50% das cerca de seis mil línguas faladas no mundo estão ameaçadas.
- 96% das seis mil línguas são faladas por apenas 4% da população mundial.
- 90% das línguas do mundo não estão representadas na internet.
- Uma língua desaparece a cada duas semanas em média.

No atual ritmo, estima-se que 40% das línguas faladas hoje vão desaparecer nos próximos 50 a 100 anos. Além dos impactos sociais e econômicos, seu desaparecimento significa a perda da memória coletiva de todo um povo. A maneira como se descreve os sentimentos comuns, os nomes das coisas, o modo como se designam as ações prosaicas do cotidiano, enfim, tudo o que determina a identidade coletiva desaparece com a língua quando ela deixa de existir.

Para os especialistas em lingüística uma língua está sob ameaça quando não é aprendida por mais do 30% das crianças de uma comunidade. Está seriamente em perigo à medida que estes poucos falantes da língua original vão crescendo e envelhecendo. Fica definitivamente moribunda quando apenas alguns poucos da comunidade ainda a lembram. E quando estes morrem, lhes acompanham até o túmulo. Uma morte absoluta, que leva além do corpo físico o repositório cultural de um povo ou comunidade.

Mas, por que se preocupar tanto com a morte de uma língua, principalmente se ela for falada por um grupo humano restrito, como por exemplo, uma tribo amazônica ou africana?

A própria Unesco, em um paper muito interessante chamado Language Vitality and Endangerment, procura responder:

“A extinção de uma língua resulta em uma perda irrecuperável de conhecimento cultural, histórico e ecológico. Cada língua é uma expressão única da experiência humana do mundo. Assim, o conhecimento singular de cada língua pode ser a chave para responder questões fundamentais sobre o futuro. Cada vez que uma língua morre, temos menos evidências para entender as tendências na estrutura e função da linguagem humana, da pré-história humana e da manutenção dos diversos ecossistemas mundiais”.

Evidentemente, para repisar um conceito tautológico, a morte faz parte da vida. Não se pode esperar que todas as seis mil línguas faladas permaneçam vigentes para sempre. As novas tecnologias, associadas ao efeito avassalador da globalização, estão dando sua contribuição para a extinção de maneira acelerada de grupos lingüísticos inteiros.

Por outro lado, este movimento dinâmico também tem contribuído para o surgimento de ações concretas para preservar línguas que já estão quase desaparecendo. O Programa de Línguas Ameaçadas, da Unesco, é uma iniciativa que merece respeito. Outras, como a do Google, com sua página de buscas em Quéchua, também.

Mas ainda falta politizar mais o assunto, quem sabe com uma ampla mobilização para salvar línguas (e culturas) ameaçadas. Este bem poderia ser o grande movimento de massas deste novo milênio, com um impacto semelhante ao que teve a emergência do movimento ecológico nos anos 60 e 70.

É como dizia um ancião Navajo citado pelo paper da Unesco:

Se você não respira,
Não existe ar.

Se você não anda,
Não existe terra.

Se você não fala,
Não existe mundo.

Mais informações:

As 10 palavras mais difíceis de traduzir

Programa de Línguas Ameaçadas da Unesco

Atlas interativo das línguas ameaçadas

Paper Language Vitality and Endangerment (para download)

maio 10, 2006

Planeta Sabotado

É claro que se o leitor estiver predisposto a ver o relato de John Perkins como uma alucinação, muito dificilmente ele se convencerá do contrário ao final da leitura. No entanto, Confissões de um Assassino Econômico (Cultrix, 272 págs., R$ 37,00) tem tudo para ser, no mínimo, digamos, um despertador. Uns dirão uma bomba atômica.

Se você já é leitor assíduo de um Noam Chomsky, pode muito bem passar sem Perkins. Afinal de contas, o que este vai relatar é, em essência, aquela aliança corporação-Estado estadunidense que sai mundo a fora derrubando governos a torto e à direita. Nada que não possamos ler, com muito mais fartura documental e analítica, em um Contendo a Democracia (Record, 518 págs., R$ 49,90). A novidade no livro de Perkins é que, se para alguns, Chomsky não passa de um intelectualóide “antiamericano” sem senso de realidade, o mesmo não se poderá afirmar daquele estadunidense nascido em 1945 de família humilde, formado em administração de empresas pela Universidade de Boston e recrutado, em 1971, para trabalhar na Chas T. Main, uma consultoria internacional discreta na fachada, que encarregava-se de elaborar estudos sobre diversos países, a pedido do Banco Mundial e congêneres, para fins de empréstimos a serem concedidos aos necessitados países. Perkins e outros “analistas” tinham como missão exagerar perspectivas de crescimento de países pobres e em desenvolvimento, para os empréstimos do BM serem generosos. Filantropia do primeiro mundo? Vai nessa. Uma vez endividados e sem condições de honrar as dívidas, tais países seriam, enfim, meras peças no tabuleiro geopolítico e econômico do império estadunidense.

Capa do livro Em Confissões... temos, portanto, a visão de alguém que outrora participou e viu de perto as engrenagens do poder mundial, e não de um mero crítico externo e extemporâneo. De alguém que já havia tentado escrever essas memórias antes, mas nunca havia prosseguido na ação. De alguém que, depois do 11 de setembro de 2001, quando já estava trabalhando apenas com tribos indígenas na Amazônia, resolveu de uma vez por todas relatar suas experiências como um “assassino econômico” (AE). Ele lembra: “No momento [imediato pós 11-S] uma coisa era certa: o meu país estava pensando em vingança, e estava concentrado em países como o Afeganistão. Mas eu estava pensando sobre todos os outros lugares do mundo onde as pessoas odiavam as nossas empresas, os nossos militares, as nossas políticas, e a nossa marcha em direção ao império mundial”. Essa passagem esconde também a fraqueza mais notável de Perkins, a saber, a falta de uma condenação enfática do ato terrorista, que não se justificaria nem mesmo pelo ódio árabe infligido pela América S.A. (Gore Vidal). Nem por isso seu livro deixa de ser indispensável. Vejamos algumas ações dos AEs nos últimos anos, relatadas por Perkins.

Pegue a Indonésia. Em 1971, foi lá que Perkins foi testado pela primeira vez como um assassino econômico, enviado, junto com mais 10 homens, pela Main, a fim de “criar um planejamento básico de energia para a ilha de Java”. Bonito, não? Uma mulher, que Perkins identifica como Claudine, uma das responsáveis por seu recrutamento junto à Main, explica-lhe como deve agir no país asiático: “ (...) você precisa aparecer com uma previsão altamente otimista da economia, de como ela vai florescer depois que todas as novas usinas elétricas e linhas de distribuição de energia forem construídas. Isso permitirá à USAID [agência estadunidense para “ajuda” externa] e aos bancos internacionais justificar os empréstimos”. Os mecanismos envolvendo essa matemática aos cuidados dos AEs – a econometria – é interessante. Como Perkins logo descobriu, “a estatística podia ser manipulada para produzir uma vasta gama de conclusões, incluindo aquelas que fundamentassem as predileções do analista”, e seria divulgada com pomba na imprensa mundial de prestígio. Além disso, e como já pôde constatar qualquer um que leu John Kenneth Galbraith, o crescimento, real ou projetado, do PIB de um país pode ser muito bem uma máscara da realidade, já que, se metade da população empobrece e os 10% mais ricos ficam ainda mais ricos, ainda assim não poderemos ter um “crescimento do PIB”? Esses 10% abastados não são os proprietários das empresas prestadoras de serviço?

E para as mãos de quem iam esses investimentos internacionais? Como funcionavam e qual a finalidade desses fluxos? Em entrevista à revista Caros Amigos (n° 108, março de 2006), Perkins foi claríssimo: “a maior parte do dinheiro nunca ia para o país, e sim para as corporações americanas, que construíam enormes projetos de infra-estrutura para aquele país, como usinas de energia, estradas, portos, coisas que ajudavam os ricos daqueles países, mas geralmente não ajudavam a maioria da população. E os países acabavam com uma dívida enorme, tão grande a ponto de não poder ser paga. Então, em algum momento, um sabotador econômico voltava ao país e dizia: olha, vocês nos devem muito dinheiro, não podem pagar a dívida, então vendam petróleo muito barato para nossas empresas, ou votem conosco na ONU, ou enviem tropas para ajudar nossas guerras”.

A questão política. No caso da Indonésia do final da década de 1960, era um “foco de atividade comunista” – além de possuidora de muito petróleo. E o Vietnã aparecia como um fantasma para os EUA, com assombrações de um efeito dominó na Ásia. Então, invada-se o país rebelde e apóie-se uma ditadura, no caso da Indonésia, de Suharto. “Ajude-o” financeiramente.

O modelo indonésio reproduz-se exaustivamente por todos os quadrantes do mundo. E firmas como Halliburton e Bechtel fazem o mesmo papel da Main, revela John Perkins. Até hoje. Mas vejamos mais um exemplar do passado recente.

Panamá, início da década de 1970. O país é governado pelo democraticamente eleito Omar Torrijos, um moderado e conciliador que transformou seu minúsculo país em um refúgio para perseguidos políticos de todo o continente, desde os esquerdistas chilenos anti-Pinochet até a direita cubana anti-Fidel. No entanto, aos olhos do império do norte, Torrijos era um radical esquerdista, pois ousou ir contra o funcionamento, em seu país, da Escola das Américas – como sabemos os sul-americanos, uma think tank que propagou incansavelmente ideologia pacifista durante os anos de chumbo destas bandas da Terra.

Nesse contexto, John Perkins foi enviado ao Panamá para criar um “plano geral de desenvolvimento” para aquele país. “Esse plano”, explica, “criaria uma justificativa para que o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a USAID fizessem investimentos de bilhões de dólares nos setores de energia, transporte e agricultura desse minúsculo e altamente decisivo país. Era, é claro, um subterfúgio, um meio de converter o Panamá num eterno devedor e, assim, devolvê-lo ao seu papel de marionete”. Lá, Perkins teria dois encontros marcantes com personalidades-chave. Um foi com o próprio Torrijos, em 1972, em que o líder panamenho previu sua sorte: “Arbenz [presidente da Guatemala] foi assassinado [em 1954] (...) Comigo não vai ser assim tão fácil. Os militares daqui estão do meu lado. Um assassinato político não funcionaria. A própria CIA teria de me matar”. Essa última frase ele disse depois de um sorriso.

De fato, Torrijos marcara aquele encontro para tentar fechar contratos lucrativos para a Main, num esforço para permanecer na presidência do país. “Com certeza”, relata Perkins, “ele sabia que o jogo da ajuda externa era uma tapeação”. Os estudos da Main teriam que levar em conta as massas miseráveis panamenhas. O acordo foi fechado. A Main lucrou.

No entanto, por ação de forças superiores a Perkins e à Main, Omar Torrijos caiu. Na verdade, caiu junto com seu avião, a 31 de julho de 1981. Conforme relatou Graham Greene em Getting to Know the General, citado por Perkins: “Alguns dias depois [do acidente], o chefe de sua [Torrijos] guarda de segurança, o sargento Chuchu (...), contou-me: ‘Havia uma bomba no avião. Eu sabia que havia uma bomba no avião, mas não podia contar-lhe pelo telefone’”.

Graham Greene foi, aliás, outro encontro notável para Perkins, em 1977, no saguão do Hotel Panamá. Na ocasião, o escritor, amigo de Torrijos, confidenciou ao assassino econômico: “É uma empreitada e tanto desafiar o Gigante do Norte. Temo pela segurança dele”. Antes de morrer, Torrijos atraíra a ira do então presidente Reagan e do vice-presidente George H. W. Bush, que já haviam declarado sua repugnância por aquele que era uma verdadeira ameaça, digamos, ao eixo do bem. E tinha atraído o mau-olhado de grandes multinacionais, que não se conformavam em não poder explorar livremente os recursos naturais e a barata mão-de-obra panamenha.

Torrijos assassinado, assume o governo Manuel Noriega, sujeito com laços com o narcotráfico, apoiado pela CIA. Depois, também Noriega cairia em desgraça, ao não considerar o desejo estadunidense de prolongar a Escola das Américas por mais 15 anos, e ao esboçar a possibilidade de construir um outro canal ligando o Atlântico ao Pacífico, com fundos de empresas japonesas. Em 20 de dezembro de 1989, os Estados Unidos invadem o Panamá.

E engana-se quem pensa que essa nossa conversa sobre sabotagem econômica e política é coisa de museu. Iraque, século XXI. Manchete do New York Times de 18 de abril de 2003: “EUA Dão à Bechtel o Maior Contrato na Reconstrução do Iraque”. Na matéria: “Os iraquianos vão trabalhar com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional”; “A Bechtel tem laços antigos com as instituições de segurança nacional (...) Um de seus diretores é George P. Shultz, que foi secretário de Estado do presidente Ronald Reagan (...) Este ano, o presidente Bush indicou o executivo-chefe da Bechtel, Riley P. Bechtel, para trabalhar no Conselho de Exportação do presidente”. É a corporatocracia em ação. Claro, todas essas autoridades, corporações e instituições estão preocupadíssimas com o bem-estar do povão iraquiano, como estava também Saddam, justiça seja feita.

A Venezuela de Hugo Chávez, por sua vez, foi salva de maiores complicações pelo Iraque de Saddam, escreve John Perkins. O país árabe, em 2003, acabou por distrair a atenção dos olhos estadunidenses na América do Sul. A administração de W. Bush estava (está?) pondo em prática na Venezuela política semelhante àquela presenciada no Irã de 1953, quando o agente da CIA Kermit Roosvelt (neto de Theodore Roosvelt) foi enviado ao país para organizar e insuflar tumultos e protestos de rua contra o presidente Mohammad Mossadegh, responsável pela nacionalização dos recursos petrolíferos – e “Homem do Ano” de 1951 da revista Time. Mossadegh foi deposto e deu lugar à ditadura do xá Mohammad Reza, islâmico linha-dura cujas políticas ainda hoje ecoam pelo Irã.

john perkins O Kermit para a Venezuela, Perkins detecta: Otto Reich, que, quando do golpe contra Chávez em 2002, era secretário-assistente de Estado para assuntos internacionais por indicação de W. Bush. Quando o jornal Los Angeles Times, em abril de 2002, revelou que “funcionários da administração Bush reconheceram (...) que haviam discutido a remoção do presidente (...) Chávez por meses com líderes militares e civis da Venezuela (...)”, dificilmente não poderemos vislumbrar Otto Reich entre esses “funcionários”. Reich, aliás, que tem uma nada desprezível folha de serviços prestados à América Latina, entre os quais envolvimento no caso Irã-contras da década de 1980 – venda ilegal de armas ao Irã, para financiar esquadrões da morte de direita na Nicarágua. Quando o golpe contra Chávez expirou, depois de 70 horas de duração, e ele foi reconduzido à presidência por amplos setores civis e militares, ficou claro para Perkins que “não só os AEs haviam falhado, mas também os chacais”, que, a exemplo de Kermit, entram em ação para desestabilizar governos que não lograram ser dobrados pelos AEs.

Contudo, não é porque John Perkins escreveu um relato revelador que haveremos de redimi-lo completamente por suas ações passadas. Ora, a todo momento da narrativa ele nos lembra que, enquanto agia como um AE, tinha plena consciência de que fazia algo errado, mas seguia em frente – por exemplo: “Enquanto o táxi começava avançar dentro da noite, um paroxismo de culpa me atravessou como um raio, mas eu o reprimi. Com o que eu deveria me preocupar? Tinha dado o passo decisivo em Java, vendido a minha alma e agora podia criar a oportunidade da minha vida. Podia ficar rico, famoso e poderoso de uma só vez”.

De qualquer forma, verdade seja dita: esse ex-arrivista nos lega um livro cuja leitura é muito mais importante para a compreensão do atual estágio do capitalismo do que tolices como Freakonomics ou O Mundo é Plano, dos desde sempre austeros Steven Levitt e Thomas Friedman, respectivamente. E o mundo não é plano, só pra lembrar.

maio 9, 2006

A falta de voluntários no Brasil

Sempre me dispus a voluntariar em vários estágios da minha vida. Já fiz sopão, já cuidei de crianças, já fui à hospitais trabalhar com avental e máscara, dando comida, conversando e lendo para pacientes terminais e menos doentes. Nunca deixei de participar, por achar isso necessário para minha vida - para meu bem estar.

Agora, depois do câncer, me vejo ainda mais ligado à isso. Sinto uma vontade física muito grande de passar o máximo de tempo possível ajudando a tudo e todos. Como não posso, por não haver Bruno suficiente para todos, vou me concentrar no que posso: vou lidar com crianças, jovens e velhos com câncer. Sei que tenho muito a ensinar.

Ter passado pelo que passei, tendo vivido o que vivi da maneira que vivi (com muito bom humor, saúde mental e animação), sei que tenho mesmo algo a passar para os que não entendem e não sabem lidar com essa situação. Tive a cabeça no lugar para lidar com tudo isso, e espero poder, com isso, passar o pouco que sei, e o pouco que aprendi durante meu processo de cura, para as pessoas menos afortunadas. Só não entendo como é que, neste país, aparentemente não há essa cultura de voluntariado.

Somos um país onde existe, claramente, na nossa frente, muita injustiça, má distribuição de louros de todos os tipos, desigualdade de tratamento, de acesso à educação, à saúde, à infra-estrutura... e com um povo que, em tese, votou no Lula na campanha passada porque queria ver esse país melhor, porque vejo tão poucas pessoas tentando ajudar o país com as próprias mãos?

Não estou aqui para ser um crítico do nosso povo - mas também não entendo como não conseguimos ter um maior número de pessoas que se dedicam à ajudar as pessoas menos afortunadas por algumas horas por semana. Deixar de lado um Faustão, um Caldeirão do Huck para sentar com um autista e tentar tirar dele um sorriso. Parar para ler um livro para um canceroso em estado terminal. Botar um nariz vermelho e cantar músicas infantis para crianças enfermas. Ou simplesmente preparar uma sopa de batata com cenoura para os desabrigados. Acho que cada um de nós têm o poder de mudar muita coisa - basta querer.

Se não podemos depender tanto assim de um governo decente para nos prover um mínimo de auxílio para conseguirmos enxergar uma luz no fim do túnel, podemos tentar mudar um pouquinho, ajudando uma pessoa por vez, e possívelmente somente uma pessoa. É o suficiente. Sempre será. Tem um filme com o Kevin Spacey e o garotinho do 'Sexto Sentido' em que um sistema de ajuda ao próximo é desenhado, e se seguido serviria para salvar um pouco nosso mundo tão combalido.

Pretendo levar adiante, a partir de agora, meus projetos e planos de ajuda ao próximo. Por mais que já tenha feito algo antes, penso em fazer mais - e quem sabe montar uma ONG de ajuda à pessoas sem acesso à informação sobre câncer e seus possíveis tratamentos, na esperança de dar à quem puder o mínimo para saber tratar e lidar com o problema que enfrentarem. Tive a sorte de ter tudo do bom e do melhor, e de ter o apoio que precisava quando pedi - então quero poder ser esse apoio para certas pessoas quando este não houver.

Qual é o real problema da situação de voluntários desse país? É a falta de vontade das pessoas, seja ela por medo, falta de tempo, disponibilidade emocional ou outro motivo? Ou seria a falta de credibilidade de grandes instituições? Ou a falta de acesso às mídias de massa das pequenas e médias ONGs, dando menos informação ao povo, assim diminuindo o alcançe das mesmas para a obtenção de voluntários e doações?

Lembrei do anúncio da Luana Piovani, chamando todos para a caminhada contra o câncer infantil. Se não me engano, no Parque do Ibirapuera no último domingo. Quantos de vocês, moradores de São Paulo, foram à esse evento?

maio 5, 2006

entrevista exclusiva: Plínio de Arruda Sampaio

Plinio de Arruda Sampaio nasceu rico em São Paulo em 1930. Formou-se em direito, integrou-se ao Movimento Juvenil Católico, foi militante comunista-cristão e esteve na lista do 100 primeiros cassados pela ditadura, tendo permanecido no Chile entre 1964 e 1970. Na volta, abraçou causas de excluídos e lideranças populares. Esteve na primeira turma de "pensadores" do Partido dos Trabalhadores. Fundou a Ação da Cidadania pela Ética na Política e a Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria com Betinho e Dom Luciano Mendes de Almeida. Mesmo amigo pessoal de Fernando Henrique Cardoso, foi um dos maiores críticos de seu governo. Trabalhou nas campanhas petistas, comemorando a vitória de Lula. Aborreceu-se, e conta o motivo na entrevista abaixo. Ajudou a fundar o P-Sol - Partido do Socialismo e Liberdade, pelo qual sai candidato ao Governo do Estado de São Paulo.

Vou entrevistá-lo para a TV; primeiro um teaser, depois três perguntas simples e diretas para o noticiário noturno. Peço que ele se sente em uma poltrona, com uma janela no fundo. "Olha", diz ele, "essa claridade aqui vai atrapalhar a imagem". Eu digo que não. Entra meu câmera e pede que ele se mude, sente em outro lugar, "por causa da janela". Ele ri um "eu não disse". O câmera, pronto para sacanear, diz que "o entrevistado entende mais de TV que o jornalista". Plinio diz que já deu mais entrevistas do que ele, o câmera, jamais será capaz de gravar. "Quando a TV entrou no ar no Brasil eu fui um dos primeiros a dar entrevista!", conta sorrindo, dentadura frouxa, cara de menino.

Antes de começar a entrevista: "Passei o final de semana fazendo umas contas... Oito milhões de famílias estão nos programas sociais do governo, recebendo um real por dia. Vinte mil famílias recebem cerca de dois mil e quinhentos reais por dia por terem emprestado ao Governo; são os que mandam no Brasil. A relação entre esses oito milhões - e o que eles recebem -, e as vinte mil famílias - e o que elas recebem -, é a relação de miséria no Brasil". Balanço a cabeça afirmativamente, vendo um socialista falar.

Plinio, depois de tantas jornadas, tem início um nova?
É. Eu já disputei o Governo do Estado em 1990 e agora estou aqui novamente... E Limeira é a primeira cidade que visito.

De todas as jornadas - luta, exílio, formação do PT, cargos eletivos... - qual foi a mais difícil?
A coisa mais frustrante da minha vida foi esse desvio de rota do PT, porque é um desastre nacional, não só um desastre para o partido. É um desastre para o País. As pessoas precisam ter respostas. Mesmo os adversários do PT esperavam que o partido, chegando ao Governo, fizesse o que falou e prometeu a vida inteira. Agora ele [o PT] chega ao poder e mantém exatamente a mesma política do seu antecessor. O povo levou um choque. Isso foi o mais frustrante. Ganhar e perder faz parte do jogo. O ruim é você falar para o povo que vai fazer e não faz.

O senhor criticou agora mais pontualmente a política econômica do Governo Lula mas economincamente o governo parece estar bem. O desgaste parece ser político. A sua maior crítica é para a postura econômica do Governo?
Os médicos dizem que a pior pneumonia é aquela que não dá febre; pois não dando febre o sujeito pensa que está só com uma gripezinha, quando, na verdade, a doença está se alastrando. Quando o doente perceber, já é tarde demais. A mesma coisa acontece com o Governo. A inflação está segura, o crescimento é de 3,5% ao ano, o dólar não varia muito... Então dá uma impressão que está indo bem. Mas está indo muito mal. Com 3,5% de crescimento não dá pra incorporar ao mercado de trabalho nem a moçada que atinge idade para trabalhar. Sem falar no lastro dos que não têm emprego e nos trabalhadores informais... Nós não estamos empregando a população! Com isso você tem um monte de gente em situação de pobreza - e é quando prolifera a doença, a dengue, o crime, as drogas... É impossível uma sociedade desenvolvida com tamanho número de pessoas fora da órbita econômica. Por isso, mais forte que essa crise ética - que é execrável -, é o desvio da política econômica.

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O senhor foi um dos fundadores do PT, um dos grandes pensadores do partido. Qual ação o senhor esperava do Lula, principalmente na área economica, assim que ele assumiu a presidência?
A reforma agrária. Eu tinha certeza que o Lula ia fazer a reforma agrária. Nós falamos isso a vida inteira! Eu pensei que ele fosse contemporizar de um lado e de outro, mas que a reforma agrária ia sair. Tanto que eu ajudei a fazer o projeto. Ele me chamou para um plano de reforma, eu contratei a equipe, e nós fizemos junto com todos os movimentos sociais do campo. E o plano foi engavetado. Uma decepção terrível! Nós propusemos uma meta de um milhão de famílias assentadas em 4 anos. Ele reduziu a meta pela metade e não fez nada. Não conseguiu cumprir nem a metade.

O senhor, assim como vários integrantes do PT, deixou o partido e montou o P-Sol - que, em pouco tempo, adquiriu visibilidade e influência na política do País. O que o povo pode esperar do P-Sol?
O P-Sol veio para ocupar um espaço que o PT deixou; para levantar a bandeira que o PT jogou no chão. É bandeira da independência do nosso País. Nós temos que enfrentar o imperialismo americano de qualquer jeito. É o imperialismo mais poderoso do mundo, mas temos que combatê-lo... Veja o Vietã e o Iraque... Quando um povo tem a determinação de se tornar independente, ele consegue. Às vezes paga um preço alto, mas acaba independente. Não se tem independência sem se pagar algum preço. O PT dizia isso o tempo todo e afinou. O P-Sol vem para conseguir independência, para acabar com essa bobagem do "superavit primário", que é uma expressão para enganar o povo, dizendo que ele vai ficar cada vez com menos beneficios. "Superávit primário" é só corte no orçamento!

O senhor, do alto dos 75 anos, está animado para disputar essa eleição?
Animadíssimo. Acho que temos um partido sério, uma proposta digna, decente... É uma proposta conhecida; nós não estamos inventando a roda. Estamos levantando uma bandeira que está aí há 25 anos e que foi largada. Sem contar que eu estou trabalhando agora com a moçada... E isso é ótimo: rejuvenesce!

O senhor já foi muito confundido com o Plínio Salgado?

Nossa, você nem imagina o quanto... Vou contar uma: quando fui eleito pela primeira vez, deputado federal, tinha 32 anos de idade. No meu primeiro discurso, fiquei todo empolgado. Hoje os discursos são gravados; na época era taquigrafado, transcrito e havia uma publicação impressa no dia seguinte. Fui pegar o meu discurso, no dia seguinte, e estava lá: "Plínio Salgado". Eu digo: "Plínio Salgado? Isso é um absurdo!". E fui à sala de imprensa para brigar com o pessoal. Quando eu chego lá, encontro o próprio Plínio Salgado, com a mesma indignação. Ele dizia: "Como o meu nome pode aparecer num discurso de um esquerdista desses?" (risos).

Mas os dois tinham ao menos uma coisa em comum: ambos cristãos.
É verdade! E ele era um escritor fantástico. Eu tinha divergências políticas e teóricas com ele, mas o respeitava muito. O mais incrível é a força desse nome: Plínio Salgado morreu há mais de 30 anos e ainda confundem meu nome com o dele.

maio 4, 2006

Felicidade não se compra, não se vende.

Há um tempo atrás, coisa de alguns anos, um pessoal da universidade de Milão tentou definir objetivamente o que vem a ser a felicidade. Me lembro que produziram um gráfico que relacionava o grau de dificuldade na realização de uma ação e a nossa capacidade de realizá-la. A felicidade se encontraria em um equilíbrio entre estas variáveis. Ou seja, se desejamos ou nos é requerido coisas que não conseguimos fazer ou ter, vem a frustração, a decepção e a baixa auto estima. Ao contrário, se queremos ou nos pedem pra fazer coisas que estão muito abaixo de nossa capacidade, o que vem é o tédio, o enfado, a exaustão niilista. Belos desafios, com êxito positivo, seriam o máximo de satisfação possível. Não deixa de ser interessante como modelo de analise, dando consistência a uma noção que é de qualquer forma subjetiva. Até porque, como bem definia Amartya Sen, a felicidade é também relativa. Depende muito do meio ambiente. Um pobre de um pais rico pode se sentir muito mais pobre que outro do chamado terceiro mundo, ainda que tenha um poder de compra maior e possua maior numero de objetos que o segundo. Isso porque pobre entre pobres é algo suportável, e pobre entre ricos é massacrante. Tudo relativo.

Porém não é tão simples assim. Ainda segundo o Sen, que é um prêmio Nobel de economia, a globalização é um processo complexo e irreversível. Nunca houve tamanha riqueza no planeta e nem também tanta pobreza. Inédito também o nível de desigualdade e a conseqüente infelicidade. O economista que é um liberal de esquerda, prega a resolução do problema de disparidade dentro dos países e entre os países, como uma garantia para que o verdadeiro liberalismo seja alcançado, que é o que garantiria as liberdades fundamentais, como simplesmente existir, alimentar-se, ir e vir, estudar e trabalhar. Não é segredo para ninguém que 60% da população mundial não tem essa liberdade. Algo como 3 bilhões e 800 milhões de seres humanos. Um número espantoso de potenciais infelizes.

Me lembrei disso por uma série de motivos. Abro duas revistas de divulgação científica e me deparo com uma série de definições de felicidade dadas por personagens ilustres ao longo da história. Albert Einstein disse que a busca pela felicidade em estado puro é algo inútil, pois não está ligada a bens materiais nem é uma emoção com uma finalidade em si mesma. Segundo ele, ela está no relacionamento humano: a harmonia com o próximo e a busca da verdade. Martin Seligman, psicólogo da universidade da Pensylvania diz simplesmente que o importante é saber extrair prazer das pequenas coisas da vida. Parece banal, mas de coisas banais dificilíssimas de se conseguir na prática, a vida está cheia. O prêmio Nobel da medicina de 1986, a italiana Rita Levi Montalcini dá a sua receita: ter coragem em todos os momentos, sobretudo nos mais difíceis. Ela tem 97 anos, anda bem arrumadinha, é senadora atuante e vive dando entrevistas. Coragem é o que não falta ali. Na verdade ela prefere falar da serenidade no lugar da felicidade. Bem. Outro que declarou sua noção de felicidade foi Steven Hayes, psicólogo da universidade de Nevada. Segundo as suas palavras, o segredo é não ser excessivamente crítico em relação a si mesmo. Viver cada momento como ser humano plenamente consciente; aceitar as experiências, não julgar criticamente os próprios pensamentos e encontrar um modo flexível, fluido, de realizar os valores que escolhemos. Por ultimo, selecionei a fórmula de um economista, o prêmio Nobel Daniel Kahnemann que diz também em modo muito simples: a felicidade está em saber adaptar-se as circunstâncias, sejam elas boas ou más. Me lembrei de Amartya Sen, porque para mais da metade da população mundial, uma grande felicidade seria simplesmente fazer três refeições por dia. Adaptar-se à fome é impossível. Impossível ser feliz assim.

Parece que o tema da felicidade se alarga e invade vários campos, uma preocupação dos dias de hoje. Em Janeiro deste ano o economista italiano Giorgio Ruffulo lançou um livro de economia do título: O espelho do diabo. No livro, Ruffulo traça a história da economia desde os tempos das cavernas até os dias atuais, sob uma ótica humanista. Uma das muitas perguntas que se coloca é: a economia serve às pessoas ou é o contrario? O seu texto fez tanto sucesso e é tão digerível, ou seja, nada economês, que virou uma peça de teatro de quatro horas de duração. Apesar de ser longa a encenação, a viagem através do tempo, embarcado em um tema que é presente nas nossas vidas como a economia, surpreendentemente não cansa. Mas de tudo o que se vê ou lê, a centralidade da questão é sempre essa: a economia hoje domina o mundo, está acima da soberania das nações, acima da política, acima do bem e do mal, mas não serve para distribuir felicidade. Distribui frustração, aquela que os pesquisadores de Milão encontraram em quem deseja mais do que pode. Essa economia capitalista transnacional, promete poder e o que menos dá é poder. Um modelo de economia anárquica e incontrolável que destrói e corrompe toda a sociedade, invade e quebra tudo, política, justiça, espetáculo, as artes, os relacionamentos humanos. Mas sua conclusão é otimista: nossa obsessão pelo presente nos impede de enxergá-lo como história. E na história, nós somos uma espécie ainda em evolução que em todas as catástrofes que consegue produzir, conserva uma corrente profunda de civilização. Bem, otimismo, ainda que não diga muito de concreto.

Outro economista que fala freqüentemente da felicidade é Jeremy Rifkin fundador do The Foundation on Economic Trends, principalmente quando defende uma de suas mais recorrentes teses: a da diferença entre EUA e Europa de hoje. Ele afirma que depois de séculos se matando em guerras infinitas, os europeus voltam a usar como chave para garantia de liberdade e da auto-realização, o investimento na qualidade de vida. Os americanos por sua vez, apostam ainda na acumulação de riqueza material como a estrada principal para a felicidade, coisa que segundo ele é resquício de um passado ainda muito recente da colonização, onde um ambiente sem aristocracia ou classes dominantes historicamente detentoras do poder, requeria como única condição para o avanço social, o fato de se ganhar muito dinheiro. Isso era impossível aos europeus, que viviam apertados em espaços sociais estreitos, onde o status vinha desde o nascimento, sob uma estrutura hierarquizada. Essa matriz resultou que nos dias de hoje, os americanos, como mentalidade, vivem para trabalhar, enquanto os europeus estão fazendo a escolha de trabalhar para viver. Os valores também diferem, de conseqüência. Enquanto americanos mantém um respeito fortíssimo pela propriedade, direitos civis e patriotismo, os europeus tentam a integração e socialização. Por isso para o velho mundo, a palavra de ordem hoje é cooperação, em contraposição ao exercício solitário e unilateral do poder dos novomundistas. Receitas muito diferentes para se alcançar a felicidade.

A felicidade sempre foi matéria para os produtos da cultura humana, como referencial daquilo que a esperança pode trazer. Em inúmeras ocasiões, como essa de agora dos dias que correm, serviu como motor dos desejos e de conseqüência, do próprio progresso. Desde os clássicos do teatro grego, as tragédias, com seus deuses ex maquina que resolviam magicamente os mais intrincados conflitos, até 90% dos modernos filmes americanos, passando por toda a literatura, teatro e mesmo as fábulas infantis, o final feliz é recorrente porque o desejo de se dar bem é transversal e parece não envelhecer. De fato, a origem das fábulas com final feliz, vem da ancestralidade, dos ritos de iniciação. A figura do herói que soluciona tudo nasce destes contos de tradição oral que serviam de modelo aos jovens que deveriam enfrentar o mundo com as próprias forças. Aquela coisa dos desafios e da capacidade de enfrentá-los como fonte de felicidade.

Nos dias de hoje, a fórmula se repete ad infinitum, praticamente em todos os meios de comunicação. A estrutura das telenovelas no Brasil, com a garota pobre que por razões mágicas se relaciona com o mundo dos ricos e consegue obter para si todos os ícones da modernidade, quais sejam, o dinheiro, os objetos tecnológicos, os frutos do progresso, os modernos deuses ex maquina enfim; tudo constrói uma noção otimista do mundo neste que é o paraíso dos pobres.

Mas a realidade, sabemos, é outra. Não obstante, a política no Brasil se apropriou da esperança e lançou o mote “Sem medo de ser feliz”. Até que ponto essa promessa se tornou realidade, é algo a ser verificado com calma. Se analisarmos as pesquisas de opinião, 40% da população brasileira se mostra contente. Ainda segundo as mesmas pesquisas, essa percentual representa em sua maior parte, as classes menos favorecidas, que no período do governo petista percebeu uma melhoria nas condições de vida. O ponto central a ser analisado porem é que tipo de felicidade propõe o PT. Se aquela dos rituais de iniciação, que no final das contas serve de estimulo e modelo para a ação e o empreendimento, ou a do deus ex maquina, que desce dos céus e resolve tudo mas que cria dependência e inação. Em outras palavras, a proposta era e é a da difícil felicidade baseada na inclusão e na distribuição de riquezas dentro de um contexto democrático e por isso mesmo, de confronto aberto e civil mas cooperativo, ou a felicidade é aquela dos benefícios de fachada, baseados em palavras de ordem e populismo, algo histórico e de triste tradição em nossa política e que aliada à retórica do capitalismo internacional produz ainda mais danos? Os trabalhadores brasileiros precisam de ressarcimento pelos anos de humilhação e desvalorização e não migalhas recheadas de propaganda.

Pelo que leio, o PT sabe que errou. Lula disse que não poderia errar, mas errou. Tem o mérito de reconhecer os problemas e isso é já um passo para uma melhora, não digo a resolução. O dilema hoje é esse: o PT representa uma esperança verdadeira, ou vai adotar e continuar a velha luta intestina pelo poder, feito de corrupção, conchavos e empulhação? Lembrando as palavras de Ruffulo a respeito da dependência da política em relação a economia, podemos esperar uma posição forte mas responsável ou uma destrutiva adequação aos métodos do passado? Um partido com a história que tem o PT, não pode bater com a enxada nos próprios pés dessa maneira. Não pode ter medo de ser feliz, mas também nenhum medo de ter vergonha dos próprios erros e honrar o empenho de seus militantes. Já que muitos deles, que de erros não os tem para se envergonhar, começam a ter vergonha de pertencer ao próprio partido.