Pra não dizer que não falei das flores.
Finalmente as flores! A primavera aqui na Itália é uma sinfonia ininterrupta composta de cores, sons, perfumes e brisas refrescantes. Natural vir a vontade de uma volta em bicicleta. Passo por todo o centro e vou até a ciclovia da praia e reconheço ali um senhor meio calvo que vai pedalando decidido uns cem metros adiante. Procuro alcançá-lo mas o velhinho pedala forte. Quando consigo estar mais próximo, venço o embaraço e grito por ele: Elio! Nem um sinal que demonstre ter ouvido. Grito de novo mais alto. Nada, parece surdo, mas eu sei que não é, que raios. Pedalo como um louco e gritando mais forte, depois de muito tempo ele para a bicicleta e entra em um bar. Eu o sigo e quando entro vejo que sobre o balcão estão duas taças de vinho e diante delas o velho que sorri em minha direção. Ainda esbaforido, tento lhe falar:
-Elio, seu viado, você tinha me ouvido ou não?
-Claro que tinha ouvido, queria ver como vão estas pernas.
-Mas que cazzo, eu saí pra passear, não pra me estourar os músculos.
-Olha quem é o viado aqui.
-Olha, você tem idade pra ser meu pai, pois então, com todo respeito, vai tomar no teu cu.
-Hehehe, sabe que hoje isso pode ser até um elogio? Acho que não ofende mais, justamente, essas alusões a homossexualismo.
-Vai me dizer que você é gay? Você é casado e tem filhos, é tudo de fachada? Hahaha, tipo Rock Hudson?
-Ria bobão. Mas não sou gay não, nem nunca tive vontade disso. Mas isso nunca me impediu de respeitar quem quer que seja e que como você deve ter lido nos jornais, tem menos direitos que outras pessoas.
-Os gay tem menos direitos?
-Se vê que você não lê mesmo os jornais. Um dos assuntos mais comentados por estes tempos, ainda durante a campanha eleitoral foi justamente o da legalização da união de fato. Garantir que quem é companheiro por toda uma vida, ao menos tenha os mesmos direitos de assistência e herança que os demais cidadãos.
-Claro que eu li, como não? A igreja estava morrendo de medo da esquerda ganhar a eleição, principalmente por esse tema. Mas parece que chegaram a um acordo e não vão reconhecer os casais de fato. Pra falar a verdade, eu não sei bem o que pensar. Me parece estranho que duas pessoas de mesmo sexo possam se casar, ou mesmo pensar em casamento, que é uma instituição que objetiva regrar a reprodução e por isso se baseia em uma relação que possa gerar e gerir uma familia.
-Bem, você incorporou todo o discurso dos católicos, parabéns.
-Não, sei bem que é a igreja que impede que se faça essa lei em muitos países, Itália em primeiro lugar. Justo eles, os padres, que usam saias rendadas. Mas o meu estranhamento é autônomo, sou hetero e não entrei na psicologia dos gays pra sacar isso.
-Mas o caso não é de psicologia, é de direitos. Você não precisa entender como se sente uma mulher, coisa que aliás você não conseguiria mesmo que quisesse, pra defender os direitos femininos. Se você precisa ser judeu, ou negro, ou deficiente físico para entender que estes grupos tem direitos iguais, você não sabe nada sobre direitos. Não confunda cu com bunda.
-Ok, na Espanha foi aprovada a lei de união gay. Isso não desestrutura o módulo sobre o qual se baseia toda a sociedade? Ou seja, homem, mulher e filhos é algo mais natural que dois homens por exemplo, que nem filhos podem ter.
-Você só tem que levar em conta que esta estrutura que você diz mais natural é, em termos da evolução e mesmo da própria historia, muito mas muito recente. Além disso existem milhares de exemplos de homossexualismo no mundo animal pra nos incomodar as idéias.
-Bem, vamos mudar de assunto.
-Não foi o Freud que disse que toda amizade, principalmente entre homens, tem uma componente homossexual?
-Eu sei lá, nem quero saber. Basta desse papo.
-Sempre incomoda, não tem jeito. Porque vai mexer com essas coisas que ficam latentes lá no fundo da mente.
-Não tem nada no fundo não. Era só o que me faltava. Um ex-operário comunista velho me fazendo propaganda de boiolice. Concordo com os direitos etc, mas daí a dizer que eu tenho desejos secretos è muito pra minha cabeça.
-Independente disso, não seria mal se o mundo de repente voltasse a ser mais feminino.
-Elio, olha pra você mesmo. Me vem de vomitar só de te imaginar maquiado e rebolando, meu amigo. Mas não é possível, esse vinho tá estragado, só pode.
-Não è disso que estou falando, boneca.
Elio me olhava meio de lado enquanto dizia “boneca” e logo em seguida os seus lábios secos faziam movimentos ritmados, projetando beijinhos pelo ar. Eu estava meio tonto, não pela pedalada frenética e nem menos pelo vinho. Um milhão de coisas me passavam pela mente vendo aquele quase septuagenário careca e de pele estragada, me lançando piscadelas maliciosas. Não posso negar que com menos de três segundos disso, eu estava já muito irritado:
-Vamos parar com isso, porra. Agora passou do limite. Eu vou embora.
-Tá vendo que isso mexe mesmo com qualquer um?
-Você tá querendo se revelar e não sabe como.
-Não iria ser com você caro. Eu tenho bom gosto… e estou zoando com tua cara, seu mané.
-E o que você quer dizer com mundo mais feminino?
-Brincadeiras à parte, o mundo mais feminino è um mundo mais colaborativo e justo.
-Lá vem você de novo.
-Algumas das mais recentes conclusões da arqueologia e da paleontologia, remetem a uma situação social de nosso antepassados onde a familia era simplesmente a mãe e os filhos. Os homens eram os apêndices ocasionais que serviam somente para a reprodução. Com o passar do tempo, foram as fêmeas que, como tinham contatos sociais mais intensos e também pela necessidade de transmitir conhecimento, desenvolveram a linguagem e o uso de instrumentos.
-Isso explica porque falam sem parar.
-Talvez. Foram elas também que deram impulso à agricultura e à caça cooperativa. Aliás o espírito cooperativo é muito feminino. Os machos recolhiam folhas e caçavam bichos pequenos, sempre sozinhos. No momento da procriação, a partir desse instinto de cooperativismo, as fêmeas selecionavam os machos mais colaborativos em detrimento dos egoístas, por razões de sobrevivência do grupo. Principalmente em situação de escassez de recursos isso era fundamental.
-Isso explica o harém do ponto de vista feminino, ou não?
-Exatamente. Para uma comunidade constituída de fêmeas, basta um macho pra suprir a necessidade de reprodução, sem consumir muitos recursos. Nos períodos ou locais de grande oferta de alimentos, os grupos eram mais promíscuos e se moviam muito mais pelo território.
-Mas onde você quer chegar com isso?
-Espera, a grande mudança ocorreu quando os machos começaram a aprender a linguagem e o uso dos instrumentos. Quando começaram a se constituir os primeiros aglomerados fixos, possibilitados pela agricultura cada vez mais desenvolvida. Acontece que essa atividade começou a privilegiar a força física, usada também para outra das invenções desse período: a guerra. Fixando-se no território, era necessário defender a propriedade dos ataques de outros grupos que visavam roubar os grãos ou os animais.
-Quer dizer, você considera os homens culpados por todos os males e agora devemos desmunhecar para que o mundo melhore?
-Você faz o que quiser. O ponto é que se começarmos a raciocinar em termos de grupo coletivo que é consciente da necessidade de colaboração para o bem de todos, acabaremos por assumir um comportamento que tem como base até biológica nas nossas divinas fêmeas. Se dermos mais voz e poder a elas então, o caminho fica facilitado. Meu caro, não é à toa que as divindades antigas eram todas belas fêmeas. Já reparou que quando surgiram os deuses machos, todos soltam fogo e raios e mandam pra guerra, essas coisas?
-Elio, você tem feito exame de sangue?
-O que isso tem a ver?
-Como tá teu nível de testosterona?
-Vamos fazer o seguinte. Vamos ali atrás, eu jogo esse guardanapo no chão, você se abaixa pra pegar e fica sabendo na hora como anda meu testosterona.
-Vai tomar no…vai a merda!

“Está na hora de vocês trocarem o número dos seus telefones celulares, rápido.” 
Em Confissões... temos, portanto, a visão de alguém que outrora participou e viu de perto as engrenagens do poder mundial, e não de um mero crítico externo e extemporâneo. De alguém que já havia tentado escrever essas memórias antes, mas nunca havia prosseguido na ação. De alguém que, depois do 11 de setembro de 2001, quando já estava trabalhando apenas com tribos indígenas na Amazônia, resolveu de uma vez por todas relatar suas experiências como um “assassino econômico” (AE). Ele lembra: “No momento [imediato pós 11-S] uma coisa era certa: o meu país estava pensando em vingança, e estava concentrado em países como o Afeganistão. Mas eu estava pensando sobre todos os outros lugares do mundo onde as pessoas odiavam as nossas empresas, os nossos militares, as nossas políticas, e a nossa marcha em direção ao império mundial”. Essa passagem esconde também a fraqueza mais notável de Perkins, a saber, a falta de uma condenação enfática do ato terrorista, que não se justificaria nem mesmo pelo ódio árabe infligido pela América S.A. (Gore Vidal). Nem por isso seu livro deixa de ser indispensável. Vejamos algumas ações dos AEs nos últimos anos, relatadas por Perkins.
O Kermit para a Venezuela, Perkins detecta: Otto Reich, que, quando do golpe contra Chávez em 2002, era secretário-assistente de Estado para assuntos internacionais por indicação de W. Bush. Quando o jornal Los Angeles Times, em abril de 2002, revelou que “funcionários da administração Bush reconheceram (...) que haviam discutido a remoção do presidente (...) Chávez por meses com líderes militares e civis da Venezuela (...)”, dificilmente não poderemos vislumbrar Otto Reich entre esses “funcionários”. Reich, aliás, que tem uma nada desprezível folha de serviços prestados à América Latina, entre os quais envolvimento no caso Irã-contras da década de 1980 – venda ilegal de armas ao Irã, para financiar esquadrões da morte de direita na Nicarágua. Quando o golpe contra Chávez expirou, depois de 70 horas de duração, e ele foi reconduzido à presidência por amplos setores civis e militares, ficou claro para Perkins que “não só os AEs haviam falhado, mas também os chacais”, que, a exemplo de Kermit, entram em ação para desestabilizar governos que não lograram ser dobrados pelos AEs. 