Política
Biajoni blog do autor
o rashomon do caso palocci
Na "Home: Entenda" da "Primeira Leitura" consta uma matéria que pode servir de exemplo do direcionamento que se pode dar para a questão política mais fervilhante do momento, a saída de Palocci.
Rui Nogueira inicia dizendo que vai nos contar a "Verdadeira História da Demissão de Palocci". A "verdade" é uma coisa estranha, vai dizer? Depende de um emissor, de um receptor, de níveis de entendimento. Mas ele diz que vai dizer a verdadeira verdade - e isso já induz o leitor/receptor a acreditar.
Já no primeiro parágrafo ele afirma que "O caso Francenildo-Palocci" é "a mais criminosa violação do Estado de Direito perpetrada da redemocratização brasileira para cá". É um julgamento de valor, e dá para citar pelo menos meia dúzia de casos criminosos, que vieram a público ou não, piores que o "caso" em questão. Rui segue dizendo que as ações correram "com a participação explícita de pelo menos quatro personagens da República: o próprio presidente da República e os ministros Marco Aurélio Garcia (assessor especial para assuntos externos), Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência), Jaques Wagner (Relações Institucionais) e Dilma Rousseff (Casa Civil)". Ou o Rui (permita-me a intimidade) é onipresente ou tem informações quentíssimas lá de dentro, talvez da suíte nupcial do presidente.
Alguns poucos parágrafos abaixo, Rui cita uma certa "parolice jornalística" que talvez, em seu julgamento, Lula poderia querer a cabeça de Palocci por algum sentimento assim, quem sabe, de traição ao saber que, sim, o sigilo bancário de Francenildo era de conhecimento do "irmão" Palocci. Bem, Lula é cúmplice e depois se sente traído. Shakespeare, eu diria.
E seguem aí conexões extremamente desconexas (ou conexas, se seu humor for de concordância com a verve do autor) até que ele se deixa opinar sobre a função/competência de Palocci no que se refere à estabilidade econômica. Ele joga a política econônica do Governo Lula no ralo ao afirmar (ou isso não é uma afirmação?): "Lula deve, confessadamente, muito a Palocci, mas não deve, com certeza, o ambiente de estabilização econômica que seu governo festeja a todo o momento e que nos põe, dizem, às portas de um ciclo virtuoso de crescimento inédito. Essa estabilização, melhorada em alguns aspectos e piorada em outros, é de autoria inteira do governo FHC.".
A coisa vai por aí, num viés de desapaixonada cara-de-pau como no parágrafo "Na história do PT, nunca houve um petista mais dissimulado que Lula", onde o autor não se deu nem ao capricho de colocar um "Eu acho que" no início da frase. Não! Tudo é vomitado como verdade, a verdadeira maionese goela abaixo do incauto leitor.

Grande jornalista, um dos mais importantes do País, Claudio Tognolli tem escrito aqui e ali sobre a crise, sobre o caso. No Consultor Jurídico, mídia pequena e pontual, mais uma vez Tognolli destaca-se colocando na íntegra o depoimento de Palocci à Polícia Federal.
Ele faz um "abre" enxuto e jornalístico, sem as induções do companheiro Rui, do "Primeira Leitura". E, a seguir, vem a visão/versão do excelentíssimo ex-ministro. Ou não tão excelentíssimo assim.
O que acontece lá longe, em Brasília, por mais liberdade de imprensa que se tenha, ou fontes, ou imparcialidade, vai ser sempre UMA VERDADE de muitas versões. Assim como foi desde sempre. Assim como foi no Governo FHC. As ilações e as conversas que se têm no pé do ouvido serão sempre duas verdades, no mínimo.
Como em torcidas de futebol, é comum que um grupo torça e retorça palavras em prol deste ou daquele grupo. Podemos falar de fatos, podemos dizer qual foi o time que fez o gol; como ele aconteceu. Algumas vezes, quem vence não é o melhor. Um grande técnico faz pouco com um pequeno time - e vice-versa. Seguem ademais comparações possíveis na cabeça dos leitores desse texto.
Adágios populares muitas vezes estão certos.
13/abr/06 |
19:37 |
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