Maria Helena Nóvoa blog do autor
Mídia é meio ou fim em si mesma?
Oferecendo um salário de US$ 563 mil por ano – mais do que ganha o Presidente dos Estados Unidos - a Universidade de Harvard está à procura de um novo reitor desde que o último, Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro do governo Clinton, foi obrigado a renunciar, em março, em meio a uma crise.
O ex-reitor da graduação, professor Harry Lewis, autor do livro “Excelência sem alma: como uma grande universidade esqueceu a educação”, diz que a universidade manteve-se como uma grife mas perdeu o rumo, os valores, e não há mais consenso sobre o que quer dizer educar.
Do lado de cá da linha que divide o mundo ao meio, na banda pobre, um ex-professor que renunciou ao cargo conquistado em concurso no Estado de São Paulo, e que não lhe rendia nem R$ 2 mil por mês, explicava o tresloucado gesto: “Se os alunos não quiserem aula naquele dia, ninguém consegue dar aula. A qualquer sanção, eles ameaçam com denúncias ao Conselho Tutelar, apoiados no Estatuto do Menor e do Adolescente. Os diretores têm medo dos alunos e não podem fazer grande coisa. A bagunça está generalizada e perdemos totalmente o rumo”.
O professor americano diz que “Harvard seguiu a massa e passou a se preocupar mais com a satisfação dos estudantes do que com a educação. Harvard era consciente da sua missão de transformar jovens dependentes em adultos independentes, prontos para assumir responsabilidades diante da sociedade. Agora, não encorajamos mais os estudantes a fazer perguntas perturbadoras sobre eles mesmos, caminho que os grandes pensadores levam seus leitores a seguir, desde Platão. A universidade está mais interessada em ver os estudantes felizes. O resultado é que os estudantes não têm mais ajuda para se tornarem adultos responsáveis nem para distiguir o que é fundamental para a sua formação do que é apenas interessante. Resumindo, eu diria que é a cultura consumista, o significado da mídia em todos os aspectos da vida”.
E o professor paulista - não de universidade mas de segundo grau - argumenta: “Os alunos não querem estudar e não querem pensar. Querem ganhar dinheiro rápido e consumir. Seus sonhos se limitam a roupas e carros, sua cultura é TV, futebol e funk. Eu não tinha nenhum mecanismo de controle, nem mesmo a reprovação. Um dia, ainda íamos sair no tapa e não seria o primeiro da escola a apanhar de alunos. Pulei fora antes que isso acontecesse”.
Harvard é considerada a melhor universidade do mundo. Tem um orçamento anual de US$ 2,5 bilhões de dólares. Aceita por ano apenas 1.600 alunos dispostos a pagar uma anuidade de US$ 37.928. Tem dois mil professores e, entre os que ensinam ou ensinaram ali, 41 receberam o Nobel.
Nossa rede pública é o que todos sabemos. Mas os problemas apontados pelos que batalham no dia a dia do ensino talvez sejam semelhantes. Lá e cá, os professores se queixam da impossibilidade de transmitir valores e da influência consumista da mídia.
Quem é o maior responsável pela educação dos jovens? Quem tem maior poder de guiar – a família, a escola, a mídia?
Parece que a escola perde. Mídia e família disputam o principal papel formador dos valores da juventude.
Uma zapeada pelas TVs - aberta ou assinada – vai mostrar rapidinho como se constroem idolatrias. Violência, vaidade, indução à sexualidade precoce. E um absurdo consumismo, levando a revolta àqueles que não podem consumir.
A disseminação do desejo impossível talvez seja a sombra da tecnologia fantástica que temos hoje. Os carros, as casas, as roupas, os acessórios com que a mídia nos bombardeia são inacessíveis para os normais. E não há manual de auto-ajuda que possibilite conseguir o que nos obrigam a sonhar. Descobrimos que o universo não conspira a nosso favor e o que resta, depois de muito esforço frustrado, é um sentimento de fracasso no mundo material e espiritual. Somos perdedores, nos dois.
O caderno feminino d’O Globo – que sai aos sábados, dia em que a mulher tem mais tempo para ler suplementos – começa assim uma matéria, no último fim de semana: “Diga de onde é a sua bolsa que te direi quem és. As bolsas se transformaram em símbolo de status e estilo. Vale até impulsionar a bolsa para a frente, para ela chegar antes de você”.
E, por uma página inteira, temos fotos e preços de bolsas. Bolsas de 2.000; 3.000; até chegar a uma, de R$6.327,00. Eu leio e pergunto cá com meus botões – Quem pode comprar estas bolsas? Nem mulher de deputado (honesto). Ainda que possa, quem será idiota de pagar este absurdo por um objeto que não tem material nem mão-de-obra que justifique o preço? E afinal, meu Deus, uma bolsa é apenas uma bolsa.
O último caderno de carros do mesmo jornal joga, na primeira página: “Salão em Monte Carlo mostra automóveis para quem acha trivial demais ter Porsche ou Ferrari”. E podemos nos deliciar por várias páginas com carros de milhares de dólares. A quem isto interessa? Mas em quem isto instila o desejo?
A mídia funciona com concessões. O que faz com este poder concedido?
Valores não são discurso, são exemplo. São amostras do que é desejável. E as amostras que a mídia nos dá, massacrantemente, são valores bastante discutíveis. O que este bombardeio diário faz com nossos jovens?
Se as pessoas fossem imunes à criação de desejos, a propaganda não existiria. Contra o desejo fútil criado pelo capital, outros desejos deveriam ser implantados por quem tem poder semelhante – a família ou a escola. Mas a família está só, com pais cada vez mais ausentes e crianças e jovens mais dependentes da TV. Parece que a grande formadora dos valores dos nossos jovens é mesmo a mídia.
Nas culturas dominantes, as universidades eram o farol que orientava o próprio mundo e os mundos dominados. Salamanca, Oxford e, de muitas décadas para cá, Harvard, criaram o conhecimento do mundo civilizado.
O conhecimento que não gera sabedoria, gera um mal maior – talvez - do que a ignorância. Produz a “vanidade”, ou a vaidade: o atributo do que é vão. Do que é oco. Do que não tem densidade. O conhecimento ou constrói o sábio ou se esgota em exibições tolas e vaidosas de si mesmo. Deve ser isto o que o professor de Harvard aponta em seu livro.
Transitamos, cada vez mais, num universo oco, recheado de imagens e palavras. Temos uma abundância jamais sonhada de possibilidades de habitar o vazio, quando a luta do homem, desde seus primórdios, foi organizar o caos e jamais mergulhar nele.
O oposto da realidade, da densidade, é a vacuidade – a vaidade. Que a mídia cultua e erige como valor.
Qualquer aposta – ou projeto, como se diz hoje – no vazio faz sucesso e encontra adeptos. Algum deus perverso, ou anti-deus, deve estar a rir bastante: o mundo se move na indústria laboriosa de organizar o inexistente. Multidões passam suas vidas trabalhando para construir a própria vaidade ou a alheia. Estamos em plena era da frivolidade e o que é denso saiu de moda. Na mídia, na educação e na família. O que é pena, porque afinal só lembramos daquilo e daqueles que pesaram o suficiente para nos marcar.
27/abr/06 |
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