" /> B o m b o r d o: abril 2006 Archives

« março 2006 | Main | maio 2006 »

abril 27, 2006

Mídia é meio ou fim em si mesma?

Oferecendo um salário de US$ 563 mil por ano – mais do que ganha o Presidente dos Estados Unidos - a Universidade de Harvard está à procura de um novo reitor desde que o último, Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro do governo Clinton, foi obrigado a renunciar, em março, em meio a uma crise.
O ex-reitor da graduação, professor Harry Lewis, autor do livro “Excelência sem alma: como uma grande universidade esqueceu a educação”, diz que a universidade manteve-se como uma grife mas perdeu o rumo, os valores, e não há mais consenso sobre o que quer dizer educar.

Do lado de cá da linha que divide o mundo ao meio, na banda pobre, um ex-professor que renunciou ao cargo conquistado em concurso no Estado de São Paulo, e que não lhe rendia nem R$ 2 mil por mês, explicava o tresloucado gesto: “Se os alunos não quiserem aula naquele dia, ninguém consegue dar aula. A qualquer sanção, eles ameaçam com denúncias ao Conselho Tutelar, apoiados no Estatuto do Menor e do Adolescente. Os diretores têm medo dos alunos e não podem fazer grande coisa. A bagunça está generalizada e perdemos totalmente o rumo”.

O professor americano diz que “Harvard seguiu a massa e passou a se preocupar mais com a satisfação dos estudantes do que com a educação. Harvard era consciente da sua missão de transformar jovens dependentes em adultos independentes, prontos para assumir responsabilidades diante da sociedade. Agora, não encorajamos mais os estudantes a fazer perguntas perturbadoras sobre eles mesmos, caminho que os grandes pensadores levam seus leitores a seguir, desde Platão. A universidade está mais interessada em ver os estudantes felizes. O resultado é que os estudantes não têm mais ajuda para se tornarem adultos responsáveis nem para distiguir o que é fundamental para a sua formação do que é apenas interessante. Resumindo, eu diria que é a cultura consumista, o significado da mídia em todos os aspectos da vida”.

E o professor paulista - não de universidade mas de segundo grau - argumenta: “Os alunos não querem estudar e não querem pensar. Querem ganhar dinheiro rápido e consumir. Seus sonhos se limitam a roupas e carros, sua cultura é TV, futebol e funk. Eu não tinha nenhum mecanismo de controle, nem mesmo a reprovação. Um dia, ainda íamos sair no tapa e não seria o primeiro da escola a apanhar de alunos. Pulei fora antes que isso acontecesse”.

Harvard é considerada a melhor universidade do mundo. Tem um orçamento anual de US$ 2,5 bilhões de dólares. Aceita por ano apenas 1.600 alunos dispostos a pagar uma anuidade de US$ 37.928. Tem dois mil professores e, entre os que ensinam ou ensinaram ali, 41 receberam o Nobel.

Nossa rede pública é o que todos sabemos. Mas os problemas apontados pelos que batalham no dia a dia do ensino talvez sejam semelhantes. Lá e cá, os professores se queixam da impossibilidade de transmitir valores e da influência consumista da mídia.

Quem é o maior responsável pela educação dos jovens? Quem tem maior poder de guiar – a família, a escola, a mídia?

Parece que a escola perde. Mídia e família disputam o principal papel formador dos valores da juventude.

Uma zapeada pelas TVs - aberta ou assinada – vai mostrar rapidinho como se constroem idolatrias. Violência, vaidade, indução à sexualidade precoce. E um absurdo consumismo, levando a revolta àqueles que não podem consumir.

A disseminação do desejo impossível talvez seja a sombra da tecnologia fantástica que temos hoje. Os carros, as casas, as roupas, os acessórios com que a mídia nos bombardeia são inacessíveis para os normais. E não há manual de auto-ajuda que possibilite conseguir o que nos obrigam a sonhar. Descobrimos que o universo não conspira a nosso favor e o que resta, depois de muito esforço frustrado, é um sentimento de fracasso no mundo material e espiritual. Somos perdedores, nos dois.

O caderno feminino d’O Globo – que sai aos sábados, dia em que a mulher tem mais tempo para ler suplementos – começa assim uma matéria, no último fim de semana: “Diga de onde é a sua bolsa que te direi quem és. As bolsas se transformaram em símbolo de status e estilo. Vale até impulsionar a bolsa para a frente, para ela chegar antes de você”.
E, por uma página inteira, temos fotos e preços de bolsas. Bolsas de 2.000; 3.000; até chegar a uma, de R$6.327,00. Eu leio e pergunto cá com meus botões – Quem pode comprar estas bolsas? Nem mulher de deputado (honesto). Ainda que possa, quem será idiota de pagar este absurdo por um objeto que não tem material nem mão-de-obra que justifique o preço? E afinal, meu Deus, uma bolsa é apenas uma bolsa.

O último caderno de carros do mesmo jornal joga, na primeira página: “Salão em Monte Carlo mostra automóveis para quem acha trivial demais ter Porsche ou Ferrari”. E podemos nos deliciar por várias páginas com carros de milhares de dólares. A quem isto interessa? Mas em quem isto instila o desejo?

A mídia funciona com concessões. O que faz com este poder concedido?

Valores não são discurso, são exemplo. São amostras do que é desejável. E as amostras que a mídia nos dá, massacrantemente, são valores bastante discutíveis. O que este bombardeio diário faz com nossos jovens?

Se as pessoas fossem imunes à criação de desejos, a propaganda não existiria. Contra o desejo fútil criado pelo capital, outros desejos deveriam ser implantados por quem tem poder semelhante – a família ou a escola. Mas a família está só, com pais cada vez mais ausentes e crianças e jovens mais dependentes da TV. Parece que a grande formadora dos valores dos nossos jovens é mesmo a mídia.

Nas culturas dominantes, as universidades eram o farol que orientava o próprio mundo e os mundos dominados. Salamanca, Oxford e, de muitas décadas para cá, Harvard, criaram o conhecimento do mundo civilizado.

O conhecimento que não gera sabedoria, gera um mal maior – talvez - do que a ignorância. Produz a “vanidade”, ou a vaidade: o atributo do que é vão. Do que é oco. Do que não tem densidade. O conhecimento ou constrói o sábio ou se esgota em exibições tolas e vaidosas de si mesmo. Deve ser isto o que o professor de Harvard aponta em seu livro.

Transitamos, cada vez mais, num universo oco, recheado de imagens e palavras. Temos uma abundância jamais sonhada de possibilidades de habitar o vazio, quando a luta do homem, desde seus primórdios, foi organizar o caos e jamais mergulhar nele.

O oposto da realidade, da densidade, é a vacuidade – a vaidade. Que a mídia cultua e erige como valor.

Qualquer aposta – ou projeto, como se diz hoje – no vazio faz sucesso e encontra adeptos. Algum deus perverso, ou anti-deus, deve estar a rir bastante: o mundo se move na indústria laboriosa de organizar o inexistente. Multidões passam suas vidas trabalhando para construir a própria vaidade ou a alheia. Estamos em plena era da frivolidade e o que é denso saiu de moda. Na mídia, na educação e na família. O que é pena, porque afinal só lembramos daquilo e daqueles que pesaram o suficiente para nos marcar.

abril 26, 2006

Minha terra sua casa

mapadelopoh.jpg
Nossa terra já foi plana
Imensa com quatro cantos
No umbigo do universo
Hoje ela orbita uma estrela
De grandeza mediana
E mal se consegue vê-la
Um grão de areia disperso
No meio de outros tantos

Terra à vista oferta a prazo
Água fogo barro e vento
Dor paixão poesia e morte
A pobreza e o alimento
A aurora e o ocaso
Mesmo que haja vida em Marte
Prefiro morar aqui
Entre o Oiapoque e o Chuí

Luxo é viver cá na Terra
Jardim que resiste à guerra
Lixo que grafita o espaço
Sob o cruzeiro do sul
O astronauta deu um passo
Olhou de fora pra ela
E descobriu que é azul
Mas também verde-amarela

Terra o pó o piso o pib
O solo que a gente planta
A mãe o pai a família
A mão o pé a colheita
O desterro a Terra Santa
O lugar onde se deita
O tanto que o ouro brilha
Quando a luz do sol se exibe

Terra gentil tua beleza
Anda abatida cinzenta
Porém mesmo no infinto
Onde outras quânticas leis
Não acho nem achareis
Nenhum lugar mais bonito
De tão rica natureza
E gente tão violenta

.

Minha contribuição "quae sera tamen" à blogagem coletiva pelo Dia da Terra (22 de abril) proposta pela Lucia Malla e apoiada pelo Nós na Rede.

.

Ilustração: Quadro de Adriana Varejão, "Mapa de Lopo Homem", 1992 , 110x140cm, óleo sobre madeira e linha de sutura.

abril 24, 2006

Nada a ver com futebol

Com eleições presidenciais, em ano de Copa do Mundo, é grande a chance de tratar de um tema complicado como o das relações internacionais como se fosse uma disputa de times, jogadores abraçados em suas bandeiras nacionais empenhados em levar a taça para casa, sob o olhar invejoso dos adversários, de inferioridade comprovada no campo. Sinais dessa futebolização do debate externo já começaram.

E é muito fácil não entender a vizinhança, que os brasileiros insistem em fundir na mesma imagem esfumaçada de cucarachos, não importa se bolivianos, argentinos, paraguaios ou colombianos. Afinal, nem o mesmo portunhol falamos. Brasileiros malemolentes falam em tarra de rruros, quando pensam dizer tasa de interés, a taxa de juros dos hispanohablantes.

Os argentinos amistosos pedem um "ratinho", quando precisam de um ratito, um tempinho para alguma coisa. Eles chamam de cubierto o que chamamos de talher; de taller o que chamamos de oficina; de oficina o que denominamos de escritório; de escritório o que, para nós é mesa. Lama para eles é lodo. E chamam lodo de... lama. Lama, lodo, atolamos todos, cada um de um jeito.

É um diálogo esquisito (mas "esquisito", para eles, é sofisticado; melhor dizer que é um diálogo raro), esse, de vizinhos com histórias de disputas, de desconfianças, de rancores e invejas. O mar foi arrancado da Bolívia pelos chilenos e peruanos; a expectativa de futuro assolada, no Paraguai, pelos brasileiros, argentinos e uruguaios. Disputas de fornteiras sangram até hoje entre os andinos. Os argentinos poluem com suas papeleiras o rio que banha o Paraguai e impedem os uruguaios de contruírem fábricas de papel que ameaçam poluir margens argentinas.

Mais recentemente, a exploração do gás boliviano e da energia das hidrelétricas binacionais com o Paraguai levantam quimeras nacionalistas, alimentadas pela história de extração de recursos naturais do rico subsolo latino-americano. O ressentimento dos países pobres, à volta, cresce contra o Brasil, cada vez mais identificado com o imperialismo demonizado pelos governos populistas do continente _ à medida em que empresas brasileiras se expandem pela vizinhança, explorando oportunidades, empregando gente, contrariando interesses e despertando cobiça.

Como já diziam o tucano Celso Lafer, e o neopetista Celso Amorim, a América do Sul não é escolha, é destino para o Brasil. É para onde negócios, turismo, relações, cultura dos brasileiros tendem a se expandir. Ou de onde poderão vir ameaças à estabilidade no Brasil, sob a forma de crises econômicas nos parceiros vizinhos, fluxos migratórios da miséria ao lado, ou abrigo e fonte de crime e ilícitos.

Por mais que defendam até a morte que Maradona é melhor que Pelé _ ou, se duvidar, que Ronaldinho _ os argentinos são os sócios preferenciais do Brasil. Pela desconfiança da malandragem brasileira, ou pela tradição lunfarda, não raro tentam aplicar preventivamente as espertezas de que acreditam ser vítimas. Mas é destino. Como paulistas e cariocas, pernambucanos e cearenses, catarinas e gaúchos, as diferenças culturais, folclóricas, até políticas permanecerão. Mas imaginar a relação Brasil e Argentina como uma disputa para ver quem leva à taça não dará vitória a nenhum dos lados.

Digo isso pensando em como a campanha eleitoral deve ter como um dos motes a pretensa frouxidão do governo brasileiro em relação às demandas argentinas. Nada mais falso, para quem acompanhou de perto as negociações que limitaram, em muito, as pretensões argentinas para o futuro do Mercosul, um futuro que queriam cheio de exceções e preferencias. estavam no seu direito, o que levaram não foi um terço do que pediram até hoje. Ceder aos argentinos nem sempre é perder o jogo. Depende do que se cede, do que se ganha em troca, e do que está em campo.

Ia falar aqui sobre outro mito que seguramente será ser explorado nessa campanha presidencial, o de que foi o Brasil quem implodiu as negociações da Alca e de que, com isso, os EUA estão isolando o país, com acordos de livre comércio em todo o continente. Para começo de conversa, os EUA só firmaram acordo de livre comércio inequestionável e irreversível, até agora com a Colômbia, que já gravita a economia norte-americana. Os acordos negociados com o Peru e Equador estão sob forte questionamento, e, de fato, têm sérios problemas. Mas disso falaremos numa próxima oportunidade nesse bombordo.

Um pensador tagarela em 2001, já dizia que não interessava ao Brasil um acordo com os Estados Unidos que não incluísse liberdade para leis de patentes, redução real de enormes tarifas protecionistas americanas em itens como suco de laranja ou aço, e mecanismos para impedir que os gigantescos subsídios norte-americanos à agricultura arrasem produtores do resto da América do Sul. Os acordos firmados pelos EUA com países andinos desprezam essas demandas, o que é, aliás, um dos motivos dos protestos que provocam, no Peru e Equador. Daí o pensador, em 2001, dizer que uma Alca sem essas condições seria "irrelevante, ou, na pior das hipóteses, indesejável". O autor dessa análise se chama Fernando Henrique Cardoso.

abril 21, 2006

entrevista rápida com marta suplicy

Marta Suplicy chegou pontualmente com dez minutos de atraso. Ela desviou-se do itinerário previsto (saída 9h de São Paulo, reunião 11h em Piracicaba) para gravar duas entrevistas para a TV Jornal de Limeira, emissora local que eu dirijo. Uma das entrevistas era para um programa policial; outro para o jornal, falando especificamente sobre a prévia do PT que ela disputa com Mercadante - o senador goza de um super-prestígio meio inexplicado na região. Entre uma entrevista e outra, bateu um papo comigo para o Bombordo.

Eu trabalhei um pouco no Governo Marta; mais especificamente na implementação da Coleta Seletiva Solidária, das Centrais de Triagem, do desenho do (polêmico) novo sistema de coleta de resíduos. Trabalhei na coordenação de seminários nacionais e internacionais de gerenciamento de resíduos. Marta é um dos políticos que mais entende e se sensibiliza com a questão do lixo. Sua "taxa do lixo" é muito interessante - e as críticas vêm, geralmente, de quem não conhece o projeto de fato.

Ela chegou com um conjuntinho florido, em perfeita forma. Perfumada, do alto dos seus 1,65m, sempre que a encontro lembro de suas participações na TV Mulher. Ô nostalgia!

Marta Suplicy anda pelo interior do Estado na tentativa de convencer a militância do PT - e a opinião pública - de que é o melhor nome para concorrer ao Gverno do Estado. O corpo-a-corpo é para mostrar que a senhora é melhor que o Mercadante?

(risos) Do jeito que você coloca... (risos) Mas... no frigir dos ovos, é isso mesmo. A gente tá batalhando muito, suando a camisa, para sair candidata ao Governo do Estado pelo PT. E a primeira etapa é a prévia, que acontece dia 7 de maio. Eu estou muito confiante. O militante vai usar a cabeça e ver que a minha candidatura -, com a bagagem que eu tenho, com o aprendizado que foi administrar a cidade de São Paulo, com o que temos para mostrar - é a que tem mais condição de disputar com José Serra. Em 1998 fui candidata ao Governo do Estado, perdi por pouquinho, você deve se lembrar, e agora devo correr muito para me apropriar do interior. Fui prefeita de São Paulo, onde deixei marcas muito fortes -, que o pessoal do inteiror conhece - como os CÉUs, o bilhete único para o transporte coletivo, o maior projeto de renda mínima do Brasil... E agora eu quero ser a "prefeita" do interior. Para isso eu preciso escutar os anseios do interior e ter um programa de governo muito forte.

Limeira tem uma peculiaridade: Mercadante teve aqui a maior votação do interior do Estado para o Senado...

Que bom! Eu fico contente com isso que você está me contando, Biajoni. Isso mostra que há uma "avenida" aberta para o PT aqui. Mostra que o PT aqui tem espaço.

A senhora disse que perdeu o Governo do Estado por pouco em 98; assim como a senhora perdeu a Prefeitura de São Paulo por muito pouco na eleição passada. Por quê a senhora perdeu a reeleição?

Foram duas coisas muito diferentes. Em 98 eu deixei de ir para o segundo turno com Maluf por 0,4% dos votos - e foi por conta de uma manipulação de pesquisa. A pesquisa foi colocada de forma equivocada e eu sei que você se lembra: era Maluf e Rossi, e estávamos eu e Covas... Disseram que eu estava em quarto lugar - e então o PT "descarregou" no Covas, para não precisar escolher entre Maluf e Rossi. Na eleição municipal foi 49% a 45% dos votos válidos. Perdemos pois estávamos contra um candidato muito forte, o candidato mais forte do PSDB, que veio com a grande promessa de ter sido "o grande ministro da saúde" e que ia "consertar a saúde da cidade de São Paulo". E a saúde era nosso ponto fraco, pois recebemos o PAS privatizado pelo Maluf e Pita e que estava totalmente devastado... O Serra assinou um compromisso com a população de que não ia deixar o cargo... não cumpriu o compromisso... deixou a cidade de São Paulo com uma pessoa que não representa nada. O vice, atual prefeito, Gilberto Kassab, do PFL, não teve voto nunca em São Paulo e vai ficar três anos administrando a maior cidade do Brasil. Assim como o PFL vai administrar o Estado de São Paulo com a saída do Alckmin -, sem ter votos representativos... E o que mais impressiona é que as primeiras ações do prefeito Kassab foram permitir voltar os ônibus velhos para a cidade e acabar com o programa dos desempregados, o "Frente de Trabalho". Isso, no final, foi o que o Serra está deixando para a cidade.

A senhora citou essa carta do Serra, o compromisso de cumprir o mandato... e eu vejo muita gente falar sobre isso. Mas o Palocci também fez isso aqui em Ribeirão Preto. Deixou a prefeitura para ir para o Governo Lula...

(silêncio)

O Governo Lula tinha uma série de aliados, petistas históricos, que iam salvar o País... e eles todos estão fora hoje: José Dirceu, Genoíno, o próprio Palocci... O PT perdeu quadro e credibilidade, apesar do presidente, não. Como partido, comoa senhora vê o PT hoje?

O presidente está resguardado com os 40% dos votos, pois a população sabe que ele não participou de tudo o que aconteceu. E a população -, fora o presidente falar a língua do povo -, vê o "concreto" do lado dela. Tá comendo melhor; o salário mínimo tá comprando mais; tem mais gente empregada na família; o filho que não podia fazer faculdade (porque era cara) tem o Pró-Une que tá ajudando... Então a população entende o que o presidente fala e que ele age pelo mais carente... O militante acreditou desde sempre e nunca deixou de empunhar a bandeira do PT... Por isso, como petista histórica também, eu tenho tanta vontade de ser governadora: para poder fazer e ajudar o Presidente... Com essa cooperação entre o maior estado da União e o Governo Federal podemos fazer uma grande mudança em São Paulo.

Bom, dia sete está aí. Por quê os militantes devem escolher a senhora e não o Mercadante?

Pela bagagem. Eu tive um cargo executivo... Tanto Genoíno, Dirceu e eu própria, quando concorri, não tínhamos experiência administrativa. Na eleição municipal perdemos por pouco, quando tínhamos 49% de avaliação "ótimo" e "bom". As contas da minha administração foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado - o que é muito difícil: desde Jânio Quadros isso não ocorria... nem com Erundina, Maluf ou Pita! Foi uma administração revolucionária. Nós conseguimos reconstruir a cidade de São Paulo. Por isso eu fico triste de ver o Serra sair deixando o Kassab como prefeito. O Kassab foi Secretário do Pita... O que eles destruíram em 8 anos, nós passamos 4 reconstruindo.. E agora pode ser tudo destruído de novo... Isso não foi legal com o morador de São Paulo.

Marta, Boa sorte.

Obrigada.

abril 20, 2006

O voto nulo anula o eleitor ou o político? E o voto obrigatório, anula quem?

Um dos movimentos mais tolos que tem prosperado na Internet é a campanha pelo voto nulo. Como se não bastasse a fraca argumentação de seus defensores, há, dentro dela, uma mentira transformada em verdade: a de que, se acontecerem mais de 50% de votos nulos, a lei decretaria uma segunda eleição na qual os candidatos da primeira seriam impedidos de concorrer.

Basta ler a Lei 4737 de 15 de julho de 1965, ainda em vigor, para assegurar-se do absurdo. Os partidários do voto nulo lêem este artigo,...

Art. 224. Se a nulidade atingir a mais da metade dos votos do País nas eleições presidências, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do Município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias.

... que serve apenas para conter excessos e abusos ocorridos na eleições - pois quatro artigos antes, há a definição do que é a tal "nulidade" - ...

Art. 220. É nula a votação:
- quando feita perante mesa não nomeada pelo juiz eleitoral, ou constituída com ofensa à letra da lei;
- quando efetuada em folhas de votação falsas;
- quando realizada em dia, hora, ou local diferentes do designado ou encerrada antes das 17 horas;
- quando preterida formalidade essencial do sigilo dos sufrágios.
- quando a seção eleitoral tiver ido localizada com infração do disposto nos §§ 4º e 5º do art. 135.

... e concluem que vão riscar do Brasil toda a corja política. Brilhante, não?

Os artigos 221, 222 e 223 também falam na anulação da eleição, mas tratam de falsa identidade, obstrução da fiscalização e outros atos que comprometam a legalidade do pleito. Não há referências a quaisquer impedimentos de candidatos.

Mas os sites e spams vão mais longe, ensinando até como operar, na urna eletrônica, o novo "voto útil", o nulo. Por exemplo, recebi por e-mail, de um adolescente, um artigo escrito pelo maravilhoso e collorido ex- Secretário Nacional de Cultura Ipojuca Pontes, publicado em vários sites, ensinando a como chegar à panacéia. O artigo de centenas, talvez milhares, de palavras, pode ser resumido perfeitamente assim, pois não diz nada - mas nada mesmo! - , além disto:

Para acionar o voto nulo basta o cidadão digitar um número que não pertença a nenhum candidato. Para confundir o eleitor, a urna eletrônica acionada indicará que o presumível voto nulo é "errado", surgindo na tela o pedido para que o eleitor corrija a digitação. Trata-se de um engodo programado. Depois, mesmo com o aparecimento do aviso "errado", é só apertar a tecla verde para confirmar o voto nulo. Com o gesto, o eleitor acaba por mandar Lula e espécimes congêneres para o olho da rua. Tem voto mais útil?

(palavras do próprio obtuso)

Há burrice maior? Ipojuca realmente pensa que anulará "Lula e seus congêneres" com esta estratégia? É incrível, mas parece que sim. Trata-se de uma tentativa simplória. É cômico como a direita seduz-se, lambuza-se e imitar seus Olavos, Francis, Ipojucas e suas outras "sumidades", tão bem conhecidas. E é peculiaríssima a mistura de anti-nacionalismo, apreensão, ódio e ironia que utiliza.

-=-=-=-=-=-=-=-

Creio que a discussão mais inteligente deveria focar-se sobre a obrigatoriedade ou não do voto. A maioria dos eleitores brasileiros (e de qualquer país) não possui grande consciência política, votam por impulso de última hora, escolhendo principalmente apresentadores de rádio ou televisão e candidatos capazes de maior marketing... Só que no Brasil a participação de todos é compulsória, chegando a haver multas por forfait. Tal fato acaba por diluir a influência daqueles que valorizam e refletem sobre seus votos. Aliás, voltando às decisões de última hora, a proibição da boca de urna e da propaganda eleitoral dias antes do sufrágio, visa exatamente evitá-las. O voto facultativo iria, portanto, na mesma direção de uma disposição já presente na lei. Em minha opinião, seria fundamental que o Executivo e o Legislativo fossem uma representação do cenário político do país, que refletissem a opinião da maioria preocupada com seus rumos, que demonstrassem, em suas formações, um somatório de convicções e não de vagas impressões. Se isto não extingue o chamado voto de cabresto, abrandaria a enorme intrusão, que ocorre hoje, de pessoas que escolhem seus candidatos por motivos rarefeitos ou tolos. Este voto sem outra motivação que não seja a da obrigatoriedade é deletério para a nossa representação em todos os níveis.

Outro ponto interessante a favor do voto facultativo é o do contra-senso jurídico. Sendo o voto um direito do cidadão, como pode ser também um dever? Sei que podem aparecer advogados com filigranas e brilhaturas na caixa de comentários, mas gostaria de dizer que é indiscutível que as palavras "direito" e "dever" não são sinônimas, nem miscíveis. Direito é a faculdade legal de praticar ou não um ato, enquanto que o dever implica em imposição. Dizer que o voto é um direito e um dever é poesia. Porém, na risível, confusa, lenta e interminável colcha de retalhos jurídicos que controla nosso país, este é apenas mais um problema.

Finale (Scherzando): Há muitos anos meu voto vale por cinco ou seis. Culpa minha se fico amigo do zelador, da senhora do cafezinho, das faxineiras e das empregadas? Bem, só sei que confiam em mim, sei lá por quê. Esta multiplicação de Miltons Ribeiros não aconteceria se tais pessoas pudessem escolher entre votar ou não. Elas, simplesmente, são desinformadíssimas e não se sentem motivadas sequer a pensar no assunto. Se eu, o modesto MR, controlo votos meia dúzia de votos da maioria silenciosa, o que outros, com maiores interesses, não farão?

abril 19, 2006

A América é de Marte, a Europa é de Vênus

Há coisa de alguns anos, o neoconservador americano Robert Kagan causou comoção com um artigo intitulado Power and Weakness na prestigiosa revista Police Review. Lá ele levantou o mote que inspira o título deste post. O contexto era a iminente invasão do Iraque pelas forças norte-americanas e a inapetência européia em seguir pelo mesmo caminho. Kagan aproveitou-se disso para traçar um quadro (ainda que esperançoso) da decadência européia, utilizando a simbologia de um livro de auto-ajuda bastante famoso na época.

É curioso que uma das novidades apresentadas por este início do vigésimo primeiro século venha sendo a fileira de êxitos colecionados pelo programa espacial europeu. Sob a égide da ESA, European Space Agency (uma organização não-comunitária mas estreitamente relacionada à União Européia, com orçamento anual de quase três bilhões de euros), o programa espacial do velho continente, já desde o final do século XX, tem sido capaz de mostrar alguns feitos capazes de rivalizar com as realizações da época heróica dos Descobrimentos. Entre eles figuram a sonda Giotto, que fotografou o cometa de Halley em 1986, a sonda Huygens, que caroneou a espaçonave americana Cassini e realizou a primeira aterrisagem em um corpo celeste além da órbita de Marte (a enigmática Titã, uma lua de Saturno), a sonda Mars Express, que está explorando o planeta Marte fotografando-o em alta resolução a partir de sua órbita e finalmente, agora em abril, a esperada e consumada inserção da sonda Venus Express na órbita de Vênus, o planeta-irmão da Terra.

Isto tudo é muito interessante por si só, mas a leitura de um artigo sobre a chegada da Venus Express ao seu destino no site da Planetary Society revela um aspecto incomum da história. Em uma entrevista coletiva para a imprensa, o Diretor de Ciência da ESA, David Southwood, colocado diante de uma questão potencialmente embaraçosa _ justificar o envio de mais uma sonda a Vênus, planeta já bastante explorado por missões soviéticas e americanas nas décadas de 80/90 _ afirmou o seguinte: "Acredito que nós europeus vemos as coisas de maneira diferente, pois viemos de uma cultura diferente. É importante para nós podermos realizar nossa própria exploração espacial”.

Considerando que os achados das missões espaciais norte americanas são razoavelmente bem disponibilizados e publicizados, não estando sujeitos (mais ou menos, como veremos adiante) à sanha de proteção e segredo a que vêm sendo submetidos outros setores científicos mais promissores do ponto de vista da exploração comercial imediata, só o que poderia justificar esta necessidade de se fazer uma exploração espacial própria seria fazê-lo com um enfoque diferente.

De fato, o diretor geral da ESA, Jean-Jacques Dordain, vem em socorro do seu diretor científico, afirmando que as missões européias se concentram em corpos celestes que possuem uma atmosfera, e que seu objetivo é conhecer melhor a dinâmica dos fenômenos atmosféricos em outros planetas, com o intuito de melhor explicar a dinâmica atmosférica de nosso próprio planeta, a Terra.

Uma declaração como essa, embora diga respeito a uma realidade literalmente muito distante e soe como um exercício de wishful thinking aos ouvidos do contribuinte europeu (além de não ser inteiramente verdadeira), não deixa de produzir curiosas repercussões políticas aqui em nosso mundo sublunar, principalmente quando se sabe que oficiais do governo norte-americano tentaram limitar o acesso pela imprensa aos resultados sobre clima e aquecimento global colhidos pela sua frota de satélites de pesquisa orbitando a própria Terra.

A exploração espacial é um empreendimento caro que requer longa preparação e o comprometimento de muitos recursos por um grande período de tempo _ ou pelo menos, um período muito grande diante das idas e vindas da maré política. Por isso seria algo leviano forçar muito a mão na comparação entre o estado atual da exploração espacial e o clima político imperante, uma vez que o que está acontecendo hoje sobre nossas cabeças dependeu de decisões tomadas há muito tempo _ às vezes mais de uma década _ atrás. No caso brasileiro, só para efeito de registro, muito se bateu no atual governo pelo envio de um astronauta auriverde à estação espacial internacional ISS, consumindo recursos que talvez pudessem ter sido melhor utilizados em uma destinação alternativa, mas a verdade é que o astronauta se preparava há muitos anos para a missão, que foi portanto planejada em outro momento histórico e político.

O que não impede, é claro, que o governo de plantão module as notícias e a ênfase do programa espacial em andamento segundo o seu próprio apetite político. A ida de Marcos Pontes ao espaço foi celebrada pelo governo petista com uma coloração bastante nacionalista, embora a coisa toda tenha tido, a rigor, mais o caráter de um episódio de turismo espacial a bordo de um paquete russo/americano do que de uma grande e expressiva realização tecnológica brasileira. Sabe-se lá como um governo tucano teria celebrado o mesmo evento _ mas certamente o teria feito de modo diferente.

Da mesma forma, o governo Bush dá ênfase diferenciada aos inúmeros programas em andamento dentro da NASA. O programa espacial norte-americano, que durante o Séc. XX focalizou o objetivo de dar pelo menos uma boa olhada nos principais planetas do sistema solar (falta apenas Plutão, cujo status como planeta é bastante controverso mas que de qualquer forma ganhou sinal verde com o lançamento da sonda New Horizons), parece se concentrar agora em examinar com mais cuidado alguns corpos celestes que parecem bons candidatos a ter abrigado, ou ainda abrigar, alguma forma de vida. Tal é o caso de missões francamente espetaculares como a Cassini, que está no momento em órbita de Saturno e deu carona para que a sonda européia Huygens explorasse Titã, a gigantesca lua de Saturno que é a única lua do sistema solar que possui uma atmosfera (e onde sempre se pensou existir um oceano de hidrocarbonetos, embora a Huygens tenha descoberto que não é bem a realidade local). Também é o caso de uma possível missão a ser lançada a Júpiter para pousar na lua Europa, onde se imagina que possa existir um oceano de água líquida abaixo da superfície congelada (a mesma situação, descobriu-se agora com a Cassini, pode ser o caso da lua saturniana Enceladus).

Nada, porém, se assemelha ao esforço despendido pelo programa espacial norte-americano com o planeta Marte, que vem sendo alvo consistente de uma frota de missões destinadas a levantar a topografia, a mineralogia e a possível existência de água no planeta. A jóia dessa coroa é a missão Mars Rovers, que há mais de dois anos colocou dois robôs telecomandados na superfície marciana e desde então tem obtido não só imagens espetaculares como dados mineralógicos atordoantes _ e que provam que em algum momento de sua história Marte provavelmente teve água sob forma líquida circulando durante bastante tempo em sua superfície.

Não que os americanos tenham desdenhado Vênus, o planeta ora explorado pela ESA. A sonda Magalhães mapeou, por radar, a topografia venusiana com um radar de alta resolução, contornando assim o problema das nuvens eternas que envolvem o planeta e impedem a observação direta de sua superfície. Vênus, porém, é um planeta morto, um inferno de altas pressões e temperaturas _ o que sempre intrigou geologistas planetários, dado que Vênus tem dimensões e composição primordial semelhantes às da Terra (de fato, Vênus já esteve dentro da "zona de habitabilidade" do sistema solar, definida como a região do espaço onde a água pode existir em estado líquido _ o problema é que a zona muda de lugar à medida que o Sol envelhece e se aquece). Assim, o destino de Vênus, que virou um deserto, interessa decerto aos habitantes do planeta Terra, na medida em que pode refletir o futuro do nosso próprio planeta.

Uma teoria intrigante acerca de Vênus é a possibilidade de que o planeta tenha, efetivamente, tido um oceano de água líquida durante bastante tempo _ talvez alguns bilhões de anos _ mas que a contínua evaporação tenha diminuído a tal ponto a cobertura de nuvens que o planeta entrou em efeito-estufa (as nuvens bloqueiam a radiação que vem do sol; sua ausência faz com que a temperatura atmosférica aumente). Com a evaporação dos oceanos e a perda de água, o planeta perdeu a capacidade de reciclar sua superfície a partir da tectônica de placas, tal como acontece na Terra (sim, curiosamente a água é parte importante do processo ao "lubrificar" as placas). Daí, possivelmente, o fato intrigante de que a superfície de Vênus parece ter toda a mesma idade, ainda que relativamente recente _ cerca de 500-600 milhões de anos: com o fim da tectônica de placas, que ajuda a arrefecer o calor do interior do planeta, Venus começou a entrar em um novo ciclo, onde as altas temperaturas chegam a um clímax de vulcanismo generalizado, que "repavimentou" o planeta _ cerca de 80% da superfície consiste de planícies basálticas, isto é, lava.

A relação entre Vênus e a Terra pode parecer algo de muito extravagante, mas é uma constante em debates sobre o aquecimento global e já apareceu até nas páginas de Lew Rockwell. Assim, os diversos interesses dessas duas potências espaciais representam uma outra, e curiosa, maneira de reafirmar a idéia de que a América é de Marte e a Europa é de Vênus.


PS1: aqui, um podcast com Larry Esposito, membro do time científico da Venus Express, sobre Vênus e aquecimento global.

PS2: este post ia começar como uma tentativa de discutir as diferenças entre EUA e Europa do ponto de vista explorado por Becker e Posner nestes dois posts de seu blog, mas a coisa acabou andando para outro lado completamente diferente. Culpem Serendip.

PS3: o gráfico a seguir mostra uma das razões pelas quais os EUA tentam se preocupar menos que a Europa quanto aos efeitos dos gases de estufa.

energy.JPG

abril 18, 2006

O Bicho Papão!

Pois é,

Logo, logo, devo ensinar para minha pequeninha o significado do Bicho Papão. Alguém aí poderia me ajudar? Mas tem que fundamentar, certo? (Ok, não faz parte da honestidade intelectual impor regras ao início. Mais ainda exigir fundamentação quando se trata de temas "apaixonantes", eu sei e peço desculpas de antemão).

Alguém aí é contra a existência de cargos de confiança na administração pública?

Eu, em tese, não sou contra.

- Afonso!?
- Sim?
- O Bombordo é um blog que pretende ser sério. Não vais escrever um post para defender os severinos da vida, vais?
- Calma lá, meu caro! Eu falei em tese! E quando a gente fala em tese, quer dizer que falamos sobre a natureza da coisa. Sobre a razão de ser da coisa, entendes?
- Não me venha com esse papo furado pra defender o nepotismo!
- Mas quem falou em nepotismo? Será que só existem CCs nepóticos? Claro, claro, desculpa. É que está na moda falar do nepotismo. Posso continuar?
- Vá lá, termina!

Já fui CC. Trabalhei durante três anos em uma empresa estatal como CC do partido do governo, à época. E por quê? Pela simples razão de que a empresa necessitava de certa competência e três situações se impunham:

1. não havia servidor com essa competência no quadro;
2. a empresa estava impossibilitada de fazer concurso e,
3. alguém lá dentro me conhecia e sabia que eu tinha essa competência.

Durante três anos dei meu sangue, meu suor e, com toda certeza, muitas lágrimas para um trabalho sério e honesto, que permitiu o desenvolvimento da empresa. Hoje sou servidor público devidamente concursado. Não nessa empresa, que acabou fechando as portas. E fechou por culpa dos chamados "agentes políticos" que dela faziam mero trampolim e que nenhuma competência tinham.

Os cargos em comissão representam não mais de 7 a 8 porcento do quadro geral de servidores públicos nos três níveis de governo (o dado é aproximado, por favor). O nepotismo - seja direto ou cruzado-, representa algo como, no máximo, 10% desse número. Por que, então, sacrificar bons profissionais em nome de um falso moralismo administrativo? Falso sim, porque na primeira oportunidade que qualquer um tiver (sem generalizações), agarra um CC!

Precisamos de um bicho papão para expiar nossa culpa por não sermos parentes de algum severino da vida (a alusão é ao poema).

- Afonso, estás extrapolando!
- Pode ser. Mas essa é a questão. Somente quando extrapolamos os limites é que erramos. O mesmo se dá em relação aos CCs. Não poderia afirmar o que vou afirmar, mas mesmo assim afirmo: no mínimo, 80% dos CCs são gente séria e trabalhadora que constribui para o desenvolvimento das suas instituições.

Não hesitaria em trocar uns 30% de concursados por esses CCs. A realidade é que gostamos de alardear os poucos maus exemplos e esquecemos de defender e elogiar os muitos bons exemplos.

O grande problema da administração pública é outro. Mas esse vai ficar para a próxima vez. Enquanto isso, minha pequeninha dorme. Vou lá ver se não há algum bicho papão embaixo do bercinho dela. Em tese.

abril 17, 2006

Starbucks no Brasil: bom negócio para quem?

r537334937.jpg O Brasil é o maior exportador de café do mundo, suprindo cerca de 1/3 da demanda global. No entanto, os cafés mais valorizados no exterior vêm de países como a Colômbia, Guatemala e Etiópia. Isso porque o Brasil exporta basicamente o grão ainda verde (não torrado ou moído) ou então já em forma de café solúvel instantâneo. Só agora que o produto do Brasil começa a sofisticar sua imagem no mercado externo, contando com empresas que já exportam café torrado e moído, em marcas gourmet, como a Bom Dia (comercializado na Wal-Mart e na Walgreens) e a Ipanema (vendido na Starbucks). O Ministério da Agricultura também está indo direto às grandes cadeias de cafeterias estrangeiras, sugerindo que elas abram lojas no Brasil, como forma de aumentar a venda de café brasileiro para essas grandes companhias, além de estimular também o consumo de café dentro do país. No ano passado, o secretário de Produção do Ministério, Linneu Carlos da Costa Lima, chegou a se reunir com executivos da Starbucks na sede da empresa, em Seattle, tentando convencer a gigante americana a concretizar o mais rápido possível seus planos de abrir lojas no Brasil.

Com 11 mil lojas nos Estados Unidos e em outros 37 países, a Starbucks até agora não estreou no mercado brasileiro de cafeterias. Tem priorizado até o momento países onde tinha mais chances concretas de expansão, como Inglaterra (500 lojas) Japão (500 lojas) e China (300 lojas). Realmente, é um risco grande para a Starbucks entrar num mercado como o brasileiro, onde até o consumidor de classe alta está acostumado a beber bons cafés espresso e cappuccinos em aconchegantes cafeterias por menos de 5 reais, enquanto um caffé latte da cadeia americana sairia aqui por volta de 15 reais. Sem contar com o fato de que o brasileiro gosta de beber com calma, em xícaras de porcelana, ao contrário da cultura americana Starbucks, que é fundamentalmente café “to go”, em copos de papel. Para complicar ainda mais, o brasileiro gosta de tomar café com algum salgado, como pão de queijo ou um simples pão com manteiga, ou tortas e docinhos típicos do Brasil. E a Starbucks prefere padronizar o seu fraco cardápio de bolinhos e muffins em suas lojas no mundo todo, para que praticamente não haja diferença entre uma loja em Londres, Tóquio ou Hong Kong.

No entanto, reportagens recentes na revista IstoÉ Dinheiro e no jornal Valor dão como certa a vinda da Starbucks ao Brasil ainda esse ano, em associação com os Rodenbeck – os mesmos donos da cadeia de restaurantes Outback no Brasil, e também responsáveis pela vinda da McDonald’s ao país no início dos anos 80. A primeira loja seria inaugurada no Rio de Janeiro, e provavelmente num shopping, onde circulam mais pessoas com alto poder aquisitivo. Mas como a Starbucks mantém esse tipo de negociação em sigilo, e não costuma anunciar nada antes de ter todos os detalhes do contrato, data de inauguração, etc, fechados, nenhum dos dois lados está confirmando nada. Os Rodenbeck apenas admitem que estão em negociações há cinco anos com a cadeia americana; e a Starbucks ainda é mais evasiva, dizendo oficialmente (em diversas matérias internacionais) apenas que tem planos imediatos de expansão no Brasil.

Supondo que a Starbucks virá mesmo ao Brasil, a pergunta é se vai realmente beneficiar a nossa economia. O reforço da parceria com este grande comprador de café irá compensar a possível falência de cafeterias menores, de pequenos empresários brasileiros? Vai compensar o rombo no orçamento de consumidores que tenderão a ficar viciados nos lattes e mochas a 15 reais por copo? Vai compensar a mudança de cultura e forma brasileiras de beber café socialmente, para um modo mais solitário e on the go?

A questão cultural me preocupa bastante, pois até nos Estados Unidos, onde a Starbucks virou parte do cotidiano, a onipresença e massificação da loja incomoda até mesmo os amantes de café, que preferem cafeterias mais individualizadas, únicas, que você só encontra na sua vizinhança. A estratégia agressiva de dominação da Starbucks promove uma presença exagerada da loja – às vezes até duas no mesmo quarteirão – para minar a competição e estimular o máximo de consumo do seu produto (pela facilidade de se encontrar uma loja; o atendimento rápido, já que não há quase filas; e o aumento da propaganda com a simples presença em massa dos letreiros Starbucks Coffee por todos os lados).

Provavelmente a Starbucks começaria bem tímida no Brasil, e só depois de uma reação positiva do mercado é que empreenderia uma expansão mais agressiva, como está ocorrendo na Ásia. Há muitos céticos quanto ao sucesso da cadeia no país do cafezinho a 50 centavos – mas antigamente, os americanos também só bebiam café comum e barato, foi a Starbucks quem mudou o hábito do público americano. Quem aposta no sucesso da Starbucks no Brasil leva em conta o gosto da classe media e alta por demonstrar status; e sair pela rua portando um copo da Starbucks seria uma forma perfeita para uma patricinha tirar chinfra, assim como pode virar "cool" ser visto portando um laptop dentro da loja, ou encontrando um grupo de amigos para um bate-papo regado a cappuccinos e tai lattes. Essa possível aculturação dos bebedores de café no Brasil é que me assusta. Por favor, não abandonem o espresso a 3 reais tomado na xícara de porcelana nas pequenas lojinhas do Centro, com biscoito amanteigado e pão de queijo, ou bolinho de chocolate com laranja. Eu sei que isso pode ser injusto, vindo de alguém que mora na terra do Starbucks e só vai ao Brasil uma vez por ano em férias, mas, acreditem, tomar café aí é uma experiência mil vezes mais prazerosa que nas insossas lojas da Starbucks que eu vejo todos os dias.

abril 13, 2006

o rashomon do caso palocci

Na "Home: Entenda" da "Primeira Leitura" consta uma matéria que pode servir de exemplo do direcionamento que se pode dar para a questão política mais fervilhante do momento, a saída de Palocci.

Rui Nogueira inicia dizendo que vai nos contar a "Verdadeira História da Demissão de Palocci". A "verdade" é uma coisa estranha, vai dizer? Depende de um emissor, de um receptor, de níveis de entendimento. Mas ele diz que vai dizer a verdadeira verdade - e isso já induz o leitor/receptor a acreditar.

Já no primeiro parágrafo ele afirma que "O caso Francenildo-Palocci" é "a mais criminosa violação do Estado de Direito perpetrada da redemocratização brasileira para cá". É um julgamento de valor, e dá para citar pelo menos meia dúzia de casos criminosos, que vieram a público ou não, piores que o "caso" em questão. Rui segue dizendo que as ações correram "com a participação explícita de pelo menos quatro personagens da República: o próprio presidente da República e os ministros Marco Aurélio Garcia (assessor especial para assuntos externos), Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência), Jaques Wagner (Relações Institucionais) e Dilma Rousseff (Casa Civil)". Ou o Rui (permita-me a intimidade) é onipresente ou tem informações quentíssimas lá de dentro, talvez da suíte nupcial do presidente.

Alguns poucos parágrafos abaixo, Rui cita uma certa "parolice jornalística" que talvez, em seu julgamento, Lula poderia querer a cabeça de Palocci por algum sentimento assim, quem sabe, de traição ao saber que, sim, o sigilo bancário de Francenildo era de conhecimento do "irmão" Palocci. Bem, Lula é cúmplice e depois se sente traído. Shakespeare, eu diria.

E seguem aí conexões extremamente desconexas (ou conexas, se seu humor for de concordância com a verve do autor) até que ele se deixa opinar sobre a função/competência de Palocci no que se refere à estabilidade econômica. Ele joga a política econônica do Governo Lula no ralo ao afirmar (ou isso não é uma afirmação?): "Lula deve, confessadamente, muito a Palocci, mas não deve, com certeza, o ambiente de estabilização econômica que seu governo festeja a todo o momento e que nos põe, dizem, às portas de um ciclo virtuoso de crescimento inédito. Essa estabilização, melhorada em alguns aspectos e piorada em outros, é de autoria inteira do governo FHC.".

A coisa vai por aí, num viés de desapaixonada cara-de-pau como no parágrafo "Na história do PT, nunca houve um petista mais dissimulado que Lula", onde o autor não se deu nem ao capricho de colocar um "Eu acho que" no início da frase. Não! Tudo é vomitado como verdade, a verdadeira maionese goela abaixo do incauto leitor.

rashomon.jpg

Grande jornalista, um dos mais importantes do País, Claudio Tognolli tem escrito aqui e ali sobre a crise, sobre o caso. No Consultor Jurídico, mídia pequena e pontual, mais uma vez Tognolli destaca-se colocando na íntegra o depoimento de Palocci à Polícia Federal.

Ele faz um "abre" enxuto e jornalístico, sem as induções do companheiro Rui, do "Primeira Leitura". E, a seguir, vem a visão/versão do excelentíssimo ex-ministro. Ou não tão excelentíssimo assim.

O que acontece lá longe, em Brasília, por mais liberdade de imprensa que se tenha, ou fontes, ou imparcialidade, vai ser sempre UMA VERDADE de muitas versões. Assim como foi desde sempre. Assim como foi no Governo FHC. As ilações e as conversas que se têm no pé do ouvido serão sempre duas verdades, no mínimo.

Como em torcidas de futebol, é comum que um grupo torça e retorça palavras em prol deste ou daquele grupo. Podemos falar de fatos, podemos dizer qual foi o time que fez o gol; como ele aconteceu. Algumas vezes, quem vence não é o melhor. Um grande técnico faz pouco com um pequeno time - e vice-versa. Seguem ademais comparações possíveis na cabeça dos leitores desse texto.

Adágios populares muitas vezes estão certos.

abril 11, 2006

A Eleição Presidencial, a Ética na Política e o Discurso da Indignação Santa

A ética é como a virgindade: se você bate no peito para dizer que a tem, provavelmente não tem coisa nenhuma ou está doido para perdê-la.

É muito bom para Lula, mas péssimo para a politização da sociedade brasileira, que a oposição aparentemente tenha escolhido centrar o seu discurso no terreno da ética. Parece-me evidente que é uma estratégia destinada ao fracasso. As últimas pesquisas sugerem que pouca coisa se alterou nas intenções de voto das classes populares, mesmo depois dos sucessivos escândalos. O “imparcial” diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, apressa-se em explicar os números: “"O eleitorado de Lula é preponderantemente formado por pessoas que têm pouco acesso à informação . . . Para este segmento da população, os benefícios sociais, por exemplo, são muito mais importantes." (link, para quem tem acesso ao UOL).

O que o nosso ilustre pesquisador não nos explica é por qual mirabolante passe de mágica o maior acesso à informação levaria os pobres a preterir os benefícios sociais por qualquer outro critério na hora de escolher o seu voto. Involuntariamente, ele confessa: os “escândalos” são nossos, são da classe média que lê a Folha de São Paulo. Onde está esse povo que não se escandaliza depois desse barulho todo que fizemos? Serão uns alienados?

O discurso da indignação santa ante “o maior escândalo de corrupção da história” não cola por vários motivos: em primeiro lugar, porque o povo não é bobo. Na política, como em outras esferas, quem bate no peito para se arvorar em defensor da ética, em geral, não está em condições de falar em nome dela (e, sim, o PT foi presa desse paradoxo em anos passados e paga por isso agora). Quando Arthur Virgílio e ACM Neto posam de defensores do caráter, da ética e da honestidade, o beneficiado pelo Bolsa-Família vê a farsa com muito mais facilidade do que o leitor da Folha de São Paulo – este último já acostumado demais a confundir ética com política.

Ao criticar a confusão entre ética e política, não quero dizer, obviamente, que aquela não seja importante. É, e muito. Mas resolver (ou amenizar) o problema da ética na política não é uma questão de boas intenções. Resolve-se (ou ameniza-se) com saídas políticas: uma reforma eleitoral, por exemplo, a mesma que a oposição insiste em não apoiar. Isso não se resolve acreditando em gente que acha que imorais são sempre os outros.

Conheço as críticas de esquerda ao governo do PT. Eu as fiz, no primeiro momento, e não as retiro. Critico a delubianização do PT (copyleft do termo, meu mesmo) desde meados dos anos 90, quando a filosofia da "profissionalização" e do “ganhar a qualquer custo”, patrocinada pelo grupo de José Dirceu, levou o PT a adotar métodos que contrariavam a trajetória do partido.

Mas jamais tive simpatia pelo discurso da indignação santa, porque em geral os que o proferem têm um certo perfil: costumam vir das classes abastadas; muitos batem no peito para dizer que sonegam impostos ou que subornam guardas para escapar de multas de trânsito; vociferam contra a “incompetência” de pedreiros e empregadas domésticas e depois reclamam da ética dos políticos. Já deu uma olhadinha no espelho hoje? É o que Pedro Alexandre Sanches vive cobrando, com toda razão.

A indignação santa não tem trazido frutos para a oposição porque quanto mais se investiga, mais fica óbvio que o torpe e amador esquema de arrecadação do PT – que pegou carona num valerioduto muito mais profissional inaugurado pelo PSDB mineiro em 1998 – não se compara, em prejuízo ao patrimônio nacional, à privataria patrocinada por FHC, durante cujo governo centenas de milhões de dólares em patrimônio público foram privatizados, muitas vezes com financiamento do próprio BNDES. O discurso sobre “o maior escândalo de corrupção da história”, de verdadeiro, só tem isso: é o maior escândalo, feito por aqueles que têm os meios para produzir escândalos.

Se quiser ter alguma chance nessa campanha, a oposição terá que discutir política e, para isso, terá que comparar algumas coisas: o valor do salário mínimo em dólares na posse de Lula e seu valor hoje; o número de empregos criados por FHC e o número de empregos criados por Lula; a relação dívida / PIB em 2002 e a mesma relação hoje; a taxa de desemprego em 2002 e a de hoje.

O resultado dessa comparação estará, já adianto, muito, muito longe do que queríamos os petistas históricos. Mas estará anos-luz de dar qualquer credibilidade àqueles que só sabem falar com o discurso da indignação santa.

abril 9, 2006

O futuro é a morte

Falcão – Meninos do Tráfico (MV Bill – “Mensageiro da Verdade”) reavivou as discussões acerca de uma realidade praticamente negada. A “negação” não significa desconhecimento, mas um “mecanismo de defesa” – quase sempre necessário – para que suportemos a vida.

Os temas violência, criança abandonada, ausência do Estado, falta de Educação, miséria se entrelaçam e provocam intelectuais, sociólogos e políticos a buscarem causalidades e apontarem soluções. Por outro lado, o senso comum – entidade abstrata e intangível, porém prevalente – aponta o dispositivo policial como melhor remédio: “são os traficantes; é preciso acabar com o tráfico; isso é coisa de bandido”.

Transgressões, com efeito, clamam por medidas corretivas e punitivas. Entretanto, mais do que o respeito (medo?) ao ordenamento jurídico da sociedade, a submissão à Lei é um dos componentes da subjetividade (“realidade psíquica, emocional e cognitiva do ser humano, passível de manifestar-se simultaneamente nos âmbitos individual e coletivo” – apud Houaiss).

O documentário de MV Bill é protagonizado por 17 crianças, das quais apenas uma sobreviveu. A crueza das cenas e das falas chocou a muitos, principalmente pelos pequenos “falcões” – os meninos usados pelos traficantes.

O desprezo à própria vida e a falta de senso do que é socialmente classificado como bom ou ruim, certo ou errado e a falta de identificação a modelos “éticos” de comportamento provocam-nos a interrogar:

- Qual o sentido da vida para esses meninos? De onde vêm tanta insensibilidade e ausência de temor à punição? Será que não sentem culpa? Não têm medo de morrer? Colocam-se no lugar do outro? São vítimas ou delinqüentes juvenis? De quem ou do que é a culpa?

As respostas não são simples, muito menos unânimes.

Ao apropriar-se da tragédia grega do Édipo, Freud toma o personagem criado por Sófocles como paradigma das vicissitudes de todo ser humano no caminho de entrada na cultura. Assim como “Falcão”, Édipo não tem nome, é simplesmente “aquele que tem os pés inchados” – conseqüência do furo em seus calcanhares, feito pelo pastor que o salvou da morte.

O “medo à castração” determina sua fuga para Corinto. O castigo seria aplicado pelo pai caso o filho realizasse os desejos incestuosos em relação à mãe. Isso remete à passagem da natureza à cultura, condicionada à relação com a Lei. O temor à Lei é condição para que o sujeito estabeleça uma “sociedade” com a cultura humana: é mister que se obedeçam as regras da linguagem, por exemplo, sob pena de não ser compreendido ou ser tachado de louco.

“Uma lei que não é temida – que não tenha potência de interdição e de punição – é uma lei fajuta, de fancaria, impotente. No entanto, o temor à lei, sendo necessário, é absolutamente insuficiente para fundar a relação do ser humano com a Lei. Uma lei que se imponha apenas pelo temor é uma lei perversa, espúria – lei do cão.” (Hélio Pellegrino).

A “civilização”, é verdade, provoca sempre um “mal-estar”. Embora garanta um certo ordenamento, exige uma dose de renúncia pulsional, controle dos instintos (erótico e agressivo). Mas também proporciona alguns ganhos, é claro.

Freud não chegou a fazer uma crítica à sociedade capitalista e não menciona que a violência da repressão em nossa sociedade existe também pela forte carga de injustiça social. Mas o mito é um paradigma.

A “solução” estaria num pacto: renúncia à onipotência (tudo é permitido) em nome de ganhos para o indivíduo e para a sociedade. Compensam-se as perdas com a conquista de certos direitos: ao nome, à filiação, à estrutura de parentesco, à sobrevivência digna. O pertencimento à cultura que acolhe o indivíduo supõe acordo a respeito de seus valores e ideais – até mesmo direito para criticá-los e denunciar as injustiças.

A compreensão do tal “complexo de Édipo” para além da construção da subjetividade pode iluminar um pouco as discussões acerca da tragédia que se abate sobre incontáveis “Falcões”. Estes nascem e morrem nas sombras. "Existem" apenas nas estatísticas que acusam índices assustadores: o enorme número de jovens entre 12 e 18 anos que são assassinados, vítimas da violência, caso não sejam atingidos, antes, pela mortalidade infantil por fome e doenças causadas por falta de saneamento básico, etc.).

A Lei imposta na micro-esfera do romance familiar (pai-mãe-criança) deve ser compensada pelo atendimento às necessidades da criança (afeto, sustento, educação, acesso aos bens materiais e culturais), do mesmo modo que as renúncias exigidas pela sociedade deveriam garantir a todos os cidadãos os direitos inalienáveis a cada um: trabalho, remuneração digna, expectativas de ascensão social, preservação da integridade física e psíquica, etc.

Sempre que fracassa a figura do Pai (não necessariamente o pai da realidade, mas o pai “simbólico”, representante da Lei e garantidor das compensações), a criança romperá o pacto estabelecido e as exigências da cultura serão insuportáveis: reaparecem os impulsos agressivos, incestuosos, predatórios.

Da mesma forma, quando falha o Estado – garantidor do que chamaríamos de “pacto social” – o que esperar senão a emergência dos impulsos delinqüênciais e homicidas? Com que autoridade pode a sociedade exigir o fim da verdadeira guerra civil travada em forma de assaltos, tráfico de drogas, desrespeito às normas, quando predominam as leis implacáveis do capitalismo selvagem, que mantém um número crescente de cidadãos sem nome, sem casa, sem trabalho, sem remuneração digna, sem esperança de inclusão social? As promessas e ofertas do Mercado não incluem os excluídos.

Os “Falcões”, de alguma forma, expressam o fracasso de políticas sociais excludentes. Em “nome-de-qual-Lei” adotarão os valores defendidos por uma sociedade – que somos nós mesmos – que lhes nega nome, identidade e futuro?

- O futuro é a morte.
_________

Blog do Autor: PRAS CABECAS
_________
Referência: Pellegrino, Hélio. Pacto Edípico e Pacto Social in: Grupo Sobre Grupo - Luiz Alberto Py et alii - Editora Rocco, RJ, 1987.

abril 8, 2006

Até que ponto São Paulo representará o Brasil?

A nova pesquisa do Ibope, mostrada ontem n'O Globo, demontra que, em São Paulo, o pré-candidato Alckmin abriu diferença de 18 pontos em relação ao Lula. Segundo as pesquisas, Alckmin tem 46% das intenções de voto em São Paulo contra o que considero um número pífio para Lula: 28%. Em Fevereiro eles estavam empatados em 32%. Em um projetado segundo turno, Alckmin vence por 55% a 31%.

No estado, Lula e Garotinho têm os maiores níveis de rejeição: 35%; Alckmin, apenas 11%. Lula é o mais rejeitado por mulheres (38%), eleitores entre 40 e 49 anos (40%) e com nível educacional superior ou nível médio (41%).

Já Serra ganharia em primeiro turno quem quer que fosse seu adversário - petista ou não. Marta Suplicy, que de acordo com a pesquisa teria 17% das intenções contra 51% de Serra, disse que o candidato tucano sofrerá desgaste pela perda de credibilidade, tendo usado a prefeitura como trampolim para ambições pessoais. Mas apesar da população não ter gostado da renúncia do Serra dia 31, não deixam de pensar em votar nele.

O estado que nos trouxe os últimos dois presidentes - FHC pode ser carioca, e Lula pernambucano, mas em momento algum priorizaram seus estados natais - demonstra dados interessantes sobre o que esperar dessas nossas eleições. O maior corpo eleitoral do país está com uma imagem diferenciada do resto da nação - a rejeição pelo PT é clara e latente. Enquanto se vê um Lula forte em pesquisas nacionais, no seu estado 'natal' há uma completa descrença.

O que estamos vendo é, que no estado mais importante desse país, é clara a decepção e a mudança de votos da população. Não só nas intenções de voto para presidente, como também para governador. Apesar da carta do Serra prometendo não deixar seu cargo de prefeito da cidade de São Paulo, não parece existir rejeição maçica do tucano. Com esmagadora vantagem num segundo turno hipotético contra Marta Suplicy (62% a 23%), Serra demonstra uma força real dentro do estado.

Para-se então para pensar no que essas intenções de voto podem reperesentar no resto do país. Terá São Paulo força para mudar as intenções de voto que até agora apontam vitória do Lula? Será que mudarão de idéia e voltarão a apoiar o petista?

Até que ponto São Paulo representará o Brasil nas eleições?

abril 6, 2006

PT, crônica de uma morte anunciada.

Escrevi este texto em junho do ano passado, época em que a crise pegava fogo e a cautela dizia que não era hora de se avaliar nada. Ainda assim, reuni algumas reflexões sobre partidos políticos, crises e correlação de forças. Inevitavelmente a história força certas linhas de pensamento.

Decidi publicá-lo aqui por alguns motivos. Por um lado, o texto segue alguns dos temas abordados aqui no Bombordo. Por outro, comparando com o contexto atual, pode-se pensar respostas para algumas perguntas e, em amior grau, lançar umas outras tantas questões como, por exemplo, a que encerra o texto. E, à bombordo de tudo isso, é importante deixar claro que esta crise toda é uma oportunidade incrível para revitalizar o pensamento de esquerda e que, mesmo ensaios breves como este, podem ser possibilidade de exercitar a crítica.

Então, lá vai:

a bombordoO PT morreu e o governo Lula não passa nada bem – é o que dizem, de um jeito ou de outro as mídias de todos os meios e cores. A grave crise que assola o país expõe fraturas e propõe desfechos que não seriam críveis a três meses atrás. Porém, remete aos sinais que já estavam inscritos na história recente do partido dos trabalhadores, nos caminhos trilhados na conquista do poder.

Fica difícil analisar fatos e conjunturas tão próximos e ainda tão enredados em informações contraditórias. Somente uma perspectiva mais ampla e distante pode nos auxiliar a compreender o geral do qual este particular é exemplo vivo e marcante.

Para Gramsci [1] o partido político, como organização e movimento, é “a primeira célula na qual se sintetizam germes de vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais”. E só será vontade coletiva que faz valer sua direção, quando for vontade hegemônica. A ação política na busca da hegemonia é ação que cria relações de força, que altera o equilíbrio destas forças movimentando-as e dando-lhes uma direção.

A ação política que constrói o partido e, ao mesmo tempo, compõe a sua ação na realidade objetiva é movimento que se confronta com a estrutura fixa e autoritária que os partidos tendem a assumir. Esta contradição explica os avanços e recuos na organização do partido e sua tendência à burocratização.

O PT nasceu e desenvolveu junto com a esquerda e os movimentos sociais, lutando contra a ditadura e a favor das eleições diretas e da construção da democracia. Quando, nos anos 90, começou a ganhar eleições, assumindo prefeituras e governos, a estruturação com quadros profissionais e o progressivo afastamento da militância e das bases solidificou-se. O poder, então, deixou de ser meio e tornou-se fim.

O crescimento do PT e sua opção em tornar-se um partido elegível nos termos do pensamento hegemônico nacional, sem comprometer o capitalismo, proporcionou que se cristalizasse uma estrutura burocrática de cargos e hierarquias, envolvendo uma massa de interesses materiais, que passa a influir fortemente no partido [2].

Para adequar-se ao perfil e à estética elegível, o PT afastou-se da fundamentação da campanha no debate político, apoiando sua ação no resultado de pesquisas que tinham como objetivo levantar o que seria dizível e, assim, rendeu-se às técnicas de marketing que propunham toda uma postura que, certamente comprometeu a identidade do partido.

Tudo isso coopera para que o projeto de poder se sobreponha ao projeto de nação, que fica em segundo plano e torna-se cada vez mais opaco. Há quem diga, inclusive, que o PT não tinha mais um projeto de nação e sim algumas diretrizes que, como palavras de ordem muito repetidas, tornaram-se vazias de sentido. Além disso, historicamente, num projeto de poder os fins justificam os meios e é por aí que o PT progressivamente guinou à direita e aderiu ao capital. Isso se mostra claramente nas alianças feitas, na negociação de seu programa de governo e no loteamento dos espaços de poder.

Se ingenuamente se pensasse que estes acordos pré-eleitorais pudessem ser superados depois e que o partido conseguiria sacudir de si todos os apoios e apoiados indesejáveis, rumando impávido para a execução de seu programa revolucionário, isso ficou frustrado e visível depois do primeiro semestre de governo. Até porque o programa revolucionário era concreto e claro apenas para uma fração muito pequena da população e do próprio partido. Ao contrário, parece que os apoiados e apoiantes é que sacodem de si o PT, à la 18 Brumário e nos encontramos na situação em que não temos mais nem esquerda e nem direita, mas unicamente capital [3].

As personificações do capital em parte cooptam, em parte sacodem de si o PT e, num golpe quase imperceptível, tentam apartar no poder um títere condottieri, cuja ação se resume a manter a política econômica que se esperava que transformasse, política esta que determina as demais políticas que lhe ficam subordinadas. Quando o econômico domina o político, sem mexer politicamente no econômico é impossível sair do círculo limitado que a economia traça para a política.

É neste contexto que se anuncia a morte do PT, uma profecia bem plausível no atual momento da crise. Porém, os interesses envolvidos e o barulho que eles provocam tendem a confundir os contornos e as verdadeiras dimensões dos fatos, apontando uma necessidade de cautela em qualquer previsão.

Todavia, se morresse o PT, morreria, em primeiro lugar, vítima de sua inserção orgânica no sistema. Não há capitalismo sem um grande potencial de corrupção, sem a associação corruptora e corrupta do poder com a riqueza. Aqui, quando o poder se tornou um fim em si mesmo, o PT evoluiu da aceitação do financiamento da campanha pelos grandes monopólios para o uso de caixa dois e para o enriquecimento ilícito de alguns de seus quadros, num processo em que se destacam a cooptação, a corrupção, a rendição e a civilização pelo capital.

Em segundo lugar, morreria por não ousar fazer a política que historicamente se construiu para fazer. Concordo com Chico de Oliveira [4], quando ele diz que é bobagem o PT alegar que não havia correlação de forças propícias a uma política de esquerda, pois somente fazer a política permitida pela correlação de forças é fazer a política conservadora.

Em terceiro lugar, cai no abismo empurrado pelo oportunismo da direita, que ganha espaço e arvora-se em baluarte da ética, confiando como sempre na curta memória e nos ambíguos registros de nossa história. Um oportunismo que não é um improviso, o aproveitamento de um espaço e sim uma agenda antiga, uma receita cuidadosamente guardada.

Só resta saber como seguirá este jogo onde cada um “ataca por trás aquele que procura empurrá-lo para a frente e se apóia pela frente naquele que o empurra para trás” [5]. E, nestas todas, num futuro ano eleitoral, quem será o Luis Bonaparte da vez?

[1] GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere, vol. 3.
[2] Entrevista de Chico de Oliveira ao Brasil de Fato, reproduzida no Outras Palavras.
[3] MARX, Karl. O 18 Brumário de Luis Bonaparte.
[4] Entrevista de Chico de Oliveira ao Brasil de Fato, reproduzida no Outras Palavras.
[5] MARX, Karl. O 18 Brumário de Luis Bonaparte.

abril 5, 2006

No final, o problema é o cacau.

Acabou o inverno aqui no hemisfério norte. O sol finalmente desponta amigável. As pessoas voltam a se encontrar pelas ruas com maior frequencia. Encontrei meu vizinho Elio, no domingo passado, em plena piazza 3 novembre. Um tipo meio chato mas muito inteligente e honesto. Ele que um dia sonhou em ser jornalista, trabalhou a vida toda em um jornal, mas como operário gráfico e agora, aposentado, gasta os dias entre os passeios de bicicleta e a leitura. Faço a pergunta social de praxe:

-Como vai Elio?
-Muito mal. Vê se vota direito no domingo que vem! Aliás, você vota, não é?
-Sim que voto. E este ano exerço meu papel de cidadão por duas vezes, aqui e no Brasil também.
-Mas se você vive aqui na Itália, porque que tem que votar no Brasil?
-Pois então, o voto no Brasil é obrigatório. Se não faço a viagem até o consulado, espero na fila debaixo de chuva e boto minha cédula na urna, fico sem direitos, inclusive o de renovar o passaporte. A alternativa é pagar uma multa.
-Como debaixo de chuva?
-É que chove todas as vezes que vou votar. É garantido.
-Ah, entendo. Mas que absurdo essa coisa de voto obrigatório. E como é lá com esse Lula? Você está sabendo de como andam as coisas por lá?
-Sim e não. Tem muita informação e contrainformação. Se de um lado a vida das pessoas em geral vai melhorando, politicamente está uma confusão. Casos de corrupção, desvio de dinheiro, essas coisas.
-Mas você já viu algum governo de esquerda ter vida fácil no relacionamento com o poder? É sempre um jogo difícil. O que acontece aqui não penso que seja muito diferente lá. Começa-se fazendo um monte de concessões e medidas ambíguas para evitar confrontos e termina-se com cair em algumas armadilhas bem miradas. Depois, se existem casos comprovados, que se submeta ao chamado império da lei, ou não?
-Mas então você está acompanhando a situação por lá?
-Nada, não sei nem onde fica o Brasil, só sei que vocês tem grandes problemas com a destruição da floresta amazônica, com as favelas e os meninos de rua. Aliás, a esse respeito o que tem sido feito?
-Os estereótipos, estava demorando. Veja Elio, o Brasil não é só isso não, todo mundo que encontro me pergunta disso, como se fosse um país onde os únicos problemas são estes.
-Você não me respondeu. O que tem sido feito pra resolver isso?
-Sei lá, eu tenho contato com algumas pessoas e leio os jornais, mas esses assuntos não são os principais. Veja o que quero dizer, tem outros aspectos da vida política que são mais importantes, eu acho.
-Resposta de merda.
-Espera aí, quando eu estava lá eu trabalhei com projetos populares para tentar resolver o problema das favelas por exemplo, mas é algo muito grande para se resolver assim. Depois o que está havendo é que os espaços que o estado não ocupa, outros poderes paralelos estão ocupando.
-Como no sul da Itália com a máfia. Bela perspectiva essa!
-Tá vendo que não é só o Brasil, aqui também tem seus problemas.
-Te deixa contente isso, Flavio?
-Não, nem um pouco. Mas é que...
-Você me parece um pouco confuso.
-Sim, mas acho que é geral não? Tá todo mundo se perguntado pra onde ir. A religião há um tempo deixou de dar as respostas que serviam para os súditos fiéis da palavra levarem uma vida cheia de conformidade e aceitação. O poder hierarquizado deu espaço ao individuo e com ele cresceu ou nasceu a idéia de liberdade. A política, assim como a ciência, ganharam um enorme impulso e estabeleceram as bases para a nossa sociedade moderna. O problema hoje é que essa sociedade, assim plural, multi-facetada, relativista, individualista, está conhecendo uma crise onde nem a política e nem a ciência estão sendo capazes de preencher os vazios. Isso porque nossa sociedade se tornou muito complexa e contraditória. Onde o virtual é mais presente que o real. Onde o individual entrou em luta com o coletivo, ao invés de interagir. Isso gera desorientação, ainda que momentânea, espero.
-Posso até concordar com isso, mas…
-Mas ai a gente assiste um novo movimento de crescimento da fé e das certezas absolutas, mas agora desta vez, completamente desvinculadas de qualquer nexo lógico e natural. Veja bem, antigamente quando alguém dizia que a terra era plana ninguém ia contra, porque a experiência imediata diz isso. Hoje todos sabemos que a terra é redonda. Mas levou muito tempo pra se incorporar isso ao senso comum. O problema do conhecimento científico hoje é que o que se conhece está a anos luz da nossa experiência imediata e os interrogativos se avolumam de forma assustadora. O cidadão comum ainda não entendeu a teoria da relatividade, que dirá as super cordas e outros milhares de conceitos, assim como não consegue conceber um quark o ajudando em o que quer que seja. Diante disso, é mais confortável voltar a acreditar no papai noel. Mas aí é que está a loucura. Os neo religiosos tem que fazer um salto para trás de alguns séculos e isso gera uma tremenda esquizofrenia coletiva. A fé de hoje, não nos redime, nos enlouquece.
-E é perigosa
-Muito. Se um dos méritos de nossa cultura foi exatamente essa capacidade de eliminar simplificações dualistas e com isso alcançar certo progresso, quando justamente essa capacidade se coloca em risco, as teses totalitárias voltam com força.
-Tô tentando entender. Isso que você diz sobre a incapacidade de se coligar os problemas com a experiência, acho que explica o porque que uma das maiores emergências de hoje é assim olimpicamente negligenciada.
-Que é…
-Que é a própria sobrevivência do planeta. Estamos a um passo de ter reservas que se formaram em milhões de anos, simplesmente riscadas para sempre e isso não é um tema central nos debates e ações. É como você disse, ninguém consegue perceber olhando pela janela se o buraco do ozônio está maior ou se ar que se respira está mais limpo ou menos. No entanto as políticas não levam em conta todos estes problemas. Globaliza-se o comércio, somente como resposta à necessidade de expansão desse sistema que precisa de crescimento constante. E a política continua a considerar a terra plana.
-E no final o que conta é a lei da selva, caro Elio.
-Não diga bobagem. Essa gente que bota dinheiro na bolsa de valores vive falando em lei da selva. A selva é equilibrada meu caro. Porque os humanos justificam a desigualdade e a exploração com estas imagens fajutas? Na natureza existe adaptação. Tudo se compensa. Nós que somos fruto de nossa ação consciente que sabe-se lá de onde vem, botamos tudo a perder, desequilibrando tudo. Ah, se fosse lei das selvas, seria uma maravilha.
-Sim, mas no final, quem vence é o mais capaz, mais apto.
-A tua mulher vai bem?
-O que tem a ver?
-Sabe onde ela anda?
-Deve estar em casa. Mas que cazzo tem a ver minha mulher com a lei da selva?
-Eu pergunto se você sabe onde ela anda, porque ela é bonita e pode estar com outro homem. Alguém mais forte, mais capaz, mais apto que você.
-Sim, entendo. É uma possibilidade, mas a cultura conseguiu, ainda que com resultados as vezes pífios e através de inúmeros mecanismos, tipo religião, noções morais e a educação, ter sob controle certas pulsões naturais.
-Sim, a cultura procura domar o sexo, as disputas pessoais, a vontade que a gente tem de esganar alguém e etc, mas quando se trata de ir mais fundo e regrar as relações de produção e estabelecer os verdadeiros direitos, entra o discurso da liberdade. E da lei das selvas. Percebe que no final é mesmo um mundo primitivo? Mas não é lei das selvas, é uma merda de lei dos humanos menos humanos.
-A cultura é toda contraditória mesmo.
-Não, não tem contradição. A cultura como você disse, permitiu gerar muitas riquezas, mas é a mesma que serve pra meter limites na vida dos pobres e nenhum na dos ricos. No dia que a cultura humana incorporar no senso comum todas aquelas noções não sensíveis da ciência e também a mais pura ética política, estaremos bem, sem fé e sem crenças, mas já terá passado tempo demais. Os religiosos e ideológicos já terão explodido tudo.
-Pessimista você Elio, eu acho que o mundo em certos aspectos é melhor hoje que tempos atrás. Temos mais liberdade, mais bens, a expectativa de vida é maior, mais progresso enfim.
-Pois eu estou dizendo o contrario. O mundo mudou quase nada. A mesma injustiça, o mesmo desequilíbrio. A tão propalada liberdade é fictícia, meu caro. A única coisa que mudou é a escala em que tudo se dá. Sabe quanto tempo levou pra o mundo ter um bilhão de habitantes? Hoje tem seis bilhões e cresce. Devemos discutir a respeitos dos limites, entende? E você diz que ninguém se move no Brasil pela floresta amazônica!
-Calma, você está se alterando, tem gente olhando.
-Que olhem. Estou dizendo alguma mentira? Veja, a segunda guerra representou o fim dos impérios europeus no mundo. Os impérios quando caem muitas vezes fazem barulho. E que barulho fez a Alemanha! Vocês lá nos trópicos vão ocupar os espaços da iminente queda do império de plantão. Estamos só esperando pra ver com que barulho. Mas vocês não tem que saber que tipo de mundo vocês vão ajudar a construir? Vão reproduzir o modelo excludente?
-Mas isso é anti americanismo rasteiro, Elio. O império hoje são as grandes corporações, não são os EUA. E qual seria o teu modelo? Cuba?
-Que sorrisinho malicioso. Cuba é um pais de 10 milhões de habitantes que sofre um bloqueio há décadas e mesmo assim tem mais medalhas nas olimpíadas que muitos países, aposto que ganha do Brasil. Além disso produz ciência, investe em pesquisa. Sabe qual é o índice de mortalidade infantil de Cuba?
-Escuta, medalha olímpica é parâmetro? Faz favor. E depois tem Fidel, um ditador que já disse que só passa a bola para o próprio irmão.
-Medalha é parâmetro porque quer dizer que a média de qualidade de vida desse povo é alta, apesar, volto a dizer, de todos os bloqueios que sofre. Você não acha que se a América quisesse, já não teria invadido Cuba e feito o que quisesse com Fidel? É que Cuba é necessária. Os EUA precisam de inimigos. Os mesmos EUA que falam do paredòn e que mantém a pena de morte. O próprio Bush é um que mandou mais desgraçados para o outro mundo do que qualquer outro. Veja bem, eu sou contra estas duas práticas, sou contra a pena de morte. Mas não vamos misturar as bolas, os assuntos.
-Elio, deixa de nervosismo, veja, saiu o sol, o dia está lindo, você esta aí gritando. Que tal a gente continuar nossa conversa na mesa de um bar diante de uma boa bebida gelada?
-Bebida? Que bebida?
-O que você quiser, sei lá, cerveja, vinho, um Nescau gelado.
-Nescau? Que porra é essa?
-Um achocolatado, pra tomar com leite.
-Sabe, eu até pensei que a gente ia se entender, mas acho que você está me confundindo com outra pessoa.
-Você tem razão, estou meio confuso mesmo. Vamos de cerveja, vai.

abril 3, 2006

Revolução a bombordo!

Ando meio paradão com o meu blog. Estou trabalhando muito e, também, um pouco cansado dessa linguagem. As vezes penso que bloguei muito e fiquei sem palavras para me expressar.

Nessa sexta feira tive uma surpresa. A blogada do Bicarato no Bombordo foi muio legal. Com um texto solto e bem humorado Bicarato soltou o verbo. Abriu o debate para uma nova forma de estabelecer relações lá no Bombordo.

Bem, em primeiro lugar, o projeto Bombordo é bem interessante. Nasceu numa lista de discussão chamada blog-left, Numa sugestão aqueles blogueiros que se sentem mais a esquerda do pensamento humano. Na condição de um proponente a 'hacker' penso que o Bombordo seja um movimento pela liberdade do conhecimento. Acho que não estou muito equivocado, ou será que estou?

Assim, creio que o Bombordo aparece na Internet brasileira com uma força impressionante. A lista do blog-left circula tanta informação que, muitas vezes, impossibilita o acompanhamento que ela merece.

Então, depois de ler o artigo do Bica fui ao GTalk conversar com o Bica sobre o artigo. Fiz alguns elogios a sua capacidade de expressar de forma simples aquilo que ficamos horas elucubrando. Daí perguntei quando seria minha vez de publicar. Pois, no Bombordo cada um tem seu dia para ser o dono da voz. Não gosto muito disso. Prefiro a liberdade de escrever quando me dá vontade, mas fui voto vencido. E tudo bem. Aliás, se não fossem as regras 'rígidas' talvez deixasse passar essa oportunidade. Para falar não interessa a forma, né? O legal é soltar a voz.

Penso no ciberespaço como um novo lugar. Lugar ou não-lugar não faz diferença. Pois estamos no Bombordo, Um espaço informacional que pode ser definido como uma interface cultural que tem no link a expressão do inter-relacionamento de pessoas, grupos, do tempo, do espaço. Um novo ambiente de relações, de links entre coisas.

A internet é uma metáfora daquilo que entendemos como uma sociedade. Grande parte dessa rede tem como objetivo atuar na manutenção das forças e na perpetuação do poder do capital globalizado. A lógica da cultura de massa. Mas, Internet são redes de links. Computadores são apenas ferramentas de um sistema complexo que conecta placas, cabos, modens e, principalmente, pessoas. Um sistema paradoxal que provoca a sua própria contradição. Cria espaço para catalisar a liberdade.

E, nesse ponto, a revolução do hacker faz a diferença. Pressupõe a possibilidade de acesso ao código fonte para modificar, diminuir, acrescentar ou fazer o que bem entender. É a semente de uma sociedade colaborativa. A cultura hacker está cada vez mais penetrando nas decisões da sociedade da informação. E com essa revolução colaborativa uma nova ética emerge das profundezas da multidão hiperconectada.

Colaboração é a novidade da sociedade da informação. Com as tecnologias da comunicação e da interação as redes passam a facilitar a convivência em tempo real à distância. Provocam e potencializam a conversação. Reconduzem a comunicação para uma lógica de sistemas organizacionais capazes de reunir indivíduos e instituições de forma descentralizada e participativa.

O capitalismo, apesar de dominante, não consegue mais sustentar a lógica da acumulação e do trabalho. Seus principais alicerces, a economia, o paradigma da ética burocrática e a cultura de massas, estão em crise. A crise é um índice de que se faz necessária urgentemente uma nova ordem, uma restruturação. Marx escreveu sua crítica em 'O Capital', num momento que a sociedade industrial estava aflorando, mas não se apresentava, ainda, como o paradigma dominante. O século XXI exige, portanto, modificações estruturais no poder para atender a nascente sociedade informacional. É nesse cenário que as redes sociais adquirem importância.

Possibilita a organização da sociedade civil em novas formas de gestão e o retorno às redes humanas depois de anos de domínio das redes de máquinas e da burocracia. No limite da ruptura dos paradigmas, a colaboração aparece como um potencializador das energias produtivas. A sociedade está se tornando mais aberta e de uma forma ampla, mais colaborativa.

As pessoas não querem mais serem telespectadores. Elas têm a possibilidade de interagirem com as comunidades na internet e, assim, protagonizarem as próprias existências. Buscando na comunidade digital os interesses comuns. Uma alternativa para o crescimento colaborativo.

E nesse sentido, estamos num processo de progressão jamais visto. Pois qualquer pessoa tem a possibilidade de publicar na rede, seja em forma de email, artigos, blogs, músicas ou imagem. A internet permite às pessoas inúmeras formas de expressão. A cultura cibernética não é nada mais do que uma compilação desta diversidade. Está em curso um processo silencioso, uma revolução que não será televisionada mas que provocará mudanças profundas na sociedade.

por Hernani Dimantas