Política
Maria Helena Nóvoa blog do autor
Quem atira a primeira pedra?
QUEM ATIRA A PRIMEIRA PEDRA?
Não é que pegaram Al Capone por sonegação de imposto?
Mas quem leu Scarface ou viu O Poderoso Chefão (partes I, II e III), sabe que a Máfia tinha aliados na Polícia e no Congresso. E, eventualmente, desafiava o Vaticano.
A queda do Ministro é um dejá vu: chegou o ano de eleições e as antigas alianças se romperam. Num casamento programado para durar quatro anos, o terceiro ano é crucial. Jogam-se suspeitas no ar e, invocando a falta de virtude, os padrinhos já se preparam para abençoar novas uniões.
Palocci fazia tudo direitinho. Cumpria o grande acordo e era tão honesto com o pacto que não podia supor que puxariam seu tapete. Sorte de principiante: devia ter ido mais ao cinema. Ou ter lido Maquiavel.
Lula imaginou que Palocci era sua garantia de governabilidade e reeleição. Que ingênuo. Nada que cheire à esquerda é tolerado pela direita. Quem tinha um mínimo de visão política profetizou, quando Lula se elegeu: Se ganhou, fez acordos. Ainda que os cumpra, vai se dar mal.
Manda quem pode e obedece quem tem juízo. Sempre aparece um caseiro, um motorista, um irmão caçula, uma Monica Lewinski para embananar um processo de reeleição. Jânio falava em “forças terríveis” no início do governo. Imaginem no final.
O rompimento do sigilo bancário do caseiro, que tanta comoção causou, não é nada frente ao rompimento do sigilo de vida em épocas de eleição. Vícios, abortos, supositórios, casas suspeitas, vale tudo para desmoralizar o antigo aliado.
O editorial dO Globo, de dias atrás, é didático. DESORDEM JURÍDICA: A quebra ilegal do sigilo do caseiro fulano é repulsiva; de gravidade indiscutível; revela o risco que corre a sociedade quando o Estado passa a atender a interesses de grupos políticos; às 20h58m21 de quinta-feira a ordem jurídica do país foi rompida etc.,etc. e vai por aí a fora dando ao fato um peso que ele realmente não tem.
Para o cidadão comum, a garantia constitucional do sigilo bancário importa pouco. Mais importante é a garantia – também constitucional – de um salário mínimo que supra as necessidades básicas de sobrevivência digna, educação, saúde e (pasmem!) lazer para o assalariado e sua prole.
Pouco me importo com a quebra do meu sigilo bancário. Mesmo porque jamais encontrei no meu extrato depósitos de 38 mil. Nem vindos do meu saudoso paizinho, que Deus o tenha.
ACM neto também falou – sobre a violência inaudita que sofreu o caseiro – em vergonha que atravessa gerações. Logo ele, que é a terceira geração de uma vergonha.
Podemos esperar chumbo grosso, neste ano de eleições. Se não houver deslizes na vida pública, procura-se na privada. O diabo é que o candidato-presidente parece não dar margem a ataques diretos; fora, é claro, sua rudeza intelectual: que diferença entre a grosseria de Lula em Paris admitindo o Caixa 2 e a elegância de FH no Manhatan Connection também admitindo o Caixa 2...
Não era sobre isto que queria falar. Já tinha quase pronto um post sobre cultura das esquerdas, que ficará para o mês que vem. Mas a queda do Palocci nos remete a uma questão bíblica: nos dias atuais, atiram a primeira pedra aqueles que mais pecam.
29/mar/06 |
01:00 |
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