Política
Marcus Pessoa blog do autor
Crise de confiança
Pode ser de grande ingenuidade admitir isso, mas eu nunca esperava que o PT fosse roubar quando chegasse ao poder. Vamos usar as palavras corretas, sem tergiversação: até onde se sabe, o PT roubou 55 milhões de reais de dinheiro público para financiar suas campanhas e a de seus aliados.
Ao que parece, esse dinheiro foi um adiantamento que Marcos Valério conseguiu, dentro de uma comissão maior de 200 milhões, para fazer lobby pela suspensão da intervenção sobre o Banco Econômico. O negócio não foi adiante pela resistência do presidente do Banco Central.
É óbvio que a cúpula petista sabia que era dinheiro sujo. Não se trata de um mero caixa 2.

Um dia desses conversei com a amiga de uma amiga minha, que foi tesoureira em campanhas petistas. Ela contou o caso de um pequeno empresário que doou 7 mil reais para determinada campanha, mas não aceitou qualquer recibo e exigiu que seu nome não constasse na relação de doadores. Segundo essa moça -- e eu acredito nela --, o empresário era apenas alguém que sabia que o PT fazia licitações limpas e queria contribuir para retirar os mesmos velhos corruptos de sempre do poder.
A moça me confessou um caso de caixa 2 para justificar o que a cúpula nacional petista fazia. Mas não é a mesma coisa. Sabemos que o caixa 2 é disseminado, e que, pela lógica atual, é impossível fazer uma campanha à altura das demais sem isso. Os empresários não querem aparecer nas listas de doações. Mas é algo bem diferente o que aconteceu no caso do valerioduto.
A desculpa dos petistas é a mais débil possível. Sim, sabemos que todos os demais fazem isso. Sabemos que só um dos escândalos do PFL da Bahia já configura o dobro do valerioduto petista (110 milhões, segundo um corajoso ministro do tribunal de contas). Mas foi exatamente por isso que eu votei neles, pombas! Para acabar com isso, e não para perpetuar a prática.
Eu tive uma criação católica, e sinto muito, pra mim pegar em dinheiro sujo é crime hediondo. Podem dizer que é moral burguesa, que é udenismo. Eu tenho um irmão que já foi chefe de licitações de uma repartição importante e recebeu uma proposta de propina numa sala onde estava só ele e o proponente. Sua reação não foi apenas recusar, mas colocar o cara pra fora aos gritos. Se isso acontecesse comigo, eu acho que iria chorar depois, de tão humilhado que me sentiria; "será que eu dei a entender que aceitaria algo do tipo"?
Quando comecei minha militância de esquerda, no movimento estudantil, sabíamos, é claro, de deslizes éticos de gente que dizia lutar por um mundo melhor. Gente que ainda não tinha barba direito mas já estava desviando dinheiro de entidades estudantis para seu partido político. Mas era sempre eles, nunca "nós", os "puros". A minha ingenuidade era constrangedora.
Eu acreditava no comunismo da boca pra fora, pois se acreditasse de verdade, saberia que, para a moral revolucionária, vale tudo pra chegar ao poder e implantar o céu na terra.
Talvez fosse esse arremedo de moral revolucionária que fizesse os petistas tão arrogantes, tão auto-suficientes. Afinal, eles se achavam a última coca-cola do deserto, e queriam que acreditássemos nisso sem pestanejar. Naquela palhaçada da viagem da ministra Benedita da Silva, Lula, em vez de explicar a questão, ralhou com quem ousou duvidar da honestidade dela, falando de sua "história de vida". Parecia que pessoas com história de vida não deviam explicações a quem lhes paga o salário.
Até hoje vejo uma defesa sui generis: "José Dirceu não pegou dinheiro pra ele, foi para o partido". Grandes coisas! Se a esquerda entra na lógica de vencer eleições porque tem mais dinheiro (e não precisou disso para crescer nesses anos todos), essa lógica engole a esquerda, que se torna igualzinha àquilo que diz combater. Pode até ser que ter mais dinheiro decida eleições nos grotões, mas, no frigir dos ovos, a vitória se faz no combate das idéias. E nestas o PT perdeu quase toda a sua credibilidade.
Aí vão falar do "carnaval da mídia". Aiaiai. OK, a revista Veja é um exemplo de imprensa conservadora plantando notícias falsas contra o governo. Mas o resto da imprensa, quase toda, apenas seguiu sôfrega a avalanche de fatos do escândalo. Não foi, evidentemente, o maior esquema de corrupção da história do Brasil, mas foi o mais documentado. Sejam sinceros: se vocês fossem jornalistas, não dariam a mesma e ampla cobertura? Ficariam se policiando, pensando "a quem interessava" essa divulgação?
Tenho a certeza absoluta que se houvesse uma testemunha de dentro dos esquemas do PSDB, ela seria ouvida com a mesma atenção que Pedro Collor e Roberto Jefferson. É uma falha da nossa democracia que seja necessário um delator para apurar um escândalo, mas não há como dizer que a imprensa foi anti-petista. Ela apenas não brigou com as notícias -- que borbulhavam do chão.
Bem, eu não vou ficar rememorando fatos que todos conhecem -- e não sou como a filósofa Marilena Chauí, que com todos os seus doutorados não conseguiu decodificar os fatos entre o que a imprensa publicou. Só quero dizer que me passou pela cabeça -- como está passando pela cabeça de milhões hoje -- nunca mais votar em quem quer que fosse, e mandar todo mundo se ferrar.
Mas a racionalidade me pôs de volta ao mundo real, e vi que, apesar de tudo, nos escalões intermediários do governo tem muita gente que trabalha duro pra fazer um país melhor. Aqui no Pará tínhamos um problema eterno de inadimplência de imóveis da Caixa Econômica, invasões a conjuntos construídos pela metade, brigas nas ações de desocupação... e agora temos os moradores quitando seus imóveis por preços baixos, quase eliminando a inadimplência e principalmente o transtorno de cobrar dívidas impagáveis. Meu outro irmão trabalha no Banco do Brasil e informa que o Pronaf, que antes tinha verbas limitadas, hoje não consegue gastar tudo o que tem...
O que me impede de aceitar a volta do PSDB é perceber seu óbvio elitismo. Mesmo José Serra, considerado à esquerda, é capaz de tomar medidas como colocar propagandas em uniformes escolares, e chapisco nas calçadas para impedir mendigos de dormirem nelas. Seu secretário de habitação refere-se aos moradores que receberam apartamentos no centro da cidade como se fossem gentalha, achando que só a classe média é que serve para morar no centro. Ensinar às crianças desde cedo que todo espaço está à venda, mesmo o de seus uniformes, é não ter uma visão efetivamente pública de seu trabalho.
Nem vou falar de Alckmin, muito mais à direita que Serra. O PSDB, no fundo, é uma cria do velho PSD, um aglomerado de gente que considera o Estado um meio de beneficiar negócios privados. Não têm visão social, não promovem uma interlocução legítima com a sociedade civil, e no governo Fernando Henrique se consideravam uma assembléia de sábios, únicos detentores da verdade.
Por tudo isso, e sob pena de ser chamado de contraditório, vou tapar o nariz e votar de novo em Lula, alguém de quem não sei se compraria um carro usado. Vou virar outro entre milhões de brasileiros, que escolhem o menos pior. Até aqui cheguei, tendo esperança. Agora sou apenas um observador crítico. Não sei se o conforto dessa posição compensa o vazio que sinto.
27/mar/06 |
22:33 |
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